Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 24 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 20

20

 

Na metade do caminho para a sala de reunião, dei-me conta do meu aspecto deplorável. Então entrei rapidamente no banheiro que ficava próximo ao saguão dos oficiais. A cabo Kamehameha escovava os cabelos apressada.

– William! O que aconteceu com você?

– Nada. – Abri uma das torneiras e olhei-me no espelho. Sangue seco em todo o meu semblante e na minha túnica. – Foi a Marygay, cabo Potter, o traje dela… bem, evidentemente formou uma prega, ahn…

– Morreu?

– Não, mas está mal… Será operada…

– Não use água quente. Fica mais difícil tirar a mancha.

– Ah, certo. – Usei água quente para lavar meu rosto e minhas mãos, esfreguei a túnica com água fria. – Seu esquadrão estava apenas duas alas abaixo de Al, não é?

– Sim.

– Você viu o que aconteceu?

– Não. Bem, sim, mas não quando aconteceu.

Pela primeira vez notei que ela estava chorando; grandes lágrimas rolavam pelo seu rosto, chegando até o queixo. Sua voz estava uniforme, controlada. Ela então puxou os cabelos com raiva:

– Que caos!

Aproximei-me e pus a mão em seu ombro.

– Não me toque! – Ela se irritou e afastou minha mão com a escova. – Desculpe-me! Vamos.

Na porta do banheiro, tocou-me suavemente no braço.

– William… – Encarou-me com ar desafiador. – Estou feliz de não ter sido eu. Você entende? É a única forma de encarar tudo isto.

Eu entendi, mas não sabia se acreditava nela.

• • •

– Posso resumir tudo bem rápido – disse o comodoro com voz firme –, porque sabemos bem pouco. Uns dez segundos depois de termos destruído a embarcação inimiga, dois objetos bem pequenos atingiram a Aniversário a meia-nau. Por inferência, já que não foram detectados e conhecemos os limites de nossos aparelhos de detecção, sabemos que se moviam acima de 0,9 da velocidade da luz. Quer dizer, mais precisamente, que seu vetor de velocidade normal em relação ao eixo da Aniversário superava os 0,9 da velocidade da luz. Eles se esgueiraram por trás dos campos de repulsão.

Quando a Aniversário se move a velocidades relativísticas, é projetada para gerar dois poderosos campos eletromagnéticos, um cujo centro fica a cerca de 5 mil quilômetros da nave e outro a 10 mil quilômetros de distância, ambos alinhados com a direção da movimentação da nave. Estes campos são mantidos por um efeito de “ramjet”, energia colhida de gases interestelares à medida que nos deslocamos pelo espaço.

Qualquer coisa grande o suficiente para nos preocupar, no caso de um impacto (isto é, qualquer coisa grande o bastante para ser vista com uma poderosa lente de aumento), passa pelo primeiro campo e sai com uma carga negativa poderosa que envolve toda a sua superfície. Ao entrar no segundo campo, o objeto é repelido do caminho da nave. Se for grande demais para ser removido dessa forma, podemos percebê-lo a uma distância grande o suficiente para sair da rota de colisão.

– Não preciso enfatizar quão formidável é esta arma. Quando a Aniversário foi atingida, nossa velocidade em relação ao inimigo era tal que percorríamos nosso próprio comprimento a cada dez milésimos de segundo. Além do mais, seguíamos de maneira irregular, com uma aceleração lateral puramente aleatória e que mudava constantemente. Assim, os objetos que nos atingiram devem ter sido guiados, não foram mirados. E o sistema de direção era independente, já que não havia taurianos vivos no momento do choque. Tudo isso em um invólucro não maior que um pequeno seixo. A maioria de vocês ainda é muito jovem para se lembrar do termo choque do futuro. Nos anos 1970, alguns achavam que o progresso tecnológico estava ocorrendo tão rapidamente que o povo, as pessoas normais, não conseguiria acompanhá-lo, que não teria tempo para se acostumar com o presente antes que o futuro o alcançasse. Um homem chamado Toffler criou o termo choque do futuro para descrever essa situação.

O comodoro às vezes era bem acadêmico.

