Gerente Também é Gente
19. Flick Happens!
Durante as mais belas noites de tempestade, os relâmpagos tiram fotografias da
paisagem.
MARIO QUINTANA
Mesmo com tudo que passamos, nada me preparou para o período dos últimos meses de projeto. Apesar da trégua com Alex, os conflitos continuavam. Um time de projeto é mais ou menos como um grupo de amigos que juntos, resolvem fazer uma viagem. Pense na última que você mesmo fez. No início, desde o seu planejamento, a viagem é uma verdadeira festa. Imprevistos são comemorados, idiossincrasias são perdoadas e tudo é motivo para alegria. Com o passar do tempo, no decorrer da viagem, pequenas diferenças se transformam em grandes questões filosóficas, coisas simples viram enormes problemas. Já presenciei até um caso bizarro em que um amigo reclamou até mesmo da respiração do outro colega, que segundo ele, estava muito alta. Em ambiente de projeto não é diferente... Gostaria que fosse. Mas não é. Agora entendo os testes psicológicos e também simulações de stress a que são submetidas equipes inteiras antes de começar determinado departamento novo ou mesmo um projeto. Sempre ouvia falar nisso e sempre achei uma grande baboseira. Meu negócio, afinal, eram máquinas. Mas hoje, na nova situação e com as responsabilidades com que me encontro, entendo perfeitamente a razão de ser deste tipo de atividade. Quisera eu ter tido a chance de aprender, meinteressado e me dedicado um pouco mais a este fascinante mundo dos relacionamentos interpessoais.
Como eu dizia, os conflitos continuavam. Aliás, proliferavam. Mais ou menos como um vírus... E este vírus atingiu a equipe, o cliente, nossos fornecedores e até minha família, que neste ponto já reclamava de forma mais contundente a minha ausência. Evidentemente que eu procurava priorizar os problemas na medida em que iam aparecendo. Eram tantos, que parecia até um teste de resistência. Felizmente meu amigo Petrúcio tinha um estoque de paciência enorme e continuava me ajudando nos momentos mais difíceis. Certa vez me explicou que,
segundo algum desses economistas famosos28 que já morreram, existia uma tal de regra dos 80/20 que poderia me ajudar na tarefa de priorizar as questões que atacavam o projeto. De acordo com a tal regra, 80% de nossos problemas estariam concentrados em apenas 20% das causas. Em outras palavras, eu deveria tentar desenhar, sob a forma de um gráfico, as várias causas de problemas que eu tinha no projeto, por ordem de frequência. As que apresentassem as maiores freqüências deveriam ser as primeiras a serem atacadas, até que a ordem fosse novamente alterada. Passei a adotar esta prática que me ajudou muito em problemas do cotidiano do projeto. Duro era quando acontecia algum outro fato novo e urgente que demandava minha atenção imediata. Nessas horas eu tinha que parar tudo e voltar minha atenção para a situação. Como nos casos que estou para contar para vocês.
Tínhamos um fornecedor de equipamentos que já trabalhava com a HAL há muitos anos. O nome da empresa era HI Brothers. Eles eram, assim como a HAL, uma multinacional de reconhecida capacidade e uma grande capilaridade. Tínhamos uma ótima relação, tanto com seu corpo técnico quanto diretivo. Nunca cheguei a conversar com ninguém da sede da HIBros (como os chamávamos carinhosamente...), mas conhecia os técnicos que estavam trabalhando em nosso projeto na Telefon. Eles reportavam no início do projeto diretamente ao Eric e depois para Adhemar. Mas o controle de faturas e pagamentos ficava com Carlos. Até então não tínhamos tido nenhum problema mais grave com eles, que, tecnicamente, eram muito bons. Adhémar, apesar de melhorar bastante sua atitude, ainda era extremamente dependente de Alex. Qualquer decisão, mesmo que fosse da responsabilidade de Adhemar, passava também pela análise de Alex, que acabava sendo o voto final. Eu sabia disso, Adhémar sabia disso e o fornecedor também.
