Gerente Também é Gente
21. A Importância de Terminar Bem
O sucesso não é definitivo e o fracasso não é o fim de tudo.
WINSTON CHURCHILL
É inegável que no período que se passou após minha conversa com Carlos, a energia do projeto como um todo deu uma certa retraída. Desnecessário dizer que todos na equipe acabaram sabendo do ocorrido quase que simultaneamente, mesmo antes do anúncio oficial da empresa.
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Apesar disso, o time demonstrou bastante maturidade. Todos, sem exceção, deram muito apoio ao Carlos.
Mas com a proximidade do fim, novas situações começavam a surgir. Apesar dos pesares, era tempo de comemoração. É difícil fingir alegria quando se está triste. Mas, cedo ou tarde, eu tinha que me acostumar com a ideia de que era o gerente de um time e não apenas de uma pessoa. A alegria naquele momento era algo que todos exigiam de mim. Quase como que uma obrigação, em função de todas as dificuldades que havíamos passado. E quantas não foram... Já começava até a sentir uma certa saudade da equipe que iria se desfazer e também do próprio ambiente do projeto. Sempre fui assim... Começo alguma coisa e foco todos meus esforços para realizá-la. Luto, reclamo, mas quando vai chegando próximo do fim, começo a sofrer pela falta que acho que vou sentir do que estava desenvolvendo. Sabia que mesmo tendo um novo desafio, as lembranças daquele grande projeto estariam para sempre na minha cabeça. Minha equipe, por exemplo, já pensava no que faria a seguir, qual seria o próximo projeto de cada um e como estaria seu departamento original na HAL. Uma empresa de consultoria trabalha desta forma. Alocamos uma equipe para atingimento de um determinado objetivo. Quando este objetivo é atingido, a equipe é desfeita. Aquele time, que depois de 14 meses já começava a sentir como ume espécie de família, iria recomeçar tudo de novo, em outro lugar, cada qual com um novo desafio profissional. Todos passamos por conflitos durante o projeto, mas lidamos com as mais diversas situações conturbadas juntos, nos acomodando uns com outros. Vencemos através de nossas diferenças, nossas virtudes e também defeitos. Até mesmo Adhemarzinho a esta altura já estava totalmente engajado. Começava a surgir entre nós um clima saudoso...
Por outro lado, o fim do projeto estava próximo. O objetivo pelo qual lutamos durante mais de um ano, com garra, planejamento e até usando a famigerada metodologia que eu tanto temia. Nesta época também é normal que o projeto sofra uma carga maior de documentação. É claro que estivemos documentando ao longo de todo o seu desenvolvimento e usando quase todo o tipo de mídia. Publicávamos tudo (ou quase tudo...) no web site do cliente. Mas nesta fase final, toda a documentação gerada tem que ser revisada, além da criação de novos desenhos e guias de utilização. Também não podemos descuidar de guardar tudo que aprendemos com o projeto. É o que o GGP chama de armazenamento de lições aprendidas. Aprender com os acertos e também com os erros cometidos. O manual dizia que deveríamos alimentar um banco de dados que ele chamava de base de conhecimento. Basicamente, deveríamos tentar relatar o máximo possível como o projeto se desenrolou, tanto do ponto de vista técnico quanto gerencial. Deixar facilmente acessáveis os documentos, atas, cronogramas e planos. Salles era a pessoa mais indicada e começou a trabalhar nisso já desde o décimo-segundo mês de projeto. Era boa a sensação de que estávamos de alguma forma contribuindo para o desenvolvimento de futuros projetos na empresa.
Infelizmente, a gerência de conhecimento na HAL ainda estava começando. Na verdade tínhamos até uma pessoa para tomar conta disso. Seu nome era Judith Rosa e seu cargo era de Gerente do Conhecimento. Ela era recém-contratada, ainda tinha pouco tempo de casa, mas já havia trabalhado com este tipo de coisa em outros lugares. Aliás, foi por isso que a contrataram... Desde que soube que Judith estava trabalhando na HAL, imaginei como deveria ser difícil explicar para as outras pessoas o que ela fazia. Como será que ela chegava em casa e falava para seus filhos?
