Guerra sem fim
Capítulo 25
25
Toquei a campainha, e uma estranha atendeu a porta, abrindo-a alguns poucos centímetros, olhando-me pelo vão.
– Com licença – falei. – Aqui não é a residência da sra. Mandella?
– Ah, você deve ser William! – Ela fechou a porta, tirou o trinco e a abriu bem. – Beth, olhe quem está aqui!
Minha mãe veio da cozinha para a sala, secando as mãos em uma toalha.
– Willy… o que está fazendo em casa tão cedo?
– Bom, é… é uma longa história.
– Sente-se, sente-se – a outra mulher convidou. – Deixe-me pegar uma bebida para você, não comece até eu voltar.
– Espere – pediu minha mãe. – Eu nem mesmo os apresentei. William, esta é Rhonda Wilder. Rhonda, este é William.
– Eu queria muito conhecê-lo… – ela falou. – A Beth me contou tudo sobre você… Uma cerveja gelada, certo?
– Certo.
Rhonda era uma mulher de meia-idade agradável e bem-arrumada. Fiquei imaginando por qual razão ainda não a havia conhecido. Perguntei a minha mãe se era alguma vizinha.
– Hum… na verdade, ela é um pouco mais do que isso, William. Ela mora comigo já faz alguns anos. Por isso eu tinha um quarto extra quando você voltou. Não é permitido a uma pessoa solteira ter uma residência com dois quartos.
– Mas por quê…
– Não lhe contei antes porque não queria que você sentisse que a estava expulsando do quarto enquanto estivesse aqui. E de fato não estava. Ela…
– Isso mesmo. – Rhonda voltou com a cerveja. – Tenho parentes na Pensilvânia, no interior. Posso ficar com eles a qualquer hora.
– Obrigado. – Peguei a cerveja. – Na verdade, não vou ficar aqui por muito tempo. Estou meio que de mudança para Dakota do Sul. Posso encontrar outro lugar para dormir.
– Ah, não – Rhonda disse. – Posso ficar com o sofá.
Eu era um homem à moda antiga e não podia permitir tal coisa. Discutimos o assunto por um minuto e fiquei com o sofá.
Falei para Rhonda quem era Marygay; contei-lhe sobre nossas experiências perturbadoras na Inglaterra e que retornamos para nos recuperar. Esperava que minha mãe fosse ficar horrorizada com o fato de eu ter matado um homem, mas ela aceitou sem fazer nenhum comentário. Rhonda falou alguma coisa sobre andarmos na cidade após a meia-noite, ainda mais sem guarda-costas.
Conversamos sobre esse e outros assuntos até tarde da noite, quando mamãe chamou seu guarda-costas e saiu para trabalhar.
Algo me incomodou durante a noite toda: o jeito como minha mãe e Rhonda se tratavam. Decidi perguntar abertamente, assim que minha mãe partiu.
– Rhonda… – Acomodei-me na cadeira diante dela.
Eu não sabia exatamente como iniciar o assunto.
– Qual… qual é exatamente sua relação com minha mãe?
Ela deu um bom gole em sua bebida.
– Boas amigas. – Ela olhou para mim com um misto de desafio e resignação. – Muito boas amigas. Algumas vezes amantes.
Senti-me vazio e perdido. Minha mãe?
– Ouça – ela continuou. – É melhor você parar de tentar viver nos anos 1990. Talvez este não seja o melhor dos mundos, mas é nele que está inserido.
Ela veio em minha direção e pegou minha mão, quase se ajoelhando na minha frente. Sua voz ficou mais suave.
– William… veja, sou apenas dois anos mais velha que você… nasci dois anos antes… o que quero dizer é que posso entender como você se sente. Bem… sua mãe entende também. Nosso… relacionamento não é segredo para ninguém. É perfeitamente normal. Muita coisa mudou nestes últimos vinte anos. Você tem de mudar também.
Não falei nada.
Ela se ergueu e disse em tom firme:
– Você acha que, pelo fato de sua mãe ser sexagenária, não necessita de amor? Ela precisa mais do que você. Mesmo agora. Especialmente agora.
Havia acusação em seus olhos.
– Especialmente agora, com você retornando do passado, relembrando-a quão velha ela é. Quão… que sou vinte anos mais jovem. – Sua voz ficou trêmula e falha, e ela correu para o quarto.
Deixei um bilhete para minha mãe dizendo que Marygay havia me ligado. Uma emergência aparecera, e eu precisava ir imediatamente a Dakota do Sul. Chamei um guarda-costas e parti.