Um belo dia eu estava sentado em minha cadeira na sala da HAL dentro da Telefon entretido com os cálculos do orçamento do projeto, pois estávamos a poucos meses da entrega final e eu ainda não sabia como daríamos lucro. Minha projeção era de que ficaríamos exatamente no limite entre receita e despesa, o que alguns especialistas do departamento financeiro chamariam de "breakeven point". Foi quando Salles adentrou esbaforido e pediu que eu corresse para a área do bebedouro onde, segundo ele, estava ocorrendo uma séria discussão. Lá chegando, encontrei não só Adhémar gritando pela primeira vez na vida, como também uma saliência de veia verde saindo de sua testa, como se fosse um Alien com vida própria. Estavam reunidos no bebedouro: Adhémar, um técnico da HIBros de nome Valdomiro Quelhas e um da Telefon chamado Raed Qassim. Todos discutindo ardentemente. Eu e Salles chegamos para apaziguar... Adhémar estava quase para bater, literalmente, no técnico da HIBros. Jamais o tinha visto tão nervoso. Ainda mais berrando com fornecedor na frente do cliente:
- Quem foi que pediu para você fazer isso? Eu não autorizei. Quelhas se defendeu:
-Não foi culpa minha. Recebemos este pedido logo no início do projeto. Eu apenas cumpri ordens.
- Quem deu a ordem? Foi o Eric? Foi alguém da Telefon? Qassim, como cliente, interveio:
-Nunca demos esta autorização para mudança. Não era isso que esperávamos. Quelhas, cada vez mais pressionado respondeu:
- Eu não sei... Apenas chegou para mim. Desculpe-me, mas nós apenas executamos e...
- Você não pode fazer as coisas assim. Tem que pensar. Tem que me consultar.
O caso todo era em função de um módulo que foi instalado com parametrização diferente da que tínhamos combinado em nosso Plano de Projeto. Desde o tempo de Eric que tínhamos estipulado uma configuração "X", e por alguma razão a HIBros fez de uma forma "Y". Nada de tão incomum, se não fosse o fato de que todas as outras configurações de quase todos os outros equipamentos também tivessem sido feitas em função desta inicial. Quelhas não sabia dizer por que tinha feito daquele jeito, mas certamente o fez porque alguém pediu. Qassim reclamava porque não havia sido avisado e, provavelmente, o projeto iria atrasar em função das reconfigurações que teríamos que fazer. Em resumo: Qassim abordou Adhémar, que por sua vez chamou Quelhas para entender o que houve. O cliente dizia que não autorizou a mudança, Adhémar não tinha nenhum pedido desse registrado e o técnico da HIBros não sabia quem havia pedido. O circo estava armado. E o palhaço, eu, acabado de chegar...
Minha reação foi pedir calma em primeiro lugar. Ponderei:
-Meus amigos, vamos nos acalmar. Estamos diante de um problema normal dentre tantos outros que enfrentamos diariamente em nosso projeto. Dado que se trata de um problema, deve ter solução. Se assim não fosse, não seria um problema.
Mas Adhémar estava realmente tenso:
-Solução tem. Mas vai nos custar pelo menos mais dois meses de trabalho. Qassim também se posicionou:
-Previno que acho muito difícil que Arlindo aceite pagar qualquer centavo a mais por um serviço que não foi pedido e que terá que ser refeito.
Ao mesmo tempo, o técnico da HIBros:
-Sr. Flick, por favor entenda. Recebemos uma ordem para configurar o módulo XPTO
desta forma. Não me lembro mais quem foi, mas sei que foi pedido assim. Não ganhamos
nada por configurar de um jeito ou de outro. Para nós, tanto faz. Apenas fazemos o que nos é
pedido.
-Eu sei, Quelhas, eu sei. Vamos por partes... Adhemar, por favor se acalme. Tome uma
água. Aliás, vamos todos ponderar e pensar juntos para acharmos uma solução para este
problema. Somos um time, lembram-se?
Nesta hora, para piorar, também chegaram ao bebedouro Arlindo e Alex. Provavelmente atraídos pelos berros. Sugeri que fôssemos para uma sala de reunião mais tranquila, porque conversar em pé, no bebedouro, não dava. Não tinha ainda a menor ideia de como conduziria o problema, mas sabia que precisava acalmar os ânimos.
Chegando na sala de reunião, expus novamente todo o problema da forma que havia entendido. Tratava-se de um impasse, mas tinha que ter uma solução.
Arlindo se posicionou dizendo que não interessava como havia sido feita a nova configuração. O que importava era o que foi combinado. Ao mesmo tempo o projeto não poderia atrasar e não havia tempo hábil para reconfigurar todos os equipamentos. Ele tinha razão em uma coisa: nossa relação com a HIBros deveria ser totalmente transparente para ele. Afinal, a HIBros era uma contratada nossa. Não importava quem errou. Era um problema da HAL.
