Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 36 de 40

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Guerra sem fim

Capítulo 32

32

 

– Não seja idiota – Charlie disse, segurando um pano umedecido contra a ferida na lateral de sua cabeça.

– Você não acha que tenho de executá-lo?

– Pare de se mexer!

Diana tentava alinhar as laterais do meu ferimento a fim de suturá-lo. Do punho para baixo, minha mão parecia um pedaço de gelo.

– Não com suas próprias mãos. Você pode designar alguém. Ao acaso.

– Charlie tem razão – apontou Diana. – Faça com que todos sorteiem um pedaço de papel de uma tigela.

Ainda bem que Hilleboe estava dormindo profundamente na outra maca. Eu não precisava da opinião dela.

– E se a pessoa escolhida se recusar?

– Puna-a e escolha outra – respondeu Charlie. – Você não aprendeu nada no tanque? Não pode comprometer sua autoridade executando uma tarefa… que obviamente deveria ser executada por um inferior.

– Se fosse qualquer outra tarefa, com certeza. Mas neste caso… ninguém na companhia jamais matou. Vai parecer que estou querendo arranjar outra pessoa para fazer meu servicinho sujo.

– Se esta merda é tão complicada – falou Diana –, por que não vai à frente das tropas e diz o quanto é complicado? E aí faça-os tirar a sorte. Eles não são crianças.

Houve um exército em que se fizera algo parecido, informava-me um forte vestígio de memória. A milícia marxista POUM na Guerra Civil Espanhola, no início do século 20. Uma ordem era obedecida apenas depois que fosse explanada em detalhes; no entanto, poderia ser rechaçada se não fizesse sentido. Os oficiais e os homens se embebedavam juntos, nunca prestavam continência nem tratavam uns aos outros por títulos. Eles perderam a guerra, mas o outro lado não se divertiu nem um pouco.

– Pronto. – Diana repousou a mão ferida em meu colo. – Não a use por meia hora. Quando começar a doer, você pode usá-la.

Analisei a ferida de perto.

– Não está alinhado. – Não que eu estivesse reclamando.

– Nem deveria. Agradeça por não ter lhe sobrado apenas um cotoco, pois não há instalações de regeneração deste lado do Portal Estelar.

– O cotoco deve estar em cima do seu pescoço – disse Charlie. – Não entendo por que você tem tanto receio. Deveria ter matado aquele miserável na hora.

– Eu sei disso, droga! – Charlie e Diana saltaram com meu rompante. – Desculpem, mas que merda… Apenas me deixem ter minhas preocupações.

– Por que vocês dois não conversam sobre outra coisa por um tempo? – Diana se levantou e checou o conteúdo de seu kit médico. – Tenho de visitar outro paciente. Evitem se alterar.

– Graubard? – perguntou Charlie.

– Exato. Para me certificar de que será capaz de subir no cadafalso sem ajuda.

– E se Hilleboe…

– Ela ficará apagada por mais meia hora. Vou pedir a Jarvil que desça, apenas por precaução. – Ela apressou-se em direção à porta.

– O cadafalso… – Eu não tinha parado para pensar. – Como diabos vamos executá-lo? Não podemos fazê-lo a portas fechadas: deprimente. Pelotão de fuzilamento seria pavoroso.

– Atire-o pela saída de ar. Você não precisa ter cerimônia com ele.

– Você deve ter razão. Não estava pensando nele.

Imaginei se Charlie já tinha visto o corpo de uma pessoa morta daquela forma.

– Talvez devêssemos simplesmente enfiá-lo no reciclador. Ele acabará lá de qualquer jeito – falei.

Charlie riu.

– Esse é o espírito.

– Mas teríamos de retalhá-lo um pouco. A porta não é muito larga.

Charlie deu algumas sugestões para resolvermos aquele pequeno problema. Jarvil entrou, mas meio que nos ignorou.

De repente, a porta da enfermaria foi escancarada ruidosamente. Era um paciente sendo transportado em um carrinho… Diana e um soldado corriam lado a lado. Ela pressionava o peito do homem, enquanto o soldado empurrava o carrinho. Dois outros soldados os seguiam, mas pararam na porta.

– Perto da parede – ordenou.

Era Graubard.

– Ele tentou se matar – explicou Diana, mas era bem óbvio. – O coração parou.

O imbecil havia feito um laço com o próprio cinto. Ainda estava pendurado debilmente em volta do pescoço.

Havia dois grandes eletrodos com cabos de borracha na parede. Diana os agarrou com uma das mãos enquanto rasgava a túnica de Graubard com a outra.

