Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 37 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 33

33

 

Haviam se passado exatamente quatrocentos dias desde que começáramos a construção. Eu estava sentado na minha mesa, evitando conferir a nova lista de tarefas elaborada por Hilleboe. O gato estava no meu colo, ronronando alto, ainda que eu me recusasse a afagá-lo. Charlie estava estirado em uma cadeira, lendo algo no visor. O telefone tocou: era a comodoro.

– Eles estão aqui.

– Como?

– Eu disse que eles estão aqui. Uma nave tauriana acaba de sair de um campo colapsar a uma velocidade de .80c. Desaceleração a 30 gravidades. Aproximadamente.

Charlie inclinou-se sobre a minha mesa.

– O quê?

Livrei-me do gato.

– Quanto tempo para o início da perseguição? – perguntei.

– Assim que você desligar o telefone.

Foi o que fiz e caminhei até o computador de logística, que era idêntico ao que estava na Masaryk II e com o qual possuía uma linha direta de dados. Enquanto eu tentava arrancar números daquela coisa, Charlie mexia no monitor.

O monitor era um holograma de cerca de 1 metro quadrado por 0,5 metro de espessura, programado para mostrar as posições de Sade-138, nosso planeta, e de alguns outros pedaços de rocha no sistema. Havia pontos verdes e vermelhos que indicavam a posição de nossas naves e das naves dos taurianos.

O computador informava que o tempo mínimo que levaria para que o inimigo desacelerasse e chegasse a este planeta seria de pouco mais de onze dias. Isso se utilizassem aceleração e desaceleração máximas por todo o caminho; nesse caso, poderíamos alvejá-los como se fossem moscas em uma parede. Então, como nós, eles misturariam direção de voo e grau de aceleração de maneira aleatória. Baseado em centenas de registros passados do comportamento inimigo, o computador nos forneceu uma tabela de probabilidades:

 

Dias para o contato Probabilidade

11 ,000001

15 ,001514

20 ,032164

25 ,103287

30 ,676324

35 ,820584

40 ,982685

45 ,993576

50 ,999369

——— ———

28,9554 Média ,500000

A menos, é claro, que Antopol e sua gangue de alegres piratas conseguissem matá-los antes. As chances de isso acontecer, como eu havia aprendido no tanque, eram ligeiramente menores que 50%.

Mas, se levassem 28,9554 dias ou duas semanas, nós, a equipe do solo, teríamos que nos sentar e esperar de braços cruzados. Se Antopol fosse bem-sucedida, então não precisaríamos lutar até que as tropas regulares de guarnição nos substituíssem e nos dirigíssemos para o próximo colapsar.

– Ainda não partiram. – Charlie ajustara o monitor para escala mínima. O planeta era uma bola branca do tamanho de um melão grande, e Masaryk II era um ponto verde à direita a uns oito melões de distância. Não era possível visualizar os dois ao mesmo tempo na tela.

Enquanto observávamos, um pequeno ponto verde saltou do ponto que representava a nave e se afastou dela. Ele era flanqueado por um fantasmagórico número 2; a leitura projetada no canto inferior direito do monitor identificava-o como: 2 – sonda teleguiada de perseguição. Outros números identificavam a Masaryk II, um caça de defesa planetária e catorze sondas de defesa planetária. Essas dezesseis naves ainda não estavam longe o suficiente umas das outras para que as víssemos como pontos separados.

O gato se esfregava no meu tornozelo. Eu o peguei e acariciei:

– Diga a Hilleboe para convocar uma reunião geral. É melhor avisar todos ao mesmo tempo.

• • •

Os homens e as mulheres não aceitaram muito bem aquilo, e eu não podia culpá-los. Todos esperávamos que os taurianos atacassem muito mais cedo… e, como demoraram a vir, cresceu o sentimento de que o Comando da Força de Ataque havia cometido um erro e eles não apareceriam.

Eu quis que a companhia iniciasse um intenso treinamento com armas. Eles não haviam usado armas de alta potência em quase dois anos. Então ativei seus lasers de dedo e distribuí os lançadores de granada e foguetes. Não podíamos praticar dentro da base, devido ao risco de danificar os sensores externos e o anel de defesa a laser. Assim, desativamos metade do círculo de lasers gigawatt e nos afastamos cerca de 1 quilômetro do perímetro, um pelotão por vez acompanhado por mim ou por Charlie. Rusk observava de perto as telas de alerta precoce. Se qualquer coisa se aproximasse, ela lançaria um sinalizador, e o pelotão teria de voltar para dentro do anel antes que o desconhecido aparecesse no horizonte. Os lasers de defesa seriam ativados de modo automático. Além de destruir o desconhecido, fritariam o pelotão em menos de 2 centésimos de segundo.

Na base, não havia nada que pudéssemos usar como alvo, porém, isso acabou não sendo um problema. O primeiro foguete de táquions que disparamos abriu um buraco de 20 metros de comprimento, 10 de largura e 5 de profundidade. Os destroços nos deram grande quantidade de alvos que chegavam a ter duas vezes o tamanho de um homem.

Os soldados eram bons, muito melhores do que aparentaram ser com as armas primitivas no campo de estase. O melhor exercício de tiro com laser acabou sendo parecido com atirar em alvos em movimento: formávamos pares, púnhamos um atrás do outro e lançávamos pedras a intervalos aleatórios. Quem atirava tinha de calcular a trajetória da pedra e acertá-la antes que atingisse o chão. A coordenação visual e motora daquele pessoal era impressionante (talvez o Conselho de Eugenia tivesse acertado em alguma coisa). Ao atirar em pedras do tamanho de seixos, a maioria conseguia acertar 9 em cada 10 disparos. O velho aqui, que não era fruto da bioengenharia, talvez conseguisse acertar sete, e isso porque eu tinha muito mais prática do que aqueles garotos.

