Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 35 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 31

31

 

 

Permanecemos a 1 gravidade por três semanas, com períodos ocasionais de queda livre para checar o curso de navegação, enquanto a Masaryk II fazia um longo e estreito giro partindo do colapsar Resh-10 e retornando. Aquele período foi tranquilo, as pessoas estavam se adaptando bem à rotina da nave. Ocupei-as bem pouco com atividades improdutivas, revisamos o treinamento ao máximo e fizemos muitos exercícios. Tudo para o próprio bem deles, mas eu não era tão inocente a ponto de achar que veriam dessa forma.

Após aproximadamente uma semana a 1 gravidade, o soldado Rudkoski (cozinheiro assistente) encontrou uma maneira de produzir cerca de 8 litros diários de uma bebida com 95% de álcool etílico. Eu não quis interrompê-lo… A vida já era sem graça o bastante; eu não me importava, contanto que as pessoas se apresentassem para o trabalho sóbrias… Mas eu estava muito curioso para saber como ele conseguia desviar matéria-prima da nossa ecologia hermética e como as pessoas pagavam pela dose. Então usei a hierarquia de comando ao contrário e pedi a Alsever para descobrir. Ela perguntou a Jarvil, que perguntou a Carreras, que foi conversar com Orban, o cozinheiro. Descobriu-se que o sargento Orban havia armado tudo, deixando o trabalho sujo para Rudkoski, porém, estava doido para vangloriar-se daquilo com alguém de confiança.

Se eu tivesse feito alguma refeição com os recrutas, teria descoberto que havia algo estranho. Mas o esquema não se estendeu para o “país” dos oficiais.

Por intermédio de Rudkoski, Orban improvisara uma economia dentro da nave baseada em álcool. Funcionava da seguinte maneira:

Cada refeição era acompanhada por uma sobremesa bem açucarada (gelatina, creme de ovos ou pudim) que, quem aguentasse o sabor enjoativo, comia. Mas, se a sobremesa ainda estivesse na bandeja quando você a entregasse na reciclagem, Rudkoski lhe dava um bilhete de dez centavos e raspava a coisa açucarada para dentro do tonel de fermentação. Ele tinha dois tonéis de 20 litros, um “em funcionamento” e o outro sendo preenchido.

Os dez centavos eram a base de um sistema que permitia a qualquer um comprar meio litro de álcool etílico puro (com o sabor de sua preferência) por cinco dólares. Se cinco pessoas deixassem de comer sobremesa, podiam comprar cerca de 1 litro por semana, o suficiente para uma festa, mas não para constituir um problema de saúde pública.

Quando Diana me passou essa informação, trouxe também uma garrafa do Pior de Rudkoski… literalmente. Tinha um sabor simplesmente muito esquisito. Circulou por toda a cadeia de comando, que bebeu apenas uma pequena quantidade.

O sabor era uma desagradável combinação de morango e sementes de cominho. Com uma perversidade não incomum às pessoas que raramente bebem, Diana adorou. Pedi que trouxessem gelo e, em uma hora, ela estava completamente bêbada. Preparei um drinque para mim e não consegui terminar.

Quando Diana estava a mais de meio caminho em sua “viagem”, em um tranquilizador solilóquio com o fígado, ela de repente levantou a cabeça e me olhou como uma criança o faria.

– Você tem um grande problema, major William.

– Nem metade do problema que você terá pela manhã, tenente dra. Diana.

– Ah, mais ou menos. – Ela acenou com a mão bêbada na frente do rosto. – Algumas vitaminas, um pouco de gli…cose, uma do…se de adrena…lina, se tudo o mais… falhar. Você… você… tem… um problemão.

– Olhe, Diana, você não quer que eu…

– O que você precisa… é agendar um horário com aquele agradável cabo Valdez. – Valdez era o conselheiro do sexo masculino. – Ele é simpático. É seu trabalho. Ele vai te…

– Já falamos sobre isso, lembra? Quero continuar como sou.

