Guerra sem fim
Capítulo 11
11
Estávamos desacelerando a 2 gravidades por quase 9 dias quando a batalha começou. Entediados em nossos assentos, tudo o que sentimos foram dois impactos suaves de mísseis sendo lançados. Quase 8 horas depois, o alto-falante anunciou:
– Atenção toda a tripulação! Aqui é o capitão.
Quinsana, o piloto, era apenas tenente, mas estava autorizado a ser tratado por capitão enquanto estivesse a bordo da nave, ou seja, estava acima de todos nós em hierarquia, até mesmo do capitão Stott. Ele continuou:
– Vocês, soldados do setor de cargas, podem ouvir também. Acabamos de atacar o inimigo com dois mísseis de táquions de 50 gigatons e, assim, destruímos a nave inimiga e outro objeto que havia sido lançado aproximadamente 3 milissegundos antes. O inimigo está tentando nos alcançar há 179 horas, tempo da nave. No momento do ataque, ele se movia a uma velocidade pouco maior do que a metade da velocidade da luz, relativamente a Aleph, e estava a apenas cerca de 30 UA da Esperança da Terra. Estava se movendo a .47c em relação a nós e, portanto, teríamos coincidido no espaço-tempo – colidido! – em pouco mais de nove horas. Os mísseis foram lançados às 7h19, tempo da nave, e destruíram o inimigo às l5h40; ambos são bombas de táquions e detonaram a mil quilômetros dos objetos inimigos.
O sistema de propulsão dos dois mísseis era ele próprio uma bomba de táquions pouco controlável. Os mísseis aceleravam a uma velocidade constante de 100 gravidades e viajavam a uma velocidade relativística no momento em que a massa próxima à nave inimiga os detonou.
Então, prosseguiu:
– Acreditamos que não haverá mais nenhuma interferência de naves inimigas. Nossa velocidade com relação a Aleph será de zero dentro de cinco horas, daí iniciaremos nossa jornada de volta. O retorno levará 27 dias.
Houve lamentos e praguejamentos gerais. Todos já sabiam dessas informações, é claro, mas não queríamos ser lembrados.
• • •
Então, após outro mês de calistenia e exercícios exaustivos, a 2 gravidades constantes, pudemos observar pela primeira vez o planeta que atacaríamos. Invasores vindos do espaço, sim, senhor.
Era um ofuscante crescente branco que esperava por nós a 2 UA de Épsilon. O capitão delimitou a localização da base inimiga a 50 UA, e manobramos até lá formando um grande arco e mantendo a maior parte do planeta entre o inimigo e nós. Isso não significava que os havíamos pego de surpresa – muito pelo contrário: eles lançaram três ataques abortivos –, mas nos colocou em uma posição defensiva mais forte. Pelo menos até o momento em que tivéssemos de ir à superfície. Aí, apenas a nave e sua tripulação especial estariam razoavelmente a salvo.
Como o planeta girava bem lentamente – uma vez a cada dez dias e meio –, uma órbita “estacionária” para a nave deveria ser estabelecida a 150 mil quilômetros. Isso fez com que o pessoal no interior da nave se sentisse um tanto seguro, com quase 10 mil quilômetros de rochas e 140 mil quilômetros de espaço entre eles e o inimigo. Mas isso significava um segundo de atraso na comunicação entre nós, aterrissados, e o computador de batalha da nave. Uma pessoa poderia sofrer uma morte terrível enquanto o pulso de neutrino viajava de um lado a outro.
Tínhamos ordens vagas para atacar a base e assumir o controle, e isso danificando o mínimo possível de equipamento inimigo. Deveríamos capturar ao menos um tauriano vivo. Contudo, não podíamos, sob hipótese nenhuma, ser capturados vivos. E a decisão não cabia a nós: com um pulso especial do computador de batalha, aquela partícula de plutônio da nossa estação energética seria liberada com 99,9% de eficiência, e nos tornaríamos nada mais que plasma muito quente em rápida expansão.
Eles nos colocaram em seis naves-patrulha – um pelotão de doze pessoas em cada uma delas – e decolamos da Esperança da Terra a 8 gravidades. Cada nave-patrulha deveria seguir seu caminho (cuidadosamente aleatório) até nosso ponto de encontro a 108 quilômetros da base. Catorze sondas teleguiadas foram lançadas ao mesmo tempo para confundir o sistema antiaéreo do inimigo.
A aterrissagem foi quase perfeita. Uma nave sofreu pequenos danos: um disparo que passou de raspão prejudicou o material em um dos lados do casco, mas, ainda assim, ela conseguiu pousar e retornar, mantendo velocidade baixa enquanto estava na atmosfera.
Ziguezagueamos e acabamos sendo a primeira nave a chegar ao ponto de encontro. Havia apenas um problema: era sob 4 quilômetros de água.
Eu quase podia ouvir aquela máquina, a 140 mil quilômetros, lutando com suas engrenagens mentais, agregando a nova informação. Procedemos exatamente como se estivéssemos aterrissando em terra firme: retrofoguetes, queda, paletas para deslocamento, golpear a água, pequeno salto, golpear a água, pequeno salto, golpear a água, afundar.
Faria mais sentido prosseguir e aterrissar no fundo. Afinal de contas, possuíamos boa aerodinâmica, e a água era apenas mais um fluido, mas o casco não era forte o bastante para aguentar uma coluna de água a 4 quilômetros de profundidade. O sargento Cortez estava conosco na nave-patrulha.
– Sargento, diga àquele computador para fazer algo! Nós vamos…
– Ah, cale a boca, Mandella. Confie no senhor. – Vindo da boca de Cortez, “senhor” era, com certeza, escrito em letras minúsculas.
