Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 33 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 29

29

 

 

Eles pareciam bastante normais ao entrarem no salão de palestras onde ocorreu nosso primeiro encontro no dia seguinte. Bem jovens e meio tensos.

A maioria tinha deixado as creches havia apenas sete ou oito anos. A creche era um ambiente controlado e isolado ao qual apenas alguns especialistas – pediatras e professores, em sua maioria – tinham acesso. Quando uma pessoa deixa uma creche com a idade de 12 ou 13 anos, ela escolhe seu primeiro nome (o sobrenome é o mesmo do progenitor-doador com melhor avaliação genética) e se torna um adulto probatório, com estudos equivalentes aos que eu tinha depois do primeiro ano de faculdade. A maioria é encaminhada para uma educação especializada, mas algumas delas são designadas para algum tipo de emprego e vão direto para o trabalho.

Elas são observadas atentamente, e qualquer uma que demonstre algum sinal de sociopatia, tal como inclinação heterossexual, é encaminhada para uma instituição Correcional. A pessoa é curada ou mantida lá pelo resto da vida.

Todos são recrutados para a FENU quando completam 20 anos. A maioria trabalha internamente por cinco anos, depois é dispensada. Algumas almas sortudas, cerca de 1 em 8 mil, são convidadas a se apresentar voluntariamente para o treinamento de combate. Recusar é sinal de “sociopatia”, mesmo que signifique se inscrever para mais cinco anos. E as chances de sobreviver a esses dez anos são insignificantes; ninguém conseguiu. Sua melhor chance é se a guerra terminar antes do fim dos seus dez anos (subjetivos) de serviço. E torça para que a dilatação temporal introduza muitos anos entre uma batalha e outra.

Já que o mais provável era entrar em batalha mais ou menos uma vez a cada ano subjetivo, e como uma média de 34% sobrevive a cada batalha, é fácil calcular as chances de conseguir lutar por dez anos. Dá uma média de 2 milésimos de 1%. Ou, em outros termos, pegue um revólver antigo de seis balas e jogue roleta russa com quatro dos seis tambores carregados. Se conseguir fazer isso dez vezes direto sem decorar a parede oposta, parabéns! Você é novamente um civil!

Como havia uns 60 mil soldados combatentes na FENU, era de se esperar que cerca de 1,2 deles sobrevivesse aos dez anos. Eu, sinceramente, não planejava ser um desses sortudos, mesmo sabendo que já estava com meio caminho andado.

Quantos desses jovens soldados que adentravam o auditório sabiam que estavam destinados a morrer? Tentei associar os rostos com os dossiês que viera olhando por toda a manhã, mas era difícil. Todos haviam sido selecionados pela mesma bateria de parâmetros estritos e eram, impressionantemente, parecidos: altos, mas não tanto; musculosos, mas não pesados; inteligentes, mas não meditativos… e a Terra era muito mais homogênea racialmente do que fora em meu século. A maioria parecia ligeiramente polinésia. Apenas dois, Kayibanda e Lin, pareciam representantes puros de tipos raciais. Fiquei imaginando se os outros haviam encrencado com eles.

A maior parte das mulheres era extremamente bela, mas eu não estava em condição de julgar. Eu estava celibatário havia mais de um ano, desde que dissera adeus a Marygay em Paraíso.

Fiquei me perguntando se alguma delas tinha um traço atávico ou se poderia atender às excentricidades do comandante. É totalmente proibido a um oficial manter ligações sexuais com seus subordinados. Que forma agradável de dizer! A violação desta norma é punida com o embargo de todos os fundos e rebaixamento à posição de soldado ou, se a relação interferir na eficiência combativa da unidade, execução sumária. Se todos os regulamentos da FENU pudessem ser violados de modo tão casual e consistente quanto este, seria um exército muito condescendente.

Mas nenhum dos rapazes me atraía. Não sei bem o que acharia após um ano. Eu não tinha certeza.

– Sen-tido!

Era a tenente Hilleboe. Meus novos reflexos mereciam o crédito por eu não ter dado um salto. Todos no auditório o fizeram.

– Meu nome é tenente Hilleboe e sou a segunda-oficial de campo. – Costumava ser “primeiro-sargento de campo”. Um bom sinal de que um exército já existe há muito tempo é quando ele começa a ficar abarrotado de oficiais.