"Queridos, mamãe gerencia conhecimento..."
Aposto que o marido deve pensar que ela faz alguma coisa do tipo "fiscal da natureza"... Esta sim deve ter mais trabalho para explicar sua profissão para a família do que eu... De certa forma a contratação de Judith me confortava nesse sentido...
Brincadeiras e observações à parte, o fato é que a HAL estava começando a se preocupar com o conhecimento que era gerado dentro da própria empresa. Judith trabalhava não só no armazenamento, como também na coleta, manutenção e disseminação de informação. Sua ligação com nosso projeto era através de Salles, que a alimentava com tudo que vinha sendo realizado, dentro de um determinado padrão estipulado por ela. As pessoas mudam, os tempos mudam, mas é importante guardar a memória da organização. Isso sim constitui um verdadeiro patrimônio.
Como nem tudo é perfeito, tivemos algum tipo de confusão também no final. Nossos fornecedores nos cobravam seus respectivos aceites. Ou seja, queriam que confirmássemos oficialmente que a parte do projeto que lhes cabia já havia acabado. De fato, já havia. Foi por isso que podia lhes dar o aceite final e pagar o que faltava de sua parte. Julia não gostou. Achou que me precipitei. Em sua opinião, eu deveria ter esperado receber o aceite final do cliente antes de dar o aceite para os nossos fornecedores. Eu entendi seu ponto de vista e ela estava certa, mas achei que poderia correr o risco. Afinal eu tinha certeza de que Arlindo nos daria o aceite final. Não tinha por que não dar, já que tínhamos feito tudo como prometido.
Eis que quando achamos que não vamos cometer mais nenhum erro e nada mais pode sair errado, algum fato novo acontece e nos faz enxergar a realidade...
Eu tinha acabado de entregar para Arlindo o último documento de aceite relativo à última fase. Tudo que ele precisava fazer era testar a rede no que chamamos de teste final de integração. Depois disso ele assinaria o termo de aceite e iríamos todos para casa felizes como uma criança em parque de diversões...
O teste aconteceu. Tudo funcionou bem graças a Deus. Foi quando me senti à vontade para me dirigir à sala de Arlindo e cobrar a assinatura do termo de aceite. Porém, para minha surpresa, nossa conversa se desenrolou mais ou menos da seguinte forma:
-Bem, parece que finalmente acabamos... Sabe de uma coisa Arlindo, vou até sentir falta,
sabia? Acho que nossas equipes trabalharam muito bem juntas e...
-Um momento, Flick. O projeto ainda não acabou.
-Ainda não acabou? O que você quer dizer com isso? Eu estava para lhe perguntar sobre
a assinatura do aceite final do projeto...
-Não posso assinar este papel, Flick. Ainda temos pendências.
-Que tipo de pendências? Entregamos tudo conforme o cronograma. A sua própria equipe
realizou os testes de integração conosco.
-Eu sei, Flick, mas estamos ainda com pendências de ordem operacional. Algumas das
máquinas que foram entregues ainda não têm manual disponível e nem todo o nosso pessoal
está treinado em sua operação.
-Operação? Mais isso não faz parte do escopo de nosso projeto. A equipe precisa ser
desmobilizada. Não temos mais como ficar aqui.
-Não quero de forma alguma prejudicar você e sua equipe, Flick. Apenas não posso lhe
dar este aceite. É uma coisa pontual. Precisamos de mais algum tempo junto ao seu time, só
isso.
-Arlindo, eu não posso manter a equipe aqui. Nosso projeto acabou. Os testes foram um
sucesso, você sabe disso.
-Sim, eu sei, mas o fato é que não estamos seguros. Eu preciso da sua ajuda, Flick, por
favor.
-Estava gerado o impasse. Eu sabia que se levássemos a discussão para o comitê, desta
vez seria muito difícil provar que estávamos errados. Tudo que prometemos entregar estava
completamente feito e os testes provaram isso. Eu queria ajudar Arlindo, mas também não
queria prejudicar ainda mais o orçamento do meu projeto. Precisava pensar. Acabei indo
para o meu melhor "lugar de pensar" do mundo: uma livraria. Tinha uma perto da minha casa,
que não era dessas megastores mais novas, mas era toda cheia de charme, estilo Notting Hill.
