Gerente Também é Gente
1. Nada do que Foi Será…
A vida é importante demais para ser levada a sério.
OSCAR WILDE
Meu nome é Flick. Leonardo Flick. Gosto de me apresentar assim porque me faz sentir como uma espécie de James Bond pós-industrial. Psicologia, sabe como é... Melhora minha autoestima. Na verdade todos costumam me chamar apenas de Flick devido à característica não-usual do sobrenome. A não ser minha mulher, que quando está nervosa, sempre me chama usando meu nome completo. Sou casado e tenho uma filha, a qual considero meu melhor projeto. Gosto de acreditar que sou um homem de sorte. Tenho uma boa família, saúde, um bom emprego e financeiramente.... bom, nem tudo é perfeito. Trabalho em uma grande empresa multinacional na área de tecnologia da informação. Para aqueles mais antigos como eu, tecnologia da informação significa "alguma atividade ligada a computadores". Você sabe: criar coisas novas para resolver problemas que não se tinha antes desta coisa ser inventada, gerando ao mesmo tempo algum novo tipo de dependência.... Calma! Claro que não penso assim de verdade. Não poderia, já que sou parte deste mundo novo que ajudo a criar. A tecnologia sempre foi minha aliada e gosto de acreditar que nutrimos uma atitude de respeito um pelo outro. Eu e a tecnologia. Mas isso é uma outra estória...
Espero que meu chefe jamais leia este livro. O enredo que estou para compartilhar com vocês é verídico e diz respeito a minha própria vida. Mais especificamente à minha carreira profissional. Sou o que se pode chamar de um gerente de projetos. Sei que à primeira vista pode parecer não muito claro do que se trata esta atividade. Para ser honesto, até para mim mesmo, durante muito tempo foi muito difícil entender. Jamais vou esquecer o dia que cheguei em casa e disse que tinha sido promovido. Minha mulher foi só alegria ao dizer:
-Gerente, Amor?! Que ótimo, parabéns!!! Quantos funcionários você vai ter?
-Nenhum...
Sou sempre honesto, não sei mentir. A não ser às vezes...
-E qual o nome do seu departamento?
-Não vou ter departamento.
-Eu não entendi Amor. Você não disse que foi promovido a gerente?
-Gerente de projetos.
-Bom, pelo menos vai ganhar mais?
-Sim... Quero dizer, não. Não de início. Você sabe. Primeiro vem o trabalho, depois o aumento; um processo natural dentro da reengenharia pela qual as empresas vêm passando nos dias de hoje.
É incrível como sempre que não sei como explicar algo para minha mulher acabo apelando para termos técnicos de mercado esperando que ela engula. Historicamente, algumas vezes dá certo. Outras ela finge que engoliu para não me complicar... É uma das razões pelas quais, eu e Tânia, estamos casados até hoje....
-Ah... Bom, estou muito orgulhosa e muito satisfeita assim mesmo. Parabéns!
Esta foi a minha primeira tentativa de explicar o que eu fazia, ou passaria a fazer. Depois veio minha filha. Para ela, que pensei que seria mais simples... Bem, só o que posso dizer é que subestimamos demais as crianças...
-Caroline, papai tem uma novidade!
-Qual, pai?
-Seu pai agora é gerente de projetos.
-Pôxa pai, muito legal! Então você vai passar mais tempo comigo, né?
-Bem... Não exatamente, minha filha. É que papai agora vai ter mais responsabilidades.
Papai foi promovido.
-Promovido significa fazer mais coisas do que antes?
-Não Carol. Promovido significa dar um passo à frente na empresa, ser reconhecido.
-Mas se você vai ter menos tempo do que antes, como pode ter dado um passo à frente?
-Sei que parece estranho à primeira vista, minha filha, mas pode ter certeza que vai ser
bom para todos nós.
Vai ser bom para todos nós?! Eu não tinha exatamente a certeza de que isso era verdade! Queria acreditar que sim, mas não tinha certeza.
