Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 34 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 30

30

 

 

As primeiras espaçonaves projetadas pela FENU possuíam certa beleza aracnídea e delicada. Mas com o desenvolvimento tecnológico, a força estrutural passou a ser mais importante do que a conservação da massa (as naves antigas teriam se dobrado como uma sanfona se fossem submetidas a uma manobra de 25 gravidades), e isso se refletiu em seu design: sólidas, pesadas e funcionais. O único enfeite era o nome Masaryk II estampado no casco escuro com tinta fosca azul.

Nossa nave de transporte deslizou sobre o nome enquanto se dirigia para o terminal de carga, e havia uma equipe de minúsculos homens e mulheres fazendo a manutenção do casco. Tendo eles como referência, era possível calcular que cada letra devia ter mais de 100 metros de altura. A espaçonave tinha mais de 1 quilômetro de comprimento (1036,5 metros, minha memória parecia soprar), e pelo menos um terço disso de largura (319,4 metros).

Isso não queria dizer que teríamos espaço sobrando. Em seu bojo, havia seis grandes caças com propulsores de táquions e cinquenta drones robôs. A infantaria ficaria espremida em um dos cantos. A guerra é o território do atrito, disse Chuck von Clausewitz; e eu pressentia que iríamos provar que ele estava certo.

Tínhamos cerca de seis horas antes de entrarmos no tanque de aceleração. Deixei meus pertences na pequena cabine que seria meu lar pelos próximos vinte meses e saí para explorar.

Charlie havia chegado ao lounge dos oficiais antes de mim e me tirou o privilégio de ser o primeiro a avaliar a qualidade do café disponível na Masaryk II.

– Parece bile de rinoceronte – comentou.

– Pelo menos não é soja – falei, tomando meu primeiro gole com cuidado. Constatei que eu iria sentir falta de soja dentro de uma semana.

O lounge dos oficiais era um cubículo de cerca de 3 por 4 metros, com piso e paredes metálicas, uma máquina de café e uma biblioteca digital. Nele havia seis cadeiras duras e uma mesa com uma máquina de escrever.

– Lugar agradável, não? – De forma indolente, ele deu uma olhada no índice geral da biblioteca digital. Um monte de teorias militares.

– É bom para refrescar a memória.

– Você se inscreveu para o treinamento de oficiais?

– Eu? Não. Ordens.

– Ao menos você tem uma desculpa. – Ele apertou o botão de ligar e desligar e ficou observando a intensidade da luz verde diminuir. – Eu me inscrevi. Eles não me disseram que seria assim.

– É…

Ele não se referia a um problema simples como o peso da responsabilidade ou coisa parecida.

– Dizem que esquecemos gradualmente.

Toda aquela informação que obrigam você a absorver; um sussurro constante e silencioso.

– Ah… aí estão vocês – Hilleboe entrou e nos cumprimentou. Ela inspecionou rapidamente a sala, e era óbvio que aqueles padrões espartanos tiveram sua aprovação. – Vai querer falar à companhia antes de nos dirigirmos aos tanques de aceleração?

– Não. Não vejo por que isso seria… necessário – quase disse “desejável”. Dar bronca em subordinados é uma arte delicada. Percebi que eu precisaria sempre relembrar a Hilleboe que ela não estava no comando. Ou eu podia apenas trocar de insígnias com ela, deixá-la experimentar as delícias do comando. – Você poderia, por favor, agrupar todos os líderes de pelotão e repassar a sequência de imersão com eles? Em breve, faremos alguns exercícios de aceleração. Mas, por ora, acho que as tropas podem aproveitar estas horas restantes para descansar.

Como se eles estivessem com tanta ressaca quanto seu comandante.

– Sim, senhor.

Ela se virou e foi embora. Um pouco zangada, pois o que pedi que fizesse era um trabalho mais apropriado para Riland ou Rusk.

Charlie pousou seu corpo rechonchudo em uma das cadeiras duras e suspirou.

– Vinte meses nessa máquina besuntada. Com ela. Merda.

– Bem, se você for bonzinho comigo, não vou te colocar no mesmo alojamento que ela.

– Está bem. Serei seu escravo eternamente. Começando, vejamos, na próxima sexta-feira. – Ele olhou para dentro de sua xícara e decidiu não tomar o resto. – Sem brincadeira, ela vai dar trabalho. O que você fará com ela?

– Não sei.

Charlie também estava sendo insubordinado, é claro. Mas ele era meu subcomandante e estava fora da cadeia de comando. Além do mais, eu tinha de ter ao menos um amigo.

– Talvez ela amoleça quando estivermos a caminho – sugeri.

– Pode ser.

