Gerente Também é Gente

André B. Barcaui · Capítulo 24 de 31

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Gerente Também é Gente

22. Por Trás de Todo Grande Gerente...

 

Mas isso tudo não adianta nada, se nessa selva obscura e desvairada, não se souber

achar a bem-amada... para viver um grande amor.

 

V INÍCIUS DE MORAES

 

Depois de tanto tempo chegando em casa sempre depois das oito da noite, era boa a sensação de finalmente voltar a chegar em um horário decente. Estava com uma espécie de culpa por estar trabalhando daquele jeito e sabia que tanto Tânia quanto Caroline sentiam minha falta. De alguma forma, achava que deveria recompensá-las. Era uma quarta-feira chuvosa e eu voltei a me sentir como na época em que era analista de sistemas... Não é tão simples quanto parece sair no horário... Todos olham para você como se estivesse fazendo algo errado. A jornada de trabalho na HAL vai das 8:30 as 17:30h. Se você começa a arrumar suas coisas às 17h, tem sempre um engraçadinho que fala: - Saindo cedo hein, Flick?! O que houve, está desmotivado? Saindo cedo... Como assim, saindo cedo? Estou saindo no fim do expediente, que é o correto!

É incrível como no mundo louco em que vivemos e dependendo da cultura da empresa em que trabalhamos, este tipo de coisa acontece. Adoro trabalhar na HAL, mas não posso negar que este fenômeno aqui é quase um vício. Se você sai cedo de casa (muitas vezes até para tentar driblar o trânsito), chega cedo no escritório e tenta sair também no horário, passa a ser mal visto pelos colegas. Funciona mais ou menos como se você tivesse fundado uma creche em sociedade com Michael Jackson... E como se o certo fosse ficar até mais tarde, de preferência cheio de papéis em cima da mesa, telefone tocando e e-mails para serem respondidos. Isso significa que você está atolado. Estar atolado, em tese, significa que você trabalha muito. E se trabalhar muito, então não é dispensável... Que lógica burra!!!

 

Na verdade, deveria ser justamente ao contrário. Se você chegou no horário e cumpriu com tudo que deveria, sabendo priorizar as urgências e as coisas importantes na hora certa, você tem todo o direito de também sair no horário determinado. Até porque você não vive só de trabalho. Não nego a importância que o trabalho tem na vida de uma pessoa saudável e normal. Mas definitivamente isso não é tudo! Temos nosso corpo, família, amigos e mais uma infinidade de coisas agradáveis que deveríamos também aproveitar. Se não for assim, trabalhar para quê? Acho que de alguma forma, em algum espaço de tempo, minha geração herdou um modelo social de idolatria ao trabalho. De fato, trabalhar é bom. Aliás, é muito bom... Ainda mais quando se faz o que gosta. Mas não pode ser tudo na vida do indivíduo!

 

Certa vez, li em uma dessas revistas de negócios uma entrevista de um pensador e também filósofo, cujo nome não me recordo agora, mas que me chamou atenção. Ele abordava exatamente este tema. Não sei precisamente quais foram as suas palavras. Mas lembro que o ponto mais interessante que ele defendia era que o stress não necessariamente advinha de trabalhar muito ou pouco, mas sim de não se ter prazer com o que se faz. De acordo com ele, o estímulo é fundamental em tudo na vida. Desde comer, fazer exercícios ou até mesmo dormir. Acho interessantíssima essa abordagem. Apenas se fosse eu o entrevistado, acrescentaria que, além do prazer, é importante também a dosagem. E possível ter prazer trabalhando muito. E possível também ter prazer fazendo absolutamente nada. Mas tudo cansa. A mente, o corpo, o espírito e o coração acusam este cansaço. São eles os melhores medidores que podemos ter de o quão desbalanceados estamos. Chegam até a mandar avisos, que às vezes ouvimos, às vezes ignoramos...

Tanto é assim que, procurando me restabelecer do ponto de vista familiar, procurei agradar aquelas que são, sem dúvida, a razão da minha existência na Terra. Comecei pela minha filha. Decidi que iria pegá-la na escola. Normalmente quem faria isso seria minha sogra. Mas fazia tanto tempo que não ia, que acabei fazendo questão de fazê-lo. Liguei para minha querida sogra para comunicar-lhe. Como sempre, ela atendeu ao telefone da sua forma habitual:

 

-Quer falar com quem?