– Tire as mãos da maca! – Ela segurou os eletrodos separadamente, ligou uma chave e os pressionou contra o peito dele.

Houve um zunido baixo enquanto seu corpo estremecia e caía pesadamente. Cheiro de carne queimada.

Diana balançava a cabeça.

– Prepare-se para abri-lo – disse a Jarvil. – Chame Doris aqui embaixo.

O corpo estava gorgolejando, mas era um som mecânico, como de encanamento.

Ela desligou a chave e soltou os eletrodos, tirou um anel do dedo e cruzou a sala para enfiar as mãos no esterilizador. Jarvil começou a esfregar um fluido de cheiro horrível sobre o peito do homem.

Havia uma pequena marca vermelha entre as duas queimaduras causadas pelos eletrodos. Levei um tempo para reconhecer o que era; Jarvil a limpou. Cheguei mais perto e examinei o pescoço de Graubard.

– Saia daí, William, você não está esterilizado.

Diana apalpou sua clavícula, mediu alguns centímetros na direção descendente e fez uma incisão logo abaixo do esterno. O sangue jorrava. Jarvil passou para ela um instrumento que parecia um grande e cromado corta-vergalhão. Desviei o olhar, mas não pude deixar de ouvir a coisa triturando suas costelas. Ela pediu retratores, esponjas e outros instrumentos, enquanto eu voltava para o lugar onde estivera sentado. Com o canto do olho, fiquei observando-a trabalhar dentro do tórax dele, massageando diretamente seu coração.

Charlie se sentia da mesma maneira que eu. Ele disse a ela, em voz baixa:

– Ei, não se desgaste tanto, Diana.

Ela não respondeu. Jarvil se aproximou com o coração artificial e segurava dois tubos. Diana pegou um bisturi, e desviei o olhar novamente.

• • •

Meia hora mais tarde, ele ainda não dava sinais de vida. Eles desligaram a máquina e o cobriram com um lençol. Diana lavou o sangue de seus braços e disse:

– Tenho de me trocar. Volto em um minuto.

Levantei-me e fui em direção ao alojamento dela, que ficava ao lado. Eu tinha de saber. Ergui minha mão para bater à porta, mas ela de repente começou a doer como se estivesse sendo atravessada por uma linha de fogo. Bati com a mão esquerda, e ela abriu a porta de imediato.

– O que… ah, você quer algo para a mão? – Ela estava parcialmente vestida, distraída. – Peça a Jarvil.

– Não, não é isso. O que houve, Diana?

– Bem… – Ela puxou a túnica por cima da cabeça e falou abafando a voz. – Foi minha culpa, acho. Descuidei dele por um minuto.

– E ele tentou se enforcar.

– Isso mesmo. – Ela se sentou na cama e me ofereceu a cadeira. – Saí para ir ao banheiro e, quando voltei, ele estava morto. Eu já tinha pedido a Jarvil que desse uma olhada em Hilleboe para ela não ficar sem supervisão por muito tempo.

– Mas, Diana… não há marcas em seu pescoço. Nenhum hematoma, nada.

Ela deu de ombros.

– O enforcamento não o matou. Ele teve um ataque cardíaco.

– Alguém aplicou uma injeção nele. Bem em cima do coração.

Diana me lançou um olhar curioso.

– Eu fiz isso, William. Adrenalina. Procedimento padrão.

A marca de sangue só ocorre se você resiste à agulhada enquanto está recebendo a injeção. Do contrário, o medicamento flui direto pelos poros, sem deixar marcas.

– Ele estava morto quando você lhe deu a injeção?

– Esta seria minha opinião profissional. – Rosto inexpressivo. – Sem batimentos, pulsação, respiração. Somente poucas doenças apresentam tais sintomas.

– Sim, entendo.

– Há algo… qual é o problema, William?

Ou, pouco provavelmente, fui muito sortudo ou Diana era uma ótima atriz.

– Nada. Ah, sim, é melhor eu tomar alguma coisa para esta mão. – Abri a porta. – Poupou-me muitos problemas.

Ela me olhou bem no fundo dos olhos.

– É verdade.

• • •

Na verdade, apenas troquei um tipo de problema por outro. Apesar de muitas testemunhas desinteressadas terem presenciado o fim de Graubard, persistia o boato de que eu tinha pedido à dra. Alsever que simplesmente o exterminasse… já que não fiz o trabalho direito e não queria enfrentar o incômodo de uma corte marcial.

O fato era que, sob o Código Universal de “Justiça” Militar, Graubard não merecia nenhum tipo de julgamento. Tudo que eu tinha a fazer era dizer: “Você, você e você. Levem este homem para fora e o matem, por favor”. E pobre do soldado que se recusasse a executar a ordem.

