Guerra sem fim
Capítulo 23
23
Não dei muita bola para o fato, mas, com certeza, éramos celebridades na Terra: os primeiros veteranos de guerra voltando para casa. O secretário-geral parabenizou-nos no Kennedy e tivemos uma semana inteira de banquetes, recepções, entrevistas e tal. Foi tudo muito agradável… e rentável também (ganhei 1 milhão de quilocalorias das revistas Time-Life/Fax), mas vimos muito pouco da Terra. Só depois, quando as pessoas perderam um pouco do interesse pela novidade, pudemos meio que tocar a nossa vida.
Na Estação Central, peguei um trem para Washington, voltando para casa. Quando ainda estava no Kennedy, minha mãe foi ao meu encontro, súbita e desafortunadamente envelhecida, e contou-me que meu pai havia morrido em um acidente de avião. Eu ficaria com ela até conseguir emprego.
Ela estava morando em Columbia, uma cidade-satélite de Washington. Havia voltado a morar na cidade após a Guerra de Racionamento, mas o crime crescente e a precariedade dos serviços forçaram-na a partir novamente.
Minha mãe foi esperar por mim na estação de trem. Ao seu lado estava um homem imenso, loiro, que usava uniforme preto de vinil e carregava uma grande pistola na cintura e um soco-inglês com pontas na mão direita.
– William, este é Carl, meu guarda-costas e caríssimo amigo.
Carl retirou o soco-inglês da mão para me dar um cumprimento, surpreendentemente gentil.
– Prazê em ti conhecê, Sinhô Mandella.
Entramos em um carro baixo que tinha o nome “Jefferson” escrito na cor laranja brilhante. Achei que fosse um nome um tanto estranho para dar a um carro, mas depois descobri que era o nome do prédio onde mamãe e Carl moravam. O carro era um dos muitos que pertenciam à comunidade, e ela pagava 100 quilocalorias por quilômetro para usá-lo.
Tive de admitir que Columbia era bem bonita: jardins, muitas árvores, muito gramado. Mesmo os prédios, cônicos amontoados de granito com árvores crescendo em locais estranhos, assemelhavam-se mais a montanhas que a construções. Carl dirigiu até o sopé de uma dessas montanhas, percorrendo um corredor bem iluminado onde muitos outros carros também estavam estacionados. Ele carregou minha única mala até a porta do elevador, onde a colocou no chão.
– Dona Mandella, se estivé tudo bem co’ a sinhora, eu priciso ir pegá a dona Freeman por volta das cinco. Ela tá na Ala Oeste.
– Claro, Carl. William pode tomar conta de mim. Ele é um soldado, sabe?
Era verdade! Eu me lembrava de ter aprendido oito formas furtivas de matar um homem. Se porventura as coisas ficassem muito ruins, eu poderia conseguir um trabalho como o de Carl.
– Tá beleza, dona! Comé que é lá em cima, cara?
– Enfadonho, na maior parte do tempo – respondi automaticamente. – Quando você não está entediado, está com medo.
Ele acenou com a cabeça de forma discreta:
– Foi o que ouvi dizer. Dona Mandella, tarei livre quaisqué hora depois das seis, beleza?
– Está certo, Carl.
O elevador chegou, e um rapaz bem magro e alto saiu de dentro dele, com um baseado apagado balançando nos lábios. Carl passou os dedos sobre as pontas de seu soco-inglês, e o garoto acelerou o passo.
– Tem que tomá cuidado co’esses viajante. S’cuida, Dona Mandella.
Entramos no elevador e mamãe apertou o 47.
– O que é um viajante?
– Ah, são apenas jovens que ficam subindo e descendo pelos elevadores, procurando por pessoas indefesas sem guarda-costas. Eles não representam grande problema por aqui.
O 47º andar era um grande shopping cheio de lojas e escritórios. Fomos a uma loja de alimentos.
– Você já tem seu livro de ração, William?
Respondi que não, mas que a Força havia me dado alguns vales de viagem somando 100 mil “calorias” e que eu tinha usado apenas metade deles. Era um pouco confuso, mas explicaram para nós.
