Guerra sem fim
Capítulo 6
6
Tivemos nossa primeira baixa no terceiro dia, quando estávamos aprendendo a cavar buracos.
Dada a enorme quantidade de energia armazenada nas armas de cada soldado, não seria muito prático fazer um buraco no chão congelado com ferramentas convencionais. Contudo, é possível lançar granadas o dia todo e obter nada mais que algumas pequenas depressões. Então, o método usual é abrir um buraco no chão com o laser de mão, enterrar uma bomba-relógio depois que esfriar um pouco e, quando possível, tapar o buraco com entulho. Mas claro que não há muita pedra solta em Caronte, a menos que alguém já tenha explodido um buraco nas proximidades.
A única dificuldade do procedimento é na hora de se afastar. Para nos protegermos, éramos orientados a nos colocar atrás de algo realmente sólido ou ficar a pelo menos 100 metros de distância. Demora uns três minutos para armar um explosivo, mas não dá para simplesmente sair correndo. Não a salvo, não em Caronte.
O acidente aconteceu quando estávamos cavando um buraco bem fundo, do tipo que se faz quando se quer um grande abrigo subterrâneo. Para isso, tínhamos de explodir um buraco, depois descer até o centro da cratera e repetir o processo várias vezes, até que o buraco estivesse fundo o suficiente. Dentro da cratera, usávamos explosivos com contagem regressiva de cinco minutos, mas o tempo não parecia ser suficiente – tínhamos de nos locomover com muita lentidão, escalando as paredes da cratera até alcançarmos a borda.
Quase todos já haviam explodido buracos duas vezes maiores. Todos, exceto eu e outros três. Imagino que só nós estávamos prestando mesmo atenção quando Bovanovitch teve problemas. Todos estávamos a uns 200 metros dali. Com meu conversor de imagens ligado a uma força de 40, eu a vi desaparecer pela borda da cratera. Depois disso, só consegui ouvir a conversa dela com Cortez.
– Estou no fundo, sargento.
A transmissão normal de rádio era suspensa em manobras como essa. Ninguém além do oficial em treinamento e seu superior, no caso Cortez, tinha permissão para se comunicar.
– Certo, vá até o centro e remova os pedregulhos. Não precisa ter pressa enquanto não puxar o pino.
– Pode deixar, sargento.
Podíamos ouvir pequenos ecos de rochas se chocando, sons produzidos por suas botas. Ela não falou uma palavra por vários minutos.
– Encontrei o fundo. – Ela parecia meio sem fôlego.
– Gelo ou rocha?
– Ai, é rocha, sargento. A coisa esverdeada.
– Faça um pequeno ajuste, então. Para 1,2, dispersão 4.
– Maldição! Sargento, vai demorar uma eternidade.
– Eu sei, mas essa coisa contém cristais hidratados dentro. Se aquecê-la muito rápido, acabará rachando. E vamos ter de deixá-la aí, mocinha, morta e ensanguentada.
– Está certo, 1,2, dispersão 4. – A borda interna da cratera estava piscando em vermelho devido à luz do laser refletido.
– Quando chegar a 0,5 metro de profundidade, aumente para dispersão 2.
– Entendido.
Demorou exatamente 17 minutos, 3 deles com dispersão 2. Dava para imaginar como o braço dela estava cansado de disparar.
– Agora descanse alguns minutos. Quando o fundo do buraco parar de brilhar, arme o explosivo e jogue-o aí dentro. Em seguida, saia andando, entendido? Você terá bastante tempo.
– Entendido, sargento. Sair andando.
Bovanovitch parecia nervosa. Bem, não é sempre que você tem de se afastar na ponta dos pés de uma bomba de táquions de 20 microtoneladas. Ouvimos sua respiração por alguns minutos.
– Lá vai.
Um som vago de algo escorregando: a bomba deslizando para baixo.
– Devagar e com calma agora. Você ainda tem cinco minutos.
– Si-sim. Cinco.
Seus passos começaram lentos e regulares. Então, após iniciar a escalada pela parede, os sons tornaram-se menos regulares, talvez um pouco frenéticos. E ainda com quatro minutos pela frente…
– Merda! – Um barulho alto de algo raspando, depois caindo com estrondo e se chocando – Merda! Merda!
– O que há de errado, soldado?
– Ai, merda. – Silêncio. – Merda!
– Soldado, se não quer tomar um tiro, diga-me o que está acontecendo!
– Eu… merda, estou presa. Merda de deslizamento… merda… FAÇA ALGUMA COISA! Não consigo me mexer, merda, não consigo, eu…
– Cala a boca! Qual a profundidade?
– Não consigo me mexer, merda, a porra das minhas pernas. ME AJUDA !
– Porcaria! Use os braços! Força! Você consegue mover 1 tonelada com cada mão! – Três minutos.
Ela parou de xingar e começou a resmungar, em russo, acho, falando bem baixo, ofegante. Era possível ouvir o som de rochas deslizando.
– Estou livre. – Dois minutos.
– Saia daí o mais rápido que puder. – A voz de Cortez estava branda, sem emoções.
Em noventa segundos ela apareceu, rastejando pela borda.
– Corra, menina… Corra.
Bovanovitch correu cinco ou seis passos e caiu, derrapou alguns metros e se levantou, correndo. Caiu de novo, levantou-se de novo…
Parecia que ela estava indo bem rápido, mas tinha percorrido apenas uns 30 metros quando Cortez disse:
– Tudo bem, Bovanovitch, abaixe-se no chão e fique quieta.
Dez segundos, mas ela não ouviu ou não quis ouvir, só para ganhar mais distância. Continuou correndo, largos passos atrapalhados, e no meio de um grande salto viu-se um clarão acompanhado de um estrondo. Algo grande a atingiu abaixo do pescoço, e seu corpo sem cabeça saiu girando pelo espaço, deixando para trás uma espiral rubro-negra de sangue congelado e brilhante que se assentou suavemente no chão, um caminho de pó de cristal que nenhum de nós perturbou enquanto arranjávamos algumas rochas para cobrir a coisa sem líquido em sua extremidade.
Naquela noite, Cortez não nos deu lição de moral. Nem mesmo apareceu para o jantar. Fomos todos muito educados uns com os outros, e ninguém teve receio de tocar no assunto.
Fui dormir com Rogers (todo mundo foi dormir com um bom amigo), mas tudo que ela queria era chorar… E chorou por tanto tempo e tão intensamente que me fez chorar também.