Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 30 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 26

26

 

 

Saímos do avião em Dulles e pegamos um trem para Columbia.

Era uma agradável mistura de vários tipos de construções dispostas em torno de um lago rodeado por árvores. Todos os edifícios eram ligados, por calçada rolante, a um local mais amplo: um grande salão com lojas, escolas e escritórios.

Poderíamos ter pego a calçada fechada que levava até o prédio onde morava a minha mãe, mas, em vez disso, caminhamos pela lateral externa, ao ar livre e frio com cheiro de folhas caídas. As pessoas deslizavam do outro lado do plástico, tomando cuidado para não encararem umas às outras.

Mamãe não atendeu à porta, mas ela tinha me dado um cartão de entrada. Estava dormindo em seu quarto, então Marygay e eu nos acomodamos na sala de estar e ficamos lendo por algum tempo.

De repente, fomos surpreendidos por um acesso de tosse alta vindo do quarto. Corri até lá e bati na porta.

– William? Eu não… – Mais tosse. – Entre, eu não sabia que você…

Ela estava escorada na cama, a luz acesa, cercada de remédios, a cara pálida e enrugada. Acendeu um baseado, o que pareceu abrandar a tosse.

– Quando vocês chegaram? Eu não sabia…

– Faz só alguns minutos. Há quanto tempo…? Você está…?

– Ah, é só uma virose que peguei após Rhonda ter ido visitar os filhos. Estarei bem em alguns dias.

Ela começou a tossir novamente e tomou um líquido vermelho e grosso de um vidro de remédio. Todos os seus remédios pareciam ser variedades comerciais.

– Você foi ao médico?

– Médico? Céus, não, Willy. Eles não têm… não é nada sério… não…

– Nada sério? Aos 84 anos! Pelo amor de Deus, mamãe!

Fui até o telefone na cozinha e, com certa dificuldade, consegui ligar para o hospital.

Uma garota não muito bonita, com cerca de 20 anos, apareceu no cubo.

– Enfermeira Donalson, serviços gerais.

Seu sorriso não mudava, sinal de sinceridade profissional. Mas todos sorriam.

– Minha mãe precisa de um médico. Ela está com…

– Nome e número, por favor.

– Beth Mandella – soletrei. – Que número?

– Número de serviços médicos, é claro. – Ela sorriu.

Chamei minha mãe e perguntei-lhe qual era o número.

– Ela disse que não lembra.

– Tudo bem, senhor. Tenho certeza de que consigo encontrar o registro dela. – A enfermeira virou o sorriso para um teclado a seu lado e digitou um código.

– Beth Mandella? – falou, o sorriso tornando-se confuso. – Você é filho dela? Ela deve ter por volta de 80 anos.

– Por favor, é uma longa história. Ela realmente precisa de um médico.

– Isso é algum tipo de piada?

– Como assim? – A tosse chegava do quarto abafada, estava piorando. – Sério… parece ser bem sério o que ela tem. Você precisa…

– Mas, senhor, a sra. Mandella tem taxa de prioridade zero desde 2010.

– Que diabos significa isso?

– Se-nhor… – O sorriso estava começando a parecer forçado.

– Olha só. Finja que vim de outro planeta. O que é “taxa de prioridade zero”?

– Outro… ah! Eu conheço você! – Desviou o olhar para a esquerda. – Sonya… dê um pulinho aqui. Você não vai acreditar quem…

Outro rosto ocupou o cubo, uma moça loira, insípida, cujo sorriso era igual ao da outra enfermeira.

– Lembra dele? No noticiário desta manhã?

– Claro! – ela falou. – Um dos soldados… Nossa, isto é o máximo! – A cabeça dela afastou-se.

– Ah, sr. Mandella – ela disse efusivamente. – Não é à toa que você está confuso. Mas é bem simples.

– E então?

– Faz parte do Sistema Universal de Seguro Médico. Todo mundo recebe uma avaliação em seu 70º aniversário. Vem automaticamente de Genebra.

– O que isso avalia? O que significa? – A terrível verdade era óbvia.

– Bem, diz o quanto a pessoa é importante e qual o nível de tratamento que lhe é permitido. Classe 3 é o mesmo que todo mundo; classe 2 é o mesmo, exceto pelo prolongamento de vida…

– E classe zero é nenhum tipo de tratamento.

– Exato, sr. Mandella. – Em seu sorriso não havia nenhum traço de piedade ou compreensão.

– Obrigado.

Desliguei logo em seguida. Marygay estava atrás de mim, chorando baixinho, com a boca muito aberta.

• • •

Encontrei um tubo de oxigênio para montanhistas em uma loja de artigos esportivos e consegui arranjar alguns antibióticos contrabandeados por intermédio de um sujeito em um bar em Washington. Porém, minha mãe estava longe de conseguir responder a um tratamento amador. Ela viveu apenas mais quatro dias. As pessoas no crematório tinham o mesmo sorriso fixo.

Tentei contatar meu irmão, Mike, na Lua, mas a companhia telefônica só me deixou fazer a ligação depois que assinei um contrato e depositei uma taxa de 25 mil. Tive de obter uma transferência de crédito de Genebra e levei meio dia para tratar da papelada.

Finalmente consegui falar com meu irmão. Sem preâmbulos:

– Mamãe está morta.

Por uma fração de segundo, as ondas de rádio direcionaram-se à Lua e, noutra fração, voltaram. Ele espantou-se e, então, acenou lentamente com a cabeça.

– Não é surpresa. Todas as vezes que desci à Terra nos últimos dez anos, eu me perguntava se ela ainda estaria por aí. Nenhum de nós tinha dinheiro suficiente para manter um contato mais próximo.