Quando o mundo decidiu adotar uma moeda única, procurou-se, de alguma maneira, coordená-la com o racionamento alimentar, na esperança de, algum dia, eliminar os livros de ração. Então criaram a nova moeda, kcal – quilocalorias, pois é a unidade que mede a energia dos alimentos. No entanto, uma pessoa que come 2 mil quilocalorias de bife por dia obviamente tem de pagar mais do que uma pessoa que come o mesmo tanto em pães. Então, instituíram uma coisa chamada “fator de ração”, algo tão complicado que ninguém conseguia entender. Após algumas semanas, voltaram a usar os livros, mas chamando as quilocalorias alimentares de “calorias”, numa tentativa de tornar as coisas menos confusas. Para mim, parecia que eles evitariam muitos problemas se tornassem a chamar o dinheiro de dólar, rublo ou sestércio… qualquer coisa menos quilocalorias.
O preço dos alimentos era absurdo, com exceção dos grãos e dos legumes. Apesar disso, insisti em nos darmos ao luxo de um pouco de boa carne vermelha: 1.500 calorias de carne moída custavam 1.730 quilocalorias. A mesma quantidade de bife falso (feito com grãos de soja) teria custado 80.
Também peguei um pé de alface por 140 quilocalorias e uma pequena garrafa de azeite por 175 quilocalorias. Mamãe disse que já tinha vinagre. Comecei a comprar alguns cogumelos, mas ela falou que uma vizinha os cultivava e que poderíamos trocá-los por algo da horta de sua varanda.
Seu apartamento ficava no 92º andar, e ela se desculpou pela falta de espaço. Não parecia tão pequeno para mim, porém, ela nunca havia vivido em uma espaçonave.
Apesar de o apartamento estar em um andar tão alto, havia barras nas janelas. A porta possuía quatro fechaduras, das quais uma não funcionava, pois alguém tentara arrombá-la com um pé de cabra.
Mamãe foi para a cozinha transformar a carne moída em almôndega. Eu me acomodei para ler as notícias vindas no fax da noite. Ela arrancou algumas cenouras de sua pequena horta e chamou a moça dos cogumelos; o filho dela veio até nós para fazer a troca. Ele tinha um rifle dependurado embaixo do braço.
– Mãe, onde está o resto do Estrela? – chamei-a na cozinha.
– Até onde eu saiba, está tudo aí. O que você estava procurando?
– Bem… encontrei a seção de classificados, mas nenhum “precisa-se”.
Ela riu.
– Filho, há dez anos não sai um anúncio de “precisa-se”. O governo é que cuida dos empregos… bem, da maioria deles.
– Todos trabalham para o governo?
– Não, não é isso.
Ela veio até mim, enxugando as mãos em uma toalha desgastada.
– O governo, ao menos é o que eles dizem, trata da distribuição de todos os recursos naturais. E poucos recursos são mais valiosos que vagas de empregos.
– Então vou falar com eles amanhã.
– Não se preocupe, filho. Quanto você disse que a Força vai pagar de aposentadoria?
– Vinte mil quilocalorias por mês. Não me parece que dá para muita coisa.
– Não, não dá. Mas a pensão que seu pai deixou para mim é metade disso, e não quiseram me arranjar emprego. Os empregos são distribuídos por ordem de necessidade. Você tem de estar vivendo a arroz e água para que a Comissão de Emprego o considere necessitado.
– Que diabos, é uma burocracia… Deve ter alguém que eu possa subornar para me encaixar em um bom…
– Não. Lamento, mas este setor das Nações Unidas é absolutamente incorruptível. A coisa toda é cibernética, intocável por almas humanas. Você não pode…
– Mas você disse que tinha emprego.
– Eu ia chegar lá. Se você realmente quiser, tem de procurar um negociante e, às vezes, pegar um subemprego.
– Subemprego? Negociante?
