Gerente Também é Gente
24. Decifra-me ou Devoro-te
Nem todas as coisas que importam podem ser contadas, nem todas as coisas que podem
ser contadas importam.
ALBERT EINSTEIN
Tenho que concordar com Forrest Gump. A vida é como uma caixa de bombons. Projetos também. Você nunca sabe o que vai receber... Minha postura neste caso específico foi a de não ter nenhum tipo de ilusão em relação ao projeto que iria assumir para evitar futuras decepções. Eu sabia que desta vez (como sempre...), seria diferente. Eu não estava começando um novo projeto. Estava assumindo alguma coisa já iniciada, mal acabada, de valor muito alto e que eu tinha a missão de recuperar. Que espetáculo...
Não vou descer a detalhes técnicos. Vou me ater apenas aos pontos mais relevantes da história, porque esta é a base do aprendizado que tive com este projeto e que gostaria de passar para vocês. A primeira coisa que achei que deveria fazer era obter o maior número de informações possíveis sobre o projeto. Foi o que fiz. Ou tentei fazer... E claro que fui pegar o contrato com Lídia e, também, que me preocupei em lê-lo cuidadosamente. Mas o problema é que o contrato dizia muito pouco ou quase nada. Tentei também conseguir o máximo de informação que podia dentro da própria HAL, mas foi em vão. Qual o próximo passo? Procurar o atual gerente do projeto para conversar. Precisava ouvir dele, me entender com ele. Marcelo Bezerra tinha muito mais experiência do que eu como gerente. Sua fama era de
apagar incêndios32 sempre que necessário. Neste caso parece que tinha criado um. De qualquer forma, eu queria ouvir sua versão. Saber o que poderia ter dado tão errado assim para o cliente ter reclamado e Juvenal me ligado. Por que eu?
Levei cerca de dois dias para conseguir encontrar Marcelo. Até então, ou ele não atendia, ou não recebia meus e-mails, ou simplesmente me ignorava. Finalmente, depois de mais de cinco tentativas, nós marcamos um encontro. Sentei com ele no local que já estava se tornando uma espécie de marca registrada para mim: o café do terceiro andar. Foi lá que nos encontramos para conversar:
—Boa tarde, Marcelo. Muito obrigado por ter vindo. Posso pagar-lhe um café?
-Eu não tomo café.
-Um chá talvez... Quem sabe um refrigerante...
-Estou de dieta.
Comecei a sentir o que me aguardava...
-Ok, também não tomo nada, então. Em solidariedade a você.
-Escute, Plick, eu gostaria de lhe pedir que fosse direto ao ponto. Tenho muito que fazer e
não posso passar muito tempo aqui no café.
-Claro. Vamos lá... Só um pequeno detalhe, o meu nome é Flick. E não Plick. E a razão de
eu tê-lo chamado aqui é porque, como você sabe, o Juvenal, gerente da conta...
-Eu sei quem é o Juvenal. Pode continuar...
-Ok. Bem, o Juvenal me pediu para assumir o projeto da Lightning Corp.
-Aquele cretino. Espero que ele saiba o que está fazendo.
-Escute, Marcelo, sei que o assunto é delicado para você. Aliás, para nós dois. Mas eu gostaria de deixar claro que de forma alguma eu estou aqui para criticá-lo ou mesmo tomar seu lugar. Eu apenas...
-É mesmo? Então por que foi pedir minha posição para o idiota do Juvenal?
-Pedir? Eu não fui pedir. Foi ele quem me chamou. Na verdade sei muito pouco a respeito do projeto. Aliás, eu não sei nada. É por isso que quis conversar com você. Preciso de sua ajuda.
- Minha ajuda? Estou saindo do projeto. O Juvenal está me afastando. Para colocar você, que provavelmente trabalha com ele. Desejo boa sorte. Você vai precisar.
Trabalha com ele? Ele devia estar brincando... Senti que ele precisava desabafar...
-Essa é uma das coisas que queria conversar com você. De acordo com Juvenal, o cliente
pediu a sua saída do projeto. Eu gostaria de tentar entender por quê.
-O cliente pediu? Foi isso que ele lhe disse? Aquele safado! O cliente não pediu que eu
saísse. Ele me tirou. Disse para mim que recebeu uma ligação do alto escalão da Lightning
pedindo minha saída. Mas isso não é verdade. Sei que não é.
-Bem, mas de qualquer forma, o que você acha que pode ter motivado esse
acontecimento?
-Você quer dizer além do fato do cliente ser um dos maiores chatos que já botou os pés na
face da Terra?
-O cliente é do tipo complicado?
-Complicado? Complicado sou eu! O cliente é insuportável! A cada 10 palavras, 11
palavrões. Fala com você sem olhar na sua cara. Exigente como eu nunca vi na vida e ótimo
negociador. Ou melhor, ótimo para a ele. Porque para nós tem sido um desastre.
-Sei. Mas você chegou a ter algum tipo de atrito com ele?
-Atrito? Nós brigávamos todos os dias! É o estilo dele. Você vai ver. Eu não sou "sangue de barata". Acabava explodindo. Tomara que você esteja preparado.
Preparado? Eu quero a minha mãe... Resolvi que era melhor eu tomar um suco de maracujá... Dizem que acalma...
-Além da dificuldade de lidar com o cliente, você poderia me passar mais detalhes sobre
como estamos no projeto e...