Ele nos disse que, em Genebra, mandar uma carta da Lua para a Terra custa 100 calorias… mais 5 mil de impostos! Isso desencorajava a comunicação com o que as Nações Unidas consideravam ser um monte de anarquistas lamentavelmente necessários.

Solidarizamo-nos por alguns instantes, e em seguida Mike disse:

– Willy, a Terra não é lugar para você e Marygay; agora você sabe disso. Venha para a Lua, onde você ainda pode ser alguém, onde não jogamos para fora da câmara de compressão pessoas que completam 70 anos.

– Teríamos de voltar para a FENU.

– Verdade, mas não teriam de lutar. Eles disseram que precisam de vocês mais para treinamento. Você poderia estudar em suas folgas, atualizar seus conhecimentos de física… talvez acabar fazendo pesquisa.

Conversamos mais um pouco, num total de três minutos. Recebi mil calorias de volta.

Marygay e eu conversamos sobre o assunto à noite. Talvez nossa decisão tivesse sido diferente se não estivéssemos ali, cercados pela vida e morte de minha mãe. Contudo, quando amanheceu, o orgulho, a ambição e a beleza cuidadosa de Columbia tornaram-se sinistros e agourentos.

Arrumamos nossas malas, transferimos nosso dinheiro para a União de Crédito de Tycho e pegamos um trem para o Cabo.

• • •

– Caso tenham interesse em saber, vocês não são os primeiros veteranos de combate a voltar.

O oficial recrutador era um tenente musculoso, de sexo indefinido. Lancei uma moeda mentalmente e deu coroa…

– Na última vez que ouvi falar, haviam sido nove – prosseguiu ela com voz rouca de tenor. – Todos optaram pela Lua… Talvez vocês encontrem alguns de seus amigos por lá. – Deslizou dois simples formulários sobre a mesa. – Assinem e vocês estarão dentro de novo. Segundos-tenentes.

O formulário era uma simples solicitação para voltar à ativa. Nunca estivéramos realmente fora da Força, já que eles haviam estendido a lei de recrutamento… Estávamos apenas inativos. Analisei o documento com atenção.

– Não há aqui nenhuma referência às garantias que nos foram dadas no Portal Estelar.

– Não será necessário. A Força…

– Acho necessário sim, tenente. – Devolvi o formulário; Marygay também.

– Deixe-me dar uma olhada. – Ela se levantou e desapareceu, entrando em uma sala. Após algum tempo, ouvimos o barulho de uma impressora.

A tenente nos trouxe de volta as mesmas duas folhas, com uma informação adicional escrita embaixo de nossos nomes: GARANTIDA A LOCALIDADE ESCOLHIDA [LUA] E A ATRIBUIÇÃO ESCOLHIDA [ESPECIALISTAS EM TREINAMENTO DE COMBATE ].

Fomos submetidos a um check-up completo e nos ajustaram em novos trajes de combate. Fizemos nossos arranjos financeiros e embarcamos no transporte da manhã seguinte. Aguardamos acima de um porto terrestre, curtindo a gravidade zero por algumas horas. Depois, pegamos uma condução para a Lua e pousamos na Base Grimaldi.

Na porta que dava para o Quartel de Oficiais Transitórios, algum engraçadinho havia escrito: “Abandonai toda a esperança vós que entrais”. Encontramos nosso cubículo para duas pessoas e começamos a nos trocar para a refeição.

Duas batidas soaram na porta, avisando que havia mensagens para nós.

Abri a porta, e o sargento que ali estava me saudou. Apenas olhei para ele por um segundo, então lembrei que eu era um oficial e devolvi a saudação. Ele me estendeu dois faxes idênticos. Entreguei um deles a Marygay, e nós dois ficamos boquiabertos ao mesmo tempo:

 

** ORDENS ** ORDENS ** ORDENS **

O PESSOAL NOMEADO ABAIXO:

MANDELLA, WILLIAM 2º TEN [11 575 278] COCOMND D CO GRITRABN E POTTER, MARYGAY 2º TEN [17 386 907] COCOMND B CO GRITRABN ESTÃO POR MEIO DESTA REDE-SIGNADOS PARA:

TEN MANDELLA: COMND 2º PL FORÇA DE ATAQUE POR TAL ESTELAR THETA.

TEN POTTER: COMND 3º PL FORÇA DE ATAQUE PORTAL ESTELAR THETA.

DESCRIÇÃO DE TAREFAS:

COMANDO DE PELOTÃO DE INFANTARIA NA CAMPANHA EM TET-2.

O PESSOAL ACIMA NOMEADO SE REPORTARÁ IMEDIATAMENTE AO BATALHÃO DE TRANSPORTE GRIMALDI PARA SER ENCAMINHADO AO PORTAL ESTELAR.

EMITIDO NO PORTAL ESTELAR TACBD/1298-8684-1450/20 AGO 2019.

ASS.:

PELO COMANDANTE DO COMANDO AUTOMÁTICO DA FORÇA DE ATAQUE.

* * ORDENS * * ORDENS * * ORDENS * *

 

– Eles não perderam tempo, não é mesmo? – disse Marygay, amargamente.

– Deve ser uma ordem prévia. O comando da força de ataque está a semanas-luz de distância daqui. Eles ainda nem têm como saber que fomos reintegrados.

– E a nossa… – Ela não conseguiu terminar a frase.

– A garantia. Bem, recebemos as atribuições que escolhemos. Mas ninguém garantiu que as teríamos por mais de uma hora.

– É tão desprezível.

Dei de ombros.

– É tão militar.

Mas eu não podia afastar a sensação de que estávamos voltando para casa.