– Como todos. – Ela enxugou uma lágrima que provavelmente tinha 1% de álcool. – Sabia que te chamam de Velho M… Mandão? Não, não é isso.

Ela olhou para o chão, depois para a parede.

– Velho Maricão, é disso que eles te chamam.

Eu esperava nomes piores que esse, mas não tão cedo.

– Não me importo. O comandante sempre recebe apelidos.

– Eu sei, mas… – Ela se levantou repentinamente e cambaleou um pouco. – Bebi demais. Vou me deitar. – Virou-se de costas para mim e espreguiçou com tanta força que chegou a estalar uma articulação. Então a ouvi abrindo um fecho. Ela fez um movimento com os ombros para tirar a túnica, saiu de dentro dela e veio na ponta dos pés até a minha cama. Sentou-se e deu um tapinha no colchão.

– Venha, William. Chance única.

– Por Deus, Diana. Não seria justo.

– Tudo é justo. – Ela deu uma risadinha. – E, além do mais, sou médica. Sou capaz de uma abordagem clínica, não me incomodará nem um pouco. Ajude-me com isso.

Após quinhentos anos, os fechos do sutiã ainda ficavam nas costas.

Um tipo de cavalheiro a ajudaria a se despir e, então, sairia silenciosamente. Outro tipo de cavalheiro talvez disparasse porta afora. Como eu não era de nenhum dos dois tipos, parti para o ataque.

Talvez felizmente, ela desmaiou antes que avançássemos. Admirei a visão e o toque da pele dela por um longo período antes de, sentindo-me um canalha, pegar suas roupas e vesti-la novamente.

Levantei-a da cama – uma carga deliciosa – e então me dei conta de que, se alguém me visse carregando-a até seu alojamento, ela seria alvo de comentários pelo resto da campanha. Entrei em contato com Charlie, disse a ele que havíamos tomado umas e outras e que Diana era péssima para aquilo, perguntei se ele poderia vir para um drinque e para me ajudar a rebocar a boa doutora.

Quando Charlie bateu à porta, ela estava acomodada a uma cadeira inocentemente, roncando com suavidade. Ele sorriu.

– Médica, cura-te a ti mesma.

Ofereci a ele a garrafa, avisando de antemão. Ele deu uma cheirada e fez uma careta.

– O que é isto? Verniz?

– Algo que os cozinheiros inventaram. Destilado a vácuo. – Ele pousou a garrafa cuidadosamente, como se fosse explodir se chacoalhasse.

– Posso prever uma futura diminuição da freguesia. Epidemia de morte por envenenamento… Ela realmente bebeu esta coisa horrível?

– Bem, os cozinheiros admitiram que é um experimento que não deu certo. Os outros sabores são evidentemente suportáveis… Sim, ela amou.

– Bom… – Ele riu. – Caramba! O que vamos fazer? Você pega nas pernas e eu nos braços?

– Não, cada um pega num braço. Talvez consigamos fazê-la andar parte do caminho.

Diana gemeu um pouco quando a erguemos da cadeira, abriu um olho e disse:

– Olá, Charliiiiie.

Depois, fechou os olhos e deixou que a levássemos até seu alojamento. Ninguém nos viu pelo caminho, porém, sua companheira de quarto, Laasonen, estava sentada lendo.

– Ela realmente bebeu aquela porcaria, né? – Ela sentia um afeto estranho pela amiga. – Deixe-me ajudá-los.

Nós três lutamos para colocá-la na cama. Laasonen tirou o cabelo dos olhos dela.

– Ela disse que era um experimento.

– Tem mais devoção à ciência que eu – Charlie falou. – E um estômago mais resistente também.

Todos desejamos que ele não tivesse dito isso.

• • •

Diana admitiu encabulada que não se lembrava de nada após a primeira dose. Conversando com ela, deduzi que pensava que Charlie tivesse estado lá o tempo todo. O que era melhor, claro. Mas, ah! Diana, minha adorável heterossexual latente, deixe-me comprar-lhe uma garrafa de bom uísque na próxima vez que aportarmos. Daqui a setecentos anos.