São nessas horas que eu gostaria de ter tido uma profissão mais comum, ou pelo menos mais fácil de explicar em reuniões de escola. Você sabe, aquelas reuniões onde você reúne um bando de pais e um bando de crianças e cada pai tenta explicar sua profissão para todo o grupo. Se eu tivesse sido médico como meu irmão ou advogado como meu primo seria muito mais fácil. Mas não adianta lamentar. O negócio é curtir. Se para uma criança foi difícil explicar o que eu faço, imagine para trinta ao mesmo tempo!
Outro momento hilário foi na hora em que contei para minha mãe. D. Lúcia tem aproximadamente 30 anos a mais do que eu. Uma mulher fabulosa (é claro que é fabulosa, é a minha mãe!). Foi dela que herdei duas das manias que mais admiro em mim mesmo. A primeira é a leitura. Leio compulsivamente. Na verdade compro até mais livros do que sou capaz de consumir. Em certas épocas sou capaz de ler três ou até mais livros ao mesmo tempo. Sem falar que adoro uma livraria. Sem dúvida, um dos meus lugares prediletos. A outra mania herdada foi o gosto pelo cinema. Como diria Fellini, "o cinema é o modo mais direto de entrar em competição com Deus". A magia da telona e suas trilhas sonoras exercem profunda influência em meu estado de espírito, não posso negar. A vantagem do cinema sobre o livro é a música. A vantagem do livro sobre o cinema é que você imagina tudo (inclusive o rosto da mocinha...). Passei na casa de minha mãe logo após sair do trabalho no segundo dia pós-promoção. Seu comentário de mãe foi o seguinte:
-Leo, como estou feliz por você meu filho. Você merece... Sempre batalhou tanto... Já falou com sua esposa e com seu pai?
-Já, mãe. Com meu pai ainda não, mas vou falar com ele em seguida.
-Você é mesmo um orgulho para todos nós. Sempre foi. Você deve redobrar a atenção agora. Tomar cuidado com a inveja, o mau olhado. A empresa e seu chefe certamente esperam mais de você.
-Eu sei mãe, obrigado. Vou me cuidar...
Ela falou durante aproximadamente meia hora sobre todos os cuidados e preocupações que eu deveria ter. Depois disso, tomou um gole de café e perguntou:
-Agora me diga, meu filho, o que diabos vem a ser um gerente de projetos?
Essa é minha mãe...
Com meu pai achei que seria diferente. Afinal de contas, podemos usar aquela linguagem machista, "papo de homem para homem", sabe como é... Eu bem que tentei:
-Armando, seu filho foi promovido.
Curiosamente, meu pai nos ensinou desde pequenos a não chamá-lo de pai. Isso mesmo que você ouviu. Parece estranho, a princípio. Mas a lógica dele era que sempre achou que devíamos ser tão amigos, que seria preferível evitar qualquer tipo de formalidade. Inclusive na forma em que nos tratávamos. Em outras palavras, praticamente não usávamos a palavra pai ou filho. Era sempre Armando e Leo. Demorei um pouco a entender isso. Mas quando entendi, passei a admirá-lo ainda mais...
-Promovido, Leo!! Parabéns! E o aumento, foi bom?
-É... Mais ou menos...
-Por que?
-Bem, não falamos sobre isso ainda, sabe... Como dizemos lá na empresa, por enquanto o
aumento é só no trabalho...
-Quer dizer que você foi promovido, vai trabalhar mais, mas ganhará a mesma coisa?
-É... Mais ou menos isso...
-Leo, tem certeza que você não quer trabalhar comigo? Nunca pensou em mudar de profissão?
Só para registrar, meu pai é médico...
Herdei muitas de suas características. Pelo menos é o que dizem as pessoas que nos conhecem. Escolhemos profissões completamente diferentes, é verdade. Mas a essência de muitos de nossos sentimentos e pensamentos é parecida. Acho que é por isso que discordamos tanto...
Estas foram algumas das situações pelas quais passei quando tentava explicar o que um gerente de projetos fazia ou deveria fazer. Espero sinceramente que ao longo do livro você possa entender melhor do que se trata esta atividade tão em moda nos dias de hoje. As alegrias e tristezas de ser um gerente. E de projetos! Espero que você se divirta e quem sabe até se identifique tentando decifrar o papel do gerente de projetos nas organizações. E por favor, se assim for, que depois me explique. Só para garantir que não estou com a ideia errada...