Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 6 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 2

2

 

– Tá legal, vamos dar um gás! Equipe da viga! Força! Mexam esses traseiros!

Uma massa de ar quente havia se aproximado por volta da meia-noite, e a neve fora transformada em granizo. A viga de permaplast pesava uns 250 quilos e era horrível manejá-la, mesmo quando não estava coberta de gelo. Quatro de nós, dois em cada ponta, carregávamos a viga de plástico com a ponta dos dedos congelados. Rogers era minha parceira.

– Aço! – O rapaz atrás de mim gritou, querendo dizer que estava escorregando da mão dele.

Não era aço, mas era pesado o suficiente para arrebentar o pé de alguém. Todos largaram e correram para os lados. Espirrou neve derretida e lama em todos nós.

– Merda, Petrov – falou Rogers –, por que você não se alistou na Cruz Vermelha ou algo assim? Esta merda de viga não é tão pesada assim.

A maioria das garotas era um pouco mais cuidadosa com o linguajar. Rogers era meio grosseirona.

– Vamos, merda! Mexa-se, equipe da viga! Equipe do epóxi, anda, anda!

O pessoal do epóxi correu, balançando os baldes que carregava.

– Vamos, Mandella! Minhas bolas estão congelando!

– As minhas também! – retrucou a garota, mais pela sensação do que pela lógica.

– Um… dois… levantem!

Levantamos a coisa de novo e fomos cambaleando em direção à ponte. Cerca de três quartos dela estavam completos. Parecia que o segundo pelotão ganharia de nós. Eu não daria a mínima, mas o pelotão que construísse sua ponte primeiro poderia voar de volta para casa. Haveria 6 quilômetros de sujeira para os que restassem, sem descanso antes da refeição.

Pusemos a viga no lugar, fazendo certo estrondo, e apertamos bem as braçadeiras que a seguraram no suporte. A metade feminina da equipe do epóxi a besuntou de cola antes mesmo que tivéssemos certeza de que estava segura. A equipe parceira estava aguardando a viga do outro lado. A equipe em terra aguardava ao pé da ponte, cada integrante segurando um pedaço do leve permaplast esticado sobre a cabeça como se fosse um guarda-chuva. Eles estavam secos e limpos. Perguntei em voz alta o que haviam feito para merecer aquilo, e Rogers sugeriu algumas belas, mas pouco prováveis possibilidades.

Já estávamos nos preparando para carregar a próxima viga quando o oficial de terra (seu nome era Dougelstein, mas nós o chamávamos de “Tá Legal”) apitou e berrou:

– Tá legal! Soldados, 10 minutos. Podem fumar, se quiserem.

Ele enfiou a mão no bolso e ligou o controle de calefação, que aqueceu nossos macacões.

Rogers e eu nos sentamos na nossa ponta da viga, e tirei minha caixinha de maconha do bolso. Eu tinha vários baseados, mas éramos proibidos de fumá-los até depois da ceia. O único tabaco que eu tinha era uma guimba de uns 7 centímetros. Acendi no lado da caixa; não era tão ruim depois de algumas tragadas. Rogers deu uma baforada, só para ser educada, mas fez uma careta e me devolveu.

– Você estava na faculdade quando foi convocado? – ela perguntou.

– Sim. Tinha acabado de me formar em Física. Estava obtendo a licenciatura para começar a lecionar.

Ela acenou calmamente com a cabeça.

– Eu me formei em Biologia…

– Faz sentido.

Mergulhei minha mão em um bocado de neve semiderretida.

– Quantos anos de curso?

– Seis anos; bacharelado e especialização.

Rogers arrastou suas botas pelo chão, formando um monte de lama e neve com consistência de leite congelado.

– Por que esta merda teve de acontecer?

Encolhi os ombros: era uma pergunta que não exigia resposta, pelo menos nenhuma das respostas que a FENU insistia em nos dar. A elite intelectual e física do planeta protegendo a humanidade contra a ameaça tauriana. Quanta merda! Tudo não passava de um grande experimento para ver se conseguíamos incitar os taurianos a uma ação em terra.

Tá Legal soprou seu apito 2 minutos antes, como já era de se esperar, mas Rogers, eu e os outros dois de nossa equipe continuamos sentados por mais 1 minuto enquanto as equipes do epóxi e de terra terminavam de arrumar nossa viga. A temperatura caiu depressa, pois nossos uniformes de calefação foram desligados, mas ainda assim continuamos parados por questão de princípios.

Não havia, na verdade, nenhum sentido em treinarmos naquele frio. Típica lógica tortuosa do exército. Claro que o lugar para onde iríamos era bem frio, mas não um frio gélido ou com neve. Quase por definição, em um planeta portal a temperatura variava entre um a 2 graus do zero absoluto – já que os colapsares não brilhavam –, e se uma pessoa sentisse qualquer calafrio, isso indicaria que o indivíduo era um homem morto.

Doze anos antes, quando eu tinha 10 anos de idade, o salto colapsar fora descoberto. Bastava arremessar um objeto em um colapsar com velocidade suficiente e, quase instantaneamente, ele era transportado para outra parte da galáxia. Não demorou para que descobrissem a fórmula para prever onde sairia: ele viajava na mesma “linha” (era uma geodésica einsteiniana, na verdade) que seria seguida caso não tivesse se deparado com o colapsar, até alcançar outro campo colapsar, onde o objeto reaparecia, repelido com a mesma velocidade com que se aproximara do colapsar original. Tempo de duração da viagem entre os dois colapsares… exatamente zero.

Foi muito trabalhoso para os físicos matemáticos, que tiveram de redefinir simultaneidade, depois desconstruir a relatividade geral e reconstruí-la novamente. E isso deixou os políticos muito felizes, porque agora eles poderiam enviar naves cheias de colonos a Fomalhaut gastando menos do que para levar o homem à Lua. Havia muitas pessoas que os políticos adorariam ver realizando uma gloriosa aventura em Fomalhaut em vez de simplesmente criando problemas em seu planeta natal.

As naves eram sempre acompanhadas por uma sonda espacial automática que seguia alguns milhões de quilômetros atrás. Sobre os planetas portais, sabíamos que eram pequenos fragmentos que giravam em torno dos colapsares; o propósito da sonda teleguiada era voltar e nos informar caso uma nave colidisse com um planeta portal a 0,999 da velocidade da luz.

Essa catástrofe em particular nunca ocorreu, mas um dia uma sonda teleguiada voltou sozinha. Seus dados foram analisados, e descobriu-se que a nave, que carregava colonos, fora perseguida e destruída por outra embarcação. Isso aconteceu perto de Aldebaran, na constelação de Touro, mas como o termo “aldebaranos” é meio complicado, os inimigos foram chamados de “taurianos”.

A partir daí, todas as embarcações colonizadoras passaram a ser escoltadas por uma guarda armada. Muitas vezes, a guarda viajava sozinha; finalmente, o grupo colonizador foi reunido sob a sigla FENU, Força Exploradora das Nações Unidas, com ênfase em “Força”.

Então, certo dia, um brilhante rapaz na assembleia geral decidiu que deveríamos compor tropas de infantaria para proteger os planetas portais dos colapsares mais próximos. Isso levou ao Ato de Conscrição de Elite de 1996 e ao exército conscrito mais elitizado da história da guerra.

E aqui estamos nós, cinquenta homens e cinquenta mulheres, com QI acima de 150 e corpos com saúde e força incomuns, mourejando como elite pela lama e pela neve semiderretida de Missouri, refletindo sobre a utilidade de nossas habilidades para construir pontes em mundos onde o único fluido é uma eventual piscina de hélio líquido.