Além disso, possuía um dos melhores cafés da cidade. Você podia sentar, olhar os livros
sem nenhum vendedor impertinente perguntar se você está precisando de alguma coisa e
ainda saborear seu café. O que pode ser melhor do que isso? O que estava na verdade
acontecendo e que demorei uns dois cafés para entender, era que Arlindo estava inseguro em
ficar sem nossa equipe por lá. Estávamos entregando uma nova rede que a partir daquele
momento ele teria que operar sozinho com sua equipe. Era como cortar o cordão umbilical
entre a HAL e a Telefon. Como confortá-lo e ao mesmo tempo transformar isso em algo
positivo para o projeto? Desta vez fiquei feliz por eu mesmo encontrar, sozinho, a solução.
Negociei com Arlindo o aceite final e mais uma pequena parcela em renda adicional para o
projeto, em troca de um período a mais que chamamos de "Operação Assistida". Mantive
parte do time por mais três meses, incluindo um fornecedor para auxiliar a equipe de Arlindo
na operação da nova rede. É claro que tive que negociar em todas as direções para conseguir
isso: minha equipe, a HIBros, o comitê executivo e a próprio Arlindo. No final, conseguimos
um pequeno aumento no valor do contrato que acabou por minimizar o prejuízo do projeto e
ainda deixamos o cliente satisfeito por ter mais uma vez suas necessidades atendidas.
Eu negociando... Quem diria... Vivendo e aprendendo...
Terminamos o projeto com algumas baixas, é verdade. Mas com muito, muito aprendizado e novos amigos. A boa notícia derradeira foi que Carlos já tinha recebido proposta de emprego antes mesmo de se desligar oficialmente da HAL. Um antigo amigo, também ex-funcionário, tinha sua própria empresa de manutenção e chamou Carlos para trabalhar com ele. Todos ficamos muito felizes com isso. Julia, Alex, Salles e Adhémar voltaram a seus departamentos. Destes todos acho que só Alex é que já tinha outro projeto antes mesmo de voltar a esquentar sua baia.
Fizemos o que se pode chamar de uma mini-festa de encerramento entre HAL e Telefon. Quase todo o corpo executivo da Telefon esteve presente. Da HAL, apenas Panfilho compareceu.
Fantástico... Ele não esteve presente nos momentos que mais precisei, mas na festa, lá estava ele. Inclusive recebendo as honras...
Não faz mal. O mais importante era o que tínhamos conquistado juntos. Tanto é que seguindo a recomendação de Petrúcio, escrita a lápis no GGP, fiz questão de mandar imprimir alguns certificados que tanto eu quanto Arlindo assinamos, atestando a participação de cada membro da equipe no projeto. Isso incluía todas as equipes: HAL, Telefon e nossos fornecedores. Cada certificado tinha dizeres que agradeciam a participação do profissional, um selo do projeto e duas assinaturas, minha e de Arlindo. Algo simbólico, mas que transformamos em uma espécie de diploma, que com certeza ajudaria a manter vivas na memória de todos as experiências pelas quais passamos juntos durante o tempo que durou o projeto. A equipe toda festejava, todos estavam felizes (e aliviados...). Principalmente Panfilho, que acabou saindo cedo de nossa comemoração para pegar seu cachorro em uma clínica de tratamento. Quando soube do ocorrido, fiquei curioso para saber o que houve, já que sigo rigorosamente a cartilha daquele grupo de pessoas que adora cachorros e detesta gatos. Perguntei o que tinha acontecido ao pobre animal. A resposta que obtive foi:
-Nada sério, Flick. Apenas o deixei na clínica por uns dias para algumas sessões de relaxamento, hidroterapia e acupuntura. Meu cachorro anda dando sinais de stress.
Sem comentários.... Não tenho ficha na polícia e quis continuar assim... Depois, só o fato de ser o animal de estimação de Panfilho já justifica qualquer tratamento...