Guerra sem fim
Capítulo 35
35
Meu rádio ainda estava ajustado na frequência geral. Após mais de uma semana de silêncio, meus ouvidos foram subitamente tomados por um balbucio alto e alegre.
Estávamos no centro de uma cratera de quase 1 quilômetro de largura e profundidade. Suas laterais constituíam uma crosta negra brilhante com algumas ranhuras vermelhas, quentes, mas agora inofensivas. O hemisfério de terra em que estávamos pousados havia afundado uns 40 metros cratera abaixo, enquanto ela ainda estava derretida; portanto, agora encontrávamo-nos como em um pedestal.
Nenhum tauriano à vista.
Fomos apressadamente para a nave, fechamos e a enchemos com ar fresco e tiramos nossos trajes. Não me vali da superioridade hierárquica para utilizar a única ducha; simplesmente me sentei em uma poltrona de aceleração e inspirei profundamente lufadas de ar que não tinham cheiro de Mandella reciclado.
A nave fora projetada para uma tripulação de no máximo doze pessoas, então nos revezávamos em turnos de sete pessoas para não sobrecarregar os sistemas de suporte vital. Enviei repetidamente uma mensagem para o outro caça, o qual ainda estava a seis semanas de distância, dizendo que estávamos bem e aguardávamos resgate. Eu tinha certeza de que haveria lugar para sete, já que as tripulações para uma missão de combate em geral eram formadas por apenas três pessoas.
Era bom andar e falar de novo. Oficialmente, suspendi todas as atribuições militares enquanto estivéssemos no planeta. Algumas pessoas eram sobreviventes do grupo rebelde de Brill, mas não demonstravam nenhuma hostilidade para comigo.
Jogamos uma espécie de jogo da nostalgia, comparando as várias eras que vivemos na Terra, imaginando como ela estaria nos setecentos anos à frente para os quais voltaríamos. Ninguém mencionou o fato de que, na melhor das hipóteses, teríamos uma licença de alguns meses e, depois, seríamos mais uma vez designados para outra força de ataque, outro giro da roda.
Rodas. Um dia Charlie me perguntou sobre a origem do meu nome, pois soava estranho para ele. Disse-lhe que se originou da falta de um dicionário e que, se fosse escrito da maneira correta, pareceria ainda mais estranho.
Tive de gastar uma boa meia hora para explicar todos os detalhes da escolha. Mas, basicamente, meus pais eram “hippies” (uma subcultura da segunda metade do século 20, nos Estados Unidos, que rejeitava o materialismo e abraçava um espectro bem amplo de ideias estranhas), que viviam com outros hippies numa pequena comunidade agrícola. Quando minha mãe ficou grávida, eles não quiseram seguir a tradição do casamento: isso queria dizer que a mulher adotava o nome do homem, o que implicava que ela era sua propriedade. Mas eles ficaram muito empolgados e sentimentais e decidiram que ambos iriam adotar o mesmo nome. Então eles foram até a cidade mais próxima, tentando decidir no caminho qual nome simbolizaria melhor o amor que sentiam um pelo outro. Quase que tive um nome bem mais curto, mas eles decidiram por Mandala.
A mandala era um desenho circular que os hippies haviam pegado emprestado de uma religião estrangeira e que simboliza o cosmos, a mente cósmica, Deus ou qualquer coisa que precise de um símbolo. Nem meu pai nem minha mãe sabiam como soletrar a palavra, e o magistrado da cidade escreveu da forma como ela soou a seus ouvidos.
Eles me batizaram de William em homenagem a um tio rico, que infelizmente morreu sem um tostão.
As seis semanas passaram agradavelmente: conversamos, lemos, descansamos. A outra nave pousou perto da nossa e possuía, de fato, nove lugares vagos. Distribuímo-nos entre as tripulações para que cada nave tivesse alguém capaz de solucionar problemas que surgissem na sequência do salto pré-programado. Escolhi ficar na outra nave, na esperança de que tivesse alguns livros novos. Não tinha.
Entramos nos tanques e partimos todos juntos.
• • •
Acabamos por passar muito tempo nos tanques, apenas para não olhar para os mesmos rostos, o dia todo, dentro da nave abarrotada. Os sucessivos períodos de aceleração nos levaram de volta ao Portal Estelar em dez meses subjetivos. Claro, isso representava 340 anos (menos sete meses) para um hipotético observador objetivo.
Havia centenas de cruzadores em órbita ao redor do Portal Estelar. Más notícias: com tantas naves aguardando, provavelmente não conseguiríamos licença.