Voltamos para os tanques, para o salto de Resh-10 a Kaph-35. Seriam duas semanas a 25 gravidades; depois, teríamos mais quatro semanas de rotina a 1 gravidade.

Eu anunciara minha política de Portas Abertas, mas praticamente ninguém a aproveitou. Eu via muito pouco os soldados e em ocasiões quase sempre negativas: testando-os na revisão do treinamento, distribuindo reprimendas e, de vez em quando, ministrando aulas. E eles raramente falavam de forma inteligível, exceto em resposta a uma pergunta direta.

A maioria deles tinha o inglês como língua nativa ou como segunda língua, mas o idioma havia mudado tão drasticamente nos últimos 450 anos que eu mal conseguia entender, menos ainda se falado com rapidez. Felizmente, todos aprenderam o inglês do início do século 21 durante o treinamento básico. Aquele idioma, ou dialeto, funcionava como língua franca temporal com a qual um soldado do século 25 poderia se comunicar com alguém que tivesse sido contemporâneo de seu 19º tataravô. Se é que ainda havia algo parecido com “avós”.

Pensei em meu primeiro comandante de combate, o capitão Stott (que eu havia odiado cordialmente, como o resto da companhia), e tentei imaginar o que eu teria sentido se ele tivesse um desvio sexual e eu fosse forçado a aprender uma nova língua para conveniência dele.

Enfrentávamos problemas de disciplina, claro. Mas o milagre era termos alguma disciplina. Hilleboe era a responsável por isso. Por menos que eu gostasse dela como pessoa, tinha de lhe dar crédito por manter as tropas na linha.

A maioria dos grafites espalhados pela nave se referia a improváveis geometrias sexuais entre a segunda-oficial de campo e seu comandante.

• • •

De Kaph-35 saltamos para Samk-78, de lá para Ayin-129 e finalmente para Sade-138. Grande parte dos saltos não era superior a algumas centenas de anos-luz, mas o último era de 140 mil. Provavelmente, o mais longo salto colapsar já feito por uma embarcação tripulada.

O tempo gasto para atravessar o buraco de minhoca entre um colapsar e o outro era sempre o mesmo, independentemente da distância. Quando estudei física, pensava-se que a duração de um salto colapsar era exatamente zero. Mas, alguns séculos mais tarde, fizeram um complicado experimento com ondas que provou que o salto, na verdade, durava uma pequena fração de nanossegundo. Não parece muito, mas foi preciso reformular a física desde suas bases quando o salto colapsar foi descoberto; tiveram de acabar com tudo novamente quando descobriu-se que levava um tempo para ir de A a B. Os físicos ainda discutem a questão.

Mas tivemos problemas mais urgentes assim que saímos do campo colapsar de Sade-138 a 0,75 da velocidade da luz. Não havia como averiguar, de forma imediata, se os taurianos haviam estado ali antes de nós. Lançamos uma sonda teleguiada pré-programada que desaceleraria a 300 gravidades e faria uma análise preliminar. Ela nos alertaria caso detectasse qualquer outra nave no sistema ou evidência de atividade tauriana em quaisquer dos planetas colapsares.

Assim que a sonda foi lançada, nos enfiamos nos tanques, e os computadores nos conduziram ao longo de uma manobra evasiva de três semanas enquanto a nave desacelerava. Nenhum problema, exceto pelo fato de que três semanas é muito tempo para se ficar congelado dentro do tanque. Alguns dias depois, todos ainda se arrastavam como velhos arqueados.

Se a sonda teleguiada nos tivesse mandado uma mensagem informando que os taurianos já estavam no sistema, imediatamente teríamos diminuído a velocidade a 1 gravidade e entrado em formação de combate, enviando sondas teleguiadas e caças armados com bombas-novas. Ou talvez não sobrevivêssemos tanto assim: algumas vezes os taurianos conseguiam alcançar uma nave poucas horas após terem entrado no sistema. A morte no tanque não devia estar entre as formas mais prazerosas de deixar de existir.

