Gerente Também é Gente
2- Virei Gerente... E Agora?
Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com
coragem.
JEAN-PAUL SARTRE
Tudo começou no que parecia ser mais um dia normal de trabalho. Eu estava em minha baia (sempre detestei este nome: baia. Me sinto como um cavalo preso. Mas é como chamamos os locais onde cada funcionário da empresa trabalha e, em tese, produz...)
preparando um relatório sobre os bugs1 que descobri em nosso mais novo produto. Eu deveria ter enviado ontem o relatório para o laboratório de nossa empresa e já estava atrasado. Minha função? Bem, eu era o que se pode chamar de um analista de sistemas. E até que bem competente, arrisco dizer. Gostava do que fazia: lidar com máquinas. Acho que para mim aquilo tudo era no fundo um grande videogame. Eu contra a máquina. Algumas vezes eu ganhava. Outras, perdia miseravelmente. Desde a faculdade foi assim. Formei-me em computação e depois de um estágio e dois empregos em empresas menores, acabei vindo parar aqui. Uma das maiores empresas de solução de tecnologia do mundo: a HAL S/A. Aliás, acho esta palavra "solução" muito interessante. Cada vez mais o mercado de informática não fala somente em hardware (máquinas), software (programas) ou rede. Prefere a palavra "solução", querendo indicar que não importa o seu problema, nós temos o que você precisa.
Ou "não importa o que você precisa, nós criamos o seu problema”...
Mas voltemos a HAL. Sem dúvida uma das maiores empresas do ramo do mundo. Uma empresa séria e de excelente reputação no mercado. Sempre me considerei um felizardo por ter conseguido um emprego em uma empresa com tantos recursos e com tantas chances de desenvolvimento profissional. Sem dúvida, um sonho. Estava trabalhando como analista há três anos e já havia sido promovido. Entrei como Analista Júnior e orgulhosamente depois de um ano e meio fui promovido a Analista Sênior. A verdade é que todos que ficam em um mesmo cargo e após este período são promovidos automaticamente. Mas isso não importa, eu estava feliz. Minha responsabilidade era testar novos programas produzidos pela matriz da empresa em situações extremas e considerando as características regionais específicas de nosso país. Desde que entrei na empresa eu fazia isso. Mas agora eu era Sênior. Tudo estava indo muito bem em minha carreira. Sentia-me reconhecido tanto pelo chefe quanto pelos colegas de trabalho. Quando o mundo parecia perfeito (de acordo com a minha experiência, se nada parece que pode dar errado, você é que não está vendo por todos os ângulos), eis que meu chefe me liga e pede para ir à sua sala. Estranhei um pouco porque ele poderia ter
usado o chat2, como de costume. Mas preferiu a chamada telefônica. Pedi quinze minutos para fechar o que estava fazendo e me dirigi à sua sala.
Meu chefe ficava em um escritório de tamanho médio, mas confortável. Tinha uma janela um pouco desproporcional para o tamanho da sala, um armário com diversos livros (que eu duvidava de que ele já tivesse lido todos) e alguns troféus. Tinha também uma mesa retangular onde ele trabalhava e despachava e uma outra, redonda, com quatro lugares para pequenas reuniões. Era impossível não reparar em uma placa amarela na parede que dizia: "Chefe não é Deus. Mas trate-o como se fosse". Uma brincadeira com seus funcionários, evidentemente, mas que acabou gerando diversas piadinhas de corredor. Enfim, uma típica sala de chefe. A porta estava aberta quando cheguei. Ele me viu e pediu que entrasse e me acomodasse. Seu nome era Edson Pedreira. Excelente pessoa. Não era de todo careca.... Ainda tinha aquela penugem, uma de cada lado da cabeça. Mais o meio era completamente liso. Além disso, uma bela pança que o denunciava mesmo à distância. Uma figura muito parecida com o Frei Tuck, do clássico Robin Hood. No momento em que sentei, ele se levantou e foi fechar a porta atrás de mim. Meu coração gelou. Por que meu chefe fecharia a porta para conversar comigo? Será que meu atraso no relatório poderia ter gerado isso? Não acredito... Já atrasei tantas vezes... Será esta a razão? Por ter atrasado tantas vezes? De qualquer forma, eu não tinha muito a fazer. Era esperar para descobrir. Ele fechou a porta e voltou a sentar em sua mesa, bem de frente a mim. Começou nosso diálogo:
-Flick, você tem alguma ideia da razão pela qual eu o chamei?
-Se for sobre o atraso no relatório para o laboratório chefe, pode ter certeza de que...
-Atraso de relatório?! Não... Não é nada disso. Esqueça o relatório. Chamei você aqui por uma questão muito mais importante.
Mais importante? Para mim isso era o mais importante! E por que me chamar para conversar a portas fechadas?