– Nós nos encontramos em uma situação física que lembra esse conceito. O resultado foi o desastre, a tragédia. E, conforme discutimos em nossa última reunião, não há como reagir. A relatividade nos pôs em uma armadilha, que é o passado do inimigo; a relatividade o traz do nosso futuro. Podemos apenas rezar para que, da próxima vez, a situação possa ser revertida. E tudo o que podemos fazer para que isso ocorra é tentar voltar ao Portal Estelar, depois à Terra, onde os especialistas talvez consigam deduzir algo, criar algum tipo de arma de defesa contra o dano que sofremos. Agora, poderíamos atacar o Planeta Portal dos taurianos a partir do espaço e, quem sabe, destruir a base sem usar vocês da infantaria. Porém, penso que haveria um imenso risco envolvido nisso. Poderíamos ser… atingidos pelo que quer que tenha nos atingido hoje e nunca retornar ao Portal Estelar com informações que considero vitais. Poderíamos enviar uma sonda teleguiada com uma mensagem na qual seriam detalhadas nossas impressões acerca dessa nova arma do inimigo… mas talvez não seja adequado. E a Força ficaria muito atrás, tecnologicamente falando. Com efeito, estabelecemos um curso que nos levará para perto de Yod-4, mantendo o colapsar o máximo possível entre nós e a base tauriana. Evitaremos contato com o inimigo e retornaremos ao Portal Estelar o quanto antes.

Inacreditavelmente, o comodoro sentou-se e massageou as têmporas com os dedos.

– Todos vocês são, no mínimo, líderes de esquadrão ou seção. A maioria possui bons históricos de combate. E espero que alguns retornem à Força após seus dois anos terem findado. Aqueles que o fizerem, provavelmente serão promovidos a tenentes e encararão seu primeiro e verdadeiro comando. É para esses indivíduos que eu gostaria de falar por alguns minutos, não como seu… como um de seus comandantes, mas apenas como um oficial mais antigo e conselheiro. Não se pode tomar decisões de comando simplesmente avaliando a situação tática e implementando um tipo de ação que prejudique ao máximo o inimigo e resulte no mínimo de mortes e danos a seus próprios homens e ao seu aparato. As guerras modernas tornaram-se extremamente complexas, sobretudo no último século. Guerras não são vencidas com simples séries de batalhas ganhas, mas com uma inter-relação complexa entre vitória militar, pressões econômicas, manobras logísticas, acesso a informações inimigas, posturas políticas… dezenas, literalmente dezenas de fatores.

Eu ouvia aquilo, porém a única coisa que passava pela minha cabeça era que um terço de nossos amigos havia perdido a vida menos de uma hora atrás, e ele estava ali nos dando uma palestra sobre teoria militar.

– Então, algumas vezes, é necessário desistir de uma batalha para aumentar as chances de vencer a guerra. E isto é exatamente o que vamos fazer. Esta não foi uma decisão fácil. De fato, deve ter sido a decisão mais difícil em toda a minha carreira militar, porque, ao menos à primeira vista, pode parecer covardia. O computador de logística calcula que temos cerca de 62% de chances de sucesso caso tentemos destruir a base inimiga. Infelizmente, teríamos apenas 30% de chances de sobrevivência, já que alcançar tal sucesso envolve chocarmo-nos contra o Planeta Portal com a Aniversário à velocidade da luz.

– Santo Deus!

– Espero que nenhum de vocês jamais tenha de encarar tal decisão. Quando voltarmos para o Portal Estelar, serei, sem sombra de dúvida, submetido à corte marcial por covardia diante de ameaça inimiga. Contudo, acredito sinceramente que a informação que pode ser obtida por intermédio da análise do dano à Aniversário é mais importante do que a destruição desta única base tauriana – endireitou-se em sua cadeira – e mais importante que a carreira de um soldado.

Tive de conter meu impulso para não rir. Certamente, “covardia” nada tinha a ver com sua decisão. Certamente, o que havia nele era apenas o tão primitivo e antimilitar desejo de viver.

• • •

O pessoal da manutenção conseguiu remendar o enorme estrago na lateral da Aniversário e repressurizar aquela seção. Passamos o resto do dia limpando a área sem, é claro, modificar qualquer uma das preciosas evidências pelas quais o comodoro estava disposto a sacrificar sua carreira.