Tecnicamente, já estávamos rastejando em direção ao colapsar Portal Estelar, acelerando a 1 gravidade. Mas aquilo era apenas para conveniência da tripulação. É difícil correr às escotilhas em queda livre. A viagem só começaria, de verdade, quando estivéssemos nos tanques.

O refeitório era muito deprimente, então Charlie e eu usamos as horas restantes para explorar a nave.

A ponte se parecia com qualquer outro computador. Dispensaram o uso de janelas, considerando-as um luxo desnecessário. Permanecemos a uma distância respeitável enquanto observávamos Antopol e seus oficiais fazerem uma última vez toda a série de inspeções, antes de entrarmos nos tanques e deixarmos nosso destino nas mãos de máquinas.

Na verdade, havia uma escotilha, uma bolha de plástico grosso, na sala de navegação em frente. O tenente Williams não estava ocupado. A parte de seu trabalho que incluía a pré-inserção era totalmente automática; portanto, ele teve prazer em nos mostrar as instalações.

Ele deu uma batidinha na escotilha com a unha.

– Espero que não tenhamos de usá-la nesta viagem.

– Por quê? – indagou Charlie.

– Só usamos quando nos perdemos. – Se o ângulo de inserção estivesse fora da rota por um milésimo de radiano, poderíamos parar do outro lado da galáxia. – Assim conseguimos ter uma ideia aproximada de nossa posição analisando os espectros das estrelas mais brilhantes. Elas têm uma espécie de impressão digital. Identificando três, podemos fazer uma triangulação.

– E daí encontramos o colapsar mais próximo e voltamos para a rota – completei.

– Aí é que está o problema. Sade-138 é o único colapsar que conhecemos na Nuvem de Magalhães. E só o conhecemos graças a dados que interceptamos dos inimigos. Mesmo se conseguíssemos encontrar outro colapsar, se nos perdêssemos na nuvem, não saberíamos como nos inserir.

– Que legal.

– Não é como se estivéssemos realmente perdidos – ele falou com uma expressão perversa no rosto. – Poderíamos entrar nos tanques, mirar a Terra e partir a toda potência. Chegaríamos lá em cerca de três meses, tempo da nave.

– Claro – falei. – Mas 150 mil anos no futuro. A 25 gravidades, chega-se a 0,9 da velocidade da luz em menos de um mês. A partir daí, você está nos braços de Santo Alberto.

– Bem, seria uma desvantagem, mas ao menos saberíamos quem ganhou a guerra.

Aquilo nos levou a perguntar quantos soldados haviam escapado da guerra dessa maneira. Havia 42 forças de ataque perdidas em algum lugar, das quais não se tinha notícia. Era possível que todas elas estivessem vagando pelo espaço à velocidade da luz e apareceriam na Terra ou no Portal Estelar uma a uma, com o passar dos séculos.

Essa com certeza era uma maneira conveniente de escapar sem permissão oficial, já que, uma vez fora da cadeia de saltos colapsares, seria praticamente impossível rastreá-las. Infelizmente, nossa sequência de saltos fora pré-programada pelo Comando da Força de Ataque. O navegador humano apenas entraria em ação se um erro de cálculo nos fizesse cair no “buraco de minhoca” errado e fôssemos parar em uma parte qualquer do espaço.

Charlie e eu fomos inspecionar a sala de ginástica, ampla o bastante para cerca de doze pessoas por vez. Pedi a ele que fizesse uma lista para que todos pudessem se exercitar durante uma hora por dia quando estivéssemos fora dos tanques.

O refeitório era só um pouco maior do que a sala de ginástica (mesmo com quatro turnos, as refeições seriam feitas ombro a ombro), e o lounge dos recrutas era ainda mais deprimente que o dos oficiais. Eu teria um verdadeiro problema de moral em minhas mãos bem antes de os vinte meses se completarem.

A armaria tinha o tamanho da sala de ginástica, do refeitório e dos dois lounges juntos. Tinha de ser assim devido à grande variedade de armas de infantaria que surgiram com o passar dos séculos. A arma básica ainda era o traje de combate, embora ele agora fosse muito mais sofisticado que o primeiro modelo em que eu fora espremido, pouco antes da campanha de Aleph.

O tenente Riland, oficial armeiro, estava supervisionando seus quatro subordinados, um de cada pelotão, que faziam uma checagem de última hora no depósito de armas. Provavelmente, o trabalho mais importante na nave inteira, quando se pensa no que poderia acontecer com todas aquelas toneladas de explosivos e radioativos a uma velocidade de 25 gravidades. Respondi à sua discreta saudação.

– Tudo nos conformes, tenente?

