Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 17 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 13

13

 

 

Paramos para passar a “noite” – na verdade, o Sol não se poria nas 17 horas seguintes – no alto de um pequeno monte distante cerca de 10 quilômetros de onde havíamos matado os alienígenas. Mas eles não eram alienígenas, eu tinha de me lembrar: nós é que éramos.

Dois pelotões se dispersaram, formando um anel em torno de nós, e caímos exaustos. Todos poderiam ter quatro horas de sono e deveriam ficar de guarda por duas horas.

Potter aproximou-se e sentou-se ao meu lado. Conectei-me a sua frequência.

– Olá, Marygay.

– Ai, William. – Sua voz pelo rádio estava rouca e falhava. – Nossa! Foi terrível!

– Agora acabou…

– Eu matei um deles, no primeiro momento. Atirei direto no, no…

Pus minha mão em seu joelho. O contato tinha um quê de plástico, então recuei: visões de máquinas se abraçando e copulando.

– Não se sinta só, Marygay. Qualquer culpa que exista é, é… pertence a todos nós igualmente… mas em um grau maior ao cor…

– Vocês aí! Soldados, parem de tagarelar e durmam um pouco. Vocês vão montar guarda em duas horas.

– Ok, sargento.

A voz dela estava ainda mais triste e cansada que a minha. Senti que, se eu pudesse tocá-la, poderia drenar sua tristeza como o fio terra faz com a corrente elétrica, mas nós dois estávamos envoltos em nosso mundo de plástico…

– Boa noite, William.

– Boa noite.

É quase impossível ficar excitado sexualmente dentro daqueles trajes, com o tubo de escape e com todos aqueles sensores de cloreto de prata cutucando você. Mas, de alguma forma, essa era uma reação do meu corpo à impotência emocional, talvez por me lembrar de noites mais agradáveis com Marygay, talvez por sentir que, em meio a todas aquelas mortes, a minha própria poderia estar bem perto, o que acionava guindaste criador para uma última tentativa… Pensamentos lindos estes… Adormeci e sonhei que era uma máquina, imitando as funções da vida, rangendo e tilintando de maneira desajeitada em um mundo no qual as pessoas, educadas demais para dizer qualquer coisa, davam risadinhas por trás, e o homenzinho dentro de minha cabeça, que manuseava alavancas e embreagens e observava indicadores, estava irremediavelmente louco e tomado pelo sofrimento…

– Mandella! Acorde, droga! Seu turno!

Arrastei-me até o posto para observar sabe Deus o quê… Mas eu estava tão fatigado que mal podia manter os olhos abertos. Finalmente, coloquei um stimtab na língua, sabendo que pagaria por aquilo mais tarde.

Fiquei ali sentado mais de uma hora, vigiando meu setor à esquerda, à direita, perto, longe. O cenário não mudava, não havia nem mesmo uma brisa para agitar a grama.

Então, subitamente, a grama se partiu e uma das criaturas de três pernas surgiu bem à minha frente. Ergui meu dedo, mas sem disparar.

– Movimento!

– Movimento!

– Jesus Cris… tem um bem na…

– NÃO ATIRE! Pelo amor de Deus, não atire!

– Movimento.

– Movimento.

Olhei para a esquerda e para a direita e, até onde podia ver, todos os guardas do perímetro tinham uma daquelas criaturas cegas e burras paradas à sua frente.

Talvez a droga que eu havia tomado para ficar acordado tivesse me tornado mais sensível ao que quer que fizessem. Senti uma contração no couro cabeludo e uma coisa amorfa na mente, a sensação de quando alguém diz algo e você não ouve bem, quer responder, mas a oportunidade de pedir para repetir já se foi.

A criatura sentou-se sobre as coxas, apoiando-se na única perna da frente. Era como um grande urso verde com um braço murcho. Seu poder penetrou na minha mente (teias de aranha, ecos de terrores noturnos), tentando se comunicar, talvez tentando me destruir, não dava para saber.