Nesse meio tempo, quem veio conversar comigo foi Carlos. Sempre Carlos. Veio ponderar com toda sua experiência, para que eu não tomasse nenhuma ação mais drástica em relação ao comportamento de Adhémar. Ele havia melhorado muito nos últimos meses e estava temeroso, segundo Carlos, de que um fato como aquele em um dos módulos sob sua responsabilidade pudesse acarretar qualquer tipo de reprimenda de minha parte. Achei muito elegante a preocupação de Carlos tranquilizei-o. Isso explicava a tensão de Adhémar. Não justificava, mas explicava. Eu realmente não havia gostado da forma como ele tinha se dirigido ao fornecedor, ainda mais na frente do cliente. Mas entendi o caso e pedi que o próprio Carlos conversasse com ele. De fato, Adhémar estava em uma curva progressiva de trabalho. Não valia a pena desestimulá-lo agora. Ainda mais por um acontecimento que eu realmente não achava que fosse culpa dele.
Depois de trocarmos diversas sugestões técnicas de como tentar resolver a questão, pedi um tempo a Arlindo para avaliar a situação. Precisava conversar também com a HIBros. Minha intenção não era de forma alguma acusar o técnico deles. Muito pelo contrário. O que eu queria era apoio da HIBros na condução da solução do problema. Alex foi muito útil também ponderando com o fornecedor. Graças a ele, chegamos à conclusão de que com algum esforço e criatividade tanto da nossa equipe quanto da HIBros, poderíamos levar apenas um mês a mais para reconfigurar tudo. Não era suficiente. Decidi que teria que negociar em outra esfera. Não queria levar mais este problema para o comitê porque nosso projeto até então, pelo menos tecnicamente, estava indo muito bem. Fui conversar com Arlindo. Não em uma sala de reunião, mas no café. Ao melhor estilo Paulo Petrúcio. Tive uma conversa franca e honesta com ele:
-Chamei você aqui para conversar sobre o problema que tivemos relativo à configuração dos equipamentos. Primeiramente gostaria de dizer que a intenção é de resolver. Não importa mais quem errou. Não sei por que nosso fornecedor alterou a configuração que deveria ter sido feita anteriormente, mas também não importa. Quero deixar bem claro também que assumo toda a responsabilidade pelo ocorrido. Estudamos bastante o problema do ponto de vista técnico. Inclusive pedi para Alex analisar todas as alternativas viáveis junto com a HIBros. Chegamos a um resultado ainda não satisfatório de um atraso de um mês para o projeto.
-Um mês!? Você sabe que não temos um mês, Flick. Não se trata nem de cobrar ou não a
multa de vocês. Trata-se do compromisso que nós mesmos temos com o Ministério das
Telecomunicações e com a própria sociedade. Estamos trabalhando no limite do tempo e
você sabe disso.
-Eu sei. E por isso que vim pedir sua ajuda. Lembra-se quando me disse que estávamos
com um "crédito positivo" com você?
-Claro que sim. Estão mesmo. Seu time tem sido fantástico até agora.
-Pois é. Estou precisando usar este crédito.
-Usar este crédito? Como?
-De acordo com os estudos de Alex, se além da equipe da HIBros pudermos usar algumas
pessoas da sua equipe, conseguiríamos recuperar o tempo perdido sem prejuízos no
cronograma do projeto.
-Usar pessoas da minha equipe? Eu contratei a HAL para fazer isso, Flick! Se fosse para
usar minha equipe eu mesmo faria todo o projeto!
-Arlindo...
Olhei bem sério para ele, dei uma pausa e continuei...
-Estamos falando de dois ou três recursos seus no máximo e durante um mês apenas.
-Dois ou três recursos? Eu não tenho dois ou três recursos disponíveis para te dar, Flick.
-Não preciso deles o todo tempo. Só em períodos predeterminados que Alex combinaria
com Qassim previamente.
-Flick, o que você está me pedindo é...
-O que estou lhe pedindo é para que você faça valer aquele crédito que temos com você para resolver um problema que reconhecidamente foi nosso, mas que estamos tentando resolver em grupo. Em outras palavras, estou pedindo sua ajuda.
Ele demorou a responder. Tomou mais dois goles de café antes de falar. E disse:
- Ok, Flick. Ok... Pelo bem do projeto, vamos fazer isso. Mas não serão recursos
integrais. Apenas nos períodos combinados entre Qassim e Alex.