Eles também tinham igual facilidade para estimar trajetórias com os lançadores de granada, que eram muito mais versáteis do que no passado. Em vez de disparar bombas de um microton com carga propulsora padrão, possuíam quatro cargas diferentes e era possível lançar bombas de um, dois, três ou quatro microtons. E, em casos de embate entre grupos muito próximos, quando era perigoso usar os lasers, o cano do lançador poderia ser desmontado e substituído por um pente de balas de “espingarda”. Cada tiro enviava uma nuvem em expansão contendo milhares de minúsculos dardos que eram mortais a até 5 metros de distância e tornavam-se um vapor inofensivo a 6.

Os lançadores de foguetes de táquions não requeriam habilidade de nenhuma natureza. Tudo o que se tinha a fazer era observar com cuidado se não havia ninguém atrás no momento do disparo: o rastro do foguete oferecia perigo por vários metros atrás do tubo de lançamento. Por outro lado, era só mirar o alvo e apertar o botão. Não era preciso se preocupar com a trajetória, pois o foguete viajava em uma linha reta por questões práticas: alcançava a velocidade de escape em menos de 1 segundo.

O ânimo das tropas melhorou pelo simples fato de termos saído e detonado um pouco da paisagem com os novos brinquedos. Mas a paisagem não respondia ao ataque. Não importava quão impressionantes fossem as armas, sua eficácia dependeria de como os taurianos revidariam. Uma falange grega devia ser bem impressionante, mas não se sairia muito bem contra um único homem armado com lança-chamas.

E como em qualquer outro encontro, por causa da dilatação temporal, não havia meios de dizer que tipo de armamento eles poderiam ter. Talvez não soubessem nada a respeito dos campos de estase. Ou talvez tivessem aprendido a dizer algumas palavras mágicas que nos fariam desaparecer.

Eu estava lá fora com o quarto pelotão, tostando pedras, quando Charlie me chamou e me pediu que voltasse com urgência. Deixei Heimoff no comando.

– Mais um?

A escala do monitor holográfico era tal que nosso planeta parecia ser do tamanho de uma ervilha a cerca de 5 centímetros do X que marcava a posição de Sade-138. Havia 41 pontos verdes e vermelhos espalhados pelo campo; o leitor identificava o número 41 como cruzador tauriano (2).

– Você chamou Antopol?

– Sim. – Ele se antecipou à pergunta seguinte: – Vai levar quase um dia para o sinal chegar lá e voltar.

– Isso nunca aconteceu antes. – Mas, é claro, Charlie já sabia disso.

– Talvez este colapsar seja especialmente importante para eles.

– É provável.

Então era quase certo que iríamos combater em campo. Mesmo se Antopol conseguisse dar um jeito no primeiro cruzador, ela não teria 50% de chances com o segundo. Já não tínhamos mais tantas sondas e caças.

– Eu não queria estar na pele de Antopol agora – comentei.

– Ela vai atingi-los antes.

– Não sei. Estamos em muito boa forma.

– Deixe essa baboseira para as tropas, William.

Ele diminuiu a escala do monitor até aparecerem somente dois objetos: Sade-138 e o novo ponto vermelho, movendo-se lentamente.

• • •

Passamos as duas semanas seguintes observando pontos piscando. E se soubéssemos quando e onde olhar, dava para ir lá fora e ver a coisa acontecendo ao vivo: uma intensa e brilhante partícula de luz branca que se apagou em cerca de 1 segundo.

Naquele segundo, uma bomba-nova liberou uma energia 1 milhão de vezes maior do que um laser gigawatt. Formou-se uma estrela em miniatura de 0,5 quilômetro de diâmetro, tão quente quanto o interior do sol. Consumiria qualquer coisa que tocasse. Uma pequena quantidade de sua radiação poderia estragar, irreparavelmente, os aparelhos eletrônicos da nave (dois caças, um nosso e um deles, evidentemente tiveram tal destino, silenciosamente vagando para fora do sistema a uma velocidade constante, sem energia).

Utilizáramos bombas-novas mais poderosas no início da guerra, mas a matéria degenerada usada para abastecê-las era instável em grandes quantidades. As bombas tinham tendência a explodir enquanto ainda estavam dentro da nave. Com certeza, os taurianos enfrentavam o mesmo problema (ou copiaram o nosso processo), pois também adaptaram suas bombas-novas para que utilizassem menos de 100 quilos de matéria degenerada. Além do mais, eles as dispunham da mesma maneira que nós, com a ogiva separando-se em dezenas de pedaços à medida que se aproximava do alvo, sendo apenas um deles a bomba-nova.

Possivelmente, ainda teriam algumas bombas sobrando após exterminarem a Masaryk II e seu séquito de caças e sondas teleguiadas. Portanto, era provável que estivéssemos perdendo tempo e energia em práticas armadas.

Passou pela minha cabeça que eu poderia reunir onze pessoas e embarcar no caça que havíamos escondido em segurança atrás do campo de estase. Ele estava pré-programado para nos levar de volta ao Portal Estelar.

Até cheguei a fazer mentalmente uma lista dos onze, tentando pensar em pessoas que significavam mais para mim do que os demais. No fim das contas, eu teria de escolher seis aleatoriamente.

No entanto, deixei o pensamento de lado. Ainda tínhamos chance, talvez uma muito boa, mesmo contra um cruzador plenamente armado. Não seria fácil fazer uma bomba-nova chegar perto o bastante a ponto de sermos incluídos em seu raio mortífero. Além do mais, eu seria jogado no espaço por deserção. Então, por que me preocupar?