• • •
Um ônibus velho, desconjuntado, barulhento e com vazamento de ozônio me deixou na intersecção de uma estrada ruim com outra pior ainda. Levei uma hora para percorrer os 2 mil quilômetros até as Cataratas de Sioux, duas horas para pegar um helicóptero até Geddes, a 150 quilômetros dali, e três horas esperando e sacolejando dentro de um ônibus caindo aos pedaços durante os últimos 12 quilômetros até Freehold, a organização de comunidades na qual a família Potter tinha seu pedaço de terra. Fiquei me perguntando se a progressão continuaria e se eu teria que caminhar mais quatro horas por aquela estrada de terra até a fazenda.
Demorou meia hora para que eu avistasse uma construção. Minha mala estava começando a ficar intoleravelmente pesada, e a pistola volumosa esfolava meu quadril. Percorri um caminho de pedras até a porta de um domo simples feito de plástico e puxei uma corda que fez uma campainha soar do lado de dentro. Alguém espiou pelo olho mágico.
– Quem é? – perguntou uma voz amortecida pela madeira grossa.
– Estranho pedindo informações.
– Pergunte. – Não dava para saber se era mulher ou criança.
– Estou procurando a fazenda da família Potter.
– Só um segundo. – Passos se afastaram e retomaram. – Siga pela estrada por mais 1,9 quilômetro. Muitas batatas e vagens à sua direita. Provavelmente, você sentirá o cheiro das galinhas.
– Obrigado.
– Se quiser água, temos uma bomba nos fundos. Não posso deixá-lo entrar sem a presença de meu marido.
– Eu entendo. Muito obrigado.
A água tinha gosto metálico, mas estava deliciosamente fresca.
Eu não reconheceria uma plantação de batatas ou vagens nem se estivesse logo abaixo dos meus pés, mas sabia dar passos de meio metro. Então resolvi contar até 3.800 e respirar fundo. Achei que conseguiria distinguir entre o cheiro de fezes de frango e a ausência dele.
Lá pelo passo 3.650, havia um caminho sulcado que levava a um complexo de abóbadas de plástico e construções retangulares aparentemente feitas de relva. Havia um cercado em torno de uma pequena explosão demográfica de frangos. Eles tinham um cheiro característico, mas não era forte.
Na metade do caminho, uma porta se abriu e Marygay veio correndo até mim, vestindo um pedaço minúsculo de pano. Após um evasivo, mas gratificante abraço, ela perguntou o que eu estava fazendo ali tão cedo.
– Ah, minha mãe tinha amigos hospedados na casa dela. Eu não queria expulsá-los de lá. Acho que eu deveria ter ligado antes, né?
– Com certeza… Teria economizado esta longa e poeirenta caminhada… Mas temos bastante espaço, não se preocupe.
Marygay me levou para dentro para conhecer seus pais, que me cumprimentaram de modo efusivo e, definitivamente, fizeram-me sentir que estava vestindo muita roupa. Seus rostos, mesmo com poucas rugas, revelavam a idade, mas seus corpos eram firmes.
Como aquele jantar era uma ocasião especial, deixaram os frangos vivos, abriram uma lata de carne e a cozinharam com repolho e algumas batatas. Para o meu paladar pouco refinado, aquela comida parecia igual à servida no dirigível e em Londres.
Enquanto tomávamos café e comíamos queijo de cabra (eles se desculparam por não ter vinho; a comunidade teria uma nova safra em algumas semanas), perguntei que tipo de trabalho eu poderia realizar.
– Will – disse o sr. Potter –, não me acanho em dizer que sua vinda foi uma benção. Temos cinco acres que estão ociosos, meu caro, porque falta mão de obra. Você pode começar amanhã mesmo, arando um acre por vez.
– Mais batatas, pai? – perguntou Marygay.
– Não, não… não nesta estação. Soja… servirá como moeda de troca e é boa para o solo. E, Will, à noite, nós nos revezamos para montar guarda. Como somos quatro agora, poderemos dormir bem mais. – Ele tomou um grande gole de café. – Agora, o que mais…?
– Richard – interrompeu-o a sra. Potter –, fale a respeito da estufa.
– Isso mesmo, a estufa. A comunidade tem uma estufa de dois acres a cerca de 1 quilômetro daqui, próximo ao centro recreativo. Uvas e tomates, na maior parte. Todos passam uma manhã ou uma tarde por semana lá. Por que vocês não vão lá esta noite? Mostre ao Will a fabulosa vida noturna de Freehold… Às vezes, é possível participar de um emocionante jogo de damas.
