Gerente Também é Gente
3- O Primeiro Projeto a Gente Nunca Esquece...
Existe algo mais importante que a lógica: é a imaginação.
ALFRED HITCHCOCK
Juvenal era um de nossos mais bem sucedidos gerentes de venda. Sua sala era no famoso décimo andar da empresa, mas conhecido como "olimpo", " porque era dali que saía todo o faturamento da empresa. Logo, era ali que habitavam os "deuses" que faziam com que a HAL prosperasse. Nem mesmo a presidência ficava no décimo. Nós, pobres mortais, ficávamos no quarto andar. Por favor, não me entenda mal. Não tenho nada contra vendedores. Apenas os considero assim como uma espécie de "lado negro da força"... Mas reconheço que esta é uma visão errada e estereotipada. Apenas porque passei a vida inteira do outro lado do tabuleiro. Na verdade até os respeito muito. Afinal são eles que trazem o dinheiro para a empresa e fazem a roda girar... E eu estava a ponto de conversar com um de seus maiores representantes; o Darth Vader em pessoa: Juvenal Cardoso.
Assim que saí do elevador me senti em outra empresa. Não é a toa que existem tantas histórias sobre o décimo andar. Até o cheiro é diferente. A cor do carpete é diferente. As pessoas são diferentes... Muita agitação para o meu gosto. Procurei imediatamente a secretária do andar. Ela atendia a toda rede de vendedores e certamente poderia me dizer como encontrar o Juvenal.
- Bom dia. Estou procurando o Sr. Juvenal Cardoso e...
-Um momentinho, por favor.
O telefone dela tocou na mesma hora... incrível...
Dois minutos depois:
-O Sr. Juvenal? A quem devo anunciar?
-Meu nome é Flick. Leonardo Flick. Sou do departamento de suporte. Vim falar com ele a respeito do projeto...
-Ok. Mais um momentinho por favor.
O telefone tocou de novo... Já estava começando a ficar com raiva do aparelho...
Neste meio-tempo passou um outro vendedor que eu não conhecia e comentou:
-Lídia, por favor não esqueça de ligar para o departamento de suporte para agendar uma reunião sobre aquele problema com o nosso módulo de estoque. Já estou cansado de cobrar. Nunca vi departamento tão ineficiente....
Ineficiente? Era do meu departamento que ele estava falando! Quem ele pensa que é?! Enfim, foco!
-Pois bem, o senhor dizia que queria falar com?
-Com o Sr. Juvenal Cardoso por favor....
-Ah sim, o Sr. Juvenal está em reunião neste momento. Acredito que deva durar mais uma meia hora. O senhor gostaria de esperar?
-Sim, gostaria (o que mais eu poderia fazer?). Obrigado....
Sentei-me em um sofá extremamente confortável e esperei. Acho que aqui no décimo eles medem o tempo de forma diferente. Uma hora não tem definitivamente 60 minutos. Enfim, o fato é que esperei quase uma hora e meia para ser atendido. Finalmente após esse tempo, a secretária me chamou e pediu que eu me dirigisse à sala de Juvenal.
A chegada a sua sala foi marcante. Não sou do tipo que gosta de descrever ambientes detalhadamente. Existem autores que gastam páginas e mais páginas em seus livros descrevendo o formato da "sombra de uma jarra em cima da mesa lateral inglesa, com cadeiras Luis XV, em uma sala de jantar colonial, quando bate a luz do sol do meio-dia". Eles capricham em explicar cada canto do cômodo, o teto de gesso e todos os outros detalhes que compõe o ambiente. Reconheço a importância disso em determinados enredos. Mais ainda, reconheço o esforço do autor de tentar traduzir a sua visão para o leitor. Não deve ser fácil... Infelizmente (ou não...) esse não é meu estilo. Também não acredito que seja importante para a estória que estou lhes contando. A única exceção que me permito é no caso da sala de Juvenal. Primeiro, ela devia ter pelo menos o dobro do tamanho da sala do meu chefe. Segundo, tinha uma vista muito mais privilegiada. Juvenal tinha o imenso Parque Nacional bem à sua frente com um enorme chafariz quase que respingando em sua janela. A sala tinha quatro armários colossais que na hora julguei que fossem feitos de jacarandá ou peroba. Uma mesa com dois computadores, outra de reunião, uma televisão de 42 polegadas, um aparelho de DVD, outro de vídeo, dois quadros negros e alguns vasos de planta bem cuidados. Sua mesa retangular não estava exatamente arrumada. Nela estavam dois celulares carregando, seu laptop aberto e vários papéis espalhados. Não chegavam a formar uma pilha, mas passavam a sensação de desordem. Juvenal estava em pé, de costas para aporta, falando ao telefone, com outro telefone tocando e várias mensagens piscando na tela do computador a sua frente. Tendo esta visão pude compreender melhor o sentido da palavra multimídia. Ele pediu apenas com um gesto que eu me sentasse e aguardasse. Neste meio-tempo continuou no telefone. Quase ninguém mais usava terno na HAL. Eu mesmo usava apenas uma roupa social há anos. A empresa, com o sinal dos tempos, também começou a mudar os padrões de vestimenta que exigia de seus funcionários. Apenas gerentes e diretores é que iam de gravata. Era o tipo da regra que não estava escrita em lugar nenhum, mas era facilmente perceptível nos corredores. No meu caso, nunca fui muito fã de terno e gravata mesmo... Aliás, não há nada mais agressivo do que usar gravata. Meu ódio é tanto, que certa vez fui tentar estudar as razões históricas por trás da utilização daquele pedaço de tecido que mais parece um babador. Encontrei várias explicações plausíveis. Umas que atribuíam sua origem ao frio, outras à etiqueta. A que mais me convenceu foi a que dizia que a invenção era para cobrir os botões da camisa social. Ora, é preferível ter os botões à mostra do que sujar aquilo toda vez que vou comer...
