Guerra sem fim
Capítulo 24
24
Cheguei em casa e o telefone estava piscando em um azul pálido. Eu não sabia o que fazer, então apertei “telefonista”.
O rosto de uma moça bem jovem materializou-se no cubo.
– Telefonista Jefferson. Em que posso ajudar? – ela perguntou.
– Sim… O que significa quando o cubo está piscando em azul?
– Perdão?
– O que significa quando o telefone…
– Está falando sério? – Eu estava me cansando desse tipo de coisa.
– É uma longa história. Não sei mesmo.
– Quando pisca azul, você deve chamar a telefonista.
– Ok, foi o que fiz.
– Não, eu não, a telefonista de verdade. Pressione nove, depois zero.
Fiz isso e apareceu uma bruxa velha:
– Opa, opa, opa!
– Aqui é William Mandella no 301-52-574-3975. Disseram para eu ligar para você.
– Só um minutinho. – Ela saiu do campo de visão e digitou alguma coisa. – ‘Cê tem uma ligação do 605-19-556-2027.
Rabisquei o número no bloco de anotações próximo ao telefone.
– Onde fica isso?
– Só um minutinho. Dakota do Sul.
– Obrigado. – Eu não conhecia ninguém em Dakota do Sul.
Uma senhora de aparência agradável atendeu o telefone.
– Sim?
– Recebi uma chamada deste número… bem… eu sou…
– Ah! Sargento Mandella! Só um segundo.
Fiquei observando a barra diagonal do sinal de espera por um segundo, depois por mais uns cinquenta. E então uma cabeça apareceu. Marygay.
– William! Tive muita dificuldade em encontrar você.
– Querida, eu também. O que está fazendo em Dakota do Sul?
– Meus pais vivem aqui, em uma pequena comunidade. Por isso demorei tanto para chegar ao telefone. – Ela mostrou as mãos sujas. – Colhendo batatas.
– Mas quando chequei… os registros diziam… os registros em Tucson informavam que seus pais estavam mortos.
– Não, são apenas desistentes… Você sabe o que são desistentes? Novo nome, nova vida. Quem me deu o toque foi um primo meu.
– Bem… então, como tem passado? Gostando da vida no interior?
– Esta é uma das razões por que venho tentando contatá-lo. Willy, estou entediada. É tudo muito saudável e agradável, mas quero fazer algo dissoluto, depravado. Naturalmente pensei em você.
– Fico lisonjeado. Pego-a às oito?
Ela consultou um relógio acima do telefone.
– Não, olha só, melhor termos uma boa noite de sono. Além do mais, tenho de terminar de colher as batatas. Encontre-me no… no aeroporto Ellis Island amanhã às dez. Hum… no balcão de informações da Trans-World.
– Combinado. Faço reservas para onde?
Ela deu de ombros.
– Fique à vontade para escolher.
– Londres costumava ser bem legal…
– Parece ótimo. Primeira classe?
– O que mais? Vou reservar uma suíte em um dos dirigíveis.
– Ótimo! Decadente. Devo fazer as malas para quanto tempo?
– Compramos roupas pelo caminho. Bagagem leve. Basta cada um levar a carteira recheada.
Ela riu.
– Maravilha! Amanhã às dez.
– Ótimo… Marygay, você tem uma arma?
– Está assim tão ruim?
– Aqui em Washington está.
– Bom, eu consigo uma. Papai tem algumas guardadas em cima da lareira. Acho que trouxeram quando vieram de Tucson.
– Tomara que não precisemos.
– Willy, você sabe que a levarei apenas a título de decoração. Não consegui sequer matar um tauriano.
– Claro.
Apenas nos olhamos por alguns segundos.
– Amanhã às dez, então – confirmei.
– Certo. Eu te amo.
– Ahn…
Ela riu novamente e desligou.
Era coisa demais para pensar ao mesmo tempo.
• • •
Comprei duas passagens para darmos a volta ao mundo num dirigível, com paradas ilimitadas contanto que mantivesse a trajetória leste. Levei mais de duas horas para chegar a Ellis de táxi e trem. Cheguei cedo, e Marygay também.