A pior parte era ter de se livrar dos corpos. Não era tão ruim, com exceção daqueles que tiveram os trajes rompidos.

• • •

Fui à cabine da Estelle no dia seguinte, assim que soube que ela estava de folga.

– Não seria de nenhuma serventia você ir vê-la agora. – Estelle tomou um gole de sua bebida, uma mistura de álcool etílico, ácido cítrico e água com uma gota de algum éster que lembrava aroma de casca de laranja.

– Ela está fora de perigo?

– Não por algumas semanas. Deixe-me explicar. – Ela largou o copo e apoiou o queixo nos dedos entrelaçados. – Este tipo de ferimento seria bem rotineiro sob circunstâncias normais. Após a transfusão de sangue, simplesmente espargiriamos um pouco do pó mágico em sua cavidade abdominal e a costuraríamos de volta. Em poucos dias, ela voltaria a mancar por aí. No entanto, existem complicações. Ninguém nunca foi ferido em um traje de pressão. Até então, nada muito incomum havia acontecido. Mas queremos monitorar suas vísceras atentamente por alguns dias. E também ficamos bastante preocupados com o risco de peritonite. Você sabe o que é peritonite?

– Sim. Bem, vagamente.

– Pois uma parte dos intestinos dela rompeu-se com a pressão. Não queríamos realizar uma profilaxia regular porque boa parte da… contaminação deu-se no peritônio sob pressão. Para agir de forma segura, esterilizamos completamente a cavidade abdominal e todo o sistema digestivo, do duodeno para baixo. Então, obviamente, tivemos que substituir toda a flora intestinal, agora morta, por uma cultura preparada. Ainda assim, é um procedimento padrão, embora não seja normalmente utilizado, exceto em casos mais graves.

– Entendo. – Aquilo estava me dando náuseas. Os médicos em geral parecem não perceber que a maioria de nós fica plenamente satisfeita por não se ver como sacos de pele animados cheios de gororoba.

– Isto em si já é motivo suficiente para você não vê-la por alguns dias. A troca da flora intestinal tem um efeito bem agressivo sobre o aparelho digestivo; não é algo perigoso, já que ela se encontra sob observação constante, mas cansativo e, bem, constrangedor. Dito isto, ela estaria completamente fora de perigo se não fosse a situação clínica atípica. Mas estamos desacelerando a uma velocidade constante de 1,5 gravidade, e seus órgãos internos têm sofrido com essas variações. Você deve saber que se houver aceleração, qualquer coisa acima de 2 gravidades, ela morrerá.

– Mas… mas fatalmente vamos acelerar a mais de 2 gravidades na aproximação final! O que…

– Eu sei, eu sei. Porém, isso só ocorrerá dentro de algumas semanas. Esperamos que ela tenha se recuperado até lá. William, você tem de encarar os fatos. Foi um milagre ela ter sobrevivido e sido operada. Portanto, há uma grande chance de que ela não retorne à Terra. É triste. Marygay é uma pessoa especial, a pessoa especial para você, talvez. Mas já tivemos tantas mortes… Você precisa se acostumar, aprender a lidar com isso.

Tomei um longo trago da minha bebida, idêntica à dela exceto pelo ácido cítrico.

– Você está ficando muito dura.

– Talvez… não. Apenas realista. Pressinto que teremos de enfrentar muito mais mortes e sofrimento.

– Eu não. Assim que chegarmos ao Portal Estelar, sou um civil.

– Não tenha tanta certeza. – O velho argumento familiar. – Aqueles palhaços que nos alistaram por dois anos podem simplesmente transformá-los em quatro anos ou…

– Ou seis ou vinte ou o quanto durar. Mas não vão. Haveria um motim.

– Não sei. Se conseguiram nos condicionar a matar sob sugestão, podem nos condicionar a fazer praticamente qualquer coisa. Realistar-nos.

Isso me dava calafrios.

Mais tarde tentamos fazer amor, mas ambos tínhamos muito em que pensar.

• • •

Pude visitar Marygay pela primeira vez cerca de uma semana mais tarde. Ela estava pálida, havia emagrecido bastante e parecia bem confusa. O dr. Wilson assegurou-me que era apenas efeito da medicação, que não constataram nenhum sinal de dano cerebral.