• • •

Os ânimos melhoraram quando uma das sondas teleguiadas de Antopol derrubou o primeiro cruzador tauriano. Sem contar as naves que haviam ficado para trás para defender o planeta, ela ainda tinha dezoito sondas teleguiadas e dois caças. Mesmo sob perseguição de quinze sondas inimigas, todos mudaram o rumo para interceptar o segundo cruzador, que ainda estava a algumas horas-luz de distância.

Uma das sondas teleguiadas taurianas atingiu o alvo. As naves auxiliares continuaram o ataque, mas foi uma derrota completa. Um caça e três sondas teleguiadas fugiram da batalha acelerando ao máximo, dando a volta sobre o plano da eclíptica, mas não foram perseguidos. Assistíamos a tudo com interesse mórbido, enquanto o cruzador inimigo se preparava para vir em nossa direção e travar batalha. O caça voltou para Sade-138 na tentativa de escapar. Ninguém os culpou. Na verdade, nós lhes enviamos uma mensagem de adeus e boa sorte; eles não responderam, naturalmente, pois estavam todos nos tanques. Mas ficaria registrado.

Demorou cinco dias para que os inimigos chegassem ao planeta e ficassem confortavelmente escondidos em uma órbita estacionária do outro lado. Preparamo-nos para a inevitável primeira fase do ataque, que seria aérea e totalmente automatizada: as sondas teleguiadas deles contra nossos lasers. Pus uma força de cinquenta homens e mulheres dentro do campo de estase, para o caso de uma das sondas conseguir atravessar. Um gesto sem sentido, na verdade. O inimigo poderia simplesmente esperar que desligassem o campo para fritá-los no segundo seguinte.

Charlie teve uma ideia estranha que quase segui.

– Podíamos montar uma armadilha.

– Como assim? – perguntei. – Este lugar é uma armadilha, com minas e lasers em um perímetro de 25 quilômetros.

– Não, não me refiro a isso. Digo a base em si, aqui, subterrânea.

– Prossiga.

– Existem duas bombas-novas naquele caça. – Ele apontou para o campo de estase a algumas centenas de metros de pedra. – Podemos rolá-las para cá, montar uma armadilha, esconder todo o pessoal no campo de estase e esperar.

De certa forma, era tentador. Aquilo me livraria de qualquer responsabilidade de tomar decisões, deixando tudo para o acaso.

– Não acho que vá funcionar, Charlie.

Ele me pareceu magoado.

– Claro que vai.

– Não, olhe. Para que funcione, você precisa atrair cada um dos taurianos para dentro do raio mortífero antes da explosão… Mas não viriam todos para cá uma vez que abrissem brecha em nossas defesas. Menos ainda se o lugar parecesse deserto. Eles desconfiariam de algo, mandariam um grupo fazer inspeção. E depois que o grupo de inspeção deflagrasse as bombas…

– Estaríamos de volta à estaca zero, verdade. E sem a base. Perdão.

Fiquei sem jeito.

– Foi uma ideia. Continue pensando, Charlie.

Voltei minha atenção para o monitor, onde a assimétrica guerra espacial avançava. Logicamente, o inimigo queria derrubar aquele caça que estava acima deles antes de se dedicar a nós. Tudo que podíamos fazer era observar os pontos vermelhos se arrastarem em volta do planeta e tentar acertá-los. Até aquele momento, o piloto havia conseguido derrubar todas as sondas teleguiadas; o inimigo ainda não tinha enviado caças em sua direção.

Dei ao piloto o controle de cinco lasers de nosso anel defensivo, apesar de não servirem para muita coisa. Um laser gigawatt lança 1 bilhão de quilowatts por segundo a até 100 metros. Mil quilômetros adiante, no entanto, o raio era atenuado para 10 quilowatts. Poderia causar algum dano se atingisse um sensor ótico. Ao menos causaria confusão.

– Poderíamos usar outro caça, ou seis.

– Use as sondas teleguiadas – falei.

Tínhamos um caça, claro, e um homem capaz de pilotá-lo. Poderia vir a ser nossa única esperança, se nos encurralassem no campo de estase.

– Qual a distância do outro cara? – perguntou Charlie, referindo-se ao piloto do caça que fugira.

Reduzi a escala do monitor, e o ponto verde apareceu do lado direito.

– Cerca de 6 horas-luz.

Ele ainda possuía duas sondas teleguiadas, próximas demais dele para aparecerem como pontos separados. Uma delas fora utilizada para dar cobertura à fuga.

– Ele não está acelerando mais, mas está a 0,9 gravidade.

– Não poderia nos ajudar em nada, mesmo que quisesse. – Precisaria de quase um mês para desacelerar.

Naquele momento, a luz referente ao nosso caça de defesa se apagou.

– Merda!

– Agora começa a diversão. Devo avisar as tropas para se prepararem e ficarem em alerta para subir?

– Não… Ordene que vistam os trajes, para o caso de perdermos ar. Mas acho que ainda levará algum tempo antes de termos um ataque em terra.

Elevei a escala novamente. Quatro pontos vermelhos já se arrastavam no globo em nossa direção.

• • •

Vesti meu traje e voltei à administração para observar a queima de fogos nos monitores.

Os lasers funcionavam perfeitamente. As quatro sondas convergiram até nós simultaneamente; foram alvejadas e destruídas. Somente uma das bombas-novas explodiu abaixo do nosso horizonte (o horizonte visual encontrava-se a cerca de 10 quilômetros de distância, mas os lasers estavam montados a uma altura tal que lhes possibilitava alvejar qualquer coisa que estivesse a duas vezes essa distância). A bomba que detonou em nosso horizonte derreteu uma rocha semicircular que ficou brilhando por vários minutos. Uma hora depois, ainda estava brilhando, com uma cor laranja-opaco, e a temperatura do solo lá fora se elevara para 50 graus absolutos, derretendo a maior parte da neve e expondo uma superfície cinza-escuro irregular.