Houve um suspiro alto e borbulhante, então outro, e senti um pequeno aumento na pressão sobre as minhas costas, o que significava que a nave estava emergindo.
– Bolsas de flutuação? – Cortez nem se dignou a responder, ou não sabia.
Era isso. Subimos a 10 ou 15 metros da superfície e ficamos ali suspensos. Pela escotilha, eu podia ver a superfície lá em cima, ondulada como um espelho de prata. Imaginei como seria para um peixe ter um teto sobre seu mundo.
Vi outra nave mergulhar, o que produziu uma grande nuvem de bolhas e turbulência. Depois ela caiu – lentamente, de cauda para baixo – a uma pequena distância, antes que grandes bolsas inflassem sob cada uma das asas. Então, aproximou-se balançando até nosso nível e ali ficou.
– Aqui é o capitão Stott. Agora ouçam com muita atenção: há uma praia a 28 quilômetros da posição em que vocês se encontram, na direção do inimigo. Vocês se dirigirão a essa praia nas naves-patrulha e lá prepararão o ataque à posição tauriana.
Aquilo era um relativo avanço. Teríamos de andar apenas 8 quilômetros.
Esvaziamos as bolsas, fomos para a superfície e voamos em uma vagarosa e esparsa formação em direção à praia, o que levou vários minutos. Eu podia ouvir as bombas zunindo à medida que a nave buscava efetuar a parada, fazendo com que a pressão da cabine se igualasse à pressão do ar do lado de fora. Antes de a nave parar de se mover por completo, abriu-se a porta de escape, ao lado da minha poltrona. Rolei para fora, sobre a asa da embarcação, e pulei para o chão. Dez segundos para encontrar cobertura. Corri a toda velocidade entre pedregulhos até a “fileira de árvores”: uns arbustos altos e retorcidos de cor verde-azulada. Mergulhei entre esses arbustos e me virei para observar as naves que partiam. As sondas teleguiadas que sobraram elevaram-se lentamente cerca de 100 metros e, depois, dispararam em todas as direções, o que produziu um ruído semelhante ao ranger de ossos. As verdadeiras naves-patrulha voltaram a deslizar vagarosamente para dentro da água. Talvez essa fosse uma boa ideia.
Não era o melhor dos mundos, mas, com certeza, seria mais fácil circular por ali do que enfrentar o pesadelo criogênico para o qual havíamos sido treinados. O céu tinha um brilho prateado, melancólico e uniforme e se fundia com a névoa que pairava sobre o oceano de tal maneira que era impossível dizer onde a água terminava e onde começava o ar. Pequenas marolas quebravam na orla de pedregulhos negros, de maneira bem lenta e graciosa, sob os 0,75 da gravidade da Terra. Mesmo a 50 metros de distância, o ruído de bilhões de seixos rolando com a maré soava alto em meus ouvidos.
A temperatura do ar era de 79 graus centígrados – não era elevada o suficiente para que o mar entrasse em ebulição, embora a pressão do ar fosse baixa em comparação com a da Terra. Lufadas de vapor subiam rapidamente a partir da linha onde a água se encontrava com a terra. Fiquei imaginando como um homem solitário poderia sobreviver ali sem traje. Será que o calor ou o parco oxigênio (com pressão parcial equivalente a um oitavo do normal da Terra) o matariam primeiro? Ou haveria algum micro-organismo mortal que agiria mais rápido?
– Aqui é Cortez. Venham todos se reunir comigo.
Ele estava na praia, um pouco à esquerda de onde eu me encontrava, acenando com a mão, fazendo um círculo sobre a cabeça. Segui caminhando em sua direção por meio dos arbustos: eram quebradiços, frágeis, pareciam paradoxalmente secos nesse lugar com ar cheio de vapor e não constituíam boa cobertura.
– Avançaremos com uma inclinação de 0,05 radianos a leste do norte. Quero que o pelotão 1 vá na frente. Pelotões 2 e 3 sigam cerca de 20 metros atrás, à esquerda e à direita. Pelotão 7, grupo de comando, permaneça no meio, 20 metros atrás do 2 e do 3. Pelotões 5 e 6 sigam pela retaguarda, em um flanco fechado semicircular. Todos entenderam? – Claro, podíamos fazer aquela manobra “em flecha” com os olhos fechados. – Certo! Então, vamos em frente!
Eu estava no pelotão 7, o “grupo de comando”. O capitão Stott me pusera lá não porque esperava que eu desse ordens, mas por causa da minha formação em Física. Era, supostamente, o grupo mais seguro, rodeado por seis pelotões. As pessoas eram escolhidas para fazer parte dele porque havia uma razão tática para que sobrevivessem pelo menos um pouco mais do que as demais. Cortez estava lá para dar ordens; Chavez corrigiria qualquer defeito nos trajes; o médico sênior, dr. Wilson, era o único médico realmente graduado; e Theodopolis, o engenheiro de rádio, fazia nossa conexão com o capitão, que escolhera ficar em órbita.
O resto fora designado para o grupo de comando por força de treinamento especial ou aptidão não comumente considerada de natureza “tática”. Diante de um inimigo totalmente desconhecido, não havia como prever o que poderia ser importante. Portanto, eu estava lá por ser quem, na companhia, mais se assemelhava a um físico. Rogers era bióloga. Tate era químico. Ho sempre conseguia obter pontuação excelente no teste de percepção extrassensorial de Rhine. Bohrs era poliglota, capaz de falar 21 línguas fluentemente, sem sotaque. O talento de Petrov se devia ao fato de ele ter sido submetido a um teste que revelara não existir nenhuma molécula de xenofobia em sua psique. Keating era hábil acrobata. Debby Hollister – a “sortuda” Hollister – demonstrava aptidão fenomenal para ganhar dinheiro e também possuía grande potencial no teste de Rhine.