Gerente Também é Gente
23. Eu Tenho a Força
O homem não tem ouvidos para aquilo que a experiência não lhe deu acesso.
FRIEDRICH NIETZSCHE
No dia seguinte, revitalizado, fui cortar o cabelo. Minha mulher nunca gostou do meu cabelo muito curto, mas já estava mais do que na hora de cortar. Uma das coisas que mais me dá prazer é acordar de manhã com a sensação de não precisar pentear. Meu barbeiro chama-se Luigi Carbone e é daqueles que possui o dom especial de fazer o que faz. Sempre me sentia bem ao cortar com ele. É o tipo do profissional que entende o cliente e age de acordo com o humor de quem está sentado naquela cadeira. Em dias tristes, fica calado e faz apenas seu trabalho. Em dias alegres, fala sobre tudo e sobre todos. Desde futebol até política internacional e economia. Já tem seu patrimônio montado e mais do que tempo para se aposentar. Mas trabalha por prazer. Gosta do que faz e trabalha bem. Difícil imaginá-lo parado. Esse é meu barbeiro... Pedi para que cortasse meu cabelo até que ficasse parecido com o de George Clooney. Sempre lhe peço isso. Sua resposta também sempre é a mesma. Ele diz que é barbeiro e não santo. Ainda não sabe fazer milagres...
Depois daqueles quase três anos como gerente, eu começava a entender um pouco mais sobre tudo que Petrúcio havia conversado comigo logo depois da minha nomeação. De certa forma, várias outras lacunas ainda permaneciam abertas, como por exemplo as características que se espera de uma figura com a minha responsabilidade. Vinha ganhando experiência, mas não me sentia exatamente preparado para todo e qualquer tipo de projeto. São várias as habilidades necessárias e sua aplicação também é variável em função da situação. A analogia que vinha em minha mente era a de um verdadeiro dançarino, ao melhor estilo Gene Kelly. Não importa a parceira e o contexto, tem que saber sapatear, cantar, mostrar ritmo, objetividade, passar a mensagem e ainda agradar a plateia (e tudo isso debaixo da chuva...). Conter e soltar a emoção e a técnica na medida certa. Além disso, enquanto técnico, eu sempre almejei ser amigo de todos, evitar desentendimentos e ficar quieto no meu canto. Ser gerente é muito mais difícil. Muitas vezes era preciso preferir o conflito à harmonia, a responsabilidade à popularidade, o resultado à posição. Que coisa difícil!
Mas novos desafios estavam por vir... Tive chance de conversar com meu "guru" pessoalmente mais uma vez naquela época. Descobri que ele também estava com seus próprios problemas, já que sua família, apesar de adaptada ao sul, ainda preferia o estilo de vida de nossa cidade. Contei para ele tudo que aconteceu no projeto e que eu ainda não tinha tido a chance de narrar. Ele me deu parabéns por várias das decisões tomadas, mas principalmente pela coragem de tomá-las. Eu lhe disse a falta que senti dele em vários momentos e sua única resposta foi:
-Flick, eu apenas lhe dei algumas dicas com base na minha experiência. As respostas foi você quem achou. Este é o mais importante aprendizado e estou muito orgulhoso de você.
Este cara é incrível. Jamais teria conseguido sem ele e sem aquele famigerado guia que ele me deu. No início achei aquele livro muito, mas muito entediante. Com o tempo, fui aprendendo a usá-lo. Interpretá-lo como uma referência e não como um romance, que normalmente é lido do início ao fim. Virou o principal livro da estante em minha baia.
Aliás, foi neste mesmo dia, em que arrumava minha estante, que recebi uma ligação totalmente inesperada:
-Alô?
- Bom dia, Flick, aqui quem fala é Juvenal.
Juvenal? Será que estou sonhando? O patrocinador do meu primeiro projeto me ligando do Olimpo?
- Bom dia, Juvenal. Há quanto tempo hein? Posso fazer alguma coisa por você?
-Você poderia vir até aqui a minha sala por um instante?
-Claro que sim, Juvenal. Estarei aí em cinco minutos.
-Obrigado, estou aguardando-o.
Desligamos. Juvenal me chamando para uma reunião em sua sala? E de forma tão educada? Fechei minha baia o mais rápido que pude e me dirigi ao décimo andar. Quando falo que fechei minha baia, quero dizer que tranquei tudo e tirei todos os papéis de cima da mesa. Estávamos passando, naquela época na empresa, pela chamada "Operação Mesa Limpa", onde nada ou nenhum documento pode ser deixado desassistido em sua estação de trabalho, sob risco de confisco pela segurança do prédio. Normas ligadas à política de qualidade, você sabe...
Passei voando por Lídia, que nem deve ter entendido direito. Bati três vezes na porta, que estava fechada. Uma voz rouca mandou que eu entrasse. Ao melhor estilo Juvenal, ele foi direto ao assunto:
- Bom dia, Flick. Obrigado por ter vindo. Chamei-o aqui porque estamos com um sério problema em uma de nossas maiores contas, a Lightning Corp. Por favor, sente-se e fique à vontade.
