Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 9 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 5

5

 

O Sol era um ponto branco e maciço diretamente acima de nossa cabeça. Era bem mais brilhante do que eu imaginava. Estávamos a uma distância de 80 unidades astronômicas (UA), e ele era apenas 1/6.400 tão brilhante quanto na Terra. Ainda assim, tinha a potência luminosa de uma lâmpada de rua.

– Isto é consideravelmente mais luz do que vocês verão em um planeta portal – a voz do capitão Stott crepitou em nossos ouvidos –, então sintam-se felizes por conseguir ver seus passos.

Marchávamos em fila única pela lateral de permaplast que ligava o alojamento à cabana de suprimentos. Treinamos como caminhar do lado de dentro a manhã toda, e isso não era nada diferente, exceto pelo cenário exótico. Embora a luz fosse menos intensa, dava para ver todo o horizonte com clareza, já que não havia atmosfera. Havia um despenhadeiro negro, que parecia extremamente regular para ser natural, estendendo-se no horizonte; podia ser visto a cerca de 1 quilômetro de onde estávamos. O chão era de um negro vítreo, mosqueado com traços de gelo branco e azulado. Próximo à cabana de suprimentos, havia uma pequena montanha de neve em um depósito no qual estava escrito OXIGÊNIO.

A roupa era bastante confortável, mas nos dava a estranha sensação de ser a marionete e o titereiro ao mesmo tempo. Nós aplicávamos impulso para mover a perna, aí a roupa o absorvia e amplificava, movendo a perna por nós.

– Hoje faremos apenas um passeio em volta da área da companhia, e ninguém deixará esta área.

O capitão não estava portando sua pistola calibre 45 – a menos que ele a levasse como amuleto por baixo da indumentária –, mas tinha um laser no dedo, assim como nós. E o dele provavelmente estava pronto para ser usado.

Mantendo uma distância de pelo menos 2 metros entre um e outro, começamos a caminhar fora do permaplast e seguimos o capitão sobre rochas lisas. Andamos com cuidado por cerca de uma hora em uma espiral crescente, até que finalmente paramos no limite mais externo do perímetro.

– Agora todos prestem muita atenção. Vou até aquela laje de gelo azul – era das grandes, com cerca de 20 metros de comprimento – mostrar algo que é melhor vocês saberem para sua sobrevivência.

Ele deu doze passos firmes.

– Primeiramente, preciso aquecer uma rocha. Abaixem os filtros.

Pressionei a trave sob minha axila, e o filtro deslizou sobre meu conversor de imagens. O capitão apontou o dedo para uma rocha negra do tamanho de uma bola de basquete e realizou um pequeno disparo. O brilho fez surgir uma grande sombra do capitão, que incidia sobre nós e além. A rocha espatifou-se em uma pilha de lascas escuras.

– Não leva muito tempo para esfriar. – Ele parou e pegou um pedaço. – Esta aqui, provavelmente, está a 20 ou 25 graus. Vejam! – O capitão atirou a rocha “quente” na laje de gelo. Ela deslizou descontrolada, em um padrão estranho, e lançou-se para fora, pela lateral. Ele atirou outra lasca, e tudo se repetiu.

– Como sabem, vocês não estão perfeitamente isolados. Estas rochas estão quase na mesma temperatura da sola de suas botas. Se vocês tentarem ficar de pé em uma laje de hidrogênio, acontecerá a mesma coisa com vocês. A única diferença é que as rochas já estão mortas. A razão para este comportamento é que a rocha produz uma interface lisa em contato com o gelo, uma pequena poça de hidrogênio líquido, e transporta algumas moléculas sobre o líquido em uma camada de vapor de hidrogênio. Isto faz com que a rocha ou vocês sejam um ponto de apoio sem atrito, no que diz respeito ao gelo, e vocês não conseguem ficar de pé sem atrito sob suas botas. Depois de viver dentro do traje por mais ou menos um mês, vocês devem ser capazes de sobreviver a uma queda, mas agora ainda não sabem o suficiente. Deem uma olhada.

O capitão flexionou um pouco as pernas e saltou para cima da laje. Seus pés escorregaram e ele se desequilibrou, girando pelos ares. Caiu com as mãos e os joelhos no chão e levantou-se depressa.

– A ideia é evitar qualquer contato de suas válvulas de escape com o gás congelado. Comparadas com o gelo, elas são tão quentes quanto uma fornalha em atividade, e o simples contato com qualquer peso resultará em explosão.

Depois da demonstração, caminhamos por mais uma hora, aproximadamente, e retornamos ao alojamento. Depois de passar pela câmara de compressão, tínhamos de aguardar um pouco até que os trajes se aclimatassem à temperatura ambiente. Alguém se aproximou e tocou meu capacete.

– William? – Ela tinha MCCOY escrito acima da viseira.

– Oi, Sean. Algo especial?

– Só queria saber se você tem com quem dormir esta noite.

É mesmo, eu tinha esquecido. Não havia nenhuma lista de dormir por ali. Cada um escolhia seu parceiro.

– Claro, quero dizer, ah, não… não, não falei com ninguém. Claro, se quiser…

– Obrigada, William. Vejo você mais tarde.

Eu a vi se distanciar e pensei que, se alguém conseguisse fazer um uniforme de combate parecer sexy, seria Sean. Mas nem ela conseguia.

Cortez decidiu que estávamos aquecidos o bastante e nos guiou ao vestiário, onde colocamos as coisas de volta no lugar e as penduramos em carregadores. (Cada uniforme possuía um fragmento de plutônio que o mantinha carregado por vários anos, mas éramos orientados a usar células de combustível o máximo possível.) Depois de muito tempo andando de um lado para o outro, finalmente todos recebemos permissão para tirar os trajes – 97 pintinhos nus se contorcendo para sair de ovos verdes brilhantes. Estava frio (o ar, o chão e, principalmente, as vestimentas) e nos dirigimos de maneira um tanto desordenada em direção aos armários.

Vesti rapidamente uma túnica, calças e sandálias, mas ainda estava frio. Peguei minha caneca e entrei na fila da soja. Todos estavam dando pulinhos para se manter aquecidos.

– Que fri-frio, não acha, Man-Mandella? – Era McCoy.

– Não quero… nem pensar… nisso. – Parei de pular e comecei a friccionar meu corpo o mais intensamente possível, enquanto segurava a caneca em uma das mãos. – Pelo menos tão frio quanto em Missouri.

– Hum… queria que eles… esquentassem um pouco… esta porra de lugar.

O frio sempre afeta mais as mulheres baixas do que outras pessoas. McCoy era a menor da companhia, uma bonequinha escultural com cerca de 1,5 metro de altura.

– Eles ligaram o ar-condicionado agora. Não deve demorar para melhorar.

– Eu queria ser… um pedação de carne… como você.

Que bom que ela não era.