-Ok, chefe. Estou curioso. Vamos ter alguma mudança?
-Mudança? Sim, vamos ter mudança. Uma grande mudança. E a mudança é em você, Flick.
Será que vou ser demitido? O que diabos eu fiz de errado? Logo agora que estava indo tudo tão bem... Ele continuou:
-Flick, você sabe que o Petrúcio está indo para uma nova área. Ele vai comandar nossa fábrica de software no sul do país.
Paulo Petrúcio era um excelente profissional, pelo menos esta era a sua fama. Muito experiente e bom no relacionamento com pessoas. Uma verdadeira referência na empresa. Não somos exatamente amigos, porque, como já disse, me interesso mais por máquinas, mas sei que ele estava muito bem cotado. Eu sabia de sua promoção.
-Sim, estou sabendo. Fiquei muito feliz por ele.
-Pois é. Você sabe o que Petrúcio fazia antes de ser promovido?
-Bem, sei que ele era gerente de alguma coisa. Confesso que não me lembro bem do nome da área que ele gerenciava.
-Você não se lembra bem porque ele não tinha uma área específica. Ele era gerente de projetos.
-Ah, sim. Ok...
Eu não tinha a menor ideia do que era aquilo, mas sabe como é... Eu estava na presença do meu chefe...E de mais a mais, o que eu tinha a ver com isso?
-Você deve estar se perguntando o que você tem a ver com isso, certo? (é incrível o poder visionário dos chefes...). Pois bem, vou lhe dizer. Você tem sido tão bom técnico e conhece tão bem nossos produtos, que pensei em lhe dar um novo desafio. Você será o mais novo gerente de projetos de nosso departamento. Passará a liderar equipes em direção a um objetivo específico. Não ficará mais preso em sua baia. Passará a interagir diretamente com nossos clientes, entregando nossas soluções e garantindo sua satisfação. O que você acha disso, hein?!
Surreal. Não tenho a menor ideia do que é ser gerente, e muito menos de projetos. Não sei nem se quero ser isso. Pelo menos não me sinto preparado para ser gerente. Estava tão bem com as máquinas....
-Pôxa chefe, não sei nem o que dizer (e não sabia mesmo....).
-E então, você aceita o desafio?
Ele tinha um sorriso tão seguro e tão largo na boca que dava para ver até suas obturações...
-Mas por que eu chefe? Digo... o time todo é muito bom e estou só há um ano e meio como
Analista Sênior e...
-Você não aceita o desafio? (fim do sorriso)
-Não, não chefe... Digo, sim, é claro que sim! Adorei, adorei mesmo sua confiança em meu trabalho. Muito obrigado.
-Então estamos fechados (o sorriso voltou...). Quero que passe hoje mesmo tudo o que está fazendo para o Farhad e se prepare para o seu primeiro projeto.
Farhad Bolayan era o meu colega da baia ao lado e fazia praticamente a mesma coisa que eu...
-E que projeto seria este, chefe?
-Fico feliz que tenha perguntando. Estamos falando do projeto SAS501 de um de nossos
principais clientes, a TASA. Eles estão precisando instalar uma nova rede interna para toda
a empresa e nós ganhamos o projeto. A equipe ainda não está totalmente montada, mas com
sua habilidade, certamente vamos ter sucesso! Vou te pedir por favor para procurar o Juvenal
para que você possa dar início imediatamente ao projeto. Estou colocando todas as fichas em
você, Flick! Não vá me decepcionar hein?!
-Vou fazer o melhor possível chefe. Pode contar comigo.
-Claro, sei que posso. Bom, boa sorte. Em breve estarei fazendo um comunicado ao grupo dizendo que você agora é o gerente do projeto SAS501. Não faço agora porque estou de saída para um evento muito importante no centro da cidade. E o lançamento de nosso novo sistema de configuração. A propósito, como está aquele relatório sobre os bugs do produto?
-Ainda não acabei de fazer chefe.
-Não tem importância. Passe tudo para o Farhad. Você agora é um gerente.
E assim foi.... Saí de sua sala sem saber bem se comemorava ou se chorava. Acho que senti um misto de aflição e anestesia. A única coisa certa era que tinha que procurar o tal do Juvenal, um de nossos gerentes de venda. Pois muito bem, pensei comigo mesmo, vou encarar essa de frente. Você é um homem ou um rato?
Mexeram no meu queijo...
Se foi lhe dado um desafio é porque você mereceu este desafio. Afinal de contas você foi promovido! Comemore! Não se lamente! Estava ali o mais novo gerente de projetos do mercado. Dizem que nasce um a cada 30 minutos...
E a cada 15 minutos, um também é demitido...
A sorte estava lançada... e a aventura, apenas começando.