Guerra sem fim
Tenente Mandella, 2024–2389 D.C.
27
– Rápido e sujo!
Eu estava olhando para o sargento do meu pelotão, Santesteban, mas falava comigo mesmo e com qualquer um que estivesse ouvindo.
– É isso aí! – disse ele. – Temos de fazer nos primeiros minutos, senão nos ferramos legal. – Ele era prosaico, lacônico… Drogado.
A soldado Collins apareceu com Halliday. Estavam de mãos dadas, à vontade.
– Tenente Mandella? – A voz dela estava um pouco falha. – Podemos ter um momento para nós?
– Só um minuto – respondi abruptamente. – Temos de partir em cinco. Sinto muito.
Difícil olhar aquelas duas juntas agora. Nenhuma delas tinha experiência de combate, mas sabiam o que todos sabiam, quão pequena era a chance de um dia ficarem juntas novamente. Elas correram para um canto e sussurraram algumas palavras, trocaram carícias de maneira mecânica, sem paixão ou conforto. Os olhos de Collins brilhavam, mas ela não estava chorando. Halliday só parecia sombria, entorpecida. Normalmente, ela era de longe a mais bonita das duas, mas sua vivacidade tinha se esvaído, deixando apenas uma couraça apática.
Acostumei-me com a homossexualidade feminina aberta poucos meses depois de deixarmos a Terra. Até parei de me aborrecer com a perda de parceiras em potencial. No entanto, ver homens juntos ainda me dava arrepios.
Tirei a roupa e vesti meu traje, que mais parecia uma concha. Estes trajes novos eram muito mais complicados, com todos os novos itens para manutenção biométrica e manutenção relativa a trauma. No entanto, valia a pena o esforço de vesti-los, para o caso de sermos detonados um pouquinho. Aí, voltaríamos para casa com uma pensão confortável e uma prótese heroica. Eles até falavam na possibilidade de regeneração, pelo menos para pernas e braços amputados. Melhor trabalharem nisso logo, antes que o Paraíso fique cheio de pessoas mutiladas. Paraíso era o novo planeta hospital ou de descanso e recreação.
Terminei a sequência de ajustes, e o traje se fechou sozinho. Cerrei os dentes prevendo a dor que seria provocada pelos sensores internos e tubos de fluidos fincados em meu corpo, mas não a senti. Por causa do desvio do condicionamento neural, sentíamos apenas um deslocamento leve e incômodo, em vez de um monte de cortes.
Collins e Halliday estavam entrando em seus trajes agora, e os outros doze estavam quase prontos. Fui até a plataforma do terceiro pelotão dizer adeus novamente a Marygay.
Ela já estava dentro do seu traje e veio em minha direção. Tocamos nossos capacetes, em vez de usar os rádios. Privacidade.
– Está se sentindo bem, amor?
– Tudo bem – respondeu ela. – Tomei minha pílula.
– É, bons tempos.
Eu também havia tomado a minha, com a premissa de que me faria sentir mais otimista sem interferir na minha capacidade de julgamento. Sabia que a maioria de nós provavelmente morreria, mas não me sentia muito mal por causa disso.
– Dorme comigo esta noite?
– Se nós dois estivermos aqui… – ela respondeu com neutralidade. – Temos de tomar uma pílula para isso também. – Ela tentou rir. – Para dormir, quero dizer. Como os novatos estão encarando? Você tem dez?
– Isso mesmo, dez. Eles estão bem. Dopei-os com um quarto de dose.
– Fiz o mesmo, para tentar deixá-los relaxados.
De fato, Santesteban era o único outro veterano combatente em meu pelotão. Os quatro cabos estiveram na FENU por um tempo, mas nunca haviam lutado.
O alto-falante no osso da minha face chiou: era o comandante Cortez.
– Dois minutos. Alinhem seu pessoal!
Terminamos de nos despedir e voltei para checar meu grupo. Todos tinham vestido o traje sem problemas, então eu os alinhei. Esperamos por um tempo que pareceu eterno.
– Tá legal! Carregando! – Ao final da palavra “carregando”, a porta do compartimento à minha frente se abriu (todo o ar da plataforma já tinha sido removido) e encaminhei meu pessoal para a nave de ataque.
As novas naves eram feias como o diabo. Uma mera estrutura aberta com braçadeiras para manter as pessoas no lugar, com lasers giratórios na proa e na popa e pequenas centrais taquiônicas sob os lasers. Tudo automatizado. A máquina permitiria que pousássemos o mais rápido possível para podermos atacar o inimigo. Era uma nave teleguiada descartável que só poderia ser utilizada uma vez. O veículo que nos resgataria, caso sobrevivêssemos, estava bem ao lado, e era muito mais bonito.
