Gerente Também é Gente

André B. Barcaui · Capítulo 11 de 31

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Gerente Também é Gente

9. Um Novo Começo

 

 

Se não houve frutos, valeu o perfume das flores. Se não houve flores, valeu a sombra

das folhas. Se não houve folhas, valeu a intenção das sementes.

 

HENFIL

 

Depois de pouco mais de um ano era chegado o momento de voltar a me encontrar com Petrúcio. Havíamos nos falado diversas vezes por telefone, mas sua presença física era sempre mais imponente. Petrúcio havia voltado de viagem e passaria dois dias em visita à sede. Eu não poderia deixar passar esta oportunidade. Desta vez ele preferiu que agendássemos um almoço (estava começando a concluir que ele refletia melhor enquanto comia...). Mal podia esperar para voltar a rever meu "guru"... Era uma segunda-feira chuvosa e eu jamais achei que gostaria de um dia assim (neste ponto eu sempre fui meio como o Garfield...). Mas esta era, sem dúvida, especial. Eu iria voltar a expor minhas dúvidas, discutir ideias e me sentia bem mais maduro para tal. Já colecionava meus primeiros fracassos, mas também minhas primeiras alegrias. Um verdadeiro adolescente gerencial enfrentando cada espinha com dignidade. Havia sofrido algumas baixas, é verdade, mas me sentia aprendendo a cada projeto que gerenciava e estava realmente feliz com isso. Sentia-me meio como uma espécie de "Charlie na Fantástica Fábrica de Chocolates". Precisava contar todas as novas experiências pessoalmente para Petrúcio o quanto antes... Apesar das diversas ligações trocadas durante os projetos que gerenciei, não tivemos tempo de conversar com mais calma desde nosso café no terceiro andar, quando o conheci. Iria contar tudo para ele durante o almoço.

 

Cheguei em minha baia, dei um caloroso bom dia a Farhad (que sinceramente acho que até estranhou...) e olhei para aquele programa que tinha em suas mãos. Apesar da nostalgia que me deu, me sentia tão bem no novo cargo que até dei uma risada olhando para aquele pedaço de papel de impressora em sua mesa. Foi neste instante que meu telefone tocou. Era meu chefe pedindo que fosse em sua sala o quanto antes. Não deu nem tempo de ligar meu micro e checar novos e-mails. Saí direto em direção a sua sala, ainda com aquele ar de satisfação no rosto....

 

- Bom dia, chefe!!!

 

- Bom dia, Flick. Por favor, sente-se... Você sabe que estamos investindo forte no setor de Telecomunicações. Temos até um gerente de vendas novo, o Panfilho.

 

- Sim, claro... (jamais tinha ouvido falar neste nome...).

 

-Pois é, ele está começando na HAL, mas já traz consigo uma excelente carteira de clientes. Inclusive, um deles já contratou um novo projeto conosco. Você deve conhecer o cliente: a Telefon SA.

 

O cliente eu conhecia... afinal, era a maior operadora de Telefonia fixa do país... e ele já falou a palavra projeto.... começava a ver onde a conversa iria chegar..., mas estava gostando...

 

-Claro chefe... a Telefon... excelente! Temos um projeto novo?

 

-Isso mesmo Flick. E um projeto grande. Na verdade, muito grande. Todos os meus

gerentes de projeto mais experientes estão alocados (o que será que ele quis dizer com isso?

Fingi que não entendi...), portanto, quando o Panfilho me perguntou quem seria o gerente do

projeto, indiquei o seu nome.

 

-Pôxa chefe, muito obrigado. Você tem alguma informação sobre o projeto ou devo

procurar o Panfilho diretamente?