Ela ainda estava de cama, sendo alimentada por um tubo. Comecei a ficar muito nervoso com o calendário. Ela parecia melhorar dia após dia, mas, se ainda estivesse acamada quando sofrêssemos o impulso colapsar, não teria nenhuma chance. Nem o dr. Wilson nem Estelle me encorajavam. Eles diziam que tudo dependeria da resistência de Marygay.

No dia anterior ao impulso, eles a transferiram da cama para a poltrona de aceleração de Estelle, na enfermaria. Ela estava lúcida e se alimentando pela boca; contudo, ainda não conseguia se mover pelas próprias forças, não a 1,5 gravidade. Fui vê-la.

– Ouviu falar da mudança de curso? Teremos que passar por Aleph-9 para voltarmos a Tet-38. Mais quatro meses neste maldito casco. Mas teremos mais seis anos de pagamento por combate quando voltarmos à Terra.

– Que bom.

– Ah, pense nas coisas fantásticas que poderemos…

– William.

Minha voz falhou. Nunca consegui mentir.

– Não tente me alegrar. Conte-me a respeito de soldagem no vácuo, sobre sua infância, qualquer coisa. Apenas não me diga babaquices sobre nosso retorno à Terra – disse ela, virando o rosto para a parede. – Ouvi os médicos conversando no corredor numa manhã em que pensaram que eu estivesse dormindo. Eles apenas confirmaram o que eu já sabia pelo jeito tristonho de todo mundo. Então me conte, você nasceu no Novo México em 1975. E depois? Continuou no Novo México? Era inteligente na escola? Tinha amigos ou era inteligente demais, como eu? Quantos anos tinha quando transou pela primeira vez?

Falamos sobre essas trivialidades por um tempo, com certo desconforto. Uma ideia me ocorreu enquanto conversávamos e, quando deixei Marygay, fui direto falar com o dr. Wilson.

• • •

– Ela tem 50% de chances de sobreviver, mas é bem arbitrário. Nenhum dado publicado sobre casos desse tipo encaixa-se na atual circunstância.

– Mas é seguro dizer que suas chances de sobrevivência são maiores quanto menor for a aceleração a que ela for exposta.

– Certamente. Mas de nada adianta saber. O comodoro disse que procurará ir da maneira mais suave possível, mas ainda assim atingiremos 4 ou 5 gravidades. Três já podem ser demais. Só vamos saber quando acontecer.

Acenei impacientemente com a cabeça.

– Sim, no entanto, acho que existe uma maneira de expô-la menos à aceleração.

– Se você desenvolveu um escudo contra aceleração – ele disse sorrindo –, é melhor se apressar e patentear. Poderia vendê-lo por consideráveis…

– Não, doutor, não seria de muita valia sob circunstâncias normais. Nossas cápsulas funcionam melhor e evoluíram a partir dos mesmos princípios.

– Explique melhor.

– Colocamos Marygay dentro de uma cápsula e a inundamos…

– Espere aí… não, de jeito nenhum. Pra começo de conversa, foi uma cápsula mal ajustada que provocou tudo isso. E, desta vez, ela teria de usar a de outra pessoa.

– Eu sei, doutor. Deixe-me explicar melhor. Não é preciso uma que se ajuste perfeitamente a ela, desde que as conexões do suporte vital possam funcionar. A cápsula não será pressurizada internamente, pois não será sujeita à pressão de milhares de quilos por centímetro quadrado do fluido externo.

– Não sei se estou entendendo direito.

– É apenas uma adaptação de… você estudou física, não?

– Um pouco, na faculdade de medicina. A pior matéria para mim, depois do latim.

– Você se lembra do princípio da equivalência?

– Eu me lembro de algo com esse nome. Algo a ver com relatividade, certo?

– Sim. Significa que… não há diferença entre estar em um campo gravitacional ou em uma estrutura de aceleração equivalente… Ou seja, quando a Aniversário atingir as cinco gravidades, o efeito sobre nós será o mesmo que se estivéssemos sentados em um grande planeta com 5 gravidades na superfície.