– Ah, papai… não é tão ruim assim!
– Tem razão. Eles têm uma biblioteca razoável e um terminal ligado à Biblioteca do Congresso que funciona à base de moedas. Marygay me contou que você gosta muito de ler. Isso é ótimo!
– Parece fascinante! – Realmente. – Mas e com relação à guarda?
– Sem problemas. A sra. Potter (April) e eu vamos ficar com as primeiras quatro horas… Ah! – ele disse, levantando-se. – Deixe-me mostrar as instalações.
Fomos para os fundos, até a “torre”, uma cabana feita com sacos de areia sobre estacas. Subimos uma escada de cordas e passamos por um buraco no meio da cabana.
– Aqui é um pouco pequeno para duas pessoas – disse Richard. – Sente-se!
Havia um velho banco de piano ao lado do buraco no chão. Sentei-me nele.
– É útil poder avistar todo o campo sem ficar com torcicolo. Apenas não gire na mesma direção o tempo todo.
Ele abriu um caixote de madeira e revelou um fuzil lustroso, envolto em trapos oleosos.
– Reconhece isto?
– Claro. – Eu tivera de dormir com um durante o treinamento básico. – Um T-16, modelo militar, semiautomático, calibre 12… Onde diabos o senhor arranjou um destes?
– A comunidade foi a um leilão do governo. É uma antiguidade agora, filho. – Ele me passou a arma e a desmontei. Limpa, muita limpa.
– Já foi usada alguma vez?
– Não em quase um ano. Munição custa muito para ficar praticando tiro ao alvo. Mas você pode dar alguns tiros, caso queira se certificar de que ainda funciona.
Verifiquei a mira e vi apenas um verde brilhante. Pronta para a noite. Recoloquei no logaritmo zero, ajustei a ampliação para dez e remontei a arma.
– Marygay não quis experimentá-la. Disse que já teve sua cota… Eu não quis pressioná-la, mas uma pessoa tem de confiar em seu equipamento.
Desativei a trava de segurança e apontei para um monte de terra que o medidor acusava estar entre 100 e 120 metros de distância. Ajustei para 110, apoiei o cano do fuzil nos sacos de areia, centralizei o monte na mira e apertei o gatilho. O tiro saiu assobiando e espalhando terra para todos os lados.
– Ótimo.
Ajustei novamente para uso noturno, ativei a trava de segurança e a entreguei de volta a Richard.
– O que aconteceu um ano atrás?
Ele a embrulhou com bastante cuidado, mantendo os trapos longe da lente.
– Alguns salteadores invadiram. Desferi alguns disparos e os espantei.
– Legal… E o que é um salteador?
– É, você não sabe. – Ele bateu as cinzas de um cigarro de tabaco e me passou a caixa. – Não sei por que simplesmente não os chamam de ladrões, é o que de fato são. Assassinos também, às vezes. Eles sabem que a maior parte dos membros da comunidade está bem de vida. Se você planta para vender, consegue ficar com metade do dinheiro; além disso, muitos de nossos membros eram prósperos quando vieram para cá. De qualquer forma, os salteadores tiram vantagem de nosso relativo isolamento. Eles vêm da cidade e tentam agir furtivamente, geralmente atacam um lugar e fogem em seguida. Na maioria das vezes, não vêm até tão longe, mas as fazendas que ficam mais próximas da estrada… Ouvimos tiros a cada quinze dias em média. Normalmente, são só para espantá-los. Mas, quando os tiros não cessam, é ligada uma sirene e a comunidade entra em alerta.
– Não parece muito justo com as pessoas que vivem perto da estrada.
– Existem compensações. Eles apenas contribuem com a metade do que contribuímos. E possuem artilharia mais pesada.
• • •
Marygay e eu pegamos as duas bicicletas da família e pedalamos até o centro recreativo. Caí apenas duas vezes, pois a estrada era esburacada e estava escuro.
O centro era um pouco mais animado do que Richard descrevera. Uma jovem moça nua dançava sensualmente junto a alguns tambores caseiros, próximos ao outro extremo do domo. Ela ainda estava na escola; tratava-se de um projeto para a aula de “relatividade cultural”.
