Guerra sem fim
Capítulo 17
17
As cápsulas de aceleração eram algo novo, instaladas enquanto descansávamos e reabastecíamos no Portal Estelar. Permitiam que utilizássemos mais da capacidade teórica da nave, já que os propulsores de táquions atingiam uma aceleração de 25 gravidades.
Tate estava me esperando na área das cápsulas. O resto da equipe caminhava por ali, conversando. Entreguei-lhe o café.
– Obrigado. Descobriu algo?
– Infelizmente não. Apenas os marinheirozinhos não parecem estar assustados… e é o que mais fazem. Provavelmente é só outra manobra de treinamento.
Ele tomou um gole ruidoso de café.
– Que merda! Pra nós tanto faz, de qualquer maneira. Vamos ficar lá sentados e ser esmagados até quase morrer. Nossa, odeio essas coisas.
– Talvez nos tornemos obsoletos em algum momento e assim poderemos voltar para casa.
– Com certeza.
O médico se aproximou e aplicou uma injeção em mim.
Aguardei até as l9h50 e gritei para a equipe:
– Vamos. Dispam-se e entrem nas cápsulas.
A cápsula é como um traje espacial flexível. Pelo menos os ajustes internos são bem similares. No entanto, em cada traje, em vez de um kit de suporte vital, há uma mangueira que entra pelo topo do capacete e duas que saem pelos calcanhares, além de dois tubos de escape. Fica uma ao lado da outra, em assentos de aceleração leve. Chegar à cápsula é como andar por um gigantesco prato de espaguete verde e pardo.
Quando as luzes em meu capacete indicaram que todos estavam em seus lugares, apertei um botão, e a sala foi inundada. Não dava para ver, certamente, mas eu podia imaginar a solução azul pálida – etilenoglicol e alguma outra coisa – espumando acima e em volta de nós. O material do traje, fresco e seco, aderiu a todos os pontos da minha pele. Eu sabia que a pressão interna do meu corpo estava aumentando com rapidez para equilibrar-se com a crescente pressão do fluido externo. A injeção era para isto: evitar que nossas células fossem esmagadas entre a cruz e a espada. Mas ainda era possível sentir. Quando meu medidor apontou 2 (pressão externa equivalente a uma coluna de água a duas milhas náuticas de profundidade), senti que, ao mesmo tempo, eu estava sendo comprimido e inflado. Às 20h05, estava a 2,7 e constante. Quando a manobra teve início, às 20h10, não dava para sentir a diferença. No entanto, pensei ter visto a agulha flutuar um pouco.
A maior desvantagem do sistema é que, claro, qualquer pessoa que estivesse fora da cápsula quando a Aniversário alcançasse a velocidade de 25 gravidades seria reduzida a geleia de morango. Então, o trajeto e a batalha ficam a cargo do computador tático da nave. Ele faz a maior parte do trabalho, de qualquer forma, mas sempre é bom ter uma pessoa para supervisionar.
Outro pequeno problema é que, se a nave for danificada e a pressão baixar, explodiremos como um melão ao cair no chão. Se for a pressão interna, seremos esmagados até a morte em um microssegundo. E leva dez minutos, mais ou menos, para despressurizar, e outros dois ou três para se desvencilhar do traje e vestir outra roupa. Portanto, não é exatamente algo de que dê para sair rápido e partir para o combate.
A aceleração terminou às 20h38. Uma luz verde acendeu e pressionei com o queixo o botão para despressurizar.
Marygay e eu nos vestíamos do lado de fora.
– Como isso aconteceu? – Apontei para um vergão roxo que vinha desde a base do seu seio direito até o osso ilíaco.
– Já é a segunda vez – disse ela, furiosa. – O primeiro foi nas minhas costas. Acho que aquela cápsula não se ajusta bem em mim; cria dobras.
– Talvez você tenha perdido peso.
– Espertalhão!
Nosso consumo calórico vinha sendo rigorosamente monitorado desde que deixáramos o Portal Estelar pela primeira vez. Não há como usar um traje de combate a menos que ele se ajuste como uma segunda pele.
Um alto-falante na parede abafou o restante do comentário dela:
– Atenção, pessoal! Atenção! Todo o pessoal do exército, do 6º escalão para cima, e todo o pessoal da marinha, do 4º escalão para cima, deverão dirigir-se à sala de reunião às 21h30.
