Guerra sem fim
Capítulo 12
12
Quando iniciamos nossa jornada, usamos a camuflagem “selva” em nossos trajes. Mas o que se considerava “selva”, nestes trópicos anêmicos, era muito escasso. Parecíamos um bando de arlequins extravagantes marchando pela floresta. Cortez nos fez trocar pelo preto, mas ele era tão ruim quanto, já que a luz de Épsilon vinha de todos os cantos do céu e não havia sombras, exceto as nossas. Por fim, ajustamos a camuflagem para a cor pardacenta do deserto.
A natureza no interior mudava lentamente à medida que seguíamos para o norte, afastando-nos do mar. Os galhos espinhentos – acho que poderiam ser chamados de árvores – surgiam em menor número, mas eram maiores e menos frágeis. Na base de cada um havia videiras enroscadas com a mesma cor verde-azulada, que se espalhavam em um cone rasteiro de cerca de 10 metros de diâmetro. Havia uma delicada flor verde do tamanho da cabeça de um homem próximo ao topo de cada árvore.
Começava a crescer algum tipo de relva a uns 5 quilômetros do mar. Ela parecia respeitar os “direitos de propriedade” das árvores, pois deixava uma faixa de terra descoberta em volta de cada cone de videira. Crescia na borda dessas clareiras como uma tímida vegetação rasteira verde-azulada que, ao se afastar das árvores, ficava mais grossa e mais alta, até alcançar a altura de nossos ombros em alguns lugares, onde a distância entre as árvores era estranhamente grande. Essa grama tinha um tom de verde mais claro que as árvores e videiras, e por isso mudamos a cor de nossos trajes para o verde brilhante que usávamos para obter máxima visibilidade em Caronte. Se ficássemos na parte densa da grama, passaríamos despercebidos.
Percorríamos mais de 20 quilômetros por dia, sentindo-nos flutuar, depois de meses sob 2 gravidades. Até o segundo dia, a única forma de vida animal que vimos foi um tipo de verme preto, do tamanho de um dedo, com centenas de pernas ciliadas como as cerdas de uma escova. Rogers disse que, obviamente, deveria haver alguma criatura maior por perto, ou não existiria razão para as árvores possuírem espinhos. Então, redobramos nosso estado de alerta, esperando problemas tanto dos taurianos quanto de alguma “grande criatura” não identificada.
O segundo pelotão de Potter estava na frente. A frequência geral estava reservada para ela, já que provavelmente seu pelotão seria o primeiro a identificar qualquer problema.
– Sargento, aqui é Potter – todos nós ouvimos –, movimento à frente.
– Abaixem-se, então!
– Estamos em movimento. Não acho que estejam nos vendo.
– Primeiro pelotão, vá até a ponta direita. Mantenham-se abaixados. Quarto, vá para a esquerda. Avisem-me quando estiverem em posição. Sexto pelotão, fique atrás e proteja a retaguarda. Quinto e terceiro, aproximem-se do grupo de comando.
Duas dúzias de pessoas surgiram da grama para juntar-se a nós. Cortez deve ter recebido notícias do quarto pelotão.
– Bom. E quanto a vocês aí da ponta? Ok, ótimo. Quantos estão aí?
– Oito, pelo que podemos ver. – Era a voz de Potter.
– Certo, quando eu avisar, abram fogo. Atirem para matar.
– Sargento… são apenas animais.
– Potter, se você conhecia todo este tempo a aparência dos taurianos, deveria ter nos contado. Atire para matar.
– Mas precisamos…
– Precisamos de um prisioneiro, mas não precisamos escoltá-lo 40 quilômetros até sua base e vigiá-lo enquanto lutamos. Está claro?
– Sim, sargento.
– Ok. Sétimo, todos vocês, crânios e esquisitões, vamos avançar com cuidado. Quinto e terceiro, sigam-nos para dar cobertura.
Rastejamos pela grama alta até onde o segundo pelotão havia formado uma linha de fogo.
– Não vejo nada – disse Cortez.
– À frente, um pouco à esquerda. Verde-escuro.
Eram de um tom pouco mais escuro do que a grama. Mas, após ter visto o primeiro, podíamos identificar todos se movendo lentamente cerca de 30 metros à frente.
– Fogo!
Cortez atirou primeiro. E, então, doze linhas carmim saltaram e a grama murchou, desapareceu. As criaturas morreram tentando se dispersar.
– Cessar fogo, cessar! – Cortez se levantou. – Queremos que sobre algo… Segundo pelotão, siga-me.
Ele se dirigiu a passos largos em direção aos corpos flamejantes, com o laser de dedo apontado à frente como se fosse uma obscena vara de vedor atraindo-o para a carnificina. Senti um bolo se formando em minha garganta e soube que todas as pavorosas fitas de treinamento e todas as terríveis mortes acidentais em treinamento não haviam me preparado para essa súbita realidade… eu tinha uma varinha mágica que poderia apontar para uma vida e fazê-la virar um flamejante pedaço de carne mal passada. Eu não era um soldado, nunca quis ser, nunca ia querer ser…
– Ok, sétimo, venha cá.
Enquanto caminhávamos na direção deles, uma das criaturas esboçou um pequeno tremor, e Cortez atirou nela com seu raio laser, em um gesto quase negligente. Isso abriu um talho de um palmo de profundidade no meio da criatura. Ela morreu, como as demais, sem emitir sequer um gemido.