Na verdade, a maioria das pessoas ali era jovem, e por isso ainda estava na escola. Contudo, consideravam os estudos uma brincadeira. Após aprender a ler e a escrever e ser aprovada no teste básico de alfabetização, a pessoa tinha de cursar apenas uma matéria por ano; e, em algumas delas, para ser aprovado bastava ter-se inscrito. Tinha a ver com os “dezoito anos de educação compulsória” com que nos amedrontaram no Portal Estelar.
Outras pessoas estavam entretidas com jogos de tabuleiro, lendo, assistindo à performance da garota ou apenas conversando. Havia um bar que servia soja, café e uma leve cerveja caseira. Não vi um único vale de alimentação; tudo era feito pela comunidade ou comprado fora com vales dela.
Travamos uma discussão sobre a guerra com uma porção de pessoas que sabiam que Marygay e eu éramos veteranos. É difícil descrever a atitude delas, que era bem semelhante. Estavam irritadas com o fato de termos consumido tanto dinheiro do contribuinte e estavam convencidas de que os taurianos nunca seriam um perigo para a Terra, mas sabiam que quase metade dos empregos no mundo estava associada à guerra e que, se ela terminasse, tudo ruiria.
Para mim, tudo já estava caótico, mas eu não havia crescido neste mundo. E eles nunca tinham conhecido um “período de paz”.
Fomos para casa lá pela meia-noite. Marygay e eu ficamos duas horas de guarda cada um. No meio da manhã seguinte, desejei ter dormido mais.
O arado era uma grande lâmina sobre rodas com dois cabos que permitiam guiá-lo, era movido a energia atômica. Mas não exigia muita força, só o suficiente para movê-lo para a frente lentamente caso a lâmina estivesse em terra fofa. Não é preciso dizer que não havia muita terra fofa nos cinco acres de terra ociosa. O arado entrava alguns centímetros, ficava preso, eu liberava a lâmina até voltar à superfície, então avançava mais alguns centímetros. Terminei um décimo de acre no primeiro dia e, com o tempo, aumentei para um quinto de acre por dia.
Era trabalho duro, pesado, mas agradável. Eu tinha um fone de ouvido que tocava músicas de fitas velhas da coleção de Richard, e o sol me bronzeava. Eu estava começando a pensar que poderia viver assim para sempre, quando, de repente, tudo acabou.
Certa noite, Marygay e eu estávamos lendo no centro recreativo quando ouvimos disparos ao longe, na estrada. Decidimos que seria mais sensato voltar para casa. Estávamos a menos da metade do caminho quando os tiros começaram a vir pela nossa esquerda, em uma linha que parecia estender-se da estrada até o centro recreativo: um ataque coordenado. Tivemos de abandonar as bicicletas e rastejar sobre as mãos e os joelhos pela vala de drenagem ao lado da estrada, com balas silvando sobre nossas cabeças. Um veículo pesado passou fazendo estrondo, atirando para a direita e para a esquerda. Rastejamos mais de vinte minutos até chegar em casa. Passamos por duas fazendas que ardiam em chamas. Fiquei aliviado por nossa casa não ser feita de madeira.
Percebi que nossa torre não estava desferindo disparos de retaliação, mas não disse nada. Entramos correndo em casa, passando por dois corpos estranhos estirados na entrada.
April estava caída no chão, ainda viva, mas sangrando por uma centena de minúsculos ferimentos. A sala de estar estava cheia de pó e escombros; alguém deve ter jogado uma bomba pela porta ou pela janela. Deixei Marygay com a mãe e corri para a torre. A escada não estava baixada, então tive de subir por uma das estacas.
Richard estava sentado, curvado sobre o fuzil. No pálido brilho esverdeado que vinha da mira da arma, pude ver um buraco acima de seu olho esquerdo. Um pouco de sangue havia escorrido da ponta de seu nariz e secado.
Deitei seu corpo no chão e cobri sua cabeça com minha camisa. Enchi meus bolsos com pentes de balas e levei o fuzil para dentro de casa.
Marygay tentou ajeitar a mãe de forma confortável. Elas conversavam bem baixo. Ela segurava minha pistola e havia outra arma no chão, ao seu lado. Quando entrei, olhou-me e acenou seriamente, sem chorar.
April sussurrou alguma coisa, e Marygay perguntou:
– Minha mãe quer saber se… papai sofreu muito. Ela sabe que ele está morto.
– Não. Tenho certeza de que não sentiu nada.
– Que bom.
– Já é alguma coisa. – Devia ter mantido minha boca fechada. – É bom, sim.