Prendemo-nos às braçadeiras, e a nave de ataque partiu da Sangre y Victoria impulsionada pelos motores de propulsão. A voz da máquina fez uma breve contagem regressiva, e partimos a uma aceleração de 4 gravidades direto para baixo.
O planeta, para o qual não nos preocupamos em dar nome, era um pedaço de rocha preta sem nenhuma estrela por perto que pudesse lhe fornecer calor. Inicialmente, só podíamos avistá-lo por causa da ausência de estrelas, pois sua massa impedia a passagem da luz, mas, à medida que nos aproximávamos, podíamos ver sutis variações no negror de sua superfície. Pousaríamos no hemisfério contrário ao posto avançado dos taurianos.
Nossa expedição de reconhecimento mostrou que sua base estava localizada no meio de uma planície de lava de centenas de quilômetros de diâmetro. Era bem primitiva se comparada a outras bases taurianas que a FENU havia encontrado, porém nesta não havia como pegá-los de surpresa. Faríamos um deslocamento pelo horizonte por uns 15 quilômetros. Quatro naves convergiriam simultaneamente vindas de diferentes direções. Todos desaceleraríamos como loucos, na esperança de pousar diretamente no colo deles já atirando. Não teríamos como nos esconder.
Eu não estava preocupado, claro. Mas, de certa maneira, preferia não ter tomado aquela pílula.
Nós nos nivelamos a aproximadamente 1 quilômetro da superfície e aceleramos bem mais rápido do que a velocidade de escape do planeta, constantemente corrigindo a rota para evitar que nos afastássemos. A superfície abaixo de nós passava veloz como se fosse um borrão cinza-escuro. Irradiávamos uma pequena luz pseudo-cherenkov produzida pelo nosso exaustor taquiônico, que saía apressada da nossa realidade para uma realidade própria.
A engenhoca pouco graciosa deslizou e pulou por uns dez minutos. De repente, o jato frontal foi acionado e fomos lançados para a frente dentro de nossos trajes. Nossos olhos quase saltaram das órbitas por causa da rápida desaceleração.
– Preparar para ejetar – disse a voz mecânica e feminina. – Cinco, quatro…
Os lasers da nave começaram a atirar, flashes a cada milissegundo congelando a terra lá embaixo em um movimento estroboscópico e espasmódico. Era uma mistura esburacada e confusa de fissuras e rochas negras a poucos metros abaixo de nossos pés. Descemos lentamente.
– Três…
A contagem não pôde ser completada. Surgiu um clarão muito brilhante e vi o horizonte sumir à medida que a cauda da nave caía… Então, atingiu o chão, fazendo-nos rolar terrivelmente. Pedaços de nave e de pessoas se espalharam por todo lado. Depois de rolar, paramos em um ponto acidentado. Tentei me soltar, mas minha perna estava presa embaixo de um destroço da nave. Senti uma dor lancinante e pude ouvir quando a barra de metal esmagou minha perna. Então, a manutenção de traumas acionou cortar. Houve mais dor, depois a dor sumiu, e rolei livremente, com a perna amputada deixando um rastro de sangue que, ao congelar, adquiria uma cor preta e brilhante sobre as rochas negras. Senti um gosto de bronze na boca, e minha vista ficou embaçada, com tudo avermelhado; depois foi ficando marrom, como argila de rio; tornou-se mais escuro… e desmaiei, sob o efeito da pílula, pensando não é tão ruim…
• • •
O traje é feito para resguardar seu corpo o máximo possível. Se você perder uma parte do braço ou da perna, uma das dezesseis íris afiadas como lâmina envolve o membro com a força de uma prensa hidráulica, amputando-o e lacrando o traje antes que você morra por descompressão explosiva. Depois, a “manutenção de trauma” cauteriza o ferimento, repõe o sangue perdido e enche você com “suco da felicidade” e medicação antichoque. Então, ou você morre feliz, ou, se seus camaradas vencerem a batalha, é levado posteriormente de volta para a estação de tratamento da nave.
Vencemos aquele round enquanto eu dormia enfaixado em um algodão escuro. Acordei na enfermaria. Estava lotada. Encontrava-me no meio de uma longa fila de macas, cada uma com uma pessoa que tinha perdido um quarto (ou mais) do corpo, mas que fora salva pelo recurso de manutenção de trauma. Éramos ignorados pelos dois médicos da nave, que estavam absorvidos em rituais sangrentos, sob a luz brilhante das mesas de operação. Fiquei observando-os por um longo tempo, meio cego por conta da luz forte. O sangue em suas túnicas verdes bem que poderia ser graxa; os corpos enfaixados, máquinas esquisitas e maleáveis que estavam sendo consertadas. Mas as máquinas gritavam enquanto dormiam, e os mecânicos murmuravam palavras de consolo enquanto operavam com suas ferramentas besuntadas. Observei, dormi e acordei em diferentes lugares.