Ela estava conversando com a moça do balcão e não me viu chegar. Suas roupas eram bem interessantes: um macacão de plástico bem apertado com estampa de mãos entrelaçadas; à medida que o ângulo de visão mudava, várias mãos estrategicamente posicionadas ficavam transparentes. O corpo dela tinha um bronzeado rosado. Não sei dizer se o sentimento que tomou conta de mim foi puro e simples desejo ou algo mais complexo. Cheguei rapidamente por trás dela.
Sussurrei:
– O que vamos fazer por três horas?
Ela se virou, deu-me um abraço rápido e agradeceu à moça do balcão. Então, pegou minha mão e puxou-me para uma calçada rolante.
– Hum… para onde estamos indo?
– Não faça perguntas, sargento. Apenas me siga.
Descemos em uma rotatória e pegamos outra esteira que ia para leste.
– Quer comer ou beber alguma coisa? – perguntou inocentemente.
Ensaiei um olhar malicioso.
– Alguma alternativa?
Ela riu alegremente. Diversas pessoas ficaram nos olhando.
– Só um minuto… aqui!
Descemos. Havia um corredor com uma placa indicando “quartos”. Marygay me entregou uma chave.
Aquele maldito macacão de plástico era pura eletricidade estática. Como o quarto era nada mais do que uma grande cama d’água, quase quebrei o pescoço no primeiro contato.
Recuperei-me.
Ficamos deitados de bruços olhando através da parede de vidro refletivo as pessoas que andavam apressadas na intersecção. Ela me passou um baseado.
– William, você já usou aquele negócio?
– Que negócio?
– Aquela porcaria… a pistola.
– Disparei apenas uma vez, na loja em que a comprei.
– Você realmente acha que seria capaz de apontá-la para alguém e atirar?
Dei um trago superficial e passei o baseado de volta.
– Não pensei muito a respeito, na verdade. Até termos conversado ontem à noite.
– E…?
– Eu… realmente não sei. A única vez que matei foi em Aleph, sob compulsão hipnótica. Mas acho que não… me incomodaria muito… não muito, não se a pessoa estivesse tentando me matar. Por que deveria?
– A vida – ela disse lamuriosa –, a vida é…
– A vida é um monte de células que andam por aí com um propósito em comum. Se este propósito em comum for me ferrar…
– Ah, William. Você parece o velho Cortez falando.
– Cortez nos manteve vivos.
– Poucos de nós – ela respondeu com aspereza.
Virei de barriga para cima e analisei o telhado. Ela fez pequenos desenhos em meu peito, afastando o suor com a ponta de seus dedos.
– Desculpe-me, William. Acho que nós dois só estamos tentando nos adaptar.
– Está tudo bem. De certa forma, você tem razão.
Conversamos por um bom tempo. O único centro urbano em que Marygay havia estado desde nossa série de exposições publicitárias (que ocorreram em locais bem protegidos) foi nas Cataratas de Sioux. Ela foi com os pais e o guarda-costas da comunidade. Parecia uma versão de Washington, mas em menor escala: os mesmos problemas, mas não tão intensos.
Falamos sobre tudo que nos incomodava: violência, alto custo de vida, muita gente em todos os lugares. Eu ainda acrescentaria a vida homoafetiva, mas Marygay disse que eu não entendia a nova dinâmica social que havia levado a isso; era inevitável. Ela disse que só era contra porque havia tirado de circulação muitos dos homens mais bonitos.
E o mais preocupante era que tudo parecia ter piorado um pouco ou, na melhor das hipóteses, permanecido igual ao que era antes. Esperava-se que ao menos alguns aspectos da vida cotidiana evoluíssem consideravelmente em 22 anos. O pai dela argumentava que a guerra estava por trás disso tudo: qualquer um que demonstrasse uma pitada de talento era tragado pela FENU; os melhores caíram nas redes do Ato de Conscrição de Elite e terminaram como bucha de canhão.
