Gerente Também é Gente

André B. Barcaui · Capítulo 13 de 31

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Gerente Também é Gente

11. A Dura Realidade..

 

Viver é desenhar sem borracha.

 

MILLÔR FERNANDES

 

O livro GGP era estruturado em doze capítulos. Letras pequenas e muito apertadas. Isso sem contar as anotações de Petrúcio, que ajudavam a confundir um pouco mais. No início, ele passava uma ideia do que era gerência de projetos, sua evolução e um breve histórico. Depois apresentava os grupos de processos da gerência de projeto conforme Petrúcio havia me dito. São basicamente cinco, os tais grupos: concepção, planejamento, execução, controle e finalização. Mas todos estes processos se comunicam entre si em todas as fases de um projeto para gerar o resultado desejado. O livro tentava seguir a ordem lógica destes processos para facilitar ao leitor. Na prática era lotado de gráficos, tabelas, referências, idas e vindas no texto e processos. Confesso que minha primeira impressão do livro não foi das melhores. Ele era, digamos assim, o melhor remédio para dormir que já tinha tomado... Rápido e eficiente... Mas Petrúcio dissera que tinha valor. Disse mais do que isso; que eu deveria usá-lo como referência para todas as fases deste meu primeiro grande projeto. Espero sinceramente que esteja certo... Enfim, de volta à realidade....

 

Minha primeira providência neste novo projeto foi me encontrar com Panfilho. Afinal foi ele quem vendeu o projeto e provavelmente era quem maisconhecia o cliente. Coincidentemente, ele também tinha uma sala no mesmo 10o. andar do meu amigo Juvenal. Novamente, procurei a pessoa que sabia que mais poderia me ajudar: Lídia.

 

-Boa tarde, Lídia.

 

-Boa tarde. Está procurando o Sr. Juvenal?

 

-Não, desta vez não (graças a Deus...). Estou procurando o nosso novo vendedor, o Sr.

Panfilho. Você poderia me ajudar?

 

-Mas, claro. O Sr. Panfilho fica naquela primeira sala à direita. Pode ir diretamente. Ele

não está com ninguém na sala neste momento.

 

Estranhei o fato de me receber assim tão rapidamente. O pessoal do décimo sempre demora um pouco para atender, nem que seja por charme. Sabe como é... para manter o glamour. Dirigi-me a sua sala e dei três batidas na porta, que já estava aberta.

Panfilho devia ter por volta dos seus 35 anos, terno impecável, cabelo para trás com aquela "pasta-que-arruma-cabelo-sem-ter-que-tomar-banho" e uma mesa extremamente arrumada. Arrumada demais para o meu gosto. Ele me olhou com um largo sorriso, de uma boca com mais dentes que o normal e pediu que eu sentasse.

 

-Boa tarde. Meu nome é Flick. Leonardo Flick (adoro fazer isso...). Sou o gerente do projeto da Telefon.

 

-Ah, perfeito! Boa tarde, Flick. Que bom que você veio até aqui. Posso lhe servir um café?

 

Servir um café? Alguém do décimo andar me oferecendo um café? Será que eu estava no andar certo?

 

-Hã... Não, obrigado. Estou bem. Na verdade estou aqui para que possamos discutir um pouco o projeto. Saber o que você e o cliente esperam, ver se podemos marcar uma visita em conjunto e...

 

-Excelente, Flick. Muito boa a sua vinda. Na verdade o contrato ainda não foi assinado,

mas o projeto já está autorizado pelo nosso jurídico e pelo CFO10. A renda relativa ao projeto é de US$ 2 milhões e se fizermos um bom trabalho, certamente teremos novos frutos a colher nesse cliente.

 

-Existe alguma apresentação ou qualquer outro documento sobre o escopo do projeto que foi proposto?

 

-Documentação? Sim, claro, está tudo documentado. Você pode conseguir tudo com a

Lídia lá na recepção. Ela poderá lhe passar uma cópia. O mais importante, neste momento, é

que eu lhe transmita a importância deste empreendimento para a Telefon. Este projeto faz

parte de uma concorrência de que participamos e que ganhamos. Existiam quatro outras

empresas pré-qualificadas. Não posso negar que o fato de eu já conhecer o cliente ajudou

muito, é claro...

 

Impressionante... O cara, além de ser um perfeito almofadinha, era também um tremendo convencido...

 

-E será que eu poderia ter acesso à planilha de custos do projeto?