Demoramos um mês para voltar a algumas unidades astronômicas de distância de Sade-138, onde a sonda teleguiada encontrou um planeta que condizia com nossos requisitos.

Era um planeta estranho, um pouco menor do que a Terra, mas mais denso. Não apresentava o frio criogênico da maioria dos planetas portais, tanto por causa do calor em seu interior quanto por causa de S Doradus, a estrela mais brilhante da nuvem, que estava a apenas um terço de ano-luz dali.

A característica mais estranha do planeta era sua falta de geografia. Do espaço parecia uma bola de bilhar ligeiramente deformada. Para explicar seu estado relativamente imaculado, nosso físico residente, o tenente Gim, observou que sua órbita anômala, quase cometária, provavelmente significava que havia passado a maior parte da vida como “planeta desgarrado”, vagando sozinho pelo espaço interestelar. Eram vastas as chances de um grande meteoro nunca ter se chocado com ele até entrar no campo de Sade-138 e ser capturado, forçado a partilhar o espaço com todos os outros fragmentos que o colapsar sugava.

Deixamos a Masaryk II em órbita (ela era capaz de aterrissar, porém, restringiria sua visibilidade e seu tempo de fuga) e levamos materiais de construção para a superfície utilizando os seis caças.

Era bom sair um pouco da nave, mesmo que o planeta não fosse muito hospitaleiro. A atmosfera era um vento ralo e gelado de hidrogênio e hélio. Fazia frio demais mesmo ao meio-dia para que qualquer outra substância pudesse existir em forma de gás.

“Meio-dia” era quando S Doradus estava sobre nossas cabeças, um brilho minúsculo e intenso. A temperatura caía vagarosamente à noite, indo de 25 Kelvin para 17, o que causava problemas, pois, pouco antes do amanhecer, o hidrogênio começava a se condensar, tornando tudo tão escorregadio que era inútil tentar fazer qualquer coisa que não fosse se sentar e esperar. Quando amanhecia, um arco-íris de cores pastéis rompia com a monotonia em preto e branco da paisagem.

O solo era traiçoeiro, coberto com pequenos pedaços granulados de gás congelado que se moviam de forma lenta e incessante sob a brisa anêmica. Tínhamos de andar em um gingado lento para conseguir permanecer de pé. Das quatro pessoas que morreram durante a construção da base, três foram vítimas de simples quedas.

As tropas não ficaram felizes com a minha decisão de construir defesas antiaéreas e perimetrais antes de instalar os quartéis. No entanto, foi feito conforme o manual: eles tinham dois dias de descanso na nave para cada “dia” de trabalho no planeta, o que não era muito generoso, admito, já que os dias na nave duravam 24 horas, e um dia no planeta tinha 38,5 horas de aurora a aurora.

A base foi concluída em menos de quatro semanas, e era uma estrutura realmente formidável. O perímetro, um círculo de 1 quilômetro de diâmetro, era guardado por lasers de 25 gigawatts que mirariam e disparariam automaticamente em 1 milésimo de segundo. Eles reagiriam ao movimento de qualquer objeto de tamanho significativo entre o perímetro e o horizonte. Algumas vezes, quando o vento era adequado e o solo estava úmido por causa do hidrogênio, os pequenos grânulos de gelo agrupavam-se, formando uma bola de neve, e saíam rolando, mas sem ir muito longe.

Por segurança, e para evitar que o inimigo aparecesse em nosso horizonte, a base ficava no centro de um enorme campo minado. As minas enterradas detonariam sob distorção suficiente de seus campos gravitacionais locais: um único tauriano acionaria uma delas a 20 metros de distância; uma pequena nave 1 quilômetro acima também as detonaria. Havia 2.800 delas, a maioria, bombas nucleares de 100 microtons. Cinquenta eram poderosos e devastadores dispositivos taquiônicos. Todas estavam espalhadas aleatoriamente em um anel que se estendia do limite de alcance dos lasers por mais 5 quilômetros.