Finalmente despertei em um compartimento normal. Estava preso por cintas e era alimentado por um tubo. Eletrodos com biossensores estavam conectados aqui e ali, mas não havia médicos por perto. A única pessoa na pequena sala era Marygay, dormindo na cama ao meu lado. Seu braço estava amputado um pouco acima do cotovelo.
Não quis acordá-la. Apenas olhei para ela por um longo tempo e tentei definir meus sentimentos, procurando filtrar os efeitos das drogas de humor. Olhar para o que sobrava do seu braço não provocava em mim nem empatia nem repulsa. Tentei forçar uma reação, depois outra, mas nada acontecia. Era como se ela sempre tivesse sido daquela maneira. Eram as drogas, o condicionamento, o amor? Teria de esperar para ver.
Subitamente, seus olhos se abriram. E eu soube que ela estava acordada havia algum tempo, dando-me tempo para pensar.
– Olá, brinquedo quebrado – falou.
– Como… como você está se sentindo? – Pergunta inteligente.
Ela pôs os dedos nos lábios, beijando-os, em um gesto familiar.
– Estúpida, entorpecida. Feliz por não ser mais soldado. – Ela sorriu. – Já lhe disseram? Vamos para Paraíso.
– Não. Eu sabia que seria para lá ou para a Terra.
– Paraíso será melhor… qualquer coisa será melhor. Eu queria que já estivéssemos lá.
– Quanto tempo? – perguntei. – Quanto tempo mais até chegarmos lá?
Ela rolou na cama e olhou para o teto.
– Não disseram. Você não conversou com ninguém?
– Acabei de acordar.
– Há uma nova diretriz que não nos informaram antes. A Sangre y Victoria foi incumbida de quatro missões. Temos de continuar lutando até que as quatro sejam concluídas. Ou até que tenhamos tantas baixas que seja impraticável continuar.
– Quantas seriam?
– Não sei exatamente. Já perdemos mais ou menos um terço. Mas estamos a caminho de Aleph-7. Incursão calcinha.
Essa era a nova gíria para o tipo de operação cujo principal objetivo era capturar artefatos taurianos e prisioneiros, se possível. Tentei descobrir a origem do termo, mas a única explicação que consegui era muito imbecil.
Com uma batida na porta, o dr. Foster entrou, agitando as mãos.
– Ainda em camas separadas? Marygay, pensei que estivesse mais recuperada.
Foster era um cara legal. Era uma mariposa exagerada, mas aceitava a heterossexualidade de forma bem-humorada.
Ele examinou o “toco” de Marygay, depois o meu. Enfiou termômetros em nossas bocas, então não podíamos falar. Quando falou, foi sério e áspero.
– Não vou pegar leve com vocês. Estão sob efeito de drogas até o último fio de cabelo, e a perda que sofreram não os incomodará até a hora em que eu privá-los da medicação. Para minha conveniência, eu os manterei drogados até chegarem a Paraíso. Tenho de tomar conta de 21 amputados. Não temos como lidar com 21 casos psiquiátricos. Aproveitem sua paz de espírito enquanto ainda a têm. Vocês dois, em especial, já que provavelmente vão querer ficar juntos. As próteses que serão implantadas em vocês em Paraíso funcionarão perfeitamente, mas a cada vez que um olhar para a perna ou o braço mecânico do outro, vai pensar como o outro é sortudo. Vocês constantemente despertarão memórias de dor e perda um no outro… Talvez queiram esganar-se em uma semana. Ou poderão compartilhar um tipo de amor taciturno pelo resto da vida. Ou ainda consigam superar tudo isso e dar força um ao outro. Apenas não tentem se enganar, caso não dê certo.
Ele checou o leitor dos termômetros e fez anotações em seu caderno.
– O médico sempre sabe das coisas, mesmo que ele seja um pouco estranho para seus padrões antiquados. Tenham isso em mente.
Tirou o termômetro de minha boca, deu um tapinha no meu ombro e no de Marygay e disse, quando estava à porta:
– Teremos uma inserção colapsar em cerca de seis horas. Uma das enfermeiras os levará até os tanques.
Fomos para os tanques (muito mais confortáveis e seguros que as