Hilleboe veio até mim como um soldado profissional bem durão. Provavelmente gritava ordens diante do espelho todas as manhãs, enquanto se “barbeava”. Porém, eu havia consultado seu perfil e sabia que ela havia estado em ação apenas uma vez e por alguns minutos. Perdera um braço e uma perna e fora promovida, assim como eu, com base no resultado de testes aplicados na clínica de regeneração.

Que diabos, talvez ela fosse uma pessoa muito agradável antes de passar por tal trauma! Já era ruim o suficiente ter um único membro recriado.

Ela estava fazendo o costumeiro discurso de encorajamento do primeiro-sargento, severo, mas justo: não desperdice meu tempo com coisas irrelevantes, respeite a cadeia de comando, a maioria dos problemas pode ser resolvida no 5º escalão.

Desejei ter tido mais tempo para conversar com ela antes. O Comando da Força de Ataque realmente nos apressara para esse primeiro encontro (agendaram nosso embarque para o dia seguinte) e troquei apenas algumas poucas palavras com meus oficiais.

Não foi o suficiente, pois estava ficando claro que Hilleboe e eu tínhamos ideias bem discrepantes sobre como reger uma companhia. Era verdade que reger competia a ela, eu apenas comandava. Mas ela criava uma potencial situação do tipo “mocinho e bandido” ao usar a cadeia de comando para se isolar dos homens e das mulheres abaixo dela. Minha ideia era não me manter distante, reservando uma hora todo dia para que qualquer soldado pudesse vir até mim diretamente com reclamações e sugestões, sem necessitar da permissão de seus superiores.

Nós dois havíamos recebido as mesmas informações durante as três semanas no tanque. Era interessante como havíamos chegado a conclusões tão distintas sobre liderança. Essa política de Portas Abertas, por exemplo, teve bons resultados em exércitos “modernos” da Austrália e da América. E parecia-me especialmente apropriada à nossa situação, em que todos seriam engaiolados por meses, ou mesmo anos. Usáramos esse sistema na Sangre y Victoria, a última nave espacial em que estive, e parecia que as tensões haviam sido aliviadas.

Hilleboe os manteve em posição de descanso enquanto dizia sua arenga organizacional. Logo, ela ordenaria que ficassem em posição de sentido e me apresentaria. Sobre o que eu falaria? Pensei em dizer apenas algumas palavras previsíveis e explicar minha política de Portas Abertas. Então, eu passaria a palavra à comodoro Antopol, que diria algo sobre a Masaryk II. Mas era melhor eu adiar minha explicação até depois que tivesse uma longa conversa com Hilleboe. Na verdade, seria melhor se fosse ela quem apresentasse a tal política àqueles homens e mulheres, assim não daria a impressão de que nós dois estávamos em desavença.

Meu subcomandante, o capitão Moore, salvou-me. Ele entrou às pressas por uma porta lateral – estava sempre correndo, um meteoro gorducho –, fez uma saudação rápida e me entregou um envelope que continha nossas ordens de combate. Tive uma pequena conversa em voz baixa com a comodoro e ela concordou que não faria mal nenhum dizer-lhes para onde estávamos indo, mesmo que soldados rasos, tecnicamente, não “precisassem saber”.

Uma coisa com que não precisávamos nos preocupar nesta guerra era com a possibilidade de agentes inimigos infiltrados. Com uma boa demão de pintura, um tauriano poderia se passar por um cogumelo ambulante. Com certeza, levantaria suspeitas.

Hilleboe ordenou que ficassem em posição de sentido e, obedientemente, foi dizendo como eu seria um bom comandante, que eu estava na guerra desde o início e que, se eles pretendiam sobreviver enquanto estivessem recrutados, era melhor seguirem meu exemplo. Ela não mencionou que eu era um soldado medíocre com talento para não ser pego, nem que pedi baixa do exército na primeira oportunidade e apenas voltei porque as condições na Terra eram insuportáveis.

– Obrigado, tenente. – Tomei seu lugar no palco. – Descansar. – Desdobrei a folha que continha nossas ordens e a ergui. – Tenho uma notícia boa e uma ruim. – O que costumava ser uma piada cinco séculos atrás, agora era simplesmente uma constatação. – Estas são nossas ordens de combate para a campanha de Sade-138. A boa notícia é que, provavelmente, não iremos lutar, ao menos não imediatamente. A má notícia é que seremos alvo.