– Meu emprego é um exemplo, filho. Uma mulher chamada Hailey Williams trabalha em um hospital controlando uma máquina que analisa sangue, uma máquina cromatográfica. São seis noites de trabalho por semana, pelas quais se recebe 12 mil quilocalorias semanais. Ela se cansou do trabalho, contatou um negociante e informou que seu emprego estava disponível. Algum tempo antes disso, eu havia pago ao negociante uma taxa inicial de 50 mil quilocalorias para entrar na lista dele. Ele veio até mim, descreveu o tipo de trabalho e falei que tudo bem, que eu aceitava. O negociante sabia que eu aceitaria, e já tinha identidade e uniforme falsos. Ele distribui pequenos subornos aos vários supervisores que possam conhecer a srta. Williams de vista. A srta. Williams me ensina como operar a máquina e vai embora. O pagamento semanal de 12 mil quilocalorias continua sendo creditado em sua conta, mas ela me repassa a metade. Pago ao negociante 10% e acabo ficando com 5,4 mil quilocalorias por semana. Isto, somado às 9 mil quilocalorias que recebo mensalmente da pensão de seu pai, me deixa em uma situação bem confortável. Mas aí a coisa ficou complicada. Eu tinha bastante dinheiro, mas muito pouco tempo, então contatei o negociante novamente para que ele sublocasse metade do meu trabalho. No dia seguinte, apareceu uma moça que também se identificou como sendo Hailey Williams. Mostrei-lhe como operar a máquina, e ela ficou com as segundas, quartas e sextas-feiras. A metade do meu salário integral é 2.700 quilocalorias, então ela fica com metade dele, 1.350 quilocalorias, e paga ao negociante 135 quilocalorias.
Ela pegou um bloco de papel e uma caneta e fez alguns cálculos.
– Portanto, a verdadeira Hailey Williams recebe 6 mil quilocalorias semanais para não fazer nada. Eu trabalho três dias por semana por 4.050 quilocalorias. Minha assistente trabalha três dias por semana por 1.115 quilocalorias. O negociante fica com 100 mil quilocalorias em taxas e 735 quilocalorias por semana. Desproporcional, não é?
– Hum… É verdade. E ilegal também, creio.
– No caso do negociante. Se a Comissão de Emprego descobre, todos os envolvidos perdem o trabalho e têm de começar de novo. Mas o negociante sofre lavagem cerebral.
– Acho melhor eu procurar um negociante enquanto ainda posso arcar com os 50 mil. – Na verdade, eu ainda tinha mais de 3 milhões, mas planejava gastar a maior parte em pouco tempo. Diabos, fiz por merecer.
• • •
Eu estava me preparando para ir na manhã seguinte, quando minha mãe chegou com uma caixa de sapatos. Dentro havia uma pequena pistola em um coldre.
– Isto pertenceu a seu pai – ela disse. – É melhor levá-la, se planeja ir ao centro da cidade sem guarda-costas.
Era um revólver com balas ridiculamente finas. Peguei a arma e avaliei seu peso.
– Papai a usou alguma vez?
– Várias vezes… mas apenas para afugentar viajantes e trombadinhas. Ele nunca teve de atirar de verdade em ninguém.
– Você deve estar certa ao dizer que preciso de uma arma – falei, colocando-a de volta na caixa. – Mas vou precisar de algo mais potente. Posso comprar uma legalmente?
– Claro, há uma loja de armas lá embaixo, no shopping. Contanto que não tenha passagem pela polícia, você pode comprar qualquer coisa que queira.
– Ótimo. Eu pretendia comprar uma pequena arma a laser. Eu mal conseguiria acertar a parede com uma pistola propulsionada a pólvora.
– Mas… William, eu me sentiria muito mais tranquila se você contratasse um guarda-costas, pelo menos até conhecer bem as redondezas.
Havíamos conversado a respeito na noite passada. Sendo um oficial treinado para matar, eu me considerava mais durão que qualquer idiota que eu pudesse contratar para o trabalho.
– Vou ver, mãe. Não se preocupe… Nem vou ao centro hoje, só até Hyattsville.
– É tão ruim quanto o centro.
Quando o elevador chegou, já estava ocupado. Um homem um pouco mais velho do que eu, com a barba feita e bem-vestido, olhou-me de forma afável quando entrei. Ele deu um passo para trás para que eu tivesse acesso ao painel de botões. Apertei o 47 e, então, dando-me conta de que sua atitude poderia não ser apenas educação, virei-me e o flagrei lutando para tirar um cano metálico preso na cintura da calça. Estava escondido sob a capa.