Minha relação com as tropas melhorou, de certa forma. Ao menos externamente, demonstravam mais respeito por mim. Porém, eu desconfiava que fosse, pelo menos em parte, o tipo de respeito barato que se oferece a qualquer facínora que provou ser perigoso e temperamental.

Matador era meu novo apelido. Justo agora que eu tinha me acostumado com o Velho Maricão.

A base rapidamente voltou à rotina de treinamento e espera. Eu estava quase impaciente para que os taurianos aparecessem, para acabar com aquilo de um jeito ou de outro. As tropas se ajustaram melhor à situação do que eu, por razões óbvias. Eles tinham tarefas específicas a realizar e muito tempo livre para gastar com os usuais paliativos contra o tédio. Meus deveres eram mais variados, mas ofereciam pouca satisfação, já que os problemas que chegavam até mim eram do tipo “ninguém mais conseguiu resolver”; aqueles agradáveis e de soluções mais simples, os escalões mais baixos davam conta.

Nunca me interessei muito por esportes ou jogos, mas me vi cada vez mais voltado para eles, como se fossem uma espécie de válvula de escape. Pela primeira vez em minha vida, nesse ambiente tenso e claustrofóbico eu não conseguia fugir por meio da leitura ou do estudo. Então, eu praticava esgrima, sabre ou varapau com os outros oficiais, malhava à exaustão nas máquinas de exercício e tinha até mesmo uma corda para pular no escritório. A maioria dos outros oficiais jogava xadrez, mas normalmente ganhavam de mim… Toda vez que eu ganhava, tinha a sensação de que estavam sendo bonzinhos comigo. Jogos de palavras eram difíceis, pois a língua que eu falava era um dialeto arcaico com o qual eles tinham dificuldade de lidar. E eu não dispunha de tempo e talento para me aperfeiçoar em inglês “moderno”. Por um tempo, deixei que Diana me ministrasse drogas de alteração de humor, mas os efeitos cumulativos eram amedrontadores (eu estava ficando viciado de uma maneira muito sutil para me incomodar de início), então parei abruptamente. Depois, tentei um pouco de psicanálise sistemática com o tenente Wilber. Era impossível. Embora ele conhecesse tudo sobre meu problema de maneira acadêmica, não falávamos a mesma linguagem cultural; ele me aconselhando sobre amor e sexo era o mesmo que eu aconselhar um servo do século 14 a como se dar bem com seu padre ou senhor.

E aquilo, afinal de contas, era a raiz do meu problema. Eu tinha certeza de que podia lidar com as pressões e frustrações do comando; com o fato de estar enjaulado em uma caverna com pessoas que às vezes pouco se diferenciavam do inimigo; até mesmo com a quase certeza de que tudo aquilo poderia apenas levar a uma morte dolorosa em uma causa inútil. Se ao menos Marygay estivesse ao meu lado… E o sentimento ficava cada vez mais intenso à medida que os meses se arrastavam.

Wilber foi muito sério comigo nesse ponto e me acusou de romantizar minha posição. Ele dizia que sabia o que era o amor; ele também já havia se apaixonado. E a polaridade sexual do casal não fazia diferença… Tudo bem, eu conseguia entender; aquela ideia tinha sido clichê na geração de meus pais (embora, na minha, tivesse sofrido uma resistência previsível). Mas amor, ele dizia, era uma frágil flor, era um delicado cristal, uma instável reação com meia-vida de cerca de oito meses. Besteira, eu dizia, e o acusava de usar cabrestos culturais; trinta séculos de sociedade pré-guerra ensinaram que o amor era algo que poderia durar até a morte e mais além: e se ele tivesse nascido, em vez de ter sido chocado, saberia sem que lhe houvessem dito! Diante dessa afirmação, ele assumiu uma expressão esquisita e tolerante e reiterou que eu era uma mera vítima de frustração sexual autoimposta e desilusão romântica.

Em retrospecto, acho que tivemos uma boa discussão. Curar-me, ele não curou.

Ganhei um novo amigo que ficava sentado em meu colo o tempo todo. Era o gato, que tinha o talento de se esconder das pessoas que gostavam dele e de se afeiçoar àqueles que tinham problemas de respiração ou simplesmente não gostavam de pequenos animais sorrateiros. Contudo, possuíamos algo em comum: ele era o único outro mamífero heterossexual do sexo masculino a uma distância razoável. Tinha sido castrado, é claro, mas aquilo não fazia muita diferença, consideradas as circunstâncias.