Gerente Também é Gente
4. Conhecendo Meu “Guru”
Mestre não é quem sempre ensina. Mas quem de repente, aprende.
GUIM ARÃES ROSA
Depois do ocorrido, resolvi parar e repensar tudo que havia acontecido desde o início. Minha pseudo-nomeação, meu encontro com Juvenal todo-poderoso, minha ida ao cliente sem-falar-com-o-cliente e finalmente a reunião-que-nunca-houve. Minha conclusão era que a única coisa válida, até então, tinham sido os biscoitos que comi sozinho naquela sala. Resolvi conversar com minha mulher. A única pessoa capaz de encontrar explicações para o inexplicável. Foi dela a ideia mais sensata que ouvi.
-Por que você não pede ajuda? Por que ser tão autossuficiente? É um cargo novo, você
ainda está aprendendo....
-Pedir ajuda? A quem? À Deus? Não é um problema técnico que tenho que resolver. Não
estou decifrando um código de computador. Estou praticamente em uma situação de "game
over".
-Calma, meu Amor.... Vamos pensar juntos. Quando você era analista e tinha uma dúvida
técnica, a quem você recorria?
-Para um analista com mais conhecimento naquele assunto técnico específico... Ou até
mesmo para o laboratório do produto.
-Pois então... É a mesma coisa... Você tem que pedir ajuda para quem tem mais
experiência que você em gerência de projetos. Devem existir outros gerentes na empresa,
não?
-Espere um momento... Eu poderia conversar com o antigo gerente de projetos de nosso
departamento. Ele também foi recém-promovido. E todos gostam dele. Ele tem que poder me
ajudar a decifrar esse quebra-cabeça... Obrigado, querida!
Como é que não pensei nisso antes? Tive que ouvir o óbvio de minha mulher... Precisa de ajuda? Peça ajuda! Foi o que fiz... No dia seguinte liguei para o Paulo Petrúcio. Sabia que ele ainda não tinha se mudado para o sul para assumir seu novo cargo. Apresentei-me rapidamente, por telefone, e disse que precisava conversar com ele. Ele aceitou me encontrar às 15h do mesmo dia. Minha sobrevida na empresa poderia depender deste encontro...
Cheguei em sua baia no horário marcado, ansioso e ao mesmo tempo esperançoso. Ele estava de mudança e portanto cheio de caixas de papelão sendo cuidadosamente arrumadas. Ele preparava tudo com muita calma e isso chamou minha atenção.
Como era possível alguém trabalhar como gerente, ser recém-promovido e estar calmo daquele jeito?
Devia ter alguma coisa por volta dos 50 anos. Não mais do que isso. Era magro, tinha algumas mechas de cabelo branco que disfarçavam uma discreta careca que começava a se formar. O mais importante: um sorriso largo no rosto. Sugeriu que fossemos tomar café no terceiro andar, onde fica o restaurante da empresa. Disse que era mais agradável conversar ao ar livre e tomando alguma coisa. Ele mesmo fez questão de pagar o café. Pedi desculpas pela interrupção em seu dia e agradeci pela gentileza. Jamais poderia imaginar naquele momento o quanto seria importante aquele encontro para minha vida. Às vezes, estamos diante de momentos preciosos que só percebemos muito tempo mais tarde. Fazer o quê? É assim que funciona.... Recordo-me, como se fosse ontem, desse nosso primeiro diálogo:
-Sr.Petrúcio, muito obrigado por me receber.
-Ora, o que é isso Flick! Por favor, me chame apenas de Petrúcio. Esse é meu nome de
guerra! Estou curioso, como posso ajudá-lo?
-Você prefere a versão simples ou completa?
-Como achar melhor.
-Ok, então vamos lá....
Contei minha estória como quem conta uma novela. Na verdade, um drama. Desde do momento em que fui chamado à sala do meu chefe, até minha recém-tentativa frustrada de tomar o controle do projeto. Também falei de como o considerava um expert na área (na verdade ainda não tinha certeza disso, mas tinha uma sincera esperança), e, portanto, capaz de me ajudar. Disse-lhe que seria muito importante para mim sua opinião e que estava começando a lamentar o fato de ter sido promovido a gerente de projetos.
Ele ouviu todo o meu discurso pacientemente. Sem falar nada. Apenas escutando... Às vezes balançava a cabeça concordando e, por alguns instantes, ensaiou até um risinho involuntário de canto de boca. Não de deboche, mas como que querendo expressar já ter passado por situações semelhantes (aqueles cabelos brancos não eram à toa...). Depois de todo o meu desabafo, ele começou:
- Muito bom, Flick. Em primeiro lugar, meus parabéns pela promoção (parabéns!? Já estava achando que seria melhor receber os pêsames....)! Você acaba de assumir o papel de gerente de projetos. Algo que eu venho fazendo há mais de 15 anos. E posso afirmar que é a atividade mais gratificante que exerci em toda a minha vida! Antes de entrar especificamente na situação que você acaba de me descrever, gostaria de lhe fazer algumas perguntas preliminares. Você me permite?