 

-Planilha de custos? Bem, não tenho exatamente uma planilha de custos... Sabe, eu venho

de uma outra empresa, uma outra cultura. Cá para nós, bem mais dinâmica... (ele falou isso

quase que cochichando ao meu ouvido, mesmo só tendo nós dois na sala...). Mas com base

em um projeto de tamanho semelhante que desenvolvi nesta outra empresa e, principalmente,

enquanto o cliente estava disposto a pagar, calculei mais ou menos o custo, coloquei a

margem de lucro que esperamos e.... pimba! Formamos um preço. A diretoria toda da

empresa gostou muito dos números apresentados.

 

-Números? Você quer dizer da renda prevista apresentada.

 

-Sim, a renda.

 

-E o lucro? Qual o lucro esperado com esta venda?

 

-Temos um lucro estimado de 20%. Isso significa que os custos deste projeto podem

atingir no máximo algo em torno de.... (ele pegou a calculadora para fazer a conta...)

 

-US$ 1,6 milhão (eu disse com um certo ar de deboche, confesso...)

 

-Exato! US$ 1,6 milhão... Para isso contamos com você, Flick.

 

-E o cliente espera que o início do projeto seja...

-Na semana que vem. Você já tem seu time montado?

 

Semana que vem? Isso significa que eu teria que montar uma equipe, estudar o projeto e me preparar em menos de uma semana!

 

- Meu time? Não, ainda não tenho um time. Aliás, este é um ponto importante. E provável que eu vá precisar de sua ajuda visto que muitos de nossos melhores profissionais estão alocados em outros projetos ou até mesmo em seus próprios setores funcionais e...

 

- Na verdade estou de saída para o exterior amanhã pela manhã. Devo participar de uma conferência sobre telecomunicações em Frankfurt, Alemanha. Você sabe, temos que estar onde os clientes estão...

 

- Então você não vai estar comigo na abertura do projeto com o cliente?

 

- Infelizmente, não. Mas estarei necessariamente com eles esta semana, pois ainda precisamos da assinatura do contrato. Se você quiser, informo-lhe o dia e a hora em que estarei lá para que possamos ir juntos.

-Sim. Isso seria ótimo.

 

-Ok, Flick. Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?

 

Mais alguma coisa? Como assim mais alguma coisa? Não me ajudou em nada até agora...

 

-Por hora, não. Você quer que eu prepare algum tipo de reporte periódico sobre o

andamento do projeto?

 

-Não... Isso é tudo muito burocrático... E depois, notícia ruim chega logo. Mais rápido do

que qualquer reporte. Se eu precisar de alguma coisa, eu o procuro, ok?

 

-Ok...

 

Pedi a documentação do projeto para Lídia, retornei à minha baia, vi mais alguns e-mails e resolvi que era hora de ir embora.

Voltei para casa naquela noite me sentindo completamente perdido. Jantei em família e joguei um jogo com minha filha em seu videogame... Mas não conseguia tirar o projeto da cabeça. Mesmo na hora de dormir, me peguei levantando várias vezes da cama, sem sono. Em uma das minhas saídas da cama, minha esposa, solidária e estranhando minha ansiedade, também se levantou e perguntou o que houve. Decidi que poderia poupá-la da história, considerando que eram três horas da manhã... Tentei acalmá-la sobre o meu próprio estado de espírito. Dei-lhe um beijo e sugeri que voltasse a dormir.

 

Toda a responsabilidade do novo projeto e também o medo de errar pareciam estar pesando em minha mente. E por mais que eu tentasse desviar o pensamento, ele sempre voltava ao projeto. Jamais consegui contar carneiros em tempos de insônia. Sempre achei que isso era folclore, mas tentei novamente. Não consegui. Parava sempre por volta do décimo-quinto carneiro... ô bicho sem graça.... Era inevitável voltar sempre a pensar no novo desafio e na minha conversa com Panfilho. Para minha surpresa e por incrível que pareça, comecei a sentir falta do Juvenal... Ele era bem mais duro e mal-educado, mas em compensação me pareceu muito mais efetivo como patrocinador. Desta vez eu me sentia completamente sozinho, largado à minha própria sorte, com a única vantagem de estar pegando o projeto do início, podendo moldá-lo à minha maneira. Mas como fazer isso? Qual era a minha maneira? Como começar do jeito certo? Resolvi que iria voltar a ler o famoso (e até então sonífero...) GGP. Afinal, de acordo com Petrúcio, esse livro teria as respostas para as minhas mais diversas perguntas. A questão é: eu tinha as tais perguntas? Enfim, quando consegui finalmente cair no sono, já era manhã e estava quase na hora de acordar de novo... Típico...