Seria mais fácil eu ser julgado em corte marcial do que conseguir qualquer tipo de licença. Eu havia perdido 88% da minha companhia porque muitos deles não tinham confiança suficiente em mim para obedecer à ordem direta de retirada ante um terremoto. Além disso, não havíamos avançado nem um pouco em Sade-138: não havia taurianos lá, mas tampouco havia uma base.
Recebemos instruções de pouso e descemos direto, sem naves de transporte. Havia outra surpresa esperando por nós no espaçoporto. Dezenas de cruzadores estavam pousados (isso nunca havia ocorrido antes, por medo de que o Portal Estelar fosse alvejado), entre eles dois cruzadores taurianos. Nunca havíamos conseguido trazer um intacto.
Sete séculos poderiam ter nos trazido uma vantagem decisiva, é claro. Talvez estivéssemos vencendo.
Seguimos por uma câmara de compressão com a inscrição “regressos”. Após reporem o ar e termos tirado nossos trajes, uma linda jovem veio em nossa direção com um carrinho cheio de túnicas e nos disse, em um inglês perfeito, que nos vestíssemos e fôssemos ao salão de palestras no fim do corredor, à esquerda.
As túnicas eram estranhas: leves, mas aquecidas. Era a primeira coisa que eu vestia diferente do traje de combate ou de pele desnuda em quase um ano.
O salão de palestras era grande demais para apenas 22 de nós. A mesma mulher estava lá e pediu que nos sentássemos na frente. Aquilo era perturbador: eu poderia jurar que ela havia seguido pelo outro lado do corredor, tinha certeza, pois fiquei fascinado com a visão de suas costas.
Diabos, talvez eles tivessem transmissores de matéria. Ou teletransporte. Queriam economizar alguns passos…
Ficamos sentados lá por um minuto, e um homem, vestido com o mesmo tipo de túnica que nós e a mulher, cruzou o palco carregando uma pilha de cadernos grossos sob cada braço.
A mulher o seguiu, também carregando alguns cadernos.
Olhei atrás de mim, e ela ainda estava lá, parada no corredor. Para tornar as coisas ainda mais estranhas, o homem era virtualmente irmão gêmeo das duas.
O homem folheou um dos cadernos e pigarreou.
– Estes cadernos são para sua conveniência – disse ele, também com um inglês perfeito –, e vocês não precisam lê-los se não quiserem. Vocês não têm de fazer nada que não queiram, pois… são homens e mulheres livres. A guerra acabou.
Um silêncio de descrença.
– Como vocês lerão nesses livros, a guerra acabou 221 anos atrás. Desse modo, estamos no ano 220. Pelos padrões antigos, claro, é 3138 d.C. Vocês são o último grupo de soldados a retornar. Quando partirem, também partirei. E destruirei o Portal Estelar. Ele existe agora apenas como ponto de acolhimento para regressos e como monumento da estupidez humana. E vergonha. Como vocês lerão. Destruir este lugar será uma faxina.
Ele parou de falar, e a mulher começou sem fazer uma pausa.
– Lamento por tudo que passaram; eu desejaria poder dizer que foi por uma boa causa, mas, como vocês verão, não foi. Até mesmo a riqueza que acumularam, como salários atrasados e juros compostos, não tem mais valor, pois não se usa mais dinheiro ou crédito. Nem existe algo tal como uma economia em que poderão usar essas… coisas.
– Como já devem ter percebido – o homem retomou a palavra –, eu, nós somos clones de um mesmo indivíduo. Há uns 250 anos, meu nome era Kahn. Agora é Homem. Tive um antepassado direto em sua companhia, o cabo Larry Kahn. Entristece-me que ele não tenha retornado.
– Eu sou mais de 10 bilhões de indivíduos, mas uma só consciência – continuou ela. – Após lerem, tentarei esclarecer um pouco mais as coisas. Sei que será difícil entender. Os humanos não são mais criados, pois sou o padrão perfeito. Os indivíduos que morrem são substituídos. Existem alguns planetas, no entanto, em que os humanos nascem da maneira normal, da maneira mamífera. Se minha sociedade for muito estranha para vocês, podem ir para alguns desses planetas. Se quiserem tomar parte na procriação, não os desencorajarei. Muitos veteranos me pedem para mudar suas polaridades para heterossexual para que possam adaptar-se mais facilmente a estas outras sociedades. Isso eu posso fazer com muita facilidade.
Não se preocupe, Homem, apenas providencie a minha passagem.
