Gerente Também é Gente

André B. Barcaui · Capítulo 22 de 31

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Gerente Também é Gente

20. Nem Tudo São Flores

 

Quando a única ferramenta de que você dispõe é um martelo, todos os problemas

começam a parecer pregos.

 

ABRAHAM MASLOW

 

Quase chegando ao final do projeto minha maior preocupação eram os custos. Tudo indicava que cumpriríamos o prazo, até com uma ligeira gmargem favorável de uma semana. Mas financeiramente o projeto não ia bem. Conforme minha previsão de meses anteriores, o projeto iria gastar cerca de 15% mais do que o planejado. O que significava, em última análise, que teríamos prejuízo. E claro que mensalmente eu passava o status financeiro por e-mail para o comitê. Aliás, a cada reunião eu sempre abordava este ponto através da técnica de Análise de Valor Agregado, conforme demonstrei para vocês anteriormente. Mas sempre também reinava a esperança de uma recuperação qualquer, por mais que eu dissesse que não via solução. Executivos parecem acreditar em contos de fadas... Na vida real, projetos se parecem mais com a história do Shrek. Aliás, depois de algum tempo de convivência, percebi que meu chefe lembra demais o personagem principal do filme, com aquele barrigão. Clara Nico podia muito bem ser a Princesa Fiona e Panfilho... bem, o personagem da história que sobrou... Acho que eles me consideravam um pessimista o tempo todo. Mas não fui. Tentei ser realista o máximo que pude. Em nossa última reunião de comitê antes do fim do projeto, mostrei novamente o quadro final. Evidentemente que eles não gostaram. Daí para frente não dá para descrever como foi o encontro para apresentação dos números finais do projeto...

 

Não vou entrar nos detalhes do massacre, digo, da reunião... Seria muito desinteressante. Mas se vocês já leram algum livro de Stephen King, fazem ideia do cenário. Imaginem: uma cidade pequena, um dia de chuva, uma empresa, poucos funcionários, final da tarde, uma escada em espiral que leva a uma sala de reunião...

 

A escada na verdade não existia. Usei o elevador. Mas achei que ficaria melhor para compor o cenário...

 

A vítima começa a subir as escadas bem devagar... Uma música suave porém contundente já pode ser ouvida. As luzes se apagam... Ele olha para cima como que pressentindo o pior... Um trovão pode ser ouvido ao longe... Ele continua... A música cresce, as luzes voltam a acender... vem o impacto! As punhaladas o alcançam de todos os lados. Os carrascos podem não saber por que estão batendo, mas a vítima sabe por que está apanhando... Todos usavam máscaras e ele não podia ver seus rostos. Mas sabia quem eram... seus chefes... Gritos podem ser ouvidos a andares de distância. Quando seus algozes finalmente se satisfazem, eis que sai a vítima... Suas roupas estão rasgadas e amarrotadas.... Ele se arrasta pelos corredores até sua pequena baia e escreve, com seu próprio sangue, a ata de reunião... The End.

 

Até hoje ainda guardo as cicatrizes. Foi uma noite e tanto... Panfilho naquele momento até que foi útil. Sempre minimizava, dizendo que ganharíamos dinheiro na próxima vez, que este tinha sido um projeto mais estratégico, que fortalecemos nossa relação com o cliente e outras frases do gênero. O fato é que saí da reunião arrasado. Queria comentar com eles sobre a festa de encerramento que estávamos planejando junto à Telefon, mas foi impossível. Só tive forças para fechar minha baia e ir para casa. Foi quando meu chefe, que achei que já tivesse ido embora, chamou-me para uma conversa. Eram 22:13h...

 

-Está cansado, Flick?

 

Cansado? Estava completamente morto! Será que ele não percebeu?

 

-Claro que não chefe, você precisa de mim?

 

- É que preciso conversar com você um assunto sério. Você teria 10 minutos antes de ir para casa?

 

Assunto sério? Quer dizer que o que conversamos até agora não foi sério?

 

-Claro que sim, chefe. Vamos para sua sala?

-Não. Podemos ficar aqui em sua baia mesmo. Já não há quase mais ninguém na empresa a

esta hora.

 

-Você está me preocupando, chefe... Aconteceu alguma coisa? Quero dizer, alguma coisa mais do que o estouro do orçamento do projeto?

 

- Não, Flick. Fique tranquilo. Na verdade, você tem feito um excelente trabalho neste projeto e estou muito orgulhoso de você. O problema é outro.

 

Outro problema? Não agüento mais... A essa altura eu já me sentia mais como um quadro de Pablo Picasso no período cubista....

 

-Então diga, por favor.

 

-O problema é com o Carlos.

 

-Carlos? Carlos Souza? Da minha equipe?

-Ele mesmo.

 

-Tem sido um apoio e tanto. Na verdade sua experiência me ajudou muito mais do que

posso descrever. Meu plano é até redigir um e-mail ao final do projeto para o chefe de seu

departamento agradecendo e...

 

-O problema é exatamente esse Flick. Não existe mais departamento.

 

-Como assim não existe mais?

 

-Eu não lhe contei antes e você também tem passado mais tempo na Telefon do que aqui,

mas o departamento de Carlos foi extinto.