A mensagem foi repetida duas vezes. Saí dali para me deitar por alguns minutos, enquanto Marygay mostrava seu vergão ao médico e ao armeiro. Não senti nem um pouco de ciúme.
• • •
O comodoro iniciou a reunião.
– Não há muito o que dizer, e o que há não é nada bom. Seis dias atrás, a embarcação tauriana que está nos perseguindo lançou um míssil teleguiado. Sua aceleração inicial estava na ordem de 80 gravidades. Após mantê-la por aproximadamente um dia, a aceleração, de repente, saltou para 148 gravidades.
Todos engoliram seco.
– Ontem, saltou para 203 gravidades. Não preciso lembrar ninguém aqui que isto é o dobro da capacidade de aceleração observada nos mísseis teleguiados inimigos em nosso último encontro. Lançamos uma saraivada de mísseis, quatro deles para interceptar o que o computador previu como as quatro trajetórias mais prováveis dos projéteis inimigos. Um deles rendeu frutos enquanto fazíamos manobras evasivas. Contatamos e destruímos a arma tauriana a cerca de 10 milhões de quilômetros daqui.
Estava praticamente ao nosso lado.
– A única coisa animadora do nosso encontro resultou da análise espectroscópica da explosão. Não foi mais poderosa que outras explosões que observamos no passado. Portanto, o progresso deles em termos de propulsão, pelo menos, não foi acompanhado por um progresso equivalente em explosivos. Esta é a primeira manifestação de um efeito muito importante que antes interessava apenas a teóricos. Diga-me, soldado – ele apontou para Negulesco –, quanto tempo faz desde que lutamos com os taurianos pela primeira vez em Aleph?
– Depende da referência, comodoro – respondeu ela obedientemente. – Para mim, faz cerca de oito meses.
– Exatamente. No entanto, você perdeu cerca de nove anos para a dilatação temporal enquanto fazíamos manobras entre os saltos colapsares. Em termos de engenharia, como não realizamos nenhuma pesquisa significativa a bordo da nave… aquela embarcação inimiga vem do futuro!
Ele fez uma pausa para que as pessoas pudessem absorver aquilo tudo. Então, continuou:
– À medida que a guerra progredir, isso poderá se tornar cada vez mais acentuado. Os taurianos não têm cura para a relatividade, claro, então isso será benéfico tanto para nós como para eles. Contudo, por ora, somos nós que estamos em desvantagem. À medida que a embarcação de perseguição tauriana se aproximar, essa desvantagem vai se tornar mais evidente. Eles podem simplesmente nos superar como atiradores. Precisaremos adotar alguns artifícios criativos. Quando chegarmos a 500 milhões de quilômetros da nave inimiga, todos entrarão em suas cápsulas, e teremos que confiar no computador logístico. Ele nos conduzirá por uma série rápida de mudanças aleatórias de direção e velocidade. Serei curto e grosso: enquanto eles tiverem um míssil a mais que nós, poderão nos aniquilar. Eles não lançaram mais nenhum depois do primeiro. Talvez estejam economizando fogo… ou talvez tivessem apenas um. Neste caso, somos nós que os temos nas mãos. De qualquer forma, solicitaremos a todos que estejam em suas cápsulas com não mais que dez minutos de antecedência. Quando estivermos a 1 bilhão de quilômetros do inimigo, vocês deverão estar prontos para entrar em suas cápsulas. No momento em que estivermos a 500 milhões de quilômetros, vocês se encontrarão dentro delas, e todas estarão inundadas e pressurizadas. Não podemos esperar por ninguém. É tudo o que tenho a dizer. Submajor?
– Avisarei o meu pessoal mais tarde, comodoro. Obrigado.
– Dispensado.
E nada daquele “foda-se, senhor” sem sentido. A marinha achava aquilo indigno.
Ficamos em posição de sentido – todos exceto Stott – até ele deixar a sala. Então outro marinheirozinho disse “dispensados”, e saímos.
Minha equipe foi colocada a par. Então, falei a todos o que cada um deveria fazer, pus Tate no comando e saí. Fui à sala dos oficiais em busca de alguma companhia e, talvez, de alguma outra informação.
Não estava acontecendo muita coisa, a não ser especulações à toa. Então peguei Rogers e fomos para a cama. Marygay havia desaparecido de novo: talvez estivesse tentando persuadir Singhe a dizer alguma coisa.