Gerente Também é Gente

André B. Barcaui · Capítulo 30 de 31

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Gerente Também é Gente

28. O Show deve Continuar..

 

Para fazer uma obra de arte não basta ter talento, não basta ter força. É preciso

também viver um grande amor.

 

WOLFGANG AM ADEUS MOZART

 

Aquele café já representava muito mais do que um simples ponto de encontro para mim. Praticamente todos os marcos de minha mudança profissional passaram por aquele lugar. Tenho certeza que se Simbad estivesse ali, certamente diria que existe alguma espécie de portal luminoso que eu mesmo abri no terceiro andar da HAL. E talvez ele estivesse certo...

 

Petrúcio estava sentado na área para fumantes. Na HAL temos isso também. Não é permitido fumar em nenhum andar, a não ser em um espaço mínimo que existe no café do terceiro. Não sou fumante, mas sinto pelos amigos que são... Estão perdendo cada vez mais espaço aqui e em quase todos os lugares públicos.

 

-Bom dia, meu amigo!

 

-Bom dia, Flick!

 

-Porque sentou aqui na área para fumantes?

 

- Não tinha mais espaço em outro lugar, quando cheguei. Mas se você quiser, podemos trocar de mesa.

 

-Não, está tudo bem. Não me incomodo.

 

-Soube do seu sucesso na Lightning. Pedrosa fez um verdadeiro carnaval por e-mail.

Parabéns!

 

-Obrigado. Devo tudo a você e a sua paciência em me ensinar como gerenciar projetos.

Aliás, sem você, eu estaria perdido!

 

-De forma alguma. Você soube tomar as decisões corretas nas horas certas. Isso é muito

difícil de conseguir. Mas você o fez...

 

Foi quando chegou meu capuccino e comecei a degustá-lo com deliciosos biscoitinhos amanteigados.

 

-Diga-me Petrúcio, estou curioso. O que você queria me contar?

 

-Flick, a razão de pedir que viesse aqui é porque o considero um de meus melhores

amigos. Portanto, queria que você fosse o primeiro a saber.

 

-Primeiro a saber o quê?

 

-Estou me desligando da empresa.

-Desligando? Como assim?

 

-Estou pedindo demissão. Vou trabalhar em uma concorrente da HAL.

 

-Concorrente da HAL? Mas por quê?

 

-Bem, eu poderia lhe dar várias razões, mas a principal é que um profissional deve saber

a hora certa de mudar. Eu estava muito bem no Sul do país, mas minha família não estava

satisfeita. Já não sou mais tão jovem e acho que preciso priorizar certas coisas. Além disso,

já tenho muitos anos nesta empresa. Está na hora de sair da zona de conforto em que me

encontro e buscar novos desafios. Meu ciclo por aqui acabou.

 

-Mas o que seu chefe falou disso?

 

-Ele tentou me persuadir a ficar. Ofereceu-me um novo cargo aqui na matriz, novo salário.

Mas eu já tinha tomado a decisão.

 

-Vejo nos seus olhos que sim. Espero sinceramente que seja uma boa oportunidade. Ninguém merece mais do que você. Confesso que vou sentir sua falta...

-Vou sentir a sua também, mas eu não vou estar em outra cidade ou outro país. Só não

vamos mais poder tomar este café aqui no terceiro, mas podemos nos encontrar sempre que

quisermos.

 

-Eu sei. Vou estar torcendo muito. Quando você sai?

 

-Pedi demissão hoje pela manhã, mas acredito que o processo ainda demore um pouco.

Planejei tirar uma semana de férias entre um emprego e outro também, por isso acho que só

começo na nova empresa na segunda semana do mês que vem.

 

-Que Deus ajude!

 

-Amém...

 

-Acabamos de tomar café depois de 45 minutos de conversa. Aquela notícia me deixou

perplexo. Não que eu não desejasse o melhor para Petrúcio. Muito pelo contrário! Eu o tinha

como um irmão mais velho. Sabia também que ele não iria sumir. Na verdade ele estaria

fisicamente até mais próximo do que antes, mas seria estranho não ver mais seu e-mail

listado em nosso diretório. Que profissional... Que amigo... Jamais vou poder retribuir tudo

que ele fez por mim. Imagino o quanto deve estar sendo desafiadora para ele também mais

esta mudança em sua vida. Que coragem... Não sei se eu faria o que ele fez, mas o admiro.

-Refeito da notícia, voltei à minha baia para me preparar para a avaliação anual de

desempenho. Pedrosa iria me chamar em 15 minutos. Na teoria, uma avaliação de

desempenho é o instrumento organizacional que lhe permite estar sempre se desenvolvendo

e, por conseguinte, produzindo melhores resultados para a empresa. São coletados feedbacks

de várias pessoas que trabalham junto a você, seu próprio chefe e, eventualmente, também o

cliente. Trata-se da chamada avaliação 360°, no qual todos são requisitados a dar opiniões

sobre seus pontos fortes e também aqueles carentes de melhoria. E claro que normalmente os

bônus salariais estão ligados ao resultado destas avaliações. No meu caso, eu poderia ter um

ganho de até 40% a mais de salário dependendo da minha performance apurada no período.

Isso tudo é na teoria... Na prática eu sabia que qualquer gerência tem um orçamento

predeterminado, que tem que ser respeitado e que não pode ser ultrapassado. Ou seja, mesmo

que se tenha todo um departamento com um superdesempenho, sempre é feito um ranking

para a chamada premiação. Obviamente, também, que este ranking, por sua vez, possui metas

baseadas em uma fórmula extremamente complexa que envolve resultados que nunca podem

ser cem por cento objetivamente apurados... Esta em geral é a maior barreira (e o maior

trunfo do chefe...) nas discussões entre comandantes e comandados nas respectivas reuniões

de avaliação de desempenho. A minha não foi diferente...