 

-Como assim extinto?

 

-Realocamos suas funções e redistribuímos alguns funcionários para outros setores. O

departamento não se justificava mais dentro do processo de reengenharia que implantamos na

empresa. O mercado como um todo está cortando os custos. A HAL também teve que se

adequar.

-E o Carlos? Para onde foi realocado?

 

-Ele não foi, Flick.

 

-Como assim não foi? O Carlos é um de nossos melhores e mais antigos funcionários.

Certamente ele pode ser útil em outros departamentos e...

 

-Ele vai ser demitido, Flick.

 

-Demitido? Mas chefe, ele tem sido de inestimável valor no projeto. Deve haver alguma

outra solução. Afinal, ele tem muitos anos de HAL e...

 

-Tudo isso já foi pensado, Flick. Ele simplesmente não se encaixa na nova organização.

 

-Não se encaixa? Você deve estar brincando. O cara é fora de série! Respeitado por todos os colegas, conhece todo mundo aqui dentro.

-Eu sei, Flick. Ele entrou até mesmo antes de mim na HAL. Tudo isso foi analisado e

levado em consideração. A verdade é que até pelo tempo que tem de casa, ele será

convidado a sair.

 

-Convidado a sair? Como assim convidado a sair? Ninguém convida ninguém a sair. E no

mínimo falta de educação!

 

-Eleja tem muito tempo de casa, Flick. A empresa acha que já está na hora de se

aposentar. Estamos passando por um processo grande de renovação e o Carlos não fará parte

da reestruturação.

 

-Mas chefe, esqueça a lógica por um minuto. Não é possível que seja só isso que importe.

O Carlos é um excelente funcionário. Passa segurança para os mais jovens que estão

trabalhando com ele. No meu caso, nem sei se conseguiria ter chegado até este período final

do projeto sem sua força. Ele me ajudou não somente uma, duas, mas várias vezes. Não é

possível que não enxergue isso.

 

-Flick, escute aqui, a ideia não me agrada nem um pouco também. Aliás, conheço o

Carlos há mais tempo do que você. Sei que sua contribuição tem sido fabulosa. Mas são as

regras da empresa. Nem sempre concordamos com elas. Estamos todos em um mesmo barco.

Temos que saber lidar com momentos como estes também.

-Não consigo entender... Eleja sabe disso? Alguém falou com ele?

 

-Este é outro ponto, Flick. Como o departamento como um todo será desintegrado, o chefe

dele acabou pedindo demissão também e já está fora.

 

-E quem vai contar para ele então?

 

-A diretoria pediu que eu fizesse isso, Flick.

 

Fez-se uma pausa involuntária neste momento. Tanto eu quanto ele ficamos apenas olhando um para o outro.

 

-Mas você não é o chefe direto dele. Nunca foi. Por que lhe pediram para fazer isso?

 

-Porque o único chefe que ele tem agora, Flick, é você. E mesmo assim, apenas durante o

tempo que durar o projeto. Após o projeto ele estará fora. Como eu sou seu chefe direto, me

pediram para fazê-lo.

- Quando você vai contar para ele?

 

-Não sei, Flick. É por isso que queria conversar com você. Queria que você fosse o primeiro a saber. Além disso, queria ouvir sua opinião sobre quando devemos falar com ele.

 

-Chefe... Posso ser 100% honesto com você?

 

-Claro que sim, Flick. Deve.

 

-Eu acho que eu deveria falar com ele.

 

-Você?

 

- Sim. É a coisa mais honesta a fazer. Tenho vivido com este profissional durante todos os dias deste último ano. Posso dizer tranquilamente que se trata de uma das melhores pessoas com quem já trabalhei. Não concordo com o que está sendo feito nem da forma que está sendo feito. Simplesmente não acho que esteja certo. Mas ele é do meu time e eu, como seu gerente, gostaria de dar a notícia.

-Tem certeza, Flick?

 

-Tenho.

 

-Ok, Flick. Que assim seja. Sei que esta será sua primeira experiência demitindo alguém. Deixe-me preveni-lo. Não será fácil. Estamos planejando um pacote de benefícios muito bem feito para o Carlos em função do seu tempo de empresa, mas mesmo assim não será fácil na hora que você for conversar com ele.

 

-Eu sei, chefe. Eu sei.

 

-Mesmo assim, tem certeza de que quer fazer isso?

 

Estamos sempre sendo testados nessa vida... Na empresa não é diferente... Quando é que vou parar de ser testado? Quando é que eu passo definitivamente nestes testes todos?

 

- Tenho sim, chefe. E obrigado por confiar em mim.

-Boa sorte, Flick.

 

Gastamos mais alguns minutos para que me explicasse o "maravilhoso plano de benefícios" que o Carlos teria ao ter sua aposentadoria forçada e depois nos despedimos. Fechei minha baia lentamente e fui em direção ao estacionamento. Não estava lembrando onde parara meu carro. Por sorte, havia poucos carros estacionados. Entrei, fechei aporta do carro, liguei e desliguei o rádio e fiquei por uns 15 minutos pensando.