Enfim, o terno de Juvenal era impecável, seu cabelo tinha alguma espécie de gel gosmento, mas que, no todo, acabava se justificando. Um vendedor nato... Só o nariz é que era estranho. Totalmente desproporcional ao corpo. Na minha opinião, aquele nariz deveria pagar imposto. Certamente respirava mais que os outros. Seu palavreado era uma aula de etiqueta. A cada três palavras que dizia, uma era aos berros. Não sei com quem ele estava falando, mas não poderia ser com um cliente. Depois de uns dez minutos de conversa (e eu aguardando...) ele fez mais um gesto pedindo para que eu aguardasse um pouco mais. Enfim, depois de mais 8 minutos, ele desligou.
- Pois bem, meu caro (pensei que ninguém mais falasse assim, mas estava enganado...). O que posso fazer por você?
-Bom dia, Sr. Cardoso. Meu nome é Flick e eu estou aqui para...
-Desculpe, como é seu nome?
-Flick... Leonardo Flick. Sou do departamento de suporte.
-Departamento de Suporte? Aquilo é um horror! Ainda bem que você está aqui. Você veio
a meu pedido para conversar sobre os problemas no módulo de estoque não é?
-Não... Quero dizer, não exatamente... Eu sou o novo gerente do projeto SAS501 da
TASA. Estou aqui porque meu chefe pediu que eu...
-SAS501?!!?!? Finalmente alguém veio me dar o status do projeto. Pois muito bem, como
estamos?
-Na verdade eu vim aqui para poder pegar informações sobre o projeto e sobre a TASA.
Você sabe, para poder dar início aos trabalhos.
-Início?!?! Você só pode estar brincando! Este proj eto era para ter sido iniciado há um
mês! Dentro de três meses ele tem que estar terminado. Foi isso que acordamos com o
cliente. Não acredito no que estou ouvindo. Quem é o seu chefe?
-O nome dele é Edson Pedreira. Foi ele quem pediu que eu viesse até aqui conversar com
você e...
-Conversar?! Não temos mais tempo!! Só podia ser coisa do Pedreira mesmo... Como
sempre, atrasados... Olha Lick...
- Não é Lick. E Flick.
-Que seja. Espero que este projeto esteja terminado em três meses. Foi isso que
acertamos e foi isso que foi vendido. Temos que faturar dentro deste período ou vamos ficar
mal com este cliente, que é estratégico para nossa empresa. Não sei o que Pedreira lhe pediu
para fazer ou deixou de pedir. O fato é que quero você e sua equipe dentro daquele cliente
hoje ainda. E gostaria também de um status semanal sobre o projeto. Quero acompanhar de
perto os resultados. Estamos entendidos?
-Mas... existe algum tipo de documento explicando o que é o projeto, ou como está
formada a equipe?
-Meu Deus!! Você não disse que era o gerente? Você já leu o contrato? Não conhece sua
própria equipe? Eu estava preocupado com o projeto. Agora estou muito preocupado! Não
tenho mais tempo para conversas deste tipo. Espero um relatório semanal em minha mesa
todas as segundas pela manhã sobre o andamento do projeto. Você sabe, o básico: andamento
do cronograma, quanto já entregamos, previsto x realizado, posição do orçamento e como
anda o humor do cliente. E por favor, não me decepcione (já tinha ouvido isso
recentemente...). Não quero ter que acionar os altos escalões da empresa por mais um
problema com o departamento de suporte, ok? Até logo...