– Vocês serão meus convidados aqui no Portal Estelar por dez dias, depois serão levados para onde quiserem – ele falou. – Por favor, até lá, leiam este livro. Sintam-se à vontade para perguntar qualquer coisa ou solicitar qualquer serviço.
Os dois se levantaram e deixaram o palco.
Charlie estava sentado ao meu lado.
– Inacreditável – disse ele. – Eles deixam… eles encorajam… homens e mulheres a fazer aquilo de novo? Juntos?
O Homem feminino do corredor estava sentado atrás de nós e respondeu antes que eu pudesse formular uma resposta razoavelmente simpática e hipócrita:
– Não se trata de julgar a sua sociedade – explicou ela, provavelmente não percebendo que Charlie havia levado um pouco mais para o lado pessoal. – Apenas sinto que é necessário como dispositivo de segurança eugênica. Não tenho evidências de que seja errado clonar apenas um indivíduo ideal, mas, se isto se mostrar um erro, haverá uma quantidade enorme de genes com os quais será possível recomeçar.
Ela deu um tapinha em seu ombro.
– Claro que você não precisa ir para esses planetas reprodutores. Você pode ficar em um de meus planetas. Não faço distinção entre brincadeira heterossexual e homossexual.
Ela voltou ao palco para falar longamente sobre onde ficaríamos, comeríamos e faríamos todas as outras coisas enquanto estivéssemos no Portal Estelar.
– Nunca fui seduzido por um computador antes – Charlie murmurou.
• • •
Aquela guerra, que durara 1.143 anos, começara por motivos equivocados e continuou apenas porque as duas raças não conseguiam se comunicar.
Uma vez que conseguiram conversar, a primeira pergunta foi: “Por que você começou este negócio?”, e a resposta foi: “Eu?”.
Os taurianos não conheceram a guerra por milênios, e, à medida que se aproximava o século 21, parecia que a humanidade também estava pronta para abandonar tal instituição. Mas os velhos soldados ainda estavam por ali, e muitos ocupavam posições de poder. Eles praticamente comandavam o Grupo Exploratório e de Colonização das Nações Unidas, que aproveitara o recém-descoberto salto colapsar para explorar o espaço interestelar.
Muitas das primeiras naves sofreram acidentes e desapareceram. Os ex-militares ficaram desconfiados. Então armaram embarcações de colonização e, na primeira vez em que encontraram uma nave tauriana, mandaram-na pelos ares.
Eles desempoeiraram suas medalhas, e o resto seria história.
No entanto, não se podia culpar exclusivamente os militares. As evidências que apresentaram de que os taurianos tinham sido os responsáveis pelas primeiras mortes foram risivelmente pobres. Os poucos que atentaram para aquilo foram simplesmente ignorados.
O fato era que a economia da Terra precisava de uma guerra, e esta era a guerra ideal. Ela criou um ótimo buraco onde se podia despejar baldes de dinheiro, mas que uniria a humanidade, em vez de dividi-la.
Os taurianos reaprenderam a guerrear, até certo ponto, mas nunca chegaram a ser realmente bons naquilo e acabaram perdendo. O livro explicava que não conseguiam se comunicar com os humanos por não possuírem um conceito de indivíduo; eram clones naturais havia milhões de anos. Ao final, cruzadores da Terra eram tripulados por Homem, clones de Kahn, e, pela primeira vez, foi possível uma comunicação entre eles.
O livro apresentava tal fato como trivial. Pedi a um Homem que me explicasse o que significava, o que havia de especial na comunicação entre clones, e ele respondeu que, a priori, eu não conseguiria entender. Não havia palavras que pudessem descrever, e meu cérebro não seria capaz de assimilar os conceitos, mesmo se existissem palavras.
Tudo bem. Soou meio duvidoso, mas eu estava disposto a aceitar. Eu até aceitaria que em cima é embaixo, se isto significasse que a guerra havia terminado.
• • •
Homem era uma entidade bastante atenciosa. Deu-se ao trabalho de reabrir um pequeno restaurante-taverna e mantê-lo funcionando 24 horas somente para atender a nós, os 22 sobreviventes. Nunca vi um Homem bebendo ou comendo… acho que descobriram uma forma de contornar a questão.
Eu estava sentado lá certa noite, bebendo cerveja e lendo o livro deles, quando Charlie entrou e sentou-se ao meu lado.
Sem preâmbulos, disse:
– Vou dar uma chance.
– Dar uma chance para o quê?
– Para as mulheres. Hétero. – Ele deu de ombros. – Sem querer ofender… não é muito instigante. – Deu um tapinha na minha mão com um olhar distraído. – Mas a alternativa… você já experimentou?