Era difícil não concordar com ele. As guerras no passado geralmente aceleravam reformas sociais, traziam benefícios tecnológicos, até mesmo estimulavam atividades artísticas. Esta de agora, no entanto, parecia ser talhada para não proporcionar nenhum desses subprodutos positivos. Tais avanços, como aqueles observados na tecnologia do final do século 20 (como bombas de táquions e naves de guerra de 2 quilômetros de comprimento), eram, na melhor das hipóteses, criações interessantes para as quais concorreu a sinergia do dinheiro e das técnicas de engenharia existentes. Reforma social? O mundo estava tecnicamente sob lei marcial. Com relação à arte, não tenho certeza se sei distinguir entre o bom e o ruim. No entanto, os artistas têm de refletir, até certo ponto, o espírito dos tempos. As pinturas e esculturas eram tortuosas e cheias de obscuras reflexões; os filmes pareciam estáticos e destituídos de trama; a música era dominada por revivalismos nostálgicos; a arquitetura preocupava-se sobremaneira em encontrar lugar para pôr todo mundo; a literatura beirava o incompreensível. Muita gente parecia gastar a maior parte de seu tempo tentando achar maneiras de burlar o governo, tentando filar algumas calorias extras ou vales de alimentação sem colocar a vida em demasiado risco.
E, no passado, as pessoas de países em guerra tinham constantemente contato com a guerra. Os jornais eram cheios de notícias a respeito; veteranos retornavam do front; às vezes, o front movia-se diretamente para as cidades; invasores marchavam pelas ruas principais e bombas zuniam no ar noturno… Mas sempre havia a sensação de caminhada em direção à vitória, ou, pelo menos, de adiamento da derrota. O inimigo era tangível, um monstro criado pela propaganda que podíamos compreender e odiar.
Mas esta guerra… o inimigo era um curioso organismo compreendido de modo vago, mais comumente assunto de charges que de pesadelos. O principal efeito da guerra era econômico, destituído de emoção – mais impostos, porém, mais trabalho também. Após 22 anos, apenas 27 voltaram como veteranos, não o bastante para fazer uma parada decente. Para a maioria das pessoas, o fato mais importante sobre a guerra era que, se ela terminasse de repente, a economia da Terra entraria em colapso.
• • •
O acesso ao dirigível era feito por meio de uma pequena aeronave com hélice que buscava equiparar as trajetórias e se acoplava na lateral. Um ajudante levou nossas bagagens; deixamos nossas armas com o comissário de bordo, depois saímos.
Quase todo mundo no voo estava de pé no tombadilho, observando Manhattan mover-se lentamente na direção do horizonte. Era uma visão lúgubre. O dia estava bem calmo. Os primeiros trinta ou quarenta andares dos edifícios encontravam-se ocultos em meio a uma mistura de neblina e fumaça. A cidade parecia ter sido construída sobre uma nuvem, uma nuvem carregada que flutuava. Ficamos ainda mais um tempo contemplando a paisagem e depois fomos para dentro comer.
A refeição, simples, era elegantemente servida: filé de carne, dois vegetais e vinho. Queijo, frutas e mais vinho para sobremesa.
Nada de vales de alimentação. Uma brecha na lei de racionamento sugeria que não eram necessários no caso de refeições consumidas durante o trajeto em transportes intercontinentais.
Passamos três dias preguiçosos e confortáveis cruzando o Atlântico. Os dirigíveis eram novidade quando deixamos a Terra, e agora haviam se tornado um dos poucos novos investimentos financeiros do final do século 20 que alcançaram sucesso… A empresa que os criou havia comprado algumas armas nucleares obsoletas; um pedaço de plutônio do tamanho de uma bomba seria capaz de manter toda a frota no ar durante anos. E, uma vez lançados, eles não pousavam mais. Hotéis flutuantes, supridos e mantidos por serviços regulares; eram o último vestígio de luxo em um mundo no qual 9 bilhões de pessoas tinham alguma coisa para comer, e quase ninguém tinha o suficiente.
Vista de cima, Londres não era tão sombria quanto Nova York. O ar era limpo, mesmo com o Tâmisa envenenado. Pegamos nossas bagagens de mão, pedimos nossas armas e pousamos no topo do Hotel Hilton de Londres. Alugamos um par de triciclos no hotel e, com os mapas em mão, partimos em direção à rua Regent, planejando jantar no venerável Café Royal.