Dentro da base, cada pelotão possuía lasers individuais, granadas de microtons e um lançador taquiônico de foguetes de repetição que nunca haviam sido testados em combate. Como último recurso, o campo de estase ficava ao lado dos dormitórios. Dentro de sua redoma cinza e opaca, ao lado de armamento paleolítico suficiente para rechaçar a Horda Dourada, havia um pequeno cruzador para o caso de perdermos nossas espaçonaves durante a batalha. Doze pessoas conseguiriam voltar ao Portal Estelar.

De nada adiantava pensar que os outros sobreviventes teriam de cruzar os braços até serem resgatados por reforços ou morrerem.

Os dormitórios e as instalações administrativas ficavam todos no subsolo, para protegê-los de armas com linha de mira. Contudo, isso não elevava muito o moral. Havia listas de espera para cada destacamento externo, não importando quão árdua ou arriscada fosse a incumbência. Eu não queria que as tropas fossem para a superfície em seu tempo livre por causa do perigo a que se expunham e, também, por causa da dor de cabeça administrativa de constantemente ter de checar os equipamentos na entrada e na saída e ainda precisar rastrear onde cada um estava.

Por fim, tive de ceder um pouco e permitir que as pessoas ficassem algumas horas na superfície toda semana. Não havia nada para ver, exceto a planície sem graça e o céu (que era dominado por S Doradus durante o dia e pela galáxia escura e enorme à noite), mas aquilo era um avanço, se comparado à visão de paredes e tetos de rochas derretidas.

A diversão favorita era andar até o perímetro e jogar bolas de neve em frente aos lasers, observar que, por menor que fosse a bola de neve, ela poderia, ainda assim, ativar a arma. Para mim, essa diversão parecia tão interessante quanto olhar para uma torneira gotejando, mas não havia nenhum perigo real nisso, pois as armas só disparavam para fora e tínhamos energia de sobra.

Por cinco meses, as coisas seguiram tranquilamente. Os problemas administrativos que tivemos eram similares aos que enfrentamos na Masaryk II. E corríamos menos perigo como trogloditas passivos do que saltando de colapsar em colapsar, pelo menos até o inimigo aparecer.

Fiz vista grossa quando Rudkoski reativou sua destilaria. Qualquer coisa que quebrasse a monotonia do dever era bem-vinda, e os bônus (o dinheiro ganho nas trocas com Rudkoski), além de prover bebida para as tropas, também lhes dava a oportunidade de apostar. Apenas interferi de duas maneiras: ninguém poderia ir para fora, a menos que estivesse plenamente sóbrio, nem poderia vender favores sexuais. Talvez fosse meu lado puritano, mas estava, mais uma vez, em conformidade com as normas. A opinião dos especialistas de plantão estava dividida. Tenente Wilber, o oficial psiquiátrico, concordava comigo; os conselheiros sexuais Kajdi e Valdez, não. Mas era provável que estivessem conseguindo dinheiro com a prática, fazendo o papel de “profissionais” residentes.

Passamos cinco meses numa rotina confortável e entediante, quando, então, aconteceu o caso do soldado Graubard.

• • •

Por razões óbvias, nenhuma arma era permitida nos dormitórios. Da forma como essas pessoas eram treinadas, uma simples briga de mão poderia se tornar um duelo mortal, e os pavios ali eram curtos. Cem pessoas normais provavelmente já teriam se matado após uma semana em nossas cavernas, mas esses soldados haviam sido escolhidos a dedo por sua capacidade de conviver em confinamento.

Ainda assim, brigas aconteciam. Graubard quase matara seu ex-amante, Schon, quando ele lhe fizera uma careta na fila do refeitório. Ele passou uma semana na solitária (assim como Schon, por ter provocado a situação), recebeu aconselhamento psiquiátrico e algumas punições. Então o transferi para o quarto pelotão, para que não se encontrasse com Schon todos os dias.