- Por favor, fique à vontade.
- Diga-me Flick, você sabe o que é um projeto? Já parou para pensar a respeito?
O que é um projeto? Que tipo de pergunta é essa? Todo mundo sabe o que é um projeto... Mas como descrever?
- Um projeto?! Bem... você sabe... Um projeto é alguma coisa que tem que ser feita. Algo que, em tese, teria que ser planejado.... Acho que nunca parei para pensar exatamente na definição... Como técnico, apenas partia para executá-los... Você sabe...
- Sim, compreendo... Mas acho que é importante compreendermos seu significado. Um projeto é um empreendimento com tempo determinado e com objetivo específico e único. Normalmente com recursos finitos também. Parece óbvio, mas é importante ressaltar. Você pode me dizer o que eu quis dizer com tempo determinado?
-Tempo determinado? Ora, que tem fim... que um dia acaba...
-É mais do que isso, Flick. Um projeto não só tem um fim, como este fim tem que ser
conhecido, planejado, controlado e respeitado, desde o início do projeto. Se você tem algo
que não tem fim planejado, então não é um projeto. Por definição. Pode ser um processo, um
programa, uma operação. Mas não um projeto. Você entendeu?
-Acho que sim. Por exemplo, este meu projeto que comentei com você tem três meses para acabar. Não fui eu que planejei isso, mas sei que são três meses. Quando acabar vai virar um processo dentro do cliente. Mas até acabarmos de implementar é um projeto.
-Exato. E por que eu disse que tinha que ter um objetivo específico e único?
-Porque serve para alguma coisa, certo? Ou então não teríamos um projeto....
-Sim, e porque um projeto nunca se repete. Ele tem por natureza uma característica não-
repetitiva. Cada projeto é único. Por mais que dois projetos pareçam iguais, existe sempre
algum fator que garante sua unicidade.
-Disso eu entendo bem... Ao instalar um sistema novo, por mais que tenha feito o mesmo
procedimento mil vezes, sempre acontece algum problema novo ou imprevisto.
-Bom exemplo... E por quê?
-Ora, porque assim é o mundo...
-Podemos encarar desta forma... Mas analisando a fundo, vamos perceber que alguma
variável ambiental necessariamente mudou para que tivéssemos um resultado diferente. Pode
ter sido o material utilizado, o tempo, a equipe.... Diga-me Flick, o que você acha que está
por trás de todo projeto?
-Por trás de todo projeto? Ora, um cliente, custos, recursos, máquinas e tudo mais que
compõe o contexto do projeto... Acho...
-Não, Flick. O que está por trás de todo e qualquer projeto são pessoas. Em cem por
cento dos casos. Nós não gerenciamos máquinas. Gerenciamos seres humanos. E é aí que
está a dificuldade, mas também a beleza do trabalho.
-Eu sei... principalmente quando estes "humanos" abandonam o projeto, não dão o suporte
necessário...
-Quando você acha que surgiu gerência de projetos?
-Quando surgiu? Bom, no departamento de suporte acho que deve ter surgido há mais ou
menos uns quatro ou cinco anos, quando começamos a fazer projetos externos de maneira
mais rotineira e....
-Não, Flick. Refiro-me à história da humanidade. Quando foi que surgiu gerência de
projetos?
Ótimo... Excelente... Vim aqui pedir ajuda e estou tendo aula de história... Ok, vou fazer o seu jogo...
-Projetos.... não sei... Talvez na idade média?
-Sabe Flick, projetos sempre existiram. Desde que o homem é homem. Desde a pré-
história.... Talvez até antes.... Na visão dos católicos, Deus foi o primeiro gerente de projeto
que surgiu. E tinha apenas sete dias para fazer tudo....
Mas ele planejou bem... Tinha pelo menos um dia de descanso... Ele continuou:
-Os egípcios ergueram grandes pirâmides, os navegadores desbravaram novas terras, o
homem foi à lua... Todos exemplos de projetos... Quando então teria surgido a expressão
"gerência de projetos"?
-Não faço a menor ideia.... Sei que não fui eu que inventei... Isso com certeza...
-Ok. Pense em épocas de grandes transformações. Pense em épocas de grandes
mudanças....
Detesto ser testado desta forma, mas estava começando a gostar de seu estilo "guru" de conversar...