 

-Boa tarde, Dona Esperança. Aqui é o Léo. Tudo bem com a senhora?

 

-Leonardo? Ligando a essa hora? O que você quer?

 

- É muito bom falar com a senhora também Dona Esperança... Estou telefonando para dizer que a senhora não precisa se preocupar em pegar Caroline hoje. Eu mesmo farei isso, está bem?

 

-Você vai pegar sua filha? O que aconteceu? Está doente? Foi despedido?

-Não, Dona Esperança. É que estou saindo mais cedo do trabalho e...

 

-Está bem, está bem... Então posso ficar tranquila que você a pega, né?

 

-Sim.

 

-Não vai esquecer não, né?!

 

-É claro que não Dona Esperança. Fique tranquila. Muito obrigado.

 

-Ok... Tchau.

 

-Adeus.

Esquecer... Essa era a minha sogra... Também, o que esperar de uma sogra que se chama Esperança, "a última que morre"...

 

Enfim, até que eu me dava bem com ela. Não era assim exatamente um "love story", mas nos respeitávamos. Eu até gostava da comida dela... Provava antes para ver se tinha veneno, mas acabava comendo...

 

Cheguei no colégio de Caroline 15 minutos mais cedo do que o horário da saída. Esperei vendo outros pais e outras mães também na expectativa da saída de seus filhos. Imaginei qual seria a profissão de cada um deles e também os invejei, pensando quão felizardos eram os que podiam estar todos os dias ali fazendo aquilo. A saída de uma criança da escola é sempre um momento extraordinário. Avistei Caroline ao longe, já que era a mais alta da fila de crianças. Sua mochila era ainda maior do que ela e toda pintada de rosa. Seus olhos azuis assim que me viram ficaram ainda mais brilhantes. Abriu um sorriso de criança como nós, adultos, jamais conseguiremos novamente... Veio correndo em minha direção e me abraçou. Não era preciso dizer nada. Meu dia estava ganho. Todas as suas coleguinhas saíram mais ou menos na mesma hora. Ela me deixou com a mochila e foi brincar um pouco. Ao mesmo tempo em que ela ficou surpresa e feliz ao me ver, já começava a se desprender, respeitando o código de vida das pré-adolescentes. Mulheres amadurecem depressa... Vou ter que me acostumar com isso... Não vai ser fácil... Tânia sempre me alertou:

 

-Nós criamos os filhos para a vida... Não para nós mesmos... Sempre que ela precisar de mim e de você, estaremos lá. Mas cedo ou tarde, ela será independente. Assim é a vida...

 

Como sempre, minha mulher tinha razão. Minha filha estava crescendo. Jamais vou deixar de ser seu pai ou de amá-la, mas ela tem todo o direito de ser ela mesma. Enfim, levei-a para casa. Fomos cantando no carro. Ela tomou banho e depois brincamos até não poder mais. Tânia chegou mais tarde porque tinha ido fazer compras:

-Muito bem... Seu pai foi buscá-la hoje... Gostou, né?

 

-Sim, mamãe.

 

-Fizeram o dever de casa?

 

-Não, mamãe.

 

-Não me diga... Ficaram brincando, não foi, Leonardo Flick? Acabei tendo que confessar:

 

-Foi mais ou menos isso, querida... Digamos que estudamos de maneira alternativa...

 

-Muito bem. Então está na hora agora de estudar da maneira convencional... Vamos lá...

-Mas, meu amor, será que ela não poderia estudar amanhã já que...

 

-É melhor agora. Amanhã ela tem natação e não vai ter tempo.

 

Não sei já havia mencionado, mas a última palavra lá em casa é sempre minha. Desta vez não seria diferente:

 

-Sim, querida...

 

Minha filha foi estudar, Tânia foi arrumar a casa e eu... fui preparar o que esperava ser minha redenção... A palavra redenção talvez seja um pouco forte, já que não tinha feito nada de errado. Mas em meu íntimo sabia que, apesar de não cobrar explicitamente, Tânia não esperava que eu passasse tanto tempo fora.