- Exatamente. De acordo.
-E que seja só por um mês. Nada mais.
--Assim será! Obrigado, Arlindo.
-Deixa para lá...
Fiz questão de pagar aquele café de Arlindo. Ali estava a solução do problema. Em conjunto, como um time. HAL, Telefon e HIBros. Tivemos muito trabalho durante os dois outros meses, alguns deslizes e algumas reclamações tanto da HIBros quanto da Telefon. Mas tudo administrável. A solução sempre está por perto. E uma questão de sabermos procurar por ela. Petrúcio havia me dito uma frase, em algum de nossos muitos encontros, que agora fazia mais sentido. Disse ele: "...a relação com o cliente não pode ser nunca do tipo bandido-mocinho. Não pode haver um lado sempre certo e outro sempre errado. Tem que haver honestidade e cumplicidade de ambos os lados. Esta é a chave para um relacionamento duradouro e honesto". Era verdade... A solução para o problema não veio só de negociação, mas principalmente da união de toda a cadeia de valor em que estávamos inseridos com objetivo de manter a saúde do projeto (e a minha...). Tinha dado certo, mas espere para ver o que veio em seguida...
O time de Julia também era composto em sua imensa maioria por profissionais oriundos de nossos fornecedores. Mas existia esse rapaz, estagiário na HAL, chamado Adriano Dias. Apesar de ter Alex como seu ídolo máximo, reportava diretamente à Julia no projeto. Seu perfil era de um ótimo executor. Muito jovem, inteligente e ansioso por aprender mais. Nunca se importava em ficar até tarde no trabalho e sempre apresentava sugestões pertinentes. Meu
plano inclusive era recomendá-lo para nosso programa de trainees29.
Ele estava conosco desde o início do projeto. Já o tínhamos inclusive apelidado de mascote da equipe. Desenvolvia seu trabalho sempre da melhor forma, excessivamente preocupado em fazer certo da primeira vez. Lá pelo décimoprimeiro mês de projeto, Adriano veio me procurar. Queria falar comigo em particular. Achei estranho, uma vez que ele nunca se dirigiu a mim daquele jeito. Sabia que trocava ideias diariamente com Alex, mas raramente comigo. De qualquer forma, parei o que estava fazendo e o convidei para almoçar. Chegando ao restaurante, apesar de tentar parecer calmo, ele apresentava um certo ar de preocupação.
Quase não tomou sua Coca-Cola30 e, praticamente, eu fiz o pedido para nós dois. Sentindo sua ansiedade, puxei o assunto:
-Muito bem Adriano. Aqui estamos. Você queria me dizer alguma coisa? Tem algo que o esteja incomodando?
-Sim chefe. Quero dizer, não é que esteja me incomodando. É que... -Vamos lá, pode falar.... E me chame de Flick por favor. "Chefe" envelhece uns 10 anos...
-Sabe o que é chefe, quero dizer, Flick... é que...
-Sim...
-Bem, o senhor conhece o Alex?
-Alex? Alex Biliani, do nosso time?
-Não. Não esse Alex. O Alexander Costa, da Telefon. Que trabalha para o Sr. Arlindo.
-Alexander da Telefon?
Não me lembrava bem quem era. Até que ele usou uma referência infalível...
-O senhor sabe, o cara de cavalo..., o "Horse with no name"31....
-Ah sim... O cara de cavalo... Vocês o chamam tanto assim, que acabei esquecendo seu nome real. Na verdade, acho que nunca soube.
Detesto estereótipos ou apelidos agressivos como esse. Mas neste caso eu era obrigado a reconhecer... o indivíduo realmente tinha cara de cavalo... com risco de estar ofendendo até o animal...
-Pois é... Ele me fez uma proposta.
-Uma proposta? Que tipo de proposta?
Ajeitei-me melhor na cadeira...
-Ele disse que vinha me observando, que gostava muito do meu trabalho e que achava que a HAL estava me aproveitando mal, uma vez que ainda sou estagiário.
-Mas você é estagiário porque ainda não se formou. Tenho certeza de que quando se
formar, certamente haverá uma vaga para você em nossa empresa. Todos reconhecemos seu
valor.