– Bem… não, não experimentei.
O Homem feminino era um deleite visual, mas somente no mesmo sentido que uma pintura ou uma escultura. Eu simplesmente não conseguia vê-los como seres humanos.
– Não experimente. – Ele não deu maiores detalhes. – Além do mais, eles, ele, ela dizem… que podem me transformar no que era antes facilmente, caso eu não goste.
– Você vai gostar, Charlie.
– Claro… é o que eles dizem.
Ele pediu um drinque espesso e prosseguiu:
– É que não parece natural. De qualquer forma, já que, hum, vou me transformar, você se importa se… por que não vamos para o mesmo planeta?
– Claro, Charlie! Isso seria ótimo! – Eu estava sendo sincero. – Você sabe para onde vai?
– Pra qualquer lugar, caramba. Contanto que seja para longe daqui.
– Será que Paraíso ainda é tão bom…?
– Não – disse Charlie, apontando o garçom com o dedo.
– Ele mora lá.
– Não sei. Acho que deve haver uma lista.
Nesse momento, um homem veio até a taverna empurrando um carrinho cheio de pastas:
– Major Mandella? Capitão Moore?
– Somos nós – Charlie respondeu.
– Estes são seus registros militares. Espero que sejam de seu interesse. Foram convertidos em papel quando sua força de ataque passou a ser a única que restava, pois não seria prático manter em funcionamento as redes normais de dados a fim de preservar tão pouco material.
Eles sempre antecipavam as perguntas, mesmo quando não havia nenhuma.
Minha pasta era tranquilamente umas cinco vezes mais grossa que a de Charlie. Talvez mais grossa que a de qualquer outro, já que eu parecia ser o único recruta que acompanhou a guerra toda. Pobre Marygay!
– Fico imaginando que tipo de registro o velho Stott deixou sobre mim – comentei, abrindo na primeira página.
Havia um pequeno quadrado de papel grampeado na página da frente. Todas as outras páginas eram imaculadamente alvas, mas esta em especial estava amarelada pelo tempo, e suas bordas estavam desgastadas.
A caligrafia era familiar, familiar demais, mesmo depois de tanto tempo. A data era de mais de 250 anos atrás.
Estremeci e, subitamente, lágrimas anuviaram minha visão. Eu não tinha razões para imaginar que ela continuava viva. Mas nunca tive plena certeza de que estivesse morta, não até ver aquela data.
– William? O que…
– Deixe-me a sós, Charlie. Só um minuto.
Sequei os olhos e fechei a pasta. Nem deveria ter visto a maldita nota. Eu estava indo para uma nova vida, deveria deixar os velhos fantasmas para trás.
Contudo, mesmo uma mensagem do túmulo era um tipo de contato. Abri a pasta novamente.
11 DE OUTUBRO DE 2878. WILLIAM,
Tudo isto está em seu arquivo pessoal. Mas, como conheço você, sei que talvez atire longe. Então procurei me certificar de que esta nota chegasse às suas mãos.
Obviamente, sobrevivi. Talvez você também
sobreviva. Venha me fazer companhia.
Sei, pelos registros, que você foi para Sade-138 e
não voltará por alguns séculos. Sem problema.
Vou para um planeta chamado Dedo Médio, o quinto
planeta para além de Mizar. Fica a dois saltos colapsares, dez meses subjetivos. Dedo Médio é um tipo de exílio para heterossexuais. Eles o chamam de “base de controle eugênica”.
Não importa. Consumiu todo o meu dinheiro e todo o
dinheiro de cinco outros veteranos, mas compramos um cruzador da FENU e o estamos usando como máquina do tempo.
Portanto, estou em trânsito relativo, esperando por
você. Tudo que ele faz é avançar 5 anos-luz e voltar para Dedo Médio, bem depressa. A cada dez anos, envelheço cerca de um mês. Então, se ainda estiver vivo, estarei com apenas 28 anos quando você chegar aqui. Apresse-se!
Nunca mais encontrei ninguém e não quero outra
pessoa. Não me importa se você estiver com 90 anos ou 30. Se eu não puder ser sua amante, serei sua enfermeira.
MARYGAY
– Garçom, me diga uma coisa.
– Sim, major?
– Você conhece um planeta chamado Dedo Médio? Ainda existe?
– Claro que sim. Por que não existiria? – Pergunta razoável. – Um ótimo lugar. Um planeta arborizado. Alguns não acham muito animado.
– Do que se trata? – Charlie perguntou.
Entreguei ao garçom meu copo vazio.
– Acabei de descobrir para onde vamos.