A primeira vez em que eles se cruzaram novamente nos corredores, Graubard cumprimentou Schon com um chute de caratê na garganta. Diana teve de construir-lhe uma nova traqueia. Graubard recebeu uma sequência mais intensiva de detenção, terapia e punições (diabos, eu não podia transferi-lo para outra companhia), depois se comportou como um bom rapaz por duas semanas. Alterei a escala de trabalho e os turnos de refeição deles, de forma que nunca estivessem na mesma sala juntos. No entanto, eles se encontraram de novo no corredor; só que, dessa vez, a coisa ficou mais equilibrada: Schon teve duas costelas quebradas, mas Graubard teve um testículo rompido e perdeu quatro dentes.

Se continuasse assim, eu teria, no mínimo, uma boca a menos para alimentar.

Pelo Código Universal da Justiça Militar, eu poderia ter ordenado a execução de Graubard, já que estávamos tecnicamente em estado de combate. Talvez devesse tê-lo feito, mas Charlie sugeriu uma solução mais humanitária e aceitei.

Não tínhamos espaço suficiente para manter Graubard na solitária para sempre, o que parecia ser a única medida humana e prática, mas havia espaço suficiente a bordo da Masaryk II, que pairava sobre nossas cabeças em uma órbita estacionária. Entrei em contato com Antopol, que concordou em cuidar dele. Dei-lhe permissão para jogar o imbecil no espaço se causasse qualquer problema.

Convocamos uma assembleia geral para explicar a situação, para que a lição dada a Graubard fosse aprendida por todos. Eu mal tinha começado a falar, em pé no estrado de rochas com a companhia à minha frente, os oficiais e Graubard atrás de mim… quando o idiota decidiu me matar.

Como todos os demais, Graubard tinha cinco horas semanais de treinamento dentro do campo de estase. Sob supervisão intensa, os soldados praticavam o uso de espadas, lanças e sei lá mais o quê em bonecos taurianos. De alguma forma, Graubard havia conseguido contrabandear uma arma, um chakram indiano, que é um círculo de metal com a borda externa afiada como lâmina. É uma arma complicada, mas, uma vez que se saiba como usá-la, pode ser muito mais eficaz do que uma faca comum. Graubard era um perito.

Em uma fração de segundos, Graubard incapacitou as pessoas que estavam ao seu lado (acertando Charlie na têmpora com o cotovelo, enquanto quebrava a rótula de Hilleboe com um chute), tirou o chakram de sua túnica e jogou-o em minha direção com maestria. O objeto tinha percorrido metade da distância até minha garganta quando reagi.

Instintivamente, dei um tapa para desviá-lo e fiquei a 1 centímetro de perder os quatro dedos. A lâmina cortou o topo da palma da minha mão, mas consegui tirar aquela coisa de curso. Graubard veio em minha direção, com os dentes à mostra e uma expressão que espero não ver nunca mais em minha vida.

Talvez ele não tivesse se dado conta de que o velho maricão era, na verdade, apenas cinco anos mais velho do que ele, que tinha reflexos de combate e três semanas de treinamento em cinestesia de feedback negativo. Bem, foi tão fácil que quase senti pena dele.

O dedo de seu pé direito estava virando para dentro. Eu sabia que ele daria mais um passo e saltaria sobre mim. Ajustei a distância entre nós e, assim que seus pés saíram do chão, dei-lhe um forte chute lateral no plexo solar. Ele ficou inconsciente antes mesmo de atingir o chão. Mas não estava morto.

Se eu simplesmente o tivesse matado em legítima defesa, meus problemas teriam terminado em vez de se multiplicarem de forma repentina.

Quando se trata de um simples encrenqueiro psicótico, o comandante pode prendê-lo e esquecer. Mas não um assassino fracassado. E eu não precisava fazer uma pesquisa para saber que executá-lo não melhoraria minha relação com as tropas.

Percebi que Diana estava de joelhos ao meu lado, tentando abrir meus dedos.

– Dê uma olhada em Hilleboe e Moore – murmurei.

E gritei às tropas:

– Dispensados.