 

-Você deve procurá-lo, sim. A venda acabou de ser feita. Estamos falando de um projeto

de US$ 2 milhões e aproximadamente um ano de duração. Você conduzirá a expansão de um

dos braços de rede de Telefon. Segundo Panfilho me atualizou, o cliente está chamando o

empreendimento de "o projeto do ano". Teremos gente nossa trabalhando com você, mas

acredito que a grande maioria deverá ser mesmo de terceiros. Sei que agora você já deve

estar acostumado com nossa metodologia: XPM. Neste projeto, sua utilização será muito

importante. De outra forma, vai ser muito difícil atingir resultados positivos. Confio em

você, Flick.... Boa sorte!

-Hã... ok, chefe... A propósito, você quer que eu faça algum tipo de relatório final sobre o

último projeto também? (perguntei isso na esperança de receber algum tipo de elogio...)

 

-Não... Não é necessário... Até agora você enfrentou bons testes... Teve uma boa

performance. Mas agora estamos falando de um projeto de verdade... Por favor, aguardo

notícias o quanto antes sobre o projeto da Telefon.

 

Bons testes??? Uma boa performance??? Projeto de verdade??? O que é que ele estava dizendo??? E agora essa... Projeto de US$ 2 milhões???? Um ano de duração??? Ele estava maluco??? Eu mal me considero um gerente.... Vamos ver o que acontece...

 

Saí de sua sala como se tivesse tomado 5 ou 6 doses de uísque sem comer nada. Entrei sóbrio e saí cambaleando... Quando eu começava a me sentir como James Bond de verdade, meu chefe me reduz de novo a um mero Agente 86. Enfim, c'est la vie... Foi quando me lembrei do almoço com Petrúcio e me acalmei.... Tinha passado na primeira fase do campeonato, por que não poderia chegar às finais? Meu "guru" certamente iria me ajudar...

 

Cheguei ao restaurante que combinamos bem na hora marcada. Ele já estava sentado, tomando um aperitivo e comendo o couvert...

-Como vai, Flick?! Que bom vê-lo assim tão bem disposto...

 

-Pois é... Você chegou cedo, hein?

 

- Esse é um daqueles hábitos que acabamos por desenvolver nestas idas e vindas de negociações com clientes. Devemos sempre chegar na hora marcada ou, de preferência, um pouco mais cedo. De outra forma, já iniciamos a reunião sem razão....

 

Incrível... Nem tínhamos começado a almoçar e ele já estava me ensinando alguma coisa...

 

Ele continuou:

 

- Mas me diga, como andam seus projetos? (finalmente alguém perguntou...)

 

-Tudo indo bem, graças a você... Suas dicas, como sempre, foram fundamentais... Confesso que no início me sentia um pouco perdido, mas com base em tudo aquilo que conversamos sobre pessoas, comunicação, negociação, e todos os telefonemas que trocamos, tenho me sentido mais seguro.

-Excelente! Mas apenas lhe dei alguns pontos para pensar... Você raciocinou sozinho,

usou seu instinto e chegou lá... Meus parabéns...

 

-Bem, nem sempre eu diria que obtive sucesso... Na verdade, eu...

 

-Sucesso? Interessante... Já que você mencionou, o que você acha que é um projeto de

sucesso?

 

E lá vamos nós de novo... Como é que ele consegue sempre fazer perguntas na frente?

 

-Bem, acho que um projeto de sucesso é aquele que entrega tudo o que foi prometido, de

acordo com o objetivo original, certo?

 

-Certo, certo. Mas e o que mais?

 

-O que mais? Isso não é tudo?

Pelo menos era tudo que eu tinha perseguido até então...

 

-Não. Isso definitivamente não é tudo. Além disso, você concorda que o projeto tem que

ser entregue dentro do prazo combinado?

 

-Sim, claro.

 

-E dentro do orçamento combinado também?

 

-Os custos, claro, mas é que...

 

-E com a qualidade esperada pelo cliente?

 

-Claro, é verdade, mas...

-Ótimo! Então redefina sucesso em projetos para mim.

 

-Bom, de acordo com o que estamos conversando, um projeto de sucesso envolve

entregar todo o escopo acordado, dentro do prazo e orçamento combinados e com qualidade.

Aprendi direitinho?