– Vem cá, colega – falei, levando as mãos a uma arma que não existia. – Você quer levar chumbo? – Ele conseguiu tirar o cano, mas o deixou dependurado de lado.
– Levar chumbo?
– É. Ser morto. Termo do exército.
Dei um passo na direção dele, tentando recordar. Chutar pouco abaixo do joelho, depois virilha ou rins. Decidi que seria na virilha.
– Não! – Ele pôs o cano de volta na cintura. – Não quero “levar chumbo”.
A porta se abriu no 47º andar e saí.
A loja de armas era toda de plástico branco brilhante e metal preto cintilante. Um pequeno homem careca aproximou-se para me atender. Ele carregava uma arma pendurada no ombro.
– E um bom-dia para o senhor também – falou, dando uma risadinha. – O que vai ser hoje?
– Uma arma a laser leve. Dióxido de carbono – falei.
Ele olhou para mim confuso e, depois, desanuviou a expressão.
– É pra já, senhor. – Mais risadinhas. – Oferta especial do dia: vem com algumas granadas de táquions.
– Certo. – Elas seriam úteis.
Ele olhou para mim, aguardando:
– E então? Qual o desfecho?
– Como é?
– A piada, cara. Você começou, agora termine. Laser… – Risadinhas.
Eu estava começando a entender.
– Quer dizer que não posso comprar uma arma a laser?
– Claro que não, gracinha – falou isto e ficou sério. – Você não sabia?
– Estive fora do país por um bom tempo.
– Do mundo, você quer dizer. Você esteve fora do mundo por um bom tempo.
Ele pôs a mão esquerda sobre o quadril rechonchudo em um gesto que, incidentalmente, tornava mais fácil sacar a arma. Coçou o meio do peito…
Eu fiquei bem paradinho.
– Tá certo. Acabei de sair da Força.
Seu queixo caiu.
– Ei, está de brincadeira? Você esteve mandando bala no espaço?
– Isso mesmo.
– Ei, todo aquele papo de que não se envelhece é mentira, né?
– É verdade. Eu nasci em 1975.
– Nossa… caramba! Você é quase tão velho quanto eu. – Ele deu uma risadinha. – Pensei que fosse mais uma história que o governo havia inventado.
– De qualquer forma… você disse que não posso comprar um laser…
– Ah, não. Não, não e não. Eu tenho um comércio legal.
– O que posso comprar?
– Ah… pistola, rifle, espingarda, faca, armadura corporal… menos lasers, explosivos ou armas totalmente automáticas.
– Deixe-me ver uma pistola. A maior que tiver.
– Ah, tenho a coisa certa.
Ele me levou a um mostruário e abriu-o pela parte de trás, tirando de lá um revólver enorme.
– Calibre 410 de seis disparos. – Ele o segurou com ambas as mãos. – Derruba até dinossauro. Autêntico estilo Velho Oeste. Balas ou dardos.
– Dardos?
– Exato!… Bem, é uma porção de dardos minúsculos. Você atira, e eles se espalham seguindo um padrão. Difícil de errar assim.
Parecia bem apropriada para mim.
– Posso testá-la em algum lugar?
– Claro, claro! Temos um local nos fundos. Deixe-me chamar meu assistente.
Ele soou uma campainha, e um rapaz veio tomar conta da loja enquanto íamos para os fundos. No caminho, ele pegou uma caixa vermelha e verde com balas de espingarda.
A área de testes era dividida em duas partes: uma pequena antessala com porta de plástico transparente e um longo corredor do outro lado da porta com uma mesa em um canto e alvos no outro. Atrás dos alvos, havia uma folha de metal que, evidentemente, desviava as balas, fazendo com que caíssem em uma banheira com água.
Ele carregou a arma e pousou-a sobre a mesa.
– Por favor, só pegue a arma depois que a porta estiver fechada.
Dirigiu-se para a antessala, fechou a porta e apanhou um microfone.
– Ok! Como é sua primeira vez, é melhor segurá-la com as duas mãos.
Foi o que fiz, elevando-a e alinhando-a com o alvo central, um quadrado de papel que parecia ter o tamanho de uma foto 3x4. Duvidei de que sequer chegaria perto. Puxei o gatilho, ele respondeu facilmente, mas nada aconteceu.