Eles se exaltaram um pouco, mas ninguém disse uma só palavra nem tirou os olhos de mim. Boa disciplina ou talvez simples fatalidade: eu não sabia quão realista era a imagem que faziam do futuro. Da falta de futuro, quero dizer.

– Nossas ordens são… encontrar o maior planeta portal que orbita o colapsar de Sade-138 e construir uma base. Depois, ficaremos na base até sermos dispensados. Isso deve levar uns dois ou três anos. Durante esse tempo, quase certamente seremos atacados. Como a maioria de vocês deve saber, o Comando da Força de Ataque descobriu que o inimigo se movimenta de colapsar em colapsar segundo um padrão. Eles pretendem, eventualmente, rastrear esse padrão complexo no tempo e no espaço e localizar o planeta natal dos taurianos. Por ora, podem apenas mandar forças de interceptação para conter a expansão inimiga. Em poucas palavras, essas são nossas ordens. Seremos uma entre as várias dezenas de forças de ataque empregadas nessas manobras de bloqueio na fronteira inimiga. Impossível enfatizar com frequência e intensidade suficientes o quanto esta missão é importante… Se a FENU conseguir conter a expansão inimiga, talvez consigamos cercá-los e ganhar a guerra. Tomara que antes de estarmos todos mortos. Uma coisa quero deixar clara: podemos ser atacados já no dia em que pousarmos, ou, simplesmente, ocupar o planeta por dez anos e voltar para casa. – Sem chance… – O que quer que aconteça, cada um de nós tem de estar na sua melhor forma o tempo inteiro. Em trânsito, manteremos um programa regular de ginástica e faremos uma revisão de nosso treinamento. Especialmente de técnicas de construção. Temos de estabelecer a base e suas instalações de defesa no tempo mais curto possível.

Deus, eu estava começando a falar como um oficial.

– Alguma pergunta? – Não havia. – Então, quero lhes apresentar a comodoro Antopol. Comodoro?

A comodoro nem tentou disfarçar seu tédio enquanto falava das características e capacidades da Masaryk II para aquela sala cheia de recrutinhas. Aprendi a maior parte daquilo durante o intensivão no tanque, mas suas últimas palavras chamaram a minha atenção:

– Sade-138 será o colapsar mais distante a que o homem já foi. Nem sequer está na galáxia propriamente dita; pertence à Grande Nuvem de Magalhães, a uns 150 mil anos-luz de distância. Nossa jornada irá requerer quatro saltos colapsares e durará cerca de quatro meses. Manobrar para uma inserção colapsar nos fará recuar cerca de trezentos anos no calendário do Portal Estelar na data em que chegarmos a Sade-138.

E mais uns setecentos anos passariam, se eu vivesse para retornar. Não que isso fizesse alguma diferença. Era como se Marygay estivesse morta, e não havia outra pessoa viva que significasse algo para mim.

– Como o major disse, vocês não devem se deixar enganar por estes números. O inimigo também está se dirigindo para Sade-138. Talvez todos cheguemos lá no mesmo dia. A matemática da situação é complicada, porém, podem acreditar: será uma disputa acirrada.

– Major, mais alguma coisa?

Comecei a me levantar.

– Bem…

– Sen-tido! – Hilleboe gritou.

Eu tinha de me acostumar com aquilo.

– Apenas gostaria de pedir aos oficiais mais graduados, do escalão 4 para cima, que fossem à minha sala por alguns minutos. Os sargentos de pelotão estão incumbidos de levar suas tropas à plataforma 67 às 4h de amanhã. Até lá, aproveitem o tempo como quiserem. Dispensados.

• • •

Convidei os cinco oficiais para meu alojamento e abri uma garrafa de brandy francês legítimo. Custara-me dois meses de pagamento, mas o que mais eu podia fazer com o dinheiro? Investir?

Distribuí os copos, mas Alsever, a médica, recusou. Em vez da bebida, ela quebrou uma pequena cápsula sob o nariz e inalou profundamente. Depois tentou, sem muito sucesso, disfarçar a expressão de euforia.

– Primeiro, tratemos de um problema pessoal básico – falei, servindo-os. – Todos vocês sabem que não sou homossexual?

Um coro misto de “sim, senhor” e “não, senhor”.

– Vocês acham que isso… dificultará minha situação como comandante? Ao lidar com os soldados rasos?

– Senhor, eu não… – começou Moore.