 

-Quase... Faltou só uma coisa... (ainda falta alguma coisa?? Como pode?? Já estou

achando difícil de conseguir só com as variáveis que ele colocou...)

 

-Um projeto de sucesso tem que ter a satisfação do cliente tanto com a condução do

projeto quanto com o resultado entregue.

 

-Ora, mas a satisfação não vem da soma de todos os itens anteriores que discutimos?

 

-Não necessariamente. Imagine a seguinte situação: você entrega todo o escopo de um

projeto, dentro do prazo, dos custos e com qualidade. Mas neste meio tempo ocorreu uma

mudança de tecnologia muito grande e o que você entregou não é mais útil ao cliente. Já

pensou?

 

-É verdade... (e aquilo tinha acontecido comigo em pelo menos dois de meus projetos

anteriores...)

-Ou ainda: você entregou tudo como devia, mas a expectativa do cliente era diferente. Ele

pode ter até assinado um documento afirmando que queria um produto X, mas na verdade, em

seu subconsciente, o que ele queria era um produto Y. Você pode fazer tudo certo, e ainda

assim ele ficará insatisfeito. Concorda?

 

-Caramba, obter sucesso é muito mais difícil do que eu imaginava...

 

-Não vou negar que é complicado, Flick. As estatísticas de pesquisadores em todo mundo

provam isso. A taxa de projetos que obtêm sucesso total, conforme discutimos, é muito

baixa. Ainda mais se formos para determinadas áreas mais recentes, menos maduras e com

produtos não tão tangíveis, como a tecnologia de informação. Nestes casos as taxas são

ainda piores. A boa notícia é que, mesmo baixas, as taxas vêm crescendo, ano a ano. O que

significa que a maturidade relativa à gerência de projetos nas empresas também vem

crescendo.

 

-Bom, pelo menos o problema não é só comigo, como havia pensado...

 

-Não.. Claro que não... Fique tranquilo, Flick... Este é um assunto fascinante e não gostaria de tomar mais do seu tempo do que o necessário. Apenas estou expondo mais alguns pontos para sua reflexão...

-Pode continuar, está muito interessante. Há mais alguma variável na definição de

sucesso?

 

-Há sim... Pesquisadores mais contemporâneos começam a considerar novas perspectivas

no que diz respeito a sucesso. Por exemplo: o sucesso é extremamente temporal. Em outras

palavras, o que é sucesso hoje pode não ser amanhã. E vice-versa. E por isso que as

melhores metodologias de gerência de projeto sempre preveem uma revisão do projeto não

só ao seu final, mas também um tempo depois do projeto ter terminado. Isso para ver se os

benefícios propostos realmente foram obtidos.

 

-E verdade, faz sentido.

 

-Além disso, o que é sucesso para um pode não ser sucesso para outro, dependendo do

ponto de vista.

 

-Como assim? Não entendi...

 

-Vou dar um exemplo. Certa vez, tive um projeto que achei que tinha sido um sucesso

segundo as métricas acadêmicas que discutimos anteriormente. Porém, um membro da minha

equipe teve problemas sérios de stress durante o tempo do projeto. Acabou tendo que passar

um tempo em um hospital. Diga-me: para esta pessoa, este projeto foi um sucesso?

-Imagino que não... O que você está dizendo então é que o sucesso tem a ver também

com...

 

-Com o sucesso da equipe, Flick. As pessoas têm que entrar de um jeito em um projeto e

sair de outro. Preferencialmente melhores. O projeto tem que ter contribuído de alguma

maneira para promover algum tipo de mudança nessas pessoas. De outra forma, não faz

sentido. Estou falando tanto de sua equipe, quanto da equipe do cliente. Lembre-se: projetos

são feitos de pessoas e para pessoas.

 

-Caramba!!! E possível conseguir tudo isso em um simples projeto?

 

-O grande desafio é tentar, Flick... E para isso que estamos aqui... Mas desculpe, como sempre, eu falo demais.... Vamos pedir alguma coisa para comer?