-Eu sei. Mas ele me ofereceu uma vaga hoje... na Telefon. E ganhando o equivalente a
quatro vezes o que eu ganho como estagiário. Além de uma série de outros benefícios
normais dentro de uma organização grande como a Telefon.
-Sim... Entendo... E você fez questão de me dizer isso porque...
-Bem, na verdade, eu falei com Alex antes. Foi ele que sugeriu que falasse com o senhor,
quero dizer, com você. Ele disse que você era o gerente do projeto e, portanto, a primeira
pessoa que eu deveria procurar.
Alex... Quem diria... Ele amadureceu...
-Entendo... Você chegou a comentar isso com a Julia também?
-Não chefe. Só com Alex.
-Por quê? A Julia é sua linha direta de reporte. Não seria natural você comentar com ela?
-Seria, chefe. Mas sabe como é... Tenho mais intimidade com Alex...
-Diga-me uma coisa Adriano. Quando você sente que vai precisar chegar mais tarde por
alguma razão ao trabalho, para quem você liga para avisar? Julia ou Alex?
-Eu acabo ligando para o Alex, Sr. Flick.
-Por quê? Você não confia nela?
-Não é isso... Não sei bem explicar... Acho que ela não vê bem meu trabalho...
-Se você não confia nela para informar uma coisa tão simples quanto dizer que vai chegar
atrasado, como espera que ela confie em você?
-E verdade Sr. Flick... É verdade...
-Tudo bem, não tem problema. Vamos ao que interessa agora. Estou entendendo que você
ficou seduzido pela proposta da Telefon. Estou correto?
-Bem chefe, sabe como é... Os tempos estão difíceis... É sempre preferível ter o certo no
lugar do incerto. Mas não vou de forma alguma fazer isso se o senhor não deixar ou não
achar que é certo. Não vou mesmo.
-Eu sei, Adriano, eu sei. Mas se você tivesse, por exemplo, a chance de ser efetivado na
HAL ou ir para a Telefon, qual das duas opções você preferiria?
Ele hesitou. Procurei deixá-lo bem à vontade para responder. Depois de algum tempo pensando, ele falou:
-Para ser muito honesto Sr. Flick, acho que o tipo de trabalho que a Telefon desenvolve é
mais interessante para minha carreira.
-Está certo, Adriano. Agradeço muito por você ter vindo falar comigo. Posso pedir-lhe
um tempo apenas para analisar a situação e voltar com uma resposta?
-Claro que sim, chefe. Claro que sim. Quando o senhor acha que pode me dar um retorno?
Era só o que faltava... Estava pressionado de todos os lados e agora também por um estagiário...
-Não muito. Dê-me um dia e amanhã voltamos a conversar. Está bem?
-Obrigado chefe, digo, Flick. Obrigado. Você vai conversar com a Julia também a
respeito?
-E claro que vou. Ela é sua gerente. Tem que saber o que está acontecendo.
-Está bem... Está bem... Obrigado.
-Mesmo com a delicadeza da situação, ainda era bom ver que existe honestidade em um
mundo tão desgastado. O resumo da situação era que eu tinha um funcionário que estava
inclinado a sair da empresa devido a uma proposta irrecusável que recebeu. E essa proposta
foi feita pelo meu próprio cliente. Além disso, tinha uma gerente que de alguma forma não
estava sabendo se comunicar direito com seus subordinados.
Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece...
Não adiantava chorar. Tinha que agir. Liguei para a empresa para tentar falar com Pedrosa. Meu chefe estava em reunião e não podia atender. Insisti. Ele me atendeu duas horas depois. Expliquei a situação, mas Edson foi bem direto ao dizer:
-Flick, estamos em pleno congelamento de contratações. Você sabe disso. Entendo seu problema perfeitamente, mas é impossível pensarmos em contratar este rapaz agora. Não agora. Talvez daqui a algum tempo.
- Daqui a algum tempo não adianta. Você me autoriza a falar com nosso diretor?
- Ele está viajando. Posso tentar falar com Clara, mas sinceramente não acho que vá
adiantar.
Fizemos uma teleconferência com Clara. Eu e meu chefe. Não me agradava a ideia de perder um profissional tão bom quanto Adriano. Ainda mais no final do projeto. O que ouvi dela me deixou sem esperanças:
-Flick, não dá para sair por aí contratando estagiário desta forma. Entendo que o recurso seja importante para seu projeto, mas neste momento não é possível efetivá-lo. Ele teria que passar por uma concorrência com todos os outros estagiários da organização. De outra forma não seria justo. Você está vendo apenas um projeto. Nós estamos vendo o todo.