– Não há necessidade de formalidades – falei –, não neste círculo fechado. Fui soldado quatro anos atrás, em meu próprio tempo. Quando não houver tropas por perto, sou apenas Mandella, ou William.

Tive a sensação de estar cometendo um erro ao dizer aquilo.

– Continue.

– Bem, William – ele prosseguiu –, isso deve ter sido um problema cem anos atrás. Você sabe como as pessoas pensavam naquele tempo.

– Na verdade, não sei. Tudo que sei do período entre o século 21 e o atual é relacionado à história militar.

– Ah… bom, era… era, como posso dizer? – Ele começou a mexer as mãos nervosamente.

– Era crime – Alsever disse laconicamente. – Foi quando o Conselho de Eugenia começou a fazer com que as pessoas se acostumassem à ideia de homossexualidade universal.

– Conselho de Eugenia?

– Parte da FENU que possui autoridade apenas na Terra. – Ela cheirou a cápsula vazia, aspirando profundamente. – A intenção era evitar que as pessoas fizessem bebês da maneira biológica. Primeiro, porque as pessoas mostravam uma lamentável falta de bom-senso ao escolher seus parceiros genéticos. Segundo, o Conselho viu que as diferenças raciais tinham um efeito divisor desnecessário na humanidade; com controle total sobre os nascimentos, foi possível tornar todos uma só raça em poucas gerações.

Eu não sabia que haviam chegado tão longe. Mas deduzi que fosse algo lógico.

– E você aprova? Como médica.

– Como médica? Não tenho certeza.

Ela pegou outra cápsula do bolso e rolou entre o polegar e o indicador, olhando para o nada, ou para algo que os outros não conseguiam ver.

– De certa maneira, torna meu trabalho mais fácil. Muitas doenças simplesmente não existem mais. Mas não acho que eles entendam tanto de genética quanto pensam. Não é uma ciência exata. Poderiam estar fazendo algo muito errado, e os resultados só apareceriam após alguns séculos.

Ela quebrou a cápsula sob o nariz e deu umas inspiradas profundas.

– Como mulher, no entanto, sou completamente a favor. – Hilleboe e Rusk concordaram com veemência.

– Por não ter de passar pelas dores do parto?

– Também por isso. – Ela revirou os olhos comicamente, olhando para a cápsula, dando uma última cheirada. – Mas, sobretudo, por não… ter de… ter um homem dentro de mim. Você entende. É nojento.

Moore riu.

– Se você tivesse experimentado, Diana…

– Ah, cale a boca! – Ela jogou a cápsula vazia nele, de forma brincalhona.

– Mas é perfeitamente natural – protestei.

– Pular de árvore em árvore também é, assim como cavar com uma vareta para encontrar raízes. Progresso, meu bom major, progresso.

– De qualquer forma – disse Moore –, foi crime apenas por um curto período. Depois, foi considerado, ahn, disfunção…

– Curável – completou Alsever.

– Obrigado. E agora, bem, é tão raro… Duvido que algum homem ou alguma mulher tenha grandes preocupações com isso.

– É apenas uma excentricidade – falou Diana, magnanimamente. – Não é como se você comesse bebês.

– Isso mesmo, Mandella – falou Hilleboe. – Não sinto nada de diferente em relação a você por causa disso.

– Eu… fico feliz.

Que ótimo. Eu estava me dando conta de que não tinha a menor ideia de como me conduzir socialmente. Muito do meu comportamento “normal” era baseado em um complexo código implícito de etiqueta social. Era para eu tratar homens como mulheres e vice-versa? Ou tratar todos como irmãos e irmãs? Era tudo muito confuso.

Terminei meu copo e o pousei sobre a mesa.

– Bem, obrigado por me tranquilizarem. Isso era basicamente o que eu gostaria de perguntar… Tenho certeza de que vocês todos têm coisas para fazer, despedidas e coisas do gênero. Não quero ficar prendendo vocês aqui.

Todos saíram, exceto Charlie Moore. Ele e eu decidimos tomar uma bebedeira monumental, passando por cada bar e cada clube de oficiais no setor. Conseguimos encarar doze e, provavelmente, teríamos entrado em todos eles, mas decidi tirar algumas horas de sono antes do dia seguinte.

Na única vez em que Charlie se insinuou para mim, foi muito educado. Torci para que minha recusa também tivesse sido educada… mas percebi que ainda teria de adquirir muita prática no assunto.