Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 26 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 22

22

 

O general Botsford (que fora major pleno apenas na primeira vez que o vimos, quando o Portal Estelar possuía somente duas cabanas e 24 sepulturas) nos recebeu em uma sala de reuniões mobiliada com elegância. Ele andava de um lado para o outro no extremo da sala, em frente a um imenso gráfico de operações holográficas.

– Vocês sabem… – começou falando bem alto e, depois, mais em tom de conversa –, vocês sabem que poderíamos distribuí-los em outras forças de ataque e mandá-los de novo para combate. O Ato de Conscrição de Elite foi modificado: agora são cinco anos de serviço em vez de dois. Não compreendo por que alguns de vocês não querem ficar! Mais alguns anos e juros compostos tornariam vocês ricos e independentes pelo resto da vida. Com certeza houve grandes perdas… mas era inevitável; vocês foram os primeiros. As coisas serão mais fáceis a partir de agora. Os uniformes de combate foram aperfeiçoados, sabemos mais a respeito das táticas taurianas, nosso armamento é mais eficaz… não há o que temer.

Ele se sentou na cabeceira da mesa e não olhou para ninguém em particular.

– Minhas memórias de combate têm mais de meio século de idade. Para mim era estimulante, fortalecedor. Devo ser um tipo de pessoa diferente de vocês.

Ou tem memória bem seletiva, pensei.

– Mas nada disso vem ao caso. Tenho uma alternativa para oferecer a vocês, uma que não envolve combate direto. Carecemos de instrutores qualificados. A Força oferecerá a vocês o cargo de tenente se aceitarem ir para a área de treinamento. Pode ser na Terra; na Lua, recebendo o dobro do pagamento; em Caronte, recebendo o triplo; ou aqui no Portal Estelar, recebendo o quádruplo. Além do mais, vocês não precisam decidir agora. Todos ganharão uma viagem gratuita de volta à Terra… Invejo vocês, pois não volto faz quinze anos e, provavelmente, não voltarei mais, e vocês poderão desfrutar da sensação de serem civis novamente. Se não gostarem, apenas dirijam-se a qualquer escritório da FENU e sairão de lá como oficiais, podendo escolher o seu destino. Alguns de vocês estão sorrindo, mas deveriam pensar duas vezes, pois a Terra não é mais o mesmo lugar que deixaram para trás.

Ele retirou um pequeno cartão de sua túnica e o olhou, sorrindo.

– A maioria de vocês possui em torno de 400 mil dólares, somando pagamentos e juros. Contudo, a Terra está em pé de guerra e, com certeza, são os cidadãos de lá que estão financiando a guerra. Ao chegarem, a taxação da renda de vocês será de 92%: 32 mil dólares devem durar cerca de três anos, mesmo fazendo economia. Ao final, vocês terão que arranjar emprego. Estão mais qualificados e treinados para este que têm agora, e não existem tantos assim disponíveis. A população da Terra é de quase 9 bilhões de pessoas, e 5 ou 6 bilhões estão desempregadas. Lembrem-se também de que seus amigos e pessoas queridas de dois anos atrás agora têm 21 anos a mais que vocês. Muitos de seus parentes terão falecido. Creio que vocês se sentirão extremamente solitários nesse mundo. Mas, para falar a respeito desse mundo, passarei a palavra para o capitão Siri, que acaba de chegar da Terra. Capitão?

– Obrigado, general. – Parecia que havia algo de errado com sua pele, com seu rosto. Então me dei conta de que ele usava pó compacto e batom. Suas unhas estavam pintadas com um branco suave e amendoado.

– Não sei por onde começar. – Ele mordeu o lábio superior e nos olhou, franzindo a testa. – As coisas mudaram muito desde a época em que eu era garoto. Tenho 23 anos; portanto, eu ainda usava fraldas quando vocês deixaram a Terra para ir a Aleph… Para começar, quantos de vocês são homossexuais?

– Ninguém.

– Isto realmente não me surpreende. Eu sou, é claro. Suponho que um terço das pessoas na Europa e na América também seja. A maioria dos governos incentiva a homossexualidade. As Nações Unidas mantêm-se neutras, a decisão cabe a cada país. Incentiva-se a opção por parceiros do mesmo sexo, principalmente por ser o único método seguro de controle de natalidade.

Aquilo me parecia apenas parcialmente razoável. Nosso método de controle de natalidade no exército era bem infalível: todos os homens faziam um depósito no banco de esperma para, então, serem submetidos a uma vasectomia.

– Como o general disse, a população mundial é de 9 bilhões. Mais do que dobrou desde que vocês foram convocados. E aproximadamente dois terços abandonam a escola apenas para serem sustentados pelo governo. Por falar em escola, quantos anos de ensino público o governo ofereceu a vocês?

Ele olhava para mim, então respondi:

– Catorze.

Ele acenou com a cabeça.

– Agora são dezoito. Mais, se não forem aprovados nos testes. E tais aprovações são requeridas por lei para conseguir qualquer tipo de emprego ou assistência social de primeira. E, irmãos, é difícil manter-se com qualquer coisa que não seja de primeira. Sim? – Hofstadter erguera a mão.

– Senhor, são dezoito anos de ensino público em todos os países? Onde arranjam escolas suficientes?

– Ah… a maioria das pessoas completa os últimos cinco ou seis anos em sua residência ou em um centro comunitário, via tela holográfica. As Nações Unidas possuem 40 ou 50 canais de informação, que oferecem instrução 24 horas por dia. No entanto, a maioria de vocês não terá de se preocupar com isso. Se estão na Força, já são mais inteligentes do que metade das pessoas.