Chequei as portas e as janelas, procurando um bom ponto de observação. Não encontrava lugar nenhum que não permitisse que um pelotão inteiro me pegasse desprevenido.
– Vou para fora, subir no topo da casa. – Não podia voltar à torre.
– Não atire, a menos que entre alguém… Talvez pensem que o lugar está deserto.
Quando consegui subir até o telhado feito de grama, o caminhão estava voltando pela estrada. Pela mira, pude ver que havia quatro homens dentro dele: quatro na cabine e um na caçamba, portando uma metralhadora, rodeado por objetos saqueados. Ele estava agachado entre dois refrigeradores, mas eu conseguia mirá-lo claramente. Esperei, por não querer chamar a atenção. O caminhão parou em frente da casa por alguns instantes e deu a volta. A janela do veículo provavelmente era à prova de balas, mas consegui uma visão perfeita do rosto do motorista e fiz um disparo. Ele deu um salto quando a bala ricocheteou, fazendo um zunido e deixando uma estrela opaca no plástico, e o homem que estava na caçamba abriu fogo. Uma intensa saraivada de balas passou zunindo sobre minha cabeça; eu podia ouvir o impacto das balas nos sacos de areia da torre. Ele não me viu.
O caminhão estava a menos de 10 metros quando os tiros cessaram. Ele evidentemente estava recarregando, escondido atrás do refrigerador. Mirei com cuidado e, assim que ele apareceu para atirar, acertei-o na garganta. A bala saiu pela parte superior do seu crânio.
O motorista virou o caminhão fazendo um grande arco, de maneira que, quando parou, a porta da cabine estava alinhada com a porta da casa. Isso os protegeu da torre e de mim, embora eu duvidasse que soubessem onde eu estava. Um T-16 quase não faz barulho e não emite clarão. Tirei meus sapatos e me aproximei, cuidadosamente, do topo da cabine, esperando que o motorista saísse pela porta a seu lado. Uma vez que ela fosse aberta, eu poderia encher a cabine com balas que ricocheteariam.
Não deu certo. A outra porta, oculta pela saliência do teto, abriu primeiro. Esperei pelo motorista e torci para que Marygay estivesse bem escondida. Eu não deveria ter me preocupado.
Pude ouvir um estrondo ensurdecedor, depois outro, e mais outro. O caminhão balançou com o impacto de milhares de pequenos dardos. Ouvi um grito curto que o segundo tiro calou.
Saltei do caminhão e corri para a porta dos fundos. Marygay estava com a cabeça da mãe pousada em seu colo, e alguém estava chorando baixinho. Dirigi-me até elas. Pude sentir o rosto de Marygay seco sob minhas mãos.
– Bom trabalho, querida.
Ela não disse nada. Era possível ouvir um contínuo gotejar vindo da porta. O ar estava acrimonioso com a fumaça e o cheiro de carne fresca. Ficamos amontoados até o amanhecer.
Pensei que April estivesse dormindo, mas sob a luz fraca seus olhos estavam bem abertos e enevoados; sua respiração estava fraca e a pele, pálida e com sangue ressecado. Ela não respondia quando falávamos com ela.
Um veículo surgiu na estrada. Então peguei o rifle e saí. Era um caminhão velho com um dos lados coberto por um lençol branco. Um homem de pé na parte de trás, com um megafone, repetia: “Feridos, feridos”. Acenei para eles, e o caminhão aproximou-se. Levaram April em uma maca improvisada e nos disseram para qual hospital estavam indo. Queríamos ir junto, mas simplesmente não havia espaço: a caçamba do caminhão estava cheia de pessoas feridas de diferentes maneiras.
Marygay não queria voltar para dentro de casa, pois estava ficando claro e ela veria os homens que matara. Voltei para pegar alguns cigarros e me forcei a encarar aquilo. Estava tudo um grande caos, mas isso não me incomodou tanto. Aquilo sim me incomodou: defrontar-me com uma pilha de carne humana e, principalmente, reparar nas moscas, nas formigas e no mau cheiro. A morte é muito mais asseada no espaço.
Enterramos o pai dela nos fundos da casa e, quando o caminhão voltou com o pequeno corpo de April envolto em uma mortalha, nós a enterramos ao lado dele. O saneamento da comunidade apareceu pouco tempo depois, e alguns homens com máscaras de gás deram um jeito nos corpos dos salteadores.
Sentamo-nos ao sol e, finalmente, Marygay chorou, por um longo tempo, silenciosamente.