O próximo ataque também acabou na fração de segundo seguinte, mas desta vez havia oito sondas teleguiadas, sendo que quatro delas estavam a 10 quilômetros. A radiação das crateras que ainda brilhavam elevou a temperatura a quase 300 graus. Era mais do que o ponto de fusão da água, e eu estava começando a ficar preocupado. Os trajes de batalha funcionavam bem até acima de mil graus, mas os lasers automáticos dependiam de supercondutores a temperaturas mais baixas para manterem a velocidade.

Perguntei ao computador qual era a temperatura limite dos lasers, e a tela exibiu TR398-734-009-265, “Alguns aspectos sobre a adaptabilidade de material bélico criogênico para uso em ambientes de temperatura relativamente elevada”. Trazia muitos conselhos úteis a respeito de como isolar as armas se tivéssemos acesso a uma oficina de armeiro totalmente equipada. A tela também informava que o tempo de resposta dos equipamentos de mira automática aumentava à medida que a temperatura se elevava, e que acima de uma “temperatura crítica” as armas não mirariam mais. Mas não havia como prever o comportamento de nenhuma arma em particular, podia-se apenas notar que a temperatura crítica mais alta registrada foi de 790 graus e a mais baixa foi de 420 graus.

Charlie observava o monitor. Sua voz era inexpressiva pelo rádio do traje.

– Dezesseis agora.

– Surpreso?

Uma das poucas coisas que sabíamos sobre a psicologia tauriana era que possuía certa compulsão por números, especialmente primos e potências de dois.

– Vamos apenas torcer para que eles não tenham mais 32.

Questionei o computador sobre isso. Tudo que ele podia informar era que o cruzador havia lançado, até agora, um total de 44 sondas teleguiadas e sabia-se que alguns cruzadores chegavam a transportar 128.

Tínhamos pouco mais de meia hora antes que as sondas teleguiadas começassem o ataque. Consegui evacuar todo o pessoal para o campo de estase, onde eles ficariam temporariamente a salvo caso uma das bombas-novas conseguisse ultrapassar a barreira de defesa. A salvo, mas presos. Quanto tempo as crateras levariam para esfriar, se três ou quatro (ou dezesseis) bombas explodissem? Não dava para viver eternamente em um traje de batalha, mesmo que ele pudesse reciclar tudo com impiedosa eficácia. Uma semana bastaria para deixar os soldados completamente acabados. Duas, suicídio. Ninguém jamais ficara três semanas, em circunstâncias de campo.

Além disso, como posição de defesa, o campo de estase poderia ser uma armadilha mortal. O inimigo tinha todas as opções, já que a redoma era opaca. A única forma de descobrir o que eles estavam tramando era botando a cabeça para fora. Eles não precisavam atacar com armas primitivas, a menos que estivessem impacientes. Poderiam apenas manter a redoma saturada com fogo a laser e esperar que desligássemos os geradores. Enquanto isso, atirariam lanças, pedras e flechas para dentro da redoma… Podíamos revidar, mas seria inútil.

Certamente, se um homem ficasse dentro da base, os outros poderiam esperar a próxima meia hora no campo de estase. Se ele não fosse buscá-los, saberiam que estava quente do lado de fora. Pressionei a combinação que me daria a frequência disponível para todos do 5º escalão para cima.

– Aqui é o major Mandella. – Isso ainda soava como uma piada ruim.

Descrevi a situação e pedi a eles que dissessem a suas tropas que todos na companhia estavam livres para se dirigir ao campo de estase. Eu ficaria aqui e, depois, os tiraria de lá caso as coisas melhorassem – claro que não se tratava de nobreza; eu preferia a chance de ser vaporizado em 1 nanossegundo a ter uma morte lenta quase certa sob a redoma cinza.

Acionei a frequência de Charlie.

– Você pode ir também. Cuido das coisas por aqui.

– Não, obrigado – disse ele lentamente. – Irei assim que… Ei, olhe para isso.

O cruzador lançara outro ponto vermelho, alguns minutos depois dos outros. O monitor identificava-o como sendo outra sonda teleguiada.

– Curioso…

– Idiotas supersticiosos – falou ele, sem convicção.

Apenas onze pessoas decidiram se juntar às cinquenta que foram ordenadas a entrar na redoma. Aquilo não deveria ter me deixado surpreso, mas deixou.

À medida que as sondas se aproximavam, Charlie e eu olhávamos fixamente para os monitores, tomando o cuidado de evitar o monitor holográfico, tacitamente concordando que seria melhor não saber quando estivessem a 1 minuto de distância, a 30 segundos… Então, como das outras vezes, terminou antes que soubéssemos que havia começado. As telas exibiram um clarão branco e depois emitiram um ruído de estática… e continuamos vivos.

Mas desta vez havia quinze novos buracos no horizonte… ou mais perto!… E a temperatura subia tão rápido que o último dígito no leitor era um borrão amorfo. O número chegou a 800 e começou a diminuir.

Nem chegamos a ver as sondas teleguiadas, não durante aquela pequena fração de segundo que levou para os lasers mirarem e atirarem. Porém, a décima sétima brilhou no horizonte, ziguezagueando loucamente, e parou bem acima de nós. Por um instante, pareceu flutuar; no entanto, logo em seguida, começou a cair. Metade dos lasers a havia detectado e continuava disparando, mas nenhum deles conseguia mirar; estavam todos presos à última posição de disparo.