As criaturas não eram tão altas quanto os humanos, mas mais largas na cintura. Eram recobertas por uma pele de cor verde-escura, quase preta… viam-se ondulações brancas onde o laser a chamuscara. Pareciam ter três pernas e um braço. O único ornamento em suas cabeças peludas era uma boca, um orifício preto e úmido preenchido com dentes negros e lisos. Eram realmente repulsivas, mas sua pior característica não era algo que as diferia dos seres humanos, mas uma similaridade… No momento em que o laser abriu uma cavidade em seus corpos, glóbulos branco-leite cintilante foram expelidos juntamente com órgãos em espiral. Seu sangue coagulante era vermelho-escuro.
– Rogers, dê uma olhada. Taurianos ou não?
Rogers ajoelhou-se junto a uma das criaturas com as vísceras para fora e abriu uma caixa lisa de plástico, cheia de ferramentas brilhantes de dissecção. Ela escolheu um bisturi.
– De um jeito ou de outro, vamos descobrir. – O dr. Wilson observava sobre os ombros de Rogers à medida que, metodicamente, ela cortava a membrana que recobria vários órgãos.
– Vejam. – Ela ergueu entre dois dedos uma massa fibrosa enegrecida, uma paródia de delicadeza por baixo daquela armadura.
– E então?
– É grama, sargento. Se os taurianos comem grama e respiram ar, certamente encontraram um planeta muito parecido com o planeta natal deles. – Ela, então, jogou a massa fibrosa fora. – São animais, sargento, apenas um bando de animais.
– Eu não sei – disse o dr. Wilson. – Só porque andam sobre quatro, ou três pernas, e comem grama…
– Bem, vamos dar uma olhada no cérebro. – Ao encontrar um que havia sido atingido na cabeça, ela raspou a parte superficial carbonizada da ferida. – Deem uma olhada.
Era quase tudo osso maciço. Ela puxava e bagunçava os pelos que cobriam toda a cabeça de outro espécime.
– Que diabos eles usam como órgãos sensoriais? Sem olhos, ouvidos… – Ela se levantou. – Nada nesta bosta de cabeça a não ser uma boca e 10 centímetros de crânio. Para proteger nada, porcaria nenhuma.
– Se eu pudesse ignorar, eu o faria – disse o médico. – Isso não prova nada… um cérebro não precisa parecer uma noz polpuda nem, necessariamente, situar-se na cabeça. Talvez aquele crânio não seja osso, talvez aquilo seja o cérebro, uma treliça cristalizada…
– Tá bom, mas a porcaria do estômago está no lugar certo, e se aquilo não fizer parte dos intestinos, eu como…
– Olha – disse Cortez –, isso é realmente interessante, mas tudo o que precisamos saber é se aquela coisa é perigosa. E temos de seguir em frente; não temos todo o…
– Eles não são perigosos – começou Rogers – eles não…
– Médico! DOUTOR!
Alguém na linha de fogo acenava com os braços. O médico correu em sua direção, e nós o seguimos.
– O que há de errado?
Ele foi chegando e abrindo o kit médico durante o trajeto.
– É a Ho. Ela apagou.
O médico abriu a portinhola do monitor biomédico de Ho. Ele não precisou analisar muito.
– Ela está morta.
– Morta? – perguntou Cortez. – Mas que diabos…
– Só um minuto… – O médico plugou um cabo no monitor e mexeu em alguns indicadores em seu kit. Os dados biomédicos de todos ficam armazenados por doze horas. – Se eu rebobinar, vai dar para… pronto!
– O quê?
– Quatro minutos e meio atrás… Deve ter sido quando vocês abriram fogo… Jesus!
– E então?
– Hemorragia cerebral generalizada. Não… – Ele observou os indicadores. – Nenhum… aviso, nenhuma indicação de anormalidade. Pressão sanguínea elevada, pulso elevado, mas normais se consideradas as circunstâncias… nada que possa… indicar… – Ele se curvou e abriu o traje. Suas delicadas feições orientais estavam distorcidas em uma horrível careta, ambas as gengivas à mostra. Um fluido grudento escorria de suas pálpebras cerradas e gotas de sangue ainda pingavam de cada uma das orelhas. O dr. Wilson fechou o traje novamente.
– Nunca vi nada igual. Foi como se uma bomba tivesse explodido dentro de seu crânio.
– Que merda! – disse Rogers. – Ela tinha boa percepção Rhine, não tinha?
– Isso mesmo – Cortez pareceu pensativo. – Tudo bem, ouçam todos com atenção. Líderes de pelotão, chequem seus pelotões e vejam se não há ninguém faltando ou ferido. Alguém mais no sétimo?
– Eu… estou com uma terrível dor de cabeça, sargento – disse Lucky.
– Outros quatro estavam com fortes dores de cabeça. Um deles afirmou que tinha um pouco de percepção Rhine. Os outros não sabiam.
– Cortez, acho que é óbvio – o dr. Wilson disse – que deveríamos ficar longe destes… monstros… E principalmente é melhor não machucar mais nenhum deles. Não com cinco pessoas suscetíveis a qualquer coisa que tenha aparentemente matado Ho.
– Claro! Mas que saco! Não preciso de ninguém para me dizer isso. É melhor seguirmos em frente. Acabei de inteirar o capitão sobre o que aconteceu. Ele concorda que temos de estar o mais distante possível daqui antes do anoitecer. Vamos voltar à formação e manter a mesma conduta. Quinto pelotão, assuma a ponta. Segundo, venha para a retaguarda. Todos os outros, exatamente como antes.
– E quanto à Ho? – perguntou Lucky.
– O pessoal da nave tomará conta dela.
Após termos trilhado meio quilômetro, começou a trovejar. Onde Ho ficara, surgiu uma nuvem luminosa em formato de cogumelo, que evaporou e desapareceu no céu acinzentado.