-Incrível. No momento em que me levantei e saí de sua sala me senti como uma garrafa
vazia jogada ao mar (boiando e esperando encontrar alguém....). Se prepotência tivesse um
nome, este seria: Juvenal. Mas o fato é que eu tinha que começar por algum lugar. Já sabia
pelo menos que tinha três meses para acabar. Isso já era um começo. Precisava ir até o
cliente, mas não poderia ir sem antes saber de que se tratava o projeto. Em outras palavras
precisaria ler o contrato. Tinha esperanças de que ele pudesse me dar mais pistas, mas sua
delicadeza foi tão grande que não tive coragem de perguntar. Tive a ideia de voltar à pessoa
que normalmente mais sabe sobre tudo que acontece em todos os departamentos da empresa:
a secretária. Alguém havia dito que seu nome era Lídia e eu guardei.
-Perdão.... Lídia?! (falei com todo o charme que achava que tinha...)
-Sim?! Conseguiu falar com o Sr. Juvenal?
- Consegui sim. Obrigado. Agora eu estaria precisando de um documento e o Sr. Juvenal sugeriu que eu tentasse conseguir com você (uma mentirinha bem colocada não faz mal a ninguém...). Estou falando do novo contrato que temos com a TASA. Você por acaso sabe como eu poderia obter uma cópia?
- TASA? Espere um momento, por favor...
Ela consultou seu computador e em 1 minuto ela localizou o arquivo do contrato.
-Está aqui! Se você quiser, eu posso lhe enviar uma cópia eletrônica.
-Isso seria excelente. Obrigado.
Saí do décimo andar com uma sensação muito interessante. Tinha um objetivo, mas não sabia direito de que se tratava. Tinha um prazo e um orçamento que eu deveria respeitar, mas que não fui eu que planejei. Tinha até provavelmente um time, mas não conhecia ainda ninguém. E já havia pelo menos três pessoas com expectativas altíssimas e me cobrando em relação ao resultado (Juvenal, meu chefe, e, muito provavelmente, o cliente). Muito legal esse negócio de gerenciar projetos...
Um homem ou um rato? Um homem ou um rato? Decidi que era melhor não me lamentar e seguir adiante. Uma promoção não cai do céu todos os dias... Recebi a cópia do contrato por e-mail. Lídia era, sem dúvida, muito eficiente. Li e reli com cuidado. Pude ter uma ideia um pouco melhor do escopo do projeto proposto. Existiam vários detalhes que não estavam claros e outros que eu não tinha competência técnica suficiente para entender. Comecei a achar que não era a melhor pessoa para gerenciar aquele projeto específico.
Será que conhecer tecnicamente em detalhes a solução oferecida não faz parte do papel do gerente?
Precisava conhecer minha equipe. Precisava conhecer o cliente. Liguei e marquei uma reunião com a pessoa que assinou o contrato no dia seguinte. Tentei conseguir mais informação internamente na HAL, mas foi impossível. Todos estavam muito atarefados para poder ajudar. Mesmo meu companheiro de baia, Farhad, não tinha ideia do projeto... Não o culpo. Eu também não teria.... Aliás, estranhei um pouco o modo como o Farhad conversou comigo. Parecia que não estava entendendo bem meu novo papel. Ele não aceitou ficar com a parte do trabalho que me cabia (o famigerado relatório com os bugs...) e isso acabou ficando comigo também, como um último legado a ser feito em paralelo.
Nem reclamei... Na verdade era isso que eu gostava de fazer. Era isso que eu sabia fazer... Gerenciar projetos?! Quando? Onde? Como? Por quê?
Na manhã seguinte fui ao cliente. Com pouca informação, mas muita disposição. Sentei para conversar com a pessoa que assinou o contrato, mas que depois de meia hora de conversa descobri que se tratava apenas do chefe de compras da TASA. E que não tinha a menor ideia do andamento do projeto. Ele sugeriu que eu conversasse com o verdadeiro demandante. O setor de administração central. Por sorte ele foi muito cordial e objetivo. Levou-me diretamente à pessoa certa: a secretária do departamento de administração.
Dona Helena era uma senhora muita bem apessoada (eu queria dizer conservada, mas acho agressivo), por volta dos 60 anos de idade, mas que pareciam 55... Vestia-se muito bem, conforme meu paradigma de secretárias executivas, e usava óculos da cor rosa. Ela recebeu-me de maneira muito formal e ao me apresentar, deu-me a melhor dica que alguém havia dado até agora:
-Sr. Flick, posso lhe dar uma sugestão?
-Claro que sim. E pode me chamar de Flick apenas.
-Desculpe me meter. Mas sabe como é... Conheço este contrato desde que foi assinado. O
Sr. Marcondes (chefe do departamento de administração central) está, digamos, muito
infeliz com o andamento do projeto e não vai gostar de saber que o senhor, como gerente,
não está cem por cento informado sobre a situação do mesmo. Na verdade, ele esperava um
status atualizado do projeto hoje pela manhã.