Os triciclos eram pequenos veículos blindados, estabilizados giroscopicamente, para evitar que tombassem. Isso parecia ser precaução em excesso para a parte de Londres que visitávamos, mas eu supunha que devessem existir alguns lugares da cidade que eram tão perigosos quanto Washington.
Pedi um prato de carne de veado marinada, e Marygay pediu salmão; ambos muito bons, mas assustadoramente caros. De início, fiquei um pouco impressionado com o imenso salão cheio de plumas, espelhos e detalhes dourados desbotados; era muito silencioso mesmo com uma dúzia de mesas ocupadas, e conversamos sussurrando até nos darmos conta de que era bobagem.
Durante o café, perguntei a Marygay qual era o problema com os pais dela.
– Ah, isso acontece com bastante frequência – ela falou. – Papai se envolveu em um lance com vales de alimentação. Arranjou uns vales no mercado negro, só que eram falsificados. Custou-lhe o emprego e ele, provavelmente, teria ido para a cadeia, mas, enquanto aguardava julgamento, um arrebatador o resgatou.
– Arrebatador?
– Exato. Todas as organizações comunitárias os têm. A função deles é conseguir mão de obra confiável para a fazenda, pessoas que não sejam elegíveis para revezamento… pessoas que não possam simplesmente largar as ferramentas e sair andando quando as coisas apertam. No entanto, quase todo mundo consegue assistência suficiente para continuar vivo, qualquer um que não esteja na lista nojenta do governo.
– Então, ele fugiu antes do julgamento?
Ela confirmou com a cabeça.
– Era o caso de escolher entre a vida na comunidade, que ele sabia que não seria fácil, e receber ajuda do governo após alguns anos de trabalho em uma fazenda da prisão; ex-detentos não conseguem trabalhos legais. Eles perderam o imóvel, que havia servido como fiança, mas o governo teria confiscado de qualquer forma depois que meu pai fosse preso. Então, o arrebatador ofereceu a meus pais novas identidades, transporte para a comunidade, um chalé e um pedaço de terra. Eles aceitaram.
– E qual foi o preço?
– O arrebatador mesmo não deve ter recebido nada. A comunidade ficou com os vales de alimentação. Foi-lhes permitido conservar o dinheiro, embora eles não tivessem muito…
– O que acontece se forem pegos?
– Sem chance – disse Marygay, rindo. – As comunidades respondem por mais da metade da produção nacional… Eles são, na verdade, um braço não oficial do governo. Tenho certeza de que sabem exatamente onde eles estão… Papai resmunga que esta, de certa forma, é apenas uma forma poética de prisão.
– Que situação estranha…
– Bom, faz com que a terra seja cultivada. – Ela empurrou o prato de sobremesa a apenas 1 centímetro de distância. – E eles podem comer melhor do que muitos por aí, melhor do que jamais conseguiram na cidade. Minha mãe conhece cem diferentes maneiras de preparar frango com batatas.
Depois do jantar, fomos a uma apresentação de música. O hotel nos havia providenciado ingressos para uma “releitura cultural” da antiga ópera rock Hair. O programa explicava que foram tomadas algumas liberdades com a coreografia original, porque na época não era permitido coito de verdade no palco. A música era agradável e antiga, mas nenhum de nós era tão velho a ponto de ficar com os olhos marejados de nostalgia com aquilo. Ainda assim, era muito melhor que os filmes que eu havia visto, e algumas proezas físicas eram um tanto inspiradoras. Dormimos até tarde na manhã seguinte.
• • •
Assistimos obedientes à troca da guarda no Palácio de Buckingham, percorremos o Museu Britânico, comemos peixe com batatas fritas, fomos até Stratford-on-Avon e vimos, no Old Vic, uma peça incompreensível sobre um rei louco. Não entramos em nenhuma enrascada até o dia anterior à nossa viagem para Lisboa.
Eram mais ou menos duas da manhã e dirigíamos nossos triciclos por uma rua quase deserta. Viramos uma esquina e vimos uma gangue de garotos espancando uma pessoa. Gritei alto e saltei do veículo, disparando minha arma acima de suas cabeças.