Ele afastou o cabelo dos olhos com um trejeito extremamente feminino, fazendo meio que um beicinho.

– Deixe-me inteirá-los um pouco da história. Acho que o primeiro acontecimento realmente importante que se passou desde a partida de vocês foi a Guerra de Racionamento de Alimentos, que ocorreu em 2007. Muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo: praga de gafanhotos na América do Norte, praga em plantações de arroz desde a Birmânia até o Mar da China Meridional, marés vermelhas por toda a costa da América do Sul. De repente, não havia comida suficiente para todos. As Nações Unidas intervieram e assumiram a distribuição de suprimentos. Para cada homem, mulher e criança foi estabelecida uma ração, permitindo-les o consumo de uma quantidade determinada de calorias por mês. Se eis excedessem o consumo mensal, simplesmente passariam fome no mês seguinte.

Algumas das pessoas que encontramos após Aleph usavam “eis, dei, les” em vez dos pronomes “eles/elas, dele/dela, lhes”. Fiquei me perguntando se era assim em todo o mundo.

– Claro que surgiu um mercado ilegal, e, logo, houve grande desigualdade na quantidade de comida recebida por pessoas das várias camadas da sociedade. Um grupo equatoriano que buscava vingança, denominado “Imparciales”, começou sistematicamente a assassinar pessoas que pareciam estar mais bem alimentadas. A ideia pegou depressa, e em poucos meses instalou-se uma guerra de classes não declarada em todo o mundo. As Nações Unidas conseguiram controlar a situação depois de cerca de um ano. A essa altura, a população havia baixado para 4 bilhões, as plantações foram parcialmente recuperadas e a crise alimentar chegou ao fim. O racionamento foi mantido, mas nunca mais de forma tão severa. Por conveniência, o general converteu em dólares o dinheiro que vocês receberão. No entanto, no mundo de hoje existe apenas uma moeda: calorias. Seus 32 mil dólares equivalem a aproximadamente 3 bilhões de calorias. Ou 3 milhões de KCAL – quilocalorias. Desde a Guerra de Racionamento, as Nações Unidas incentivam a agricultura de subsistência onde quer que seja praticável. Comida cultivada por conta própria não é racionada, claro… Isto fez com que pessoas abandonassem as cidades e fossem para reservas agrícolas das Nações Unidas, o que ajudou a aliviar alguns problemas urbanos. Mas a agricultura de subsistência parece encorajar a formação de grandes famílias e, assim, a população mundial mais que dobrou desde a Guerra de Racionamento. Também não temos mais a abundância de energia elétrica de que lembro na minha infância… Provavelmente, bem menos do que vocês lembram. Há apenas alguns poucos lugares no mundo onde se pode ter energia dia e noite. Eles insistem em dizer que é uma situação temporária, mas perdura por mais de uma década.

Ele continuou falando por um longo tempo. Bem, que diabos, muito daquilo não era realmente nenhuma surpresa. Provavelmente tínhamos passado os últimos dois anos discutindo sobre como a Terra estaria quando voltássemos mais do que qualquer outro assunto. Infelizmente, a maioria das coisas ruins que prevíramos parecia ter se tornado realidade; quanto às coisas boas, bem poucas.

Na minha opinião, o pior, creio, foi terem subdividido a maioria dos parques, transformando-os em pequenas fazendas. Quem quisesse encontrar algum tipo de ambiente selvagem, precisaria ir a algum lugar onde não fosse possível cultivar plantação alguma.

O general falou que as relações entre as pessoas que escolhem a vida homoafetiva e aquelas às quais ele se referia como “reprodutoras” eram bastante tranquilas, mas tive dúvidas. Nunca tive muito problema em aceitar os homossexuais, porém nunca havia precisado lidar com tantos deles.

Ele disse também, respondendo a uma pergunta pouco educada, que seu pó compacto e sua maquiagem nada tinham a ver com sua orientação sexual. Era apenas uma questão de estilo. Resolvi que seria anacrônico e continuaria de cara limpa.

Não acho que deveria ter me surpreendido com a mudança considerável da língua em vinte anos. Meus pais costumavam dizer que as coisas eram “da hora”, baseados eram “erva”, e assim por diante.

Tivemos de esperar várias semanas antes de podermos voltar à Terra. Retornaríamos na Aniversário, mas antes ela tinha de ser desmontada e montada novamente.

Enquanto isso, ficamos alojados em aconchegantes instalações para duas pessoas e dispensados de todas as obrigações militares. A maioria passava os dias na biblioteca, tentando se inteirar sobre os vinte anos de acontecimentos. E, à noite, encontrávamo-nos no Flowing Bowl, um clube para suboficiais. Os soldados, é claro, não deveriam estar lá, mas descobrimos que ninguém reclama com alguém que possui duas condecorações fluorescentes por ter participado de combate.

Fiquei surpreso: no bar, eram servidas doses de heroína. O garçom disse que davam uma dose compensatória para que a pessoa não se viciasse. Fiquei chapadão e experimentei uma. Nunca mais.

O submajor Stott ficou no Portal Estelar, onde eram acertados os detalhes de uma nova Força de Ataque Alfa. O restante de nós embarcou na Aniversário e tivemos uma jornada razoavelmente agradável de seis meses. Cortez não insistiu para que tudo fosse militar com M maiúsculo e, assim, a viagem foi muito melhor que aquela de Yod-4.