Ela cintilou ao cair. O polimento de seu casco liso refletia o brilho branco das crateras e o bruxuleio lúgubre dos constantes e impotentes disparos a laser. Ouvi Charlie respirar fundo, e a sonda caiu tão perto que podíamos ver numerais taurianos gravados em seu casco e uma escotilha transparente perto da ponta… Então, o motor explodiu, e a sonda, de repente, sumiu.

– Que diabos? – Charlie disse, em voz baixa. – A escotilha…

– Talvez reconhecimento.

– Acho que sim. Então não podemos atingi-los, e eles sabem disso.

– A menos que os lasers se recuperem. – Não parecia muito provável. – É melhor que todos fiquem dentro da redoma. Nós também.

Ele disse uma palavra cuja vogal havia mudado com o passar dos séculos, mas seu significado era claro.

– Sem pressa. Vamos ver o que eles farão.

Aguardamos por várias horas. A temperatura lá fora estabilizou-se a 690 graus (pouco abaixo do ponto de fusão do zinco, lembrei por acaso). Testei os controles manuais para os lasers, mas ainda não respondiam.

– Aí vêm eles – avisou Charlie. Oito novamente.

Fui em direção ao monitor.

– Acho que vamos…

– Espere! Não são sondas teleguiadas.

Os leitores identificavam todos os oito pontos com a legenda Transporte de tropas.

– Acho que querem tomar a base, intacta – sugeriu Charlie.

– Isso, e talvez experimentar novas armas e técnicas.

– Para eles não é um grande risco. Podem recuar a qualquer momento e jogar uma bomba-nova em nós.

Chamei Brill e pedi a ele que convocasse todos aqueles que estavam no campo de estase e que os organizasse, juntamente com o restante do pelotão dela, como uma linha defensiva em torno dos quadrantes nordeste e noroeste. Eu poria o resto do pessoal na outra metade do círculo.

– Estava pensando… – começou Charlie. – Talvez não devêssemos levar todos para cima de uma vez, até sabermos quantos taurianos são.

Fazia sentido. Manter uma reserva e deixar o inimigo subestimar nossa força.

– É uma boa ideia… Deve haver apenas 64 deles em oito transportadores. – Ou 128 ou 256. Eu gostaria que nossos satélites espiões tivessem melhor senso discriminatório, mas não se pode esperar muito de uma máquina do tamanho de uma uva.

Decidi deixar que as setenta pessoas de Brill fossem nossa primeira linha de defesa e lhes ordenei que formassem um anel nas valas que abrimos fora do perímetro da base. Todos os outros permaneceriam na parte de baixo até serem necessários.

Se os taurianos, ou por meio de números ou de nova tecnologia, constituíssem uma força imbatível, eu enviaria todos para o campo de estase. Havia um túnel que ligava os dormitórios à redoma; assim, o pessoal do subterrâneo poderia se dirigir até lá com segurança. Os outros que estivessem nas valas teriam de correr para lá sob disparos – se algum deles ainda estivesse vivo quando eu desse a ordem.

Chamei Hilleboe e mandei que ela e Charlie ficassem de olho nos lasers. Se destravassem, eu chamaria Brill e seu pessoal de volta. Acionei o sistema de mira automática novamente e me sentei para assistir ao show. Mesmo travados, os lasers eram úteis. Charlie ajustou os monitores para mostrar para onde os raios se dirigiam. Ele e Hilleboe podiam dispará-los manualmente sempre que algo se movesse na linha de visão da arma.

Tínhamos ainda uns vinte minutos. Brill estava perto do perímetro com seus homens e mulheres, ordenando a eles que entrassem nas valas, um esquadrão por vez, organizando campos de fogo sobrepostos. Chamei-a pelo rádio e pedi a ela que dispusessem as armas pesadas de tal maneira que pudessem ser usadas para conduzir o avanço inimigo para o caminho dos lasers.

Não havia muito o que fazer agora, senão esperar. Pedi a Charlie para avaliar o progresso do inimigo e tentar nos fornecer uma contagem regressiva precisa, então sentei-me à mesa, peguei um bloco de papel para desenhar a organização de Brill e ver se poderia melhorá-la.

O gato pulou no meu colo, miando de forma comovente. Tudo indicava que ele não conseguia distinguir uma pessoa da outra quando estavam com uniforme. Mas ninguém mais se sentava a essa mesa. Estendi o braço para acariciá-lo, e ele pulou para longe.

A primeira linha que desenhei ocupou quatro folhas de papel. Havia algum tempo desde que eu fizera algum serviço delicado dentro de um traje. Lembrei que, durante o treinamento, praticávamos como controlar os circuitos de amplificação da força passando ovos de uma pessoa a outra… uma tarefa nojenta. Fiquei imaginando se ainda havia ovos na Terra.

Concluí o diagrama e não vi maneiras de melhorá-lo. Todas aquelas teorias amontoadas em meu cérebro. Havia muitos conselhos táticos sobre cercos e encurralamentos, porém, do ponto de vista errado. Se você fosse a parte que estivesse sendo encurralada, não tinha muitas opções. Era ficar ali e lutar. Responder sem demora às concentrações de força do inimigo, mas sendo flexível para ele não empregar força diversiva e desviar poder de alguma seção previsível de seu perímetro. Faça grande uso de apoio espacial e aéreo, este é sempre um bom conselho. Mantenha a cabeça abaixada e o queixo levantado e reze pela cavalaria. Mantenha sua posição e não pense em Dien Bien Phu, em Álamo, ou na Batalha de Hastings.

– Mais oito transportadores – avisou Charlie. – Cinco minutos até que os primeiros oito cheguem aqui.

Então eles atacariam em duas ondas. Pelo menos duas. O que eu faria se estivesse no comando dos taurianos? Isso não era muito complicado: os taurianos careciam de imaginação tática e tendiam a copiar os padrões humanos.