Vendo o todo... Que vontade de ir lá e esmurrar o nariz dos dois... Duvido que na HAL existissem tão bons estagiários como Adriano... Meu chefe retrucou:
-Talvez o que você possa fazer, Flick, é conversar com nosso departamento jurídico. Afinal, a Telefon está tentando contratar um recurso que é nosso. Deve existir alguma cláusula no contrato que aborde este ponto ligado à ética do trabalho.
Foi o que fiz. Liguei para o Jurídico. A resposta que tive foi que, de fato existia uma cláusula que tentava evitar este tipo de coisa. Pelo menos enquanto o contrato estava em vigor. Fora disso, eles não podiam garantir nada. Apenas contar com o bom senso ético do cliente.
Voltei para a Telefon. Fui tomar um café com Julia para falar sobre meu diálogo com Adriano. Falamos um bom tempo, não necessariamente só sobre o caso, mas principalmente sobre o que poderia estar inibindo um funcionário de procurá-la diretamente. Procurei não dar um tom inquisitivo na conversa. Se havia um problema, vamos todos aprender com ele. Ela ouviu o feedback, mostrou-se aberta a discutir o caso e não foi defensiva. Uma profissional e tanto. Não esperava nada diferente dela. Nessa altura, quase toda a equipe já sabia o que houvera. Carlos veio conversar comigo em particular. Quis mostrar o valor de Adriano para o projeto e para a empresa. Eu disse que já sabia. Mas achei ótimo que ele viesse falar comigo a respeito. Salles achou um absurdo o cliente querer contratar um dos nossos. Adhémar, de volta ao normal, não se pronunciou.
Levei Julia comigo e fui procurar Arlindo. Contei o ocorrido sem nenhum clima de exaltação. Apenas fatos. Ele se demonstrou surpreso e indignado. Disse que conversaria imediatamente com Alexander, seu funcionário, a respeito. Eu lhe pedi calma. Disse-lhe que minha intenção não era acusar ninguém e muito menos cobrar explicações. Queria apenas achar uma solução. Tinha agora um funcionário (mesmo sendo estagiário, é funcionário...) que desejava sair da HAL e ir para a Telefon. Eu não tinha como oferecer proposta melhor naquele momento. Não queria de forma alguma levar a coisa para uma discussão entre os jurídicos das duas empresas. Sabia que isso levaria um tempo enorme e o único prejudicado seria o próprio Adriano. Como resolver? Minha opinião sempre foi que mesmo que seguremos alguém por normas e contratos, jamais poderemos prender seu espírito. Se a HAL não estava em condições de contratar Adriano naquele momento, por que não liberá-lo para uma nova oportunidade profissional na Telefon?
A solução, mais uma vez, veio do trabalho em equipe. Eu e Arlindo decidimos que a Telefon contrataria Adriano. Mas só quando acabasse o projeto. Afinal, faltavam menos de três meses e não havia necessidade de pressa. Arlindo ficou visivelmente envergonhado com a situação e pediu a Alexander que se desculpasse publicamente para mim e Julia por sua precipitação na abordagem ao nosso estagiário. Do nosso lado, não havia esquecido de dar uma resposta a Adriano. Mas achei melhor que Julia fizesse isso diretamente. Afinal, ela era sua gerente. Eles conversaram e se acertaram. E o projeto continuou seu fluxo... Nada como um dia de projeto atrás do outro...
Curiosamente, depois de algum tempo, Arlindo me procurou para tomarmos café. Desta vez, ele disse que fazia questão de pagar. Na verdade o que ele queria era confessar que descobriu que quem havia pedido aquela mudança de configuração que gerara todo aquele problema fora um funcionário dele. A HIBros, no início do projeto, não teve o discernimento de saber quem estava pedindo a mudança e simplesmente a fez. Além disso, disse que foi até bom seu time participar da reconfiguração dos equipamentos. Acabaram aprendendo mais sobre o projeto. Depois do confessionário, conversamos longamente sobre todos os problemas que tínhamos tido até agora. Acabamos em um bar, tomando cerveja e falando sobre como tinha sido a carreira de cada um até então. Discutimos, rimos e também aproveitamos para amaldiçoar todas as impressoras do planeta. Chegamos à conclusão de que pode se mudar de empresa, mas os problemas são os mesmos...