– Parece óbvio.

– Talvez seja. Significa que não seria possível fazer experimento algum na nave que indicasse se estava em movimento ou apenas pousada em um grande planeta.

– Claro que haveria. Os motores poderiam ser desligados, e se…

– Ou bastaria olhar para fora, claro. Mas me refiro a experimentos de laboratório, isolados.

– Claro. De acordo. E daí?

– Você conhece a lei de Arquimedes?

– Claro, a falsa coroa. É isso que sempre me chamou a atenção na física: faz-se grande alarde com coisas óbvias, mas quando se chega a partes mais complicadas…

– A lei de Arquimedes diz que, quando algo é imerso em um fluido, é forçado a flutuar por uma força equivalente ao peso do fluido deslocado.

– Perfeitamente.

– Isso é válido independentemente do tipo de gravidade ou aceleração. Em uma nave que acelera a 5 gravidades, a água deslocada pesa cinco vezes mais que a água normal a 1 gravidade.

– Concordo.

– Então, se alguém flutuar no meio de um tanque com água de modo que seu peso seja nulo, essa pessoa não terá peso quando a nave estiver a 5 gravidades.

– Espere um pouco, filho. Até aí entendi, mas não vai funcionar.

– Por que não? – Eu estava tentado a lhe dizer que cuidasse de pílulas e estetoscópios e deixasse que da física cuidava eu, mas foi bom eu não ter feito isso.

– O que acontece quando se joga uma chave inglesa dentro de um submarino?

– Submarino?

– Exato. Segue a lei de Arquim…

– Opa! Você está certo! Nossa! Não pensei nisso!

– A chave inglesa cai direto no chão, como se o submarino tivesse peso. – Ele olhou para o nada, batendo com um lápis na mesa. – O que você acaba de descrever é similar à maneira como tratamos, na Terra, pacientes com severos danos na pele, como queimaduras. Mas isso não dá nenhum suporte aos órgãos internos, da forma como as cápsulas de aceleração o fazem, então não funcionaria muito para Marygay…

Levantei-me para ir embora:

– Desculpe por ter desperdiçado…

– Espere um pouco… só um minuto. Podemos utilizar parte de sua ideia.

– Como assim?

– Eu também não estava conseguindo sacar. A forma como normalmente utilizamos as cápsulas está fora de questão para Marygay, é claro. – Eu não gostava de pensar a respeito. É preciso muito condicionamento hipnótico para se deitar lá e ter fluorcarbono oxigenado entrando por todos os orifícios naturais do corpo e também por um artificial. Rocei o dedo na válvula inserida acima do osso do meu quadril.

– Sim, é óbvio, isso a partiria… digo… quer dizer, sob baixa pressão…

– Isso mesmo! Não precisaríamos de milhares de atmosferas para protegê-la da aceleração linear de 5 gravidades, seria apenas para manobras e desvios… Vou contatar a manutenção. Dirija-se à ala do seu esquadrão, nós a usaremos. Dalton irá se encontrar com você lá.

• • •

Cinco minutos antes de entrar no campo colapsar, dei início à sequência de inundação. Marygay e eu éramos os únicos nas cápsulas. Minha presença na verdade não era essencial, já que a inundação e o esvaziamento poderiam ser feitos pelo Controle. No entanto, seria mais seguro ter redundância no sistema e, além do mais, eu queria estar ali.

Não foi tão ruim quanto de costume. Nada daquela sensação de compressão e inchaço. De repente, simplesmente nos sentimos inundados por aquela coisa com cheiro de plástico (não era perceptível nos primeiros instantes, quando substituía o ar dos pulmões) e, em seguida, houve uma pequena aceleração; aí voltamos a respirar ar novamente, aguardando que a cápsula fosse aberta. Então, foi só desplugar-se, despir-se e sair dali…

A cápsula de Marygay estava vazia. Fui até lá e vi sangue.

– Ela sofreu hemorragia. – A voz do dr. Wilson soou sepulcral. Virei-me com os olhos ardendo e o vi apoiado na porta que dava para o vestiário. Era inexplicável, horrível: ele estava sorrindo! – Isso era esperado. A dra. Harmony está cuidando de tudo. Ela ficará bem.