A primeira onda podia ser um ataque suicida para nos enfraquecer e avaliar nossas defesas. Depois, a segunda viria de forma mais metódica e concluiria o trabalho. Ou vice-versa: o primeiro grupo teria 20 minutos para se entrincheirar; depois o segundo poderia passar sobre eles e nos atacar duramente em um único ponto… criando uma brecha no perímetro e devastando a base.

Ou talvez tenham enviado duas forças simplesmente por ser um número mágico. Ou poderiam lançar apenas oito transportes de tropas por vez (isto seria ruim, pois daria a entender que os transportadores eram grandes; em situações diferentes, eles tinham usado transportadores que carregavam de quatro a 128 soldados).

– Três minutos.

Olhei para o conjunto de monitores que mostravam vários setores do campo minado. Se tivéssemos sorte, eles pousariam lá sem muito cuidado. Ou talvez voassem baixo o suficiente para detonar as minas.

Eu me sentia ligeiramente culpado. Estava seguro em meu buraco, rabiscando, pronto para começar a dar ordens. Como os setenta cordeiros prontos para o sacrifício se sentiam a respeito do comandante ausente?

Então lembrei de como me senti com relação ao capitão Stott naquela primeira missão, quando ele escolheu ficar a salvo em órbita enquanto lutávamos no solo. A torrente de ódio revivido foi tão forte que tive de controlar a náusea.

– Hilleboe, você consegue manejar os lasers por conta própria?

– Não vejo por que não, senhor.

Joguei a caneta na mesa e me levantei.

– Charlie, assuma a coordenação da unidade. Você pode fazê-lo tão bem quanto eu. Vou subir.

– Eu não aconselharia, senhor.

– Que diabos, William. Não seja estúpido.

– Eu não recebo ordens, estou dand…

– Você não duraria 10 segundos lá em cima… – começou Charlie.

– Vou assumir o risco, como todos os outros.

– Não ouviu o que eu disse? Eles vão te matar!

– As tropas? Bobagem! Sei que não gostam muito de mim, mas…

– Você não ouviu nas frequências do esquadrão?

– Não, eles não falavam o meu inglês quando conversavam entre si.

– Eles acham que você os colocou lá na linha para punidos, por covardia, depois que disse que todos estavam livres para ir para a redoma.

– Não foi isso, senhor? – perguntou Hilleboe.

– Para puni-los? Não, claro que não. – Não conscientemente. – Eles simplesmente estavam lá em cima quando precisei… A tenente Brill não disse nada a eles?

– Não que eu tenha ouvido – Charlie respondeu. – Talvez ela esteja muito ocupada para sintonizar o rádio.

Ou concordava com eles.

– É melhor eu…

– Ali! – gritou Hilleboe.

A primeira nave inimiga era visível em um dos monitores dos campos minados. As outras apareceram no segundo seguinte. Vinham de diferentes direções e não estavam uniformemente espalhadas ao redor da base. Cinco no quadrante nordeste e apenas uma no sudoeste. Retransmiti a informação a Brill.

Mas havíamos previsto a lógica muito bem: todas estavam se aproximando do anel de minas. Uma desceu o suficiente para acionar um dos dispositivos de táquion. A explosão atingiu a traseira da estranha aeronave, fazendo-a rodopiar e cair de bico. Portas laterais se abriram, e os taurianos saíram se arrastando. Doze deles; provavelmente quatro deixados para trás. Se todas as outras também tivessem dezesseis, eles seriam poucos a mais que nós.

Na primeira onda.

Os outros sete pousaram sem problemas, e, sim, havia dezesseis em cada. Brill reordenou alguns esquadrões para ajustá-los à posição das tropas inimigas e aguardou.

Eles se moveram depressa pelo campo minado, dando largos passos em uníssono, como se fossem robôs de pernas arqueadas e cabeças imensas. Não interrompiam a marcha nem quando um deles explodia em pedacinhos por causa de alguma mina, o que ocorreu onze vezes.

Quando apareceram no horizonte, a razão aparente de sua distribuição aleatória era óbvia: analisaram de antemão quais abordagens lhes ofereceriam mais proteção natural, por causa do entulho que as sondas teleguiadas produziram. Conseguiriam chegar a alguns quilômetros da base antes que pudéssemos mirá-los com clareza. E seus trajes possuíam circuitos de aumento similares aos nossos, então conseguiam percorrer 1 quilômetro em menos de 1 minuto.

Brill ordenou que suas tropas abrissem fogo imediatamente, talvez mais pelo efeito moral do que na esperança de atingir o inimigo. É provável que estivessem acertando alguns deles, embora fosse difícil dizer. Pelo menos os foguetes de táquion fizeram um trabalho impressionante ao transformar rochas em cascalho.

Os taurianos atiravam de volta com uma arma similar ao foguete de táquion, talvez exatamente igual. No entanto, era raro que achassem um alvo. Nosso pessoal estava no nível do solo e abaixo, e se os foguetes não atingissem algo, continuariam avançando para todo o sempre, amém. Eles acabaram acertando um dos lasers gigawatt, e o impacto foi tão forte que me fez desejar estar a mais de 20 metros de profundidade.

Os gigawatts não estavam trazendo nenhum benefício para nós. Os taurianos devem ter divisado as linhas de mira antecipadamente e as evitavam. Contudo, isso acabou sendo uma vantagem para nós, pois permitiu que Charlie desviasse a atenção dos monitores de laser por um instante.

– Que diabos…?

– O que foi, Charlie? – Eu não tirava os olhos dos monitores, esperando algo acontecer.

– A nave, o cruzador… se foi. – Olhei para o monitor holográfico.