 

Coloquei um Chambertin 99 para gelar ligeiramente. Não conhecia a marca, mas pelo preço tinha que ser bom. Lá pelas dez e meia da noite, já com nossa filha dormindo, esperei minha mulher sair da sala para tomar banho e preparei o ambiente. Primeiro, coloquei um DVD que até então era infalível em reconciliações e que minha mulher simplesmente adorava. Um show de música francesa com uma performance memorável de seu mais brilhante representante. Abri a garrafa de vinho com certa dificuldade (para um garçom é tão fácil...) e enchi duas taças até a metade. Quando ela voltou para a sala, a primeira música já estava tocando. Seus cabelos negros estavam soltos por cima dos ombros, escondendo algumas daquelas pintinhas que lhe são tão características e que tanto gosto.

La Bohème....

 

Apaguei as luzes e a recebi com duas taças de vinho na mão. A única luminosidade vinha da própria televisão. Seu rosto de surpresa foi proporcional ao de minha filha quando a peguei no colégio. Apenas o sorriso é que cedeu lugar à argumentação. Ele pegou uma das taças e falou:

 

-Léo, por que isso tudo?

 

-Por quê? Porque merecemos. Porque faz tempo que não chego cedo. Porque é gostoso.

Posso dar outras mil razões.

 

-Ora, Léo, não precisava... Você não fez nada de errado. Só tem trabalhado muito.

 

Yesterday when I was young...

 

-Eu sei. Acho que nunca trabalhei tanto em minha vida. Com certeza não com tantas

preocupações. Mas acho que descuidei um pouco do tempo que passo aqui em casa, com

vocês. E agradeço por sua compreensão.

 

-Você apenas está aproveitando um momento importante em sua vida profissional. Só

isso...

 

- Quer dizer que não tem sentido minha falta?

 

-Você sabe que sim, Léo. Mas não o culpo por isso.

 

Que c'est triste Venise...

 

-Eu sei. Isso me faz sentir ainda pior.

 

-Ainda pior? Quer dizer que você preferiria que eu reclamasse?

 

-Não sei. Pelo menos eu sentiria mais que...

-Está certo. Então é assim que será. No seu próximo projeto vou ficar falando o tempo todo e colocando mais uma preocupação na sua cabeça, está bem assim?

 

Ela começou a ficar nervosa. Fui obrigado a me calar. Nos sentamos e tomei um pouco de vinho. Olhei para todas as direções até voltar a olhar diretamente em seus olhos.

 

-Sou um idiota. Desculpe-me. A promoção foi algo maravilhoso para mim. Mas o fato é que ainda não consegui balancear isso com minha vida, ou melhor, com nossa vida pessoal. Isso tem me angustiado e...

 

- Sente-se culpado. She...

 

Ela pegou minha mão. Meu plano era reconfortar, mas estava sendo reconfortado. Essa era a minha mulher...

 

-Obrigado por você ser assim. É difícil para mim, explicar mas...

-Léo, você não tem que explicar nada. Isso é apenas mais uma fase da vida, das muitas que passamos e ainda passaremos juntos. Vou estar sempre ao seu lado, tenha certeza disso. Assim como espero que você esteja ao meu lado também quando for preciso. E por isso que nos casamos. Por isso e porque te amo.

 

O que se pode dizer para uma mulher assim? Nunca tive dúvidas do porquê me apaixonei... Mas é sempre bom lembrar... Bebi mais um pouco, olhando em seus olhos e sugerindo sem falar que ela fizesse o mesmo. Aumentei um pouco a música e a convidei a dançar. Tudo sem falar. Apenas com gestos. Ela aceitou...

 

The old fashioned way...

 

Não nos beijamos. Não nos falamos. Apenas dançamos. Coloquei o DVD em modo repetição e esperamos a noite passar. A única coisa que nos interrompia era o som de nossos próprios pensamentos e o tin-tin que fazíamos a cada vez que enchíamos as taças novamente. Não vou entrar em mais detalhes... A intimidade de um casal não merece ser explicitada em um livro sobre gerência de projetos...

 

Merci Beaucoup, Monsieur Charles Aznavour...