Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 14 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 10

10

 

 

Como exercício de graduação, fomos socados sem cerimônias dentro de uma nave – Esperança da Terra, a mesma que nos levou a Caronte – e enviados para o Portal Estelar, a pouco mais de 1 gravidade.

A viagem parecia sem fim (cerca de seis meses de tempo subjetivo) e entediante, mas não tão desconfortável quanto a viagem para Caronte. O capitão Stott nos fez revisar nosso treinamento oralmente, dia após dia, e realizamos exercícios todos os dias, até atingir a exaustão coletiva.

O Portal Estelar 1 era mais escuro que o lado escuro de Caronte. Sua base era menor que a Miami – apenas um pouco maior do que aquela que construíramos no lado escuro. Nosso dever era ficar mais de uma semana para ajudar a expandir as instalações. O pessoal que se encontrava lá ficou muito satisfeito em nos ver, especialmente as duas moças, que pareciam um pouco abatidas.

Nós todos nos reunimos dentro do pequeno refeitório, onde o submajor Williamson, encarregado do Portal Estelar 1, deu-nos algumas notícias desconcertantes:

– Sintam-se todos confortáveis. Não precisam ficar sentados à mesa, pois há bastante espaço no chão. Tenho ideia do que vocês acabaram de passar nos treinamentos em Caronte. Não digo que foi perda de tempo, mas no local para o qual estão prestes a ir as coisas são um tanto diferentes: lá é mais quente.

Ele fez uma pausa para que pudéssemos absorver aquilo.

– Aleph Aurigae, o primeiro colapsar já detectado, circunda a estrela normal Épsilon Aurigae em uma órbita de 27 anos. O inimigo tem uma base operacional em um planeta na órbita de Épsilon, não no planeta portal comum de Aleph. Não sabemos muito a respeito do planeta, apenas que gira em torno de Épsilon uma vez a cada 745 dias, possui três quartos do tamanho da Terra e um albedo de 0,8; ou seja, provavelmente é coberto por nuvens. Não posso dizer com precisão quão quente é, mas, calculando por sua distância de Épsilon, é bem provável que seja mais quente do que a Terra. Claro que não sabemos se vocês estarão trabalhando… lutando em lado claro ou escuro, equador ou polos. É muito provável que não seja possível respirar por lá. Seja qual for a circunstância, deverão permanecer dentro de seus trajes. Agora vocês sabem exatamente tanto quanto eu a respeito do lugar para o qual estão se dirigindo. Perguntas?

– Senhor – Stein perguntou arrastadamente –, agora que sabemos para onde estamos indo… alguém sabe dizer o que faremos quando chegarmos lá?

Williamson deu de ombros.

– Isso dependerá do capitão, do sargento, do capitão da Esperança da Terra e do computador logístico da Esperança. Ainda não temos dados suficientes para dizer qual será o plano de ação. Poderá ser uma longa e sangrenta batalha ou apenas o caso de ir ao local recolher o que sobrou. Os taurianos podem querer fazer um acordo de paz – Cortez bufou – e neste caso vocês seriam apenas parte de nosso aparato, nosso poder de barganha – olhou tranquilamente para Cortez –, ninguém pode afirmar com certeza.

A orgia daquela noite foi bem interessante, apesar de parecer que tentávamos dormir em meio a uma ruidosa festa na praia. A única área grande o bastante para acomodar todos nós era o refeitório. Amarraram-se alguns lençóis aqui e ali em forma de cortina para garantir um pouco de privacidade. Depois, os dezoito homens do Portal Estelar, sedentos de sexo, foram soltos sobre nossas mulheres, dóceis e promíscuas, em conformidade com os costumes (e a lei) militares, mas desejando nada mais do que dormir no chão duro.

Os dezoito homens agiam como se tivessem de experimentar tantas trocas quanto fosse possível, e suas performances eram impressionantes (em sentido estritamente quantitativo). Os que estavam contando lideraram uma torcida para aqueles com membro mais bem-dotado, por assim dizer.

Na manhã seguinte – e em todas as outras em que estivemos no Portal Estelar 1 –, cambaleamos de nossas camas para dentro de nossos trajes para explorar o lado de fora e trabalhar na “nova ala”. No final, o Portal Estelar seria um quartel-general tático e logístico para a guerra e abrigaria milhares de militares do quadro permanente, protegidos por meia dúzia de imensos cruzadores nos moldes da Esperança. Quando começamos, eram duas tendas e vinte pessoas; quando partimos, eram quatro tendas e vinte pessoas. O trabalho era moleza, se comparado ao do lado escuro, já que tínhamos luz abundante e passávamos dezesseis horas do lado de dentro para cada oito horas trabalhadas. E nada de ataque de sonda teleguiada como exame final.

Quando voltamos para a Esperança, ninguém estava muito feliz em partir (embora algumas das moças mais populares dissessem que seria bom um descanso). O Portal Estelar era a última missão fácil e segura que teríamos antes de partir para o combate contra os taurianos. E, conforme Williamson ressaltou no primeiro dia, não dava para prever como isso seria.

A maioria tampouco se mostrou muito empolgada em fazer um salto colapsar. Asseguraram-nos que não sentiríamos nada, apenas uma sensação de queda livre ao longo do caminho. Eu não estava muito convencido. Como estudante de física, tive aulas sobre relatividade geral e teoria da gravidade. Possuíamos apenas alguns dados naquela época – o Portal Estelar havia sido descoberto quando eu ainda estava na escola primária –, mas o modelo matemático parecia claro o suficiente.

O colapsar denominado Portal Estelar era uma esfera perfeita, com um raio de cerca de 3 quilômetros, suspenso eternamente em um estado de colapso gravitacional, o que significava que sua superfície estava caindo em direção a seu centro aproximadamente à velocidade da luz. A relatividade mantinha-o no lugar, ou pelo menos transmitia essa ilusão… da mesma forma que toda a realidade torna-se ilusória, ou voltada para o observador, quando se estuda relatividade geral. Ou budismo. Ou quando se é recrutado.

De qualquer forma, havia um ponto teórico no espaço-tempo, quando uma extremidade da nossa nave se encontrava exatamente sobre a superfície do colapsar e a outra estava a 1 quilômetro de distância (considerando-se as nossas referências). Em qualquer universo razoável, isso geraria grande tensão, faria com que a nave se desintegrasse, e seríamos apenas mais 1 milhão de quilos de matéria degenerada à deriva pelo resto da eternidade ou cairíamos em direção ao centro no próximo trilionésimo de segundo. Cada um com sua referência.

Mas eles estavam certos. Partimos do Portal Estelar 1, fizemos algumas correções no curso e, depois, ficamos descendo em direção ao pouso, por cerca de uma hora.

Aí um alarme soou, e nos afundamos em nossas almofadas, a uma desaceleração estável de 2 gravidades. Estávamos em território inimigo.