Ele tinha razão: as únicas luzes vermelhas eram aquelas que correspondiam aos transportadores de tropas.

– Foram para onde? – perguntei por perguntar.

– Vamos voltar as imagens.

Ele programou o monitor para retroceder alguns minutos e ajustou a escala para o momento em que eram mostrados planeta e colapsar. O cruzador apareceu e, com ele, três pontos verdes. Nosso “covarde” havia atacado o cruzador com apenas duas sondas teleguiadas.

Mas ele teve uma pequena ajuda das leis da física.

Em vez de entrar em uma inserção colapsar, ele deu a volta no campo colapsar em uma órbita de projeção. Saiu a 0,9 da velocidade da luz; as sondas teleguiadas estavam a .99c e rumavam para o cruzador inimigo. Nosso planeta estava a cerca de mil segundos-luz do colapsar, portanto a nave tauriana teve apenas 10 segundos para detectar e deter as duas sondas. E, a essa velocidade, tanto fazia ser alvejado por uma bomba-nova ou por uma bola de papel.

A primeira sonda desintegrou o cruzador e a outra, um centésimo de segundo depois, desceu brilhando e chocou-se contra o planeta. O caça desviou a rota rumo ao planeta por algumas centenas de quilômetros e lançou-se ao espaço, desacelerando ao máximo de 25 gravidades. Ele estaria de volta em alguns meses.

Mas os taurianos não esperariam por ele. Eles se aproximavam de nossas linhas por ambos os lados para começar a usar seus lasers, mas também estavam a uma distância em que era fácil alcançá-los com granadas. Uma pedra de bom tamanho poderia protegê-los dos disparos de laser, mas as granadas e os foguetes os destroçariam.

Primeiramente, as tropas de Brill contaram com uma imensa vantagem: lutando em valas, apenas poderiam ser feridos por um disparo ocasionalmente bem-sucedido ou uma granada extremamente bem-arremessada (que os taurianos lançavam com as mãos, com um alcance de várias centenas de metros). Brill perdera quatro soldados, mas parecia que a força tauriana havia sido reduzida para menos da metade do tamanho original.

Ao final, a paisagem fora devastada de tal maneira que a maioria dos taurianos também foi capaz de se entrincheirar em buracos no solo. A batalha reduziu-se a duelos individuais de laser, interrompidos de vez em quando por armas mais pesadas. Mas não seria inteligente usar um foguete de táquion contra um único tauriano, não com outra força de tamanho desconhecido a poucos minutos de distância.

Mas algo estava me incomodando desde que eu assistira naquele replay holográfico. Agora, com a calmaria da batalha, eu sabia o que era.

Quando a segunda sonda se jogara contra o planeta quase à velocidade da luz, qual teria sido o dano causado pelo impacto? Fui até o computador e comecei a pesquisar. Descobri quanta energia havia sido liberada com a colisão e então comparei com informações geológicas arquivadas na memória do computador.

Vinte vezes mais intenso que o mais poderoso terremoto já registrado. Em um planeta que tinha três quartos do tamanho da Terra. Conectei imediatamente a frequência geral:

– Todo mundo para cima! Agora!

Apertei o botão que abria a saída de ar e o túnel que levava da administração para a superfície.

– Que diabos, Will…

– Terremoto! – Quanto tempo ainda tínhamos? – Depressa!

Hilleboe e Charlie estavam bem atrás de mim. O gato estava sentado em minha mesa, lambendo-se despreocupadamente. Tive um impulso irracional de pô-lo dentro do meu traje, que foi a forma como ele havia sido transportado da nave para a base, mas eu sabia que ele não aguentaria mais que alguns minutos. Então tive o impulso mais razoável de simplesmente vaporizá-lo com meu laser de dedo, mas naquele momento a porta já estava fechada e corríamos para as escadas. Por todo o caminho, e algum tempo depois, fui perseguido pela imagem daquele animal indefeso, preso sob toneladas de cascalho, morrendo lentamente à medida que o ar se esvaía.

– Mais seguro nas valas? – perguntou Charlie.

– Não sei – respondi. – Nunca estive em um terremoto. – Talvez as paredes das valas se fechassem e nos esmagassem.

Fiquei surpreso com a escuridão da superfície. S Doradus tinha quase se posto. Os monitores compensaram pelo baixo nível de luz.

Um laser inimigo cruzou a clareira à nossa esquerda, o que gerou uma rápida chuva de faíscas quando atingiu um dos gigawatts. Ainda não tinham nos avistado. Todos decidimos que seria mais seguro ficar nas valas e chegamos à mais próxima com três passadas largas.

Havia quatro homens e mulheres na vala, um deles gravemente ferido ou morto. Descemos pela borda com dificuldade e ajustei meu amplificador de imagens para logaritmo 2 a fim de inspecionar os colegas de vala. Tivemos sorte: um era granadeiro, e eles também tinham um lançador de foguetes. Dava para ver seus nomes nos capacetes. Estávamos na vala de Brill, mas ela ainda não tinha notado nossa presença. Estava no lado oposto, espiando com cuidado acima da borda, direcionando dois esquadrões em um movimento flanqueado. Quando ficaram seguramente posicionados, ela voltou a se agachar e perguntou:

– É você, major?

– Sou eu mesmo – respondi com cuidado. Eu me perguntava se alguém daquela vala estava entre os que queriam minha cabeça.

– Que história é essa de terremoto?

Ela fora informada sobre o cruzador que havia sido destruído, mas não acerca da outra sonda. Expliquei-lhe usando o mínimo possível de palavras.

– Ninguém saiu da câmara ainda – disse ela. – Ainda não. Acho que todos foram para o campo de estase.