-Ah, não sei... Talvez nas guerras?
-Precisamente! As guerras são eventos muito tristes na história da humanidade. Mas ao
mesmo tempo elas produzem uma série de inovações de diversas ordens. Formas novas de
fazer coisas antigas... Mas, por favor, me entenda corretamente. Não estou fazendo apologia
ao conflito. Muito pelo contrario. Mas é inevitável notar que foi a partir destes períodos de
dificuldade que surgiram muitas das invenções que hoje usamos no cotidiano.
Particularmente na Segunda Guerra Mundial, onde a própria disciplina gerência de projetos,
como a conhecemos hoje, começou a tomar forma. Você já ouviu falar da expressão "sala de
guerra3"?
-Não, mas o nome não é atraente...
-Pois é... Este termo foi cunhado em época da guerra. Originalmente como sala de
generais, para discussão de estratégias de guerra. A expressão foi transportada para nossos
dias na forma de uma sala, literalmente, onde um grande projeto pode ser analisado e
acompanhado. Tudo relativo àquele específico projeto fica exposto nesta sala. E onde o
gerente de projeto se reúne com sua equipe, respirando o ar do projeto e tendo à mão o
cronograma atualizado, mapas da solução, especificações, o organograma e tudo mais que diz
respeito ao projeto. Uma "sala de guerra" neste sentido. Muito utilizada para projetos longos
e complexos.
-Agora que você está falando, me lembro de uma sala assim lá no quinto andar onde fui
convocado algumas vezes para discutir um módulo específico de um sistema que estávamos
desenvolvendo. Pude inclusive presenciar algumas guerras de verdade, mas entre as pessoas
que estavam na sala discutindo....
-Algumas vezes isso também acontece... Até certo ponto é também saudável... Mas falemos disso depois. Outros termos também que aprendemos muitas vezes em época de
faculdade como o diagrama PERT4 por exemplo, e muitos outros, também surgiram da necessidade de implementação de projetos bélicos em situações extremas.
-Você acha que houve uma evolução desse tempo até os dias de hoje?
-Sem dúvida! Basta ver as universidades. Você é muito novo e certamente não se lembra
(queria que ele estivesse certo a respeito disso também...), mas antigamente não existiam
cursos de gerência de projeto. Hoje em dia é possível encontrar cursos de graduação, pós-
graduação, certificações, aperfeiçoamento, teses e tudo mais que se deseja nesta área. Até
mesmo anúncios em jornais pedindo gerentes de projeto aparecem com abundância. As
empresas começam a formalizar o cargo em sua folha de pagamento, existem diversas
associações dirigidas exclusivamente para o assunto, listas de discussão, sites
especializados na Internet e muito mais! A quantidade de informação a respeito é muito
maior.
-É verdade... Não tinha pensado nisso... Acho que estava muito fechado em meu mundo
com as máquinas...
-Não tem problema, Flick. Você não é o primeiro técnico que foi subitamente promovido
a gerente. E provavelmente não será o último. Na grande maioria dos casos, o que acontece é
que se perde um bom técnico, mas não necessariamente se ganha um gerente preparado... (ele
tem razão... era como estava me sentindo...). O ponto positivo disso tudo é que a você foi
dada uma oportunidade ótima de vivenciar tudo isso de perto. Sei que algumas vezes somos
chamados a fazer coisas para as quais não nos sentimos especialmente preparados (algumas
vezes?). E isso nos deixa naturalmente desconfortáveis. E sei também que nossa empresa
ainda tem que evoluir muito do ponto de vista estratégico para preparar seu ambiente para
gerenciar tudo por projetos. Mas estamos nesta direção... Estamos todos constantemente
aprendendo.... Inclusive nossos líderes e nossa organização.
-Gerenciar tudo por projetos? O que você quer dizer com isso? Nossa empresa tem
setores de venda, contabilidade, recursos humanos... Não dá para gerenciar tudo por
projetos.
-Bem Flick, esse é um outro ponto muito importante. Mas para conversar sobre isso eu
preciso de mais café... Você aceita?
- Sim, aceito. Só que desta vez eu pago!
Levantei-me e entrei na fila do café. Fiquei observando de longe aquele homem que estava começando a me dar uma verdadeira aula sobre gerência de projetos. Alguém que resolveu dispor de seu tempo, que não deve ser muito, para dar uma luz a este pobre gerente novo. Pela forma como falava e pelo brilho que irradiava, era impossível não ficar interessado. Comecei a confirmar o que, de certa forma, já sabia: tenho muito a aprender.... Só o que não sabia era que esse muito era muito mais do que eu imaginava...