– Não, não – ele falou pelo microfone, com uma risadinha. – Autêntico estilo Velho Oeste. Você tem de puxar a trava na parte de trás.
Claro, como nos filmes. Puxei a trava, alinhei novamente e pressionei o gatilho.
O barulho foi tão alto que fiz até uma careta. A arma deu um tranco tão grande que quase me acertou na testa. Mas os três alvos centrais tinham ido pelos ares: apenas minúsculos fragmentos de papel flutuavam no ar.
– Vou levar.
O homem aproveitou para me vender um coldre de cintura, vinte balas, um colete à prova de balas e uma espécie de adaga que ficava na bainha da bota. Senti como se estivesse mais fortemente armado do que quando usava o uniforme de combate, porém, sem Waldos para ajudar na locomoção.
Nos trens, havia dois guardas em cada vagão. Comecei a achar que toda a minha artilharia pesada era desnecessária, até o momento em que desci na estação de Hyattsville.
Todos que desciam em Hyattsville ou estavam fortemente armados ou tinham um guarda-costas. As pessoas que se demoravam na estação estavam todas armadas. A polícia portava lasers.
Pressionei um botão “chamar táxi”, e o leitor avisou que o meu seria o de número 3856. Perguntei a um policial, e ele me orientou a aguardar o carro lá embaixo, na rua. Ele daria apenas duas voltas no quarteirão.
Durante os cinco minutos que esperei, por duas vezes ouvi o som seco de disparos, ambos a uma boa distância. Fiquei feliz por ter comprado o colete.
Dali a pouco, chegou o táxi. Ele parou próximo ao meio-fio quando acenei, abrindo a porta à medida que parava. Parecia que funcionava da mesma maneira que os autotáxis dos quais me lembrava. A porta se manteve aberta enquanto ele conferia minhas impressões digitais para verificar se eu era mesmo a pessoa que havia chamado o táxi, depois a porta bateu com força para fechar. O táxi era feito de uma camada grossa de aço. A vista através das janelas era opaca e distorcida. Provavelmente plástico grosso à prova de balas. Diferente do que eu me lembrava.
Tive de folhear um livro meio encardido para encontrar o código do endereço do bar em Hyattsville onde eu me encontraria com o negociante. Digitei rapidamente e recostei-me para observar a cidade.
Aquela parte da cidade era bem residencial: prédios de tijolos acinzentados construídos mais ou menos na metade do último século disputando espaço com arranjos modulares mais modernos e, ocasionalmente, casas individuais rodeadas por altos muros, de tijolo ou concreto, com cacos de vidro e arame farpado no topo. Algumas poucas pessoas pareciam ir a algum lugar, caminhando depressa pelas calçadas, com as mãos nas armas. A maioria das pessoas que vi estava sentada na entrada de suas casas, fumando, ou vagando diante de lojas em grupos de, no mínimo, seis pessoas. Tudo em volta era sujo e atravancado. As sarjetas estavam entulhadas de lixo e havia imensa quantidade de papéis esvoaçando no vento produzido pelo trânsito leve.
Era compreensível, apesar de tudo. Varrer ruas devia ser uma profissão de alto risco.
O táxi parou em frente ao Bar e Grill Tom & Jerry e desci após pagar 430 quilocalorias. Pisei na calçada já com a mão na pistola, mas não havia ninguém em volta. Entrei logo no bar.
Era surpreendentemente limpo do lado de dentro. A luz era fraca e a decoração feita com couro e pinheiro falsos. Fui em direção ao balcão, tomei uma dose de falso Bourbon e, presumivelmente, água verdadeira por 120 quilocalorias. A água custou vinte calorias. Uma garçonete aproximou-se com uma bandeja.
– Vai uma, irmão?
A bandeja estava cheia de antigas agulhas hipodérmicas.
– Hoje não, obrigado.
Se eu fosse “tomar uma”, usaria aerossol. As agulhas pareciam anti-higiênicas e dolorosas.
Ela colocou as drogas no balcão e acomodou-se em um banquinho perto de mim. Apoiou o queixo em uma das mãos e olhou para seu reflexo no espelho atrás do bar.