 

-Pedrosa era o tipo do chefe que eu admirava muito e que sabia que gostava de mim

também. Mas quando não tinha paciência para ouvir meus argumentos ou quando já tinha uma

opinião formada sobre o que seria discutido, se transformava em uma pessoa muito difícil

para contra-argumentar. Do tipo que ainda balança a cabeça para fingir que está

compreendendo e concordando com o que você diz, mas que, na prática, já tem a resposta

pronta, não importa o que seja discutido. Em minhas épocas de analista eu costumava ficar

revoltado com isso. Muitas vezes eu chegava até a treinar em casa, na frente do espelho ou

até mesmo com Tânia, antes de ir falar com ele alguma coisa relativa a salário ou condições

de trabalho. Quando ele me recebia, por mais que eu tivesse treinado, tudo saía diferente do

planejado... Entretanto, depois de passar algum tempo como gerente, começava a entender

um pouco mais como as coisas funcionavam. Existe uma dinâmica processual e política na

empresa que tem que ser respeitada. E preciso fazer parte do jogo para jogá-lo. Não julgo

meu chefe. Pelo contrário... eu o entendo...

-Terminamos minha avaliação do ponto de vista formal. Não fiquei com a melhor

avaliação que achei que ficaria, mas também não foi ruim. Ainda assim, Edson Pedrosa

parecia estar escondendo alguma coisa. Foi então que ele se reconfortou na cadeira e me deu

a única notícia que eu não esperava:

 

- Muito bem, Flick, agora que acabamos a sua avaliação, gostaria de lhe dizer que seu nome foi cotado para assumir um novo departamento que estamos montando aqui na empresa.

 

- Um novo departamento, chefe? Mas que departamento seria esse?

 

-O nome ainda não está definido, mas acreditamos que vá se chamar Escritório de

Projetos.36

 

-Escritório de Projetos? Mas qual o papel exatamente deste novo departamento?

 

-Estamos enfrentando momentos em que a empresa toda funciona cada vez mais por

projetos, Flick. Tanto externos quanto internos. Estamos indo bem, mas é preciso aumentar o

controle e melhorar a performance destes projetos. Você não concorda?

 

Era verdade... Pelo menos, de todos os projetos que gerenciei, nenhum teve sucesso completo envolvendo custo, tempo, escopo, qualidade e satisfação do cliente. Sempre tive algum tipo de problema...

 

- Concordo, chefe, mas como este departamento faria isso?

 

-Bem, Flick, isso eu não sei. Ficará a cargo do novo gerente responsável pelo

departamento. Você teria que parar de gerenciar projetos como vem fazendo, mas passaria a

ter controle sobre todo o portfolio de projetos da HAL. O que você me diz?

 

-Bem, chefe, nem sei o que dizer... Eu ainda não tenho bem a noção do que vem a ser isso,

mas...

 

-Ora, Flick, não se preocupe. Estamos falando de dar suporte aos gerentes de projeto, dar

manutenção à nossa metodologia, priorizar os projetos a serem empreendidos, controlar o

portfolio, coisas deste tipo...

 

-Coisas desse tipo? Mas, chefe, eu...

 

-Flick, não quero que você se sinta de forma alguma pressionado. Vou lhe dar um tempo

para pensar. Que tal até hoje à tarde?

-Até hoje à tarde? Mas, chefe, eu não...

 

-Então estamos combinados. Aguardo você aqui às 16h com sua decisão.

 

Aquela sensação de déjà vu passou pela minha cabeça. Uma nova oportunidade da qual eu não sabia absolutamente nada começava a bater à minha porta. Este cargo significava ter dois funcionários fixos, um estagiário e ainda uma promoção. Mas também significava mais responsabilidade, provavelmente mais pressão e certamente menos tempo. E claro que eu precisava falar com minha mulher antes de aceitar, mas só o fato de ter sido considerado já me orgulhava. Acabei falando com Tânia e com Petrúcio para poder me posicionar. Sentia-me como uma espécie de Scarlet O'Hara tendo que recomeçar do zero de novo, cheio de medos,

inseguranças e com o mundo me retrucando: "Frankly my dear, I don't give a damn..."37.

 

Tudo isso aconteceu há dois dias. O que posso lhes dizer é que sou o mais novo gerente do Escritório de Projetos da HAL... O que isso quer dizer exatamente? Bem, pode ser que a história seja assunto para um outro livro...

 

Mas não queria acabar este meu relato só falando de trabalho... Aliás, não queria acabar... Descobri com meu "guru" que quando mais se aprende é quando se tenta ensinar. Ele me mostrou também que é preciso coragem para se mostrar imperfeito e mais ainda para errar.

Aprendi com minha filha que a ambição é importante, mas que os valores não devem mudar. Rir é fundamental... Principalmente nos momentos difíceis. Porque de nada adianta chorar...

 

Aprendi com Tânia que a base que temos um no outro é forte porque é preciso compreensão para amar. Amores assim são mais saborosos não só pela história que trazem consigo, mas também pelo que traduzem em um simples olhar...

 

Aprendi comigo mesmo que gerenciar não é fácil, porque estamos lidando com pessoas, que por definição são diferentes, além de nós mesmos. Exige autoconhecimento, disciplina e vontade de acertar. A maior alegria não está em conseguir, mas sim em sempre lutar. Tudo que a vida espera de nós é coragem...

 

Infelizmente, não posso mais escrever agora... Preciso correr... Meu novo chefe está me chamando...