– Sim, estavam tão próximos de um quanto de outro. – Talvez alguns ainda estivessem lá embaixo, talvez não tenham levado a sério meu aviso. Ativei a frequência geral para verificar… mas então o inferno começou…

O chão afundou e, depois, voltou; bateu em nós com tanta força que fomos lançados ao ar, caindo fora das valas. Voamos vários metros, chegando a uma altura suficiente para ver o padrão de círculos de cor laranja e amarelo brilhante, as crateras formadas com o impacto das bombas-novas. Caí de pé, mas o chão estava extremamente instável e escorregadio, tanto que não era possível permanecer ereto.

Com um impacto estrondoso que pude sentir através do traje, a área descoberta sobre nossa base desintegrou-se e implodiu. Quando o solo cedeu, parte da face inferior do campo de estase ficou exposta, acomodando-se no novo nível com uma graça altiva.

Bem, tínhamos perdido um gato. Eu esperava que todos tivessem tido tempo e bom-senso suficiente para ir para a redoma.

Uma figura veio cambaleando da vala mais próxima, e percebi num sobressalto que não era humano. Àquela distância, meu laser fez um buraco bem no meio de seu capacete; ele deu dois passos e caiu para trás. Outro capacete espiou pela beirada da vala. Arranquei-lhe o topo antes que pudesse erguer a arma.

Eu não conseguia me orientar. A única coisa que continuava intacta era a redoma de estase, ela parecia a mesma sob qualquer ângulo. Os lasers gigawatt estavam todos soterrados, mas um deles fora ativado: um holofote brilhante e tremeluzente que iluminou um redemoinho de rocha vaporizada.

Claro, eu estava em território inimigo. Comecei a correr pelo chão trêmulo em direção à redoma.

Eu não conseguia falar com nenhum dos líderes de pelotão. Todos, exceto Brill, provavelmente encontravam-se na redoma. Consegui falar com Hilleboe e Charlie. Disse a Hilleboe que fosse para dentro da redoma e forçasse todos a saírem. Se a próxima onda também tivesse 128, precisaríamos de todos.

Os tremores diminuíram e encontrei uma vala “amiga” (a vala dos cozinheiros, na verdade, já que as únicas pessoas ali eram Orban e Rudkoski).

– Parece que você vai ter de recomeçar do zero, soldado.

– Sem problemas, senhor. O fígado precisava de um descanso.

Recebi um bipe de Hilleboe e conectei-me com ela.

– Senhor… havia apenas dez pessoas lá. O resto não conseguiu chegar.

– Eles ficaram para trás? – Parecia-me que o tempo tinha sido suficiente.

– Não sei, senhor.

– Tudo bem. Faça uma contagem e me diga quantos ainda temos no total. – Tentei acionar a frequência dos líderes de pelotão mais uma vez, mas continuava muda.

Nós três ficamos atentos aguardando fogo inimigo por alguns minutos, mas não houve. Provavelmente esperavam por reforços.

Hilleboe chamou novamente.

– Temos apenas 53, senhor. Alguns parecem estar inconscientes.

– Tudo bem. Fale para aguardarem até…

Então a segunda onda apareceu. Os transportadores de tropas vinham a todo vapor no horizonte com seus jatos apontados para nós, desacelerando.

– Lancem foguetes nesses filhos da mãe! – gritou Hilleboe, sem se remeter a ninguém em particular. Mas ninguém havia conseguido ficar com um lançador de foguetes ou de granadas enquanto estava sendo sacudido, e a distância ainda era muito grande para os lasers de mão terem alguma eficácia.

Esses transportadores tinham quatro ou cinco vezes o tamanho daqueles da primeira onda. Um deles pousou a cerca de 1 quilômetro na nossa frente, mal parando o suficiente para despejar as tropas. Havia uns cinquenta, provavelmente 64 (vezes oito era igual a 512). Não tínhamos como detê-los.

– Ouçam todos, aqui é o major Mandella – tentei manter um tom de voz equilibrado e baixo –, teremos que recuar para a redoma, de forma rápida, mas ordenada. Sei que estamos espalhados por todos os lados deste inferno. Se você pertence ao segundo ou quarto pelotão, fique onde está por um minuto e dê cobertura enquanto o primeiro e o terceiro pelotões e o pessoal do suporte se retiram. Primeiro e terceiro e suporte, recuem até metade da distância em que vocês se encontram da redoma, protejam-se e defendam o segundo e o quarto pelotões à medida que se aproximam. Eles irão até o limite da redoma e darão cobertura para vocês pelo resto do caminho.

Eu não devia ter dito “recuar”. Essa palavra não constava do manual. Ação retrógrada.

Havia muito mais de “retrógrado” do que de “ação”. Oito ou nove pessoas estavam atirando, e o resto corria a todo vapor. Rudkoski e Orban desapareceram. Dei alguns tiros com cuidado, sem grande efeito, então corri para a outra ponta da vala, escalei para fora e fui em direção à redoma.

Os taurianos começaram a lançar foguetes, mas a maioria parecia estar indo alto demais. Vi dois dos nossos serem exterminados antes que eu chegasse à metade do caminho. Encontrei uma grande rocha e me escondi atrás dela. Dei uma espiada e concluí que apenas dois ou três taurianos estavam perto o suficiente para que eu tivesse alguma chance remota de acertá-los com meu laser… O melhor era não atrair atenção sem necessidade. Corri o resto do caminho até a beira do campo e parei para disparar de volta. Após alguns tiros, percebi que estava fazendo de mim mesmo um alvo. Até onde pude ver, havia apenas mais uma pessoa que ainda corria em direção à redoma.

Um foguete passou por mim tão perto que quase pude tocá-lo. Flexionei meus joelhos e tomei impulso, caindo na redoma em uma posição nada dignificante.