– Meu Deus… terça-feira…
Resmunguei qualquer coisa.
– Quer ir lá atrás dar uma rapidinha?
Olhei para ela com um olhar que eu esperava fosse neutro. Ela vestia apenas uma saia curta feita de tecido fino que formava um pequeno V na parte da frente, expondo os ossos de seus quadris e alguns pelos pubianos descoloridos. Fiquei imaginando o que segurava a saia. Ela não era feia, devia ter entre 20 e 40 anos. Como era inimaginável o que se podia conseguir com as cirurgias cosméticas e as maquiagens hoje em dia, ela talvez fosse até mais velha do que minha mãe.
– Obrigado, de qualquer maneira.
– Hoje não?
– Exatamente…
– Posso conseguir um rapaz se…
– Não. Não, obrigado! – Que mundo!
Ela fez beicinho diante do espelho, uma expressão que era provavelmente mais antiga do que o Homo sapiens.
– Você não gosta de mim.
– Eu acho você bem atraente, mas não foi para isso que vim.
– Bem… cada um se diverte do seu jeito – deu de ombros. – Ei, Jerry, traz uma cerveja pequena para mim.
Ele trouxe.
– Ai, caramba, minha bolsa está no armário. Você pode me emprestar quarenta calorias?
Eu tinha vales de racionamento suficientes para um banquete. Saquei um vale de 50 e o dei ao barman.
– Nossa! – Ela olhou para mim. – Como conseguiu um livro inteiro já no final do mês?
Contei-lhe, com o mínimo de palavras possível, quem eu era e por que tinha tantas calorias. Havia livros para dois meses esperando por mim em minha caixa de correio, e eu ainda nem tinha usado as calorias que a Força havia me dado. Ela se ofereceu para comprar um livro meu por 10 mil, mas eu não queria me envolver em mais de um empreendimento ilegal por vez.
Dois homens entraram, um desarmado e o outro com uma pistola e uma metralhadora. O guarda-costas sentou-se perto da porta e o outro veio até mim.
– Sr. Mandella?
– Isso mesmo.
– Podemos nos sentar em uma cabine? – Nem falou seu nome.
Ele tomou uma xícara de café, e eu dei uns goles em uma caneca de cerveja.
– Não mantenho registros escritos, mas tenho excelente memória. Diga-me em que tipo de trabalho você está interessado, quais são as suas qualificações, que salário aceitaria e por aí vai.
Falei que preferiria esperar por um trabalho no qual pudesse utilizar meus conhecimentos de física – ensino ou pesquisa, até mesmo engenharia. Eu não precisaria de trabalho por dois ou três meses, já que planejava viajar e gastar dinheiro por um tempo. Queria pelo menos 20 mil quilocalorias mensais, mas o quanto eu aceitaria dependeria da natureza do trabalho.
Ele não disse uma palavra até eu terminar.
– Muito bem! Infelizmente… não será fácil conseguir um emprego na área de física. Lecionar está fora de questão. Não posso providenciar uma ocupação em que a pessoa estará constantemente exposta ao público. Pesquisa, bem, seu diploma já tem quase um quarto de século. Você teria de voltar a estudar, talvez por mais cinco ou seis anos.
– Talvez eu faça isso – respondi.
– A única característica realmente “vendável” que você tem é a experiência de combate. Talvez eu possa colocá-lo no cargo de supervisão em uma agência de guarda-costas até por mais de 20 mil. Você também poderia ganhar quase esse valor sendo guarda-costas.
– Obrigado, mas eu não iria querer me arriscar para proteger outra pessoa.
– Está certo, então. Não posso dizer que o reprovo. – Ele terminou seu café em um gole longo e ruidoso. – Bom… tenho de correr, tenho um milhão de coisas para fazer. Pensarei no seu caso e falarei com algumas pessoas.
– Ótimo! A gente se vê em alguns meses.
– Maravilha. Não precisa marcar um encontro. Venho aqui todos os dias às onze horas para um café. Simplesmente apareça.
Terminei minha cerveja e chamei um táxi para levar-me de volta para casa. Eu queria dar uma volta pela cidade, mas mamãe tinha razão: deveria arranjar um guarda-costas primeiro.