 

Demitir o Carlos... Aquele que mais me ajudou durante todo o projeto... Não vou conseguir... Isso soa mais como traição para mim...

 

Fui para casa arrasado. Amaldiçoando pela primeira vez na vida a empresa em que tanto gosto de trabalhar. Só me lembrava da conversa que tive com Petrúcio há muito tempo quando ele me explicava o que é ser gerente. Ele havia me prevenido que existia uma hora em que o gerente era "batizado", o momento da primeira demissão que teria que fazer.

 

Mas logo o Carlos?

 

Se fosse alguém que eu não gostasse ou que achasse que deveria ser demitido... Mas não poderia ser tão fácil assim...

Naquele dia não dormi direito. Minha mulher estranhou a forma como cheguei em casa. Acho que já tinha demonstrado cansaço, culpa, desorientação e desânimo antes. Mas nunca tudo ao mesmo tempo. Levantei diversas vezes durante a noite. Liguei a televisão, tentei ler um livro. Nada adiantava. Só o que vinha à minha cabeça era o rosto de Carlos e tudo que ele havia feito por mim no trabalho. Acabei dormindo por volta das 5:30h. Acordei às 6h. Tomei um banho, dei um beijo em minha filha, outro em minha mulher e fui à luta. Desta vez, por alguma razão, preferi não envolver Petrúcio. Achei que tinha que lidar com a situação à minha maneira. Eu sabia que aquela decisão não tinha sido do meu chefe. Sabia que ele também devia estar sofrendo com isso. Mas cabia a mim dar a notícia. Eu era a HAL naquele momento. Droga, eu sempre fui eu! E já era difícil de me aturar. Agora tenho que fingir que sou a empresa e argumentar uma ideia em que nem eu mesmo acredito.

 

Será que isso é ser gerente?

 

Era sexta-feira da antepenúltima semana de projeto. Todos só falavam em comemoração. O próprio cliente estava festivo, dado que iríamos entregar o último produto do projeto a tempo e a inauguração da nova rede estava garantida. Só eu que parecia não estar no clima. Chamei Carlos para uma conversa fora da ambiente de trabalho. Não achei que um restaurante seria apropriado e sugeri que sentássemos em um banco na praça ao lado da Telefon. Fazia sol. Descobri que para este tipo de coisa não existe o lugar ideal, o clima ideal ou até mesmo o dia ou a hora ideal. Sempre achei que existiam, mas não existem. Carlos deve ter estranhado o meu jeito e começou puxando conversa:

 

-E aí, chefe? Algum problema?

-Pois é Carlos. Chamei você aqui porque queria lhe contar uma coisa. Você acabaria

sendo chamado na HAL para falar sobre esse assunto, mas achei melhor que você soubesse

primeiro diretamente por mim.

 

-Como tem sido desde o início do projeto, chefe. Obrigado por fazer isso. O que

aconteceu?

 

Suspirei fundo e falei o que tinha que falar:

 

-Carlos, você será convidado a sair da empresa.

 

-Convidado a sair? Mas por quê? Como assim, chefe?

 

-A HAL está se reestruturando e todo o seu departamento foi extinto. Até seu chefe direto, Wagner Carneiro, pediu demissão há poucos dias. Em outras palavras, a organização como um todo está revendo uma série de processos e funções. A sua, infelizmente, não será reaproveitada.

 

- Mas, chefe, por que eu? Foi alguma coisa que fiz de errado no projeto?

-Não, Carlos. Longe disso. Muito pelo contrário. Sua ajuda tem sido inestimável. Fiz questão de deixar isso bem claro na reunião que tive com o comitê ontem e quero dizer que estou sentindo muito isso que está acontecendo.

 

-Mas, chefe, isso é algo irreversível? Quero dizer, existe alguma outra possibilidade de

negociação?

 

-Infelizmente não, Carlos. Mas a empresa está planejando um pacote muito bom de

benefícios para você. Cada ano seu na HAL estará coberto financeiramente e você ainda terá

auxílio para recolocação no mercado, caso seja do seu interesse.

 

-Recolocação no mercado, chefe? Com a minha idade? Só se for para trabalhar como

consultor em uma clínica geriátrica.

 

-Carlos, não sei se cheguei a expressar ao longo deste tempo de projeto o quanto você foi

importante para mim e para todos da equipe. Você é uma referência para todos nós e assim

continuará sendo.

 

-Obrigado, chefe. Não só por suas palavras, mas também por ter vindo falar comigo. De

certa forma acho que já imaginava que alguma coisa deste tipo poderia acontecer em breve.

Afinal, já estou naquela idade em que "falta menos do que já passou". Eu também aprendi

muito com você, chefe. Principalmente, em como ter paciência e como lidar com as pessoas.

Você é um dos melhores chefes que já tive, Flick, e agradeço muito a você pela

oportunidade.

 

Incrível... Além de tudo ele era humilde... Encontrou tempo de me elogiar, manter o bom humor e ainda agradecer. Não sei se eu conseguiria encarar da mesma forma. Estava ali na minha frente um profissional e um ser humano que eu jamais iria esquecer e que iria respeitar pelo resto da minha vida...