-Coloque uma coisa na sua cabeça, Flick. Este projeto foi mal vendido. Muito mal
vendido. O vendedorzinho do time do Juvenal acabou dando exatamente o que o cliente
queria, pelo preço que ele queria, no tempo que ele desejava.
-E isso não é bom?
-É claro que é. Só que não consultou ninguém do grupo técnico antes. Ele fez tudo como o
cliente almejava para poder fechar sua cota. Mas não se preocupou em checar se a solução
que estava vendendo era factível dentro do prazo e dos custos acordados.
Já vi esse filme... Agora entendo por que o contrato era tão pouco explicativo...
-Sei. Você está me dizendo que alguém vendeu um projeto para Lightning que na prática já
nasceu com problemas, é isso?
-Natimorto! A concepção do projeto foi um desastre! O pior é que o vendedor do Juvenal,
além de bater sua cota, acabou ganhando um prêmio por isso e foi passar férias com a família
por conta da empresa. Eu, o imbecil de plantão, acabo sendo crucificado.
Situação complicada aquela. Agora eu entendia toda a sua raiva... Independentemente do quanto ele estivesse exagerando, sua versão merecia crédito. Além disso, ele era naquele momento meu único ponto de contato com o projeto.
-Ok, Marcelo. Entendi a situação. Você tem algum tipo de documentação extra, como o
plano de projeto ou qualquer outra coisa que pudesse me passar para que eu possa começar a
me integrar ao time?
-Não temos muita coisa. Não dava tempo. Era muita loucura. Quanto ao time, prepare-se...
O time se encontra completamente desmotivado. Tanto os nossos quanto os fornecedores.
Eram duas empreiteiras no início. Uma delas faliu no sétimo mês do projeto. Você agora só
vai contar com uma.
-E você poderia me falar um pouco mais sobre o escopo do projeto em si?
-Estamos falando da remodelagem de 90 agências de atendimento da Lightning, incluindo centrais elétricas. Você sabe o que é uma central elétrica? Já esteve em uma?
-Não, nunca tive a oportunidade.
-E um inferno. Muito difícil de trabalhar por lá. O chefe da central se sente como o dono do mundo. Não respeita nem as ordens da própria matriz. Pelo menos na Lightning é assim.
-E o nosso contratante sabe dessa situação?
-Pablo não está nem aí. Ele quer seu projeto pronto. São 90 agências ao todo. Só entregamos 20%.
-Vinte por cento? Bem, pelo menos já é um início.
-Seria... Só que eles não deram o aceite nestas 18 agências. O que significa que até agora só gastamos. Não recebemos nem um centavo.
-Não recebemos nada até agora? Em nove meses de projeto?
-Só o que gastamos com material e máquinas. Em relação aos nossos serviços, zero. E a
projeção é de gastarmos o equivalente a 50% a mais do que o orçado. A situação é uma
aberração.
-Mas Juvenal havia me dito que a margem projetada era de 25%.
-Só na cabeça dele e daquele vendedorzinho que ele tem... E tem mais... Eu tinha quatro
gerentes sob meu comando no projeto. Eles comandavam as equipes técnicas. Dois deles
foram demitidos. Você só está agora com o Simbad e o Canhoto.
-Simbad e Canhoto?
-Sim. Eles são bons. Ambos tem características bem diferentes, mas são ótimos
profissionais. Você tem só que ganhar a confiança deles.
Nessa altura, eu confesso que já estava cansado de ouvi-lo. Aquilo parecia a primeira página de um jornal... Só má notícia...
-Não quero mais tomar o seu tempo Marcelo. Eu apenas gostaria de saber um pouco mais
sobre uma cláusula que li no contrato a respeito de uma multa que...
-Sim, claro. A multa. Prepare-se. Eles vão bater forte nessa tecla. Nós recebemos por
agência entregue. Na visão deles, não entregamos nenhuma ainda, por isso não recebemos
nada. Só que a multa contratual é por agência e por mês de atraso. Isso significa que
estaremos pagando uma multa astronômica a partir de hoje.
Que ótimo... I love this job...33
Agradeci a Marcelo e voltei à minha baia. Precisava organizar as ideias. Minha cabeça girava no sentido anti-horário em forma de curvas espirais concêntricas que não levavam a lugar nenhum. Resolvi ir para casa. Precisava do aconchego do lar e de mais café. Esquece o café, abri outra garrafa de vinho. Desta vez foi um australiano com uma mistura de uvas Shiraz e Cabernet. O que isso quer dizer? Não faço a menor ideia. Gostaria de ser um entendido do assunto, mas não sou. Aliás, não sou entendido em nada. Anão ser em arranjar problemas. Já é alguma coisa...
Brincadeiras à parte, minha visão é que o mundo tem valorizado muito mais a chamada cultura da perfeição. Somos cobrados para sermos perfeitos em tudo:
"Você não conhece a safra da Toscana de 75? Você não cozinha? Não se preocupa com a natureza? Não faz sexo sete vezes por semana? Você não comeu salada hoje? Você não leu o último livro de José Saramago? Não viu aquele filme de Stanley Kubrick? Não poupa água? Não faz ginástica todos os dias?" Que droga! Deixem-me com as minhas imperfeições!
Desculpem... Acho que exagerei... Aproveitei o ensejo para desabafar também... Estava morrendo de medo. Esse projeto "novo-antigo " não ia ser moleza e eu sabia disso. Era esperar para conferir...