– Tudo bem! Todos que estão nas proximidades, recuem devagar. Não façam nenhum gesto brusco… Alguém está sentindo dor de cabeça ou algo parecido?

– Sargento, aqui é Hollister. – Era Lucky.

– Eles estão tentando dizer algo… Estou quase… não, só…

– Tudo o que posso entender é que eles nos acham, nos acham… bem, engraçados. Eles não estão com medo.

– Você quer dizer que o que está na sua frente não está…

– Não, o sentimento vem de todos eles, todos estão pensando a mesma coisa. Não me pergunte como eu sei, só sei.

– Talvez achem engraçado o que fizeram com a Ho.

– Pode ser. Eu não os sinto como sendo perigosos. Só estão curiosos a nosso respeito.

– Sargento, aqui é Bohrs.

– Sim?

– Os taurianos estiveram aqui há pelo menos um ano… talvez tenham aprendido como se comunicar com esses… ursinhos superdesenvolvidos. Podem estar nos espionando, podem estar mandando…

– Não acho que eles se mostrariam, se fosse esse o caso – disse Lucky. – Eles podem, obviamente, esconder-se de nós muito bem quando querem.

– De qualquer forma – falou Cortez –, se forem espiões, o estrago já está feito. Não creio que seria muito inteligente fazer algo contra eles. Sei que todos vocês gostariam de vê-los mortos pelo que fizeram com a Ho, eu também, mas é melhor tomarmos cuidado.

Eu não gostaria de vê-los mortos, tampouco queria tê-los ali na minha frente. Recuava, lentamente, em direção ao meio do acampamento. A criatura não se mostrou disposta a me seguir. Talvez ela simplesmente soubesse que estávamos cercados. Ela começou a arrancar grama com o braço e a mastigar ruidosamente.

– Ok. Todos os líderes de pelotão, acordem todos, façam uma contagem. Avisem-me se alguém foi ferido. Digam ao seu pessoal que vamos sair daqui a um minuto.

Não sei o que Cortez esperava, mas, claro, as criaturas foram nos seguindo. Elas não nos mantinham cercados. Eram apenas vinte ou trinta que nos acompanhavam o tempo todo. Não as mesmas. Algumas afastavam-se do caminho, e outras se juntavam ao cortejo. Estava bem evidente que elas não se cansariam.

Foi permitido a cada um de nós um stimtab. Sem isso, ninguém aguentaria marchar por uma hora. Uma segunda pílula seria bem-vinda, já que a primeira estava deixando de fazer efeito, mas os matemáticos responsáveis proibiram. Ainda estávamos a 30 quilômetros da base inimiga, quinze horas marchando, no mínimo. E apesar de conseguirmos ficar acordados e energizados por cem horas com as pílulas, falhas de julgamento e percepção tomariam conta de nós de forma crescente após a ingestão da segunda pílula, até que, in extremis, as mais bizarras alucinações pareceriam ser reais, e uma pessoa poderia angustiar-se durante horas decidindo se tomaria café da manhã ou não.

Sob estímulos artificiais, a companhia viajou com grande vigor pelas primeiras seis horas, começou a diminuir o ritmo na sétima e desabou de exaustão após 9 horas e 19 quilômetros. Os ursinhos não tiraram os olhos de nós e, de acordo com Lucky, não paravam de fazer “comunicação via rádio”. A decisão de Cortez foi de que pararíamos por sete horas e cada pelotão ficaria de guarda por uma hora. Nunca me senti tão contente por estar no sétimo pelotão, pois só montaríamos guarda no último turno e, assim, conseguiríamos ter seis horas ininterruptas de sono.

Nos poucos momentos em que fiquei acordado após, finalmente, me deitar, o pensamento de que a próxima vez que eu fechasse os olhos pudesse ser a última veio à minha mente.

E, em parte por conta da ressaca da droga, mas sobretudo por causa dos horrores do dia anterior, eu me dei conta de que não estava nem aí.