Jamais vou ficar à vontade na frente de Juvenal. Mesmo assim, depois da experiência que tive com Panfilho, passei a respeitá-lo muito mais apesar de sua postura agressiva e autoritária. Ele era um patrocinador efetivo. Isso eu não podia negar. Sentei-me e aguardei que prosseguisse:
- Como lhe disse, fechamos um contrato com a Lightning Corp há nove meses. A renda do projeto como um todo era de US$ 20 milhões, com uma margem de lucro projetada de 25%.
- Poxa, excelente. Parece ser uma boa margem.
- Sim, uma boa margem. Só que o projeto foi muito mal conduzido até agora.
- Mal conduzido?
-Sim. Escalamos um de nossos mais experientes gerentes de projeto, o Marcelo Bezerra.
Ele tem a fama de ser disciplinador, mas não se deu bem em termos de relacionamento com o
cliente. Como sabemos, Flick, o relacionamento em um projeto é fundamental para que se
consiga determinadas coisas. E Marcelo não conseguiu. Vamos afastá-lo deste projeto, a
pedido do cliente.
-A pedido do cliente?
-Isso mesmo. Você já tem ideia da razão de eu o ter chamado aqui?
Eu já tinha... Não estava acreditando, mas já tinha... Marcelo Bezerra tinha pelo menos cinco vezes mais tempo de gerência do que eu. Muito mais durão do que eu... O projeto valia exatamente dez vezes mais do que o último que gerenciei. O que ele esperava que eu fizesse?
-Bem, imagino que quer que ajude o Marcelo de alguma forma?
-Ajudar o Marcelo? Não, Flick. Eu lhe disse, o Marcelo está saindo. Quero que você assuma este projeto no lugar dele.
-Assumir o projeto? Juvenal, com todo o respeito, os valores envolvidos são muito altos
e...
-Flick, a razão de o ter chamado aqui é que confio em você. Gostei muito do seu trabalho
na TASA e tenho ouvido muitas coisas boas em relação ao projeto da Telefon. Tenho muito
bom relacionamento com Clara Nico e ela foi só elogios a você. Conversei com Edson
Pedrosa também e ele me assegurou que você estaria pronto para um desafio desse tipo.
Você me conhece. Não quero perder muito tempo. Preciso resolver isso rápido e o cliente
espera que o projeto seja reiniciado o quanto antes. Estamos perdendo dinheiro, Flick. Posso
contar com você?
-Existem certos momentos em que toda a sua vida passa por sua cabeça em uma fração de
segundos. Um verdadeiro flashback de pensamentos desordenados que o levam a concluir
que estamos sempre indo para frente. Não importa o quanto queremos às vezes voltar. O
caminho é um só. Por isso é melhor aproveitar cada momento vivido. Acreditar que a melhor
época da vida está sempre por vir. "There’s no day but today". Se você está se perguntando
por que este momento de filosofia barata no meio da pergunta de Juvenal, a resposta é bem
simples: fiquei petrificado de medo de aceitar. Mas tinha que dizer alguma coisa. Juvenal
contava comigo. Já tinha aprendido tanto, por que não aprender um pouco mais? Do medo,
veio a força necessária para responder:
-Ok, Juvenal. Em primeiro lugar, obrigado por confiar em mim. É claro que gostaria de
assumir este projeto.
-Excelente. Sabia que podia contar com você. Agora vamos ao que interessa. Preciso de
um diagnóstico do projeto em minha mesa ainda esta semana. Você acha que consegue?
- Diagnóstico? Marcelo não vai passar um status atualizado?
- Vai. Mas quero ouvir a sua opinião. Quero que investigue o projeto em todos os seus detalhes, sob todos os pontos de vista. Precisamos traçar cenários para poder decidir como continuar com o projeto. O contrato você pode pegar com a Lídia. Todos os demais dados, diretamente com Marcelo e também com a equipe. Na quarta-feira da semana que vem devemos ter uma reunião com a Lightning. Estrategicamente, eu não gostaria de estar presente nesta reunião ainda. Gostaria que você fosse representando a HAL. Não só para se apresentar oficialmente como gerente, mas também para que possamos sentir o nível de tolerância deles. Eu não conheço pessoalmente o cliente, imagino que você também não. Seu nome é Pablo Barril. Vamos ver como você se sai, antes de gastarmos qualquer outro cartucho. Mas para que tudo isso aconteça, preciso de um diagnóstico da situação atual aqui em minha mesa até o fim da semana. Estamos acertados, Flick?
- Sim... Estamos acertados...
Juvenal tinha falado tanta coisa, que confesso a vocês que fiquei confuso. Primeiro eu tinha que conversar com o Marcelo, entender como estava o projeto. Ao mesmo tempo tinha que ler o contrato, conversar com a equipe, fazer uma apresentação para Juvenal com o diagnóstico da situação e ainda me preparar para uma reunião da pesada com o cliente.
Onde fui me meter? Por que eu disse sim? Onde estava com a cabeça?
Agora era tarde... Saí de sua sala, peguei o contrato com Lídia e fui estudar. Antes de conversar com o gerente que estava sendo literalmente retirado, eu precisava entender sobre o que era o tal projeto de US$ 20 milhões.
Meu nome é Flick. Leonardo Flick...
Fiquei repetindo isso para mim mesmo, como uma espécie de mantra para crescer a força interior. Sou o mocinho, não o bandido... O que é que o mocinho faz quando está em perigo, tudo parece conspirar contra e não existe salvação?
A seguir cenas dos próximos capítulos...