Era uma garota que eles estavam atacando – era estupro. A maioria fugiu, mas um deles sacou uma pistola do casaco e atirei. Lembro de ter tentado mirar em seu braço. O disparo o atingiu no ombro, arrancando o braço e o que parecia ser metade do peito. Ele foi arremessado a uns 2 metros contra a lateral de um prédio e devia já estar morto antes de tocar o chão.
Os outros correram. Um deles ainda tentava atirar em mim com uma pequena pistola. Fiquei bastante tempo observando ele tentar me matar antes de pensar que deveria revidar. Disparei apenas uma vez para cima, e ele desapareceu em um beco.
A garota olhava aturdida em volta. Viu o corpo do agressor mutilado e, cambaleando, saiu correndo e gritando, nua da cintura para baixo. Eu sabia que devia tentar detê-la, mas não conseguia falar, e meus pés pareciam enterrados na calçada. Uma porta do triciclo bateu, e Marygay foi ao meu encontro.
– O que acont… – Ela engasgou, vendo o cadáver do rapaz. – O que ele estava fazendo?
Fiquei ali parado, estupefato. Certamente, eu vira muitas mortes nos últimos dois anos, porém, aquilo era diferente… Não havia nada de nobre em ser esmagado até a morte porque houve falha em algum componente eletrônico, em ser congelado vivo por causa de um problema com o traje ou mesmo em morrer em uma troca de tiros com o inimigo incompreensível… Mas a morte parecia natural naquele cenário. Não em uma singular ruazinha da antiquada Londres, não por tentar roubar algo que a maioria daria de graça.
Marygay puxava meu braço.
– Temos de sair daqui. Eles vão fazer lavagem cerebral em você!
Ela tinha razão. Virei, dei um passo e caí no concreto. Olhei para a perna que havia me traído, e sangue vermelho e brilhante pulsava de um pequeno buraco em minha panturrilha. Marygay rasgou uma tira de sua blusa e começou a fazer uma bandagem. Lembro-me de ter pensado que não era um ferimento grande o bastante para eu entrar em choque, mas meus ouvidos começaram a zunir, fiquei zonzo e tudo se tornou vermelho e desfocado. Antes que eu desmaiasse, ouvi uma sirene ao longe.
• • •
Felizmente, a polícia pegou a garota também, que estava vagando a algumas quadras dali. Eles compararam a versão dela com a minha, ambos sob o efeito de hipnose. Liberaram-me logo em seguida, mas somente após uma severa advertência para que eu deixasse que o serviço da polícia fosse executado por profissionais da polícia.
Eu queria sair das cidades, colocar uma mochila nas costas e caminhar no meio do mato por um tempo para colocar a cabeça em ordem. Marygay também queria. Tentamos fazer alguns planos, mas descobrimos que o interior estava pior do que as cidades. As fazendas eram praticamente campos armados; as áreas vizinhas estavam dominadas por gangues nômades que sobreviviam fazendo incursões-relâmpago em vilas e fazendas, assassinando e roubando em poucos minutos para depois desaparecer na floresta antes que chegasse qualquer ajuda.
Mesmo assim, os britânicos chamavam sua ilha de “o país mais civilizado da Europa”. Pelo que ouvimos a respeito da França, Espanha e Alemanha (especialmente a Alemanha), eles deviam estar certos.
Conversei com Marygay e decidimos interromper nossa viagem e voltar para os Estados Unidos. Poderíamos retomar nossa jornada depois que nos acostumássemos com as mudanças do século 21. Era “estrangeirismo” demais para absorver de uma só vez.
A empresa do dirigível reembolsou a maior parte do nosso dinheiro e tomamos um convencional voo suborbital de volta para casa. A altitude fez minha perna latejar, embora estivesse quase curada. Avançara-se muito no tratamento de ferimentos a arma de fogo nos últimos vinte anos. Muita prática.
Nós nos separamos em Ellis. A descrição que ela fez da vida na comunidade atraiu-me mais que a da cidade. Fiz planos para encontrá-la dali a uma semana e voltei para Washington.