-Ok, Dona Helena, mas nós não temos uma equipe alocada aqui trabalhando?
-Veja bem, Sr. Flick. Vocês têm e não têm. Já estiveram dois rapazes aqui analisando
nossos sistemas e fazendo diversas perguntas. Mas até agora, de concreto, nada foi feito. E
mesmo estes dois rapazes sumiram depois de um tempo. Não sabemos nada sobre o
andamento do projeto e o Sr. Marcondes está um pouco tenso a respeito. Talvez seja
interessante o senhor voltar para sua empresa, pegar mais informações, trazer a equipe de
volta e depois fazer novo contato. O que o senhor acha?
-D. Helena, acho que a senhora tem toda a razão. Muito obrigado por seus conselhos. Vou
fazer exatamente o que a senhora acabou de sugerir. Só lhe peço apenas uma coisa: a senhora
poderia, por favor, informar ao Sr. Marcondes que estive aqui, que o projeto estará entrando
nos trilhos e que no início da semana faço questão de me apresentar para lhe passar uma
posição?
-Claro que sim. Pode deixar.
-Muito obrigado.
Incrível... Quanto mais eu cavava, maior ficava o buraco (melhor parar de cavar? Por que mesmo aceitei este cargo?). Pelo menos tinha descoberto um novo anjo da guarda: Dona Helena....
Voltei para a HAL da mesma forma que tinha saído. Mas desta vez sabia o que tinha que fazer. Precisava conhecer a equipe. Entender qual a situação do projeto. Fui falar com meu chefe. E com outros chefes de departamento também. Dois dias depois de peregrinações em diversos andares e departamentos (agora sei como se sente uma bola de ping-pong...), descobri que a equipe fora formada há um mês por dois profissionais de setores diferentes e que não estavam integralmente alocados no projeto. Em outras palavras, eles estavam no projeto, mas mantinham também suas funções regulares em seus respectivos setores. Como o projeto começou sem um gerente oficial, ambos voltaram para suas atividades do cotidiano, deixando o projeto abandonado.
Fantástico! Que belo começo! Agora sim eu estava satisfeito de ter aceitado este cargo!
De posse destas constatações, minha primeira providência foi marcar uma reunião com os dois. Mas, para isso, tinha que convencer seus chefes de que eles deveriam participar desta reunião. Para tanto, decidi convocar seus chefes também. De forma a aproveitar o momento, achei por bem convocar também meu chefe (nunca é demais buscar apoio...). Pois bem, marquei a reunião. Nunca havia feito isso antes. Nunca tinha precisado. Não se faz reunião com máquinas... Mas já participei de tantas reuniões na vida, que organizar uma não poderia ser tão diferente. Reservei uma sala para sete pessoas. Uma a mais do que necessário. Mas é sempre bom ter espaço... Pedi também um lanche para o caso de atrasarmos um pouco e mandei o convite por e-mail para todos. Título: "Reunião sobre o projeto SAS501. Urgente. Não faltem".
A reunião estava marcada para começar às 14h. Tudo estava preparado, exceto eu. Não sabia exatamente o que abordar ou como abordar. Sabia que precisava decifrar o status do projeto, precisava conseguir de volta os recursos, mas não sabia exatamente como conseguir isso.
As 13h30 eu já estava na sala (para o caso de alguém chegar mais cedo). Minha ansiedade ia crescendo à medida em que os minutos iam passando. As 14h eu comecei a andar pela sala. Ninguém ainda havia chegado. Às 14:15h ouço um barulho na porta. Levanto-me para receber... Era o pessoal da manutenção pedindo para ver um problema com o ar condicionado. As 14:30h chegou o lanche... Comecei a comer os biscoitos... Se você esteve no planeta nos últimos 10 anos, certamente viu ou pelo menos já ouviu falar da série "Friends". Pois bem, naquele momento me senti como um mistura de Joey e Phoebe, completamente sem saber como proceder.
Até às 15:30h eu permaneci dentro daquela sala. Não me levantei nem para ir ao banheiro. Ninguém dos cinco convocados compareceu. Simplesmente ninguém.
Será que me enganei e marquei a reunião em outro horário? Em outro dia? Será que eu sou de Marte? E todo o resto do mundo é de Vênus?
Fui checar o e-mail que eu havia enviado. Não tinha dúvida, eu marquei corretamente. Mas quem eu quero enganar? Nem meu próprio chefe apareceu.... O que poderia ter acontecido? Porque ninguém dava a mínima para este projeto? Eu tinha marcado uma reunião que era fundamental, tinha convocado as pessoas corretas; onde foi que eu errei? Isso não podia continuar assim... Eu tinha que tomar uma providência. Meu novo cargo estava em jogo, meu futuro como gerente de projetos estava em jogo (e eu ainda nem acabei aquele relatório....). Para o mundo que eu quero descer...