– Sim, senhor, exceto por aquelas merdas de espada. – Eram utilizadas no campo de estase. – Não há como arrumá-las sem que enverguem. Vamos torcer para que não quebrem.

Eu não conseguia entender os princípios por trás dos campos de estase. O lapso entre a física atual e o meu mestrado no assunto era tão grande quanto o tempo que separava Galileu e Einstein. Mas eu conhecia seus efeitos.

Nada podia se mover a mais de 16,3 metros por segundo dentro desses campos, que tinham um volume hemisférico (esférico, no espaço) de cerca de 50 metros de raio. Em seu interior, não havia radiação eletromagnética, nem eletricidade, nem magnetismo, nem luz. De dentro do traje, era possível ver as imediações em uma monocromia fantasmagórica. Haviam me explicado tal fenômeno apenas em termos superficiais, como sendo por causa da “transferência de fase de um vazamento de quase energia por meio de uma adjacente realidade taquiônica”. Flogístico demais para mim.

O resultado disso, no entanto, era tornar todas as armas de guerra convencionais inúteis. Mesmo uma bomba-nova era apenas uma massa inerte dentro do campo. E qualquer criatura, terráquea ou tauriana, pega dentro do campo sem o devido isolamento, morreria em fração de segundos.

À primeira vista, parecia que tínhamos descoberto a mais potente das armas. Houve cinco combates nos quais bases taurianas completas foram aniquiladas sem que ocorresse nenhuma perda humana. Tudo o que se tinha de fazer era levar o campo até os inimigos (quatro brutamontes conseguiriam carregá-lo em uma gravidade como a da Terra) e vê-los morrer à medida que passavam pela barreira opaca do campo. As pessoas que transportavam o gerador eram invulneráveis, exceto nos curtos períodos em que talvez tivessem de desligar a coisa para se orientar.

Porém, na sexta vez em que o campo foi utilizado, os taurianos estavam preparados. Eles usavam trajes protetores e portavam lanças afiadas, com as quais conseguiam abrir brechas nos trajes dos carregadores do gerador. A partir de então, os carregadores passaram a andar armados.

Apenas outras três batalhas desse tipo foram relatadas, embora uma dezena de forças de ataque tenha partido com campos de estase. As outras ainda estavam combatendo, ou a caminho, ou haviam sido totalmente derrotadas. Não era possível dizer, a menos que voltassem. E não eram encorajadas a voltar enquanto os taurianos ainda controlassem “suas” propriedades… Supostamente, constituía “deserção sob fogo inimigo”, o que significava execução de todos os oficiais (embora houvesse rumores de que simplesmente sofreriam lavagem cerebral, reeducação e seriam mandados de volta para a batalha).

– Usaremos os campos de estase, senhor? – Riland perguntou.

– Provavelmente. Não de imediato, a menos que os taurianos já estejam lá. Não me agrada a ideia de viver dentro de um traje dias e dias. – Também não me agradava a ideia de usar espadas, lanças e atirar facas, independente de quantas ilusões eletrônicas eu havia enviado para Valhalla usando esse tipo de arma.

Consultei meu relógio.

– Bem, é melhor nos dirigirmos para os tanques, capitão. Não deixe de se certificar de que está tudo preparado.

Ainda tínhamos duas horas antes que a sequência de inserção se iniciasse.

A sala em que os tanques estavam lembrava uma grande indústria química. O piso tinha perto de 100 metros de diâmetro e estava apinhado com aparatos volumosos pintados em um cinza opaco e uniforme. Os oito tanques estavam dispostos quase simetricamente em volta do elevador central; a simetria só não era perfeita porque um dos tanques tinha duas vezes o tamanho dos outros. Este era o tanque de comando, para todos os oficiais antigos e os especialistas de apoio.

O sargento Blazynski saiu de trás de um dos tanques e nos cumprimentou. Não respondi à sua saudação.

– Que diabos é isso? – Em todo aquele universo acinzentado, havia um ponto de cor.

– É um gato, senhor.

– Nota-se.

Um gato grande, malhado, ridiculamente acomodado no ombro do sargento.

– Deixe-me reformular a frase: que diabos um gato está fazendo aqui?

– É o mascote do esquadrão de manutenção, senhor.

O gato levantou a cabeça, o suficiente para olhar ressentido para mim, e voltou novamente ao seu repouso.

Olhei para Charlie, que encolheu os ombros.

– Parece um pouco cruel – disse ele.

Para o sargento:

– Vocês não vão desfrutar de sua companhia por muito tempo, pois após 25 gravidades será apenas um monte de pelos e tripas.

– Ah, não, senhor! Digo, senhores.

Ele afastou os pelos entre os ombros da criaturinha. Havia um implante de fluorcarbono ali, exatamente como o que eu tinha acima do osso do quadril.

– Compramos em uma loja do Portal Estelar, já modificado. Agora muitas naves têm mascotes, senhor. A comodoro assinou os formulários para nós.

Bem, era direito dela. A manutenção estava sob o comando de nós dois. E esta era a nave dela.

– Você não podia ter arranjado um cachorro?

Deus, eu odiava gatos! Sempre andando furtivamente.

– Não, senhor, eles não se adaptam. Não aguentam a queda livre.

– Você teve de fazer adaptações especiais no tanque? – perguntou Charlie.

– Não, senhor. Temos um assento extra. Precisamos apenas diminuir os cintos.

– Que maravilha. – Então, eu teria que dividir um tanque com o animal.

– Ele toma um tipo diferente de droga para fortalecer as paredes celulares, mas isso estava incluso no preço.

Charlie coçou atrás de uma das orelhas do bichano, que ronronou suavemente, mas não se moveu.

– Parece meio abobado. O animal, quero dizer.

– Nós o drogamos antes do tempo. Assim fica mais fácil prendê-lo.

Não era à toa que ele estava tão parado: as drogas diminuem o metabolismo a uma taxa quase insuficiente para manter a vida.

– Então, acho que tudo bem – falei. – Talvez seja bom para o moral. Mas, se ele começar a atrapalhar, eu mesmo o reciclarei.

– Sim, senhor – ele falou, visivelmente aliviado, duvidando que eu fosse capaz de fazer aquilo com um amontoado de pelos tão bonitinho. Espere pra ver, amigo.

Havíamos visitado tudo. A única coisa que restava, deste lado dos motores, era o grande compartimento onde os caças e as sondas teleguiadas aguardavam, presos em suas imensas armações por causa da aceleração que se aproximava. Charlie e eu descemos para dar uma olhada, mas não havia janelas do nosso lado da câmara de compressão. Eu sabia que havia uma do lado de dentro, mas a câmara já havia sido evacuada e não valia a pena passar por todo aquele ciclo de preenchimento e aquecimento somente para satisfazer nossa curiosidade.

Começava a me sentir um estorvo. Chamei Hilleboe, e ela disse que tudo estava sob controle. Como ainda tínhamos uma hora, voltamos para o refeitório e usamos o computador para intermediar um jogo de Kriegspieler que estava apenas começando a ficar interessante quando o aviso de dez minutos soou.

• • •

Por segurança, os tanques de aceleração tinham uma meia-vida que durava cinco semanas. Havia 50% de chance de se continuar imerso por cinco semanas antes de alguma válvula ou tubo estourar e você ser esmagado como um inseto. Na prática, teria de acontecer uma emergência dos infernos para justificar o uso dos tanques por mais de duas semanas de aceleração. Seriam apenas dez dias nesta primeira parte da jornada.

Contudo, cinco semanas ou cinco horas eram a mesma coisa para quem estava no tanque. Uma vez que a pressão atingia nível operacional, não se tinha mais noção da passagem do tempo. Seu corpo e seu cérebro viravam concreto. Nenhum de seus sentidos funcionava, e você podia se divertir várias horas tentando simplesmente soletrar o próprio nome.

Portanto, não me surpreendi com a impressão de que nenhum tempo havia passado quando, de repente, senti-me seco e meu corpo começou a formigar com o retorno das sensações. O lugar parecia uma convenção de asmáticos no meio de um campo de feno: 39 pessoas e um gato, todos tossindo e espirrando para se livrar dos últimos resíduos de fluorcarbono. Enquanto eu ainda tentava me livrar das correias, a porta lateral se abriu, inundando o tanque com uma luz brilhante que chegava a doer. O gato foi o primeiro a sair, e o pessoal foi logo atrás. Pelo bem da minha dignidade, esperei até que todos saíssem.

Mais de cem pessoas vagavam do lado de fora, alongando-se e massageando os lugares do corpo onde sentiam cãibra. Dignidade! Rodeado por acres de carne feminina jovem, olhei fixamente para o rosto delas e, em minha cabeça, desesperadamente tentei resolver uma equação diferencial de terceira ordem a fim de me livrar do reflexo galanteador. Um recurso provisório, mas que me permitiu chegar até o elevador.

Hilleboe já gritava ordens, alinhando o pessoal, e assim que as portas se fecharam percebi que todos de um determinado pelotão tinham um hematoma leve e uniforme da cabeça aos pés. Vinte pares de olhos negros. Eu precisava consultar a manutenção e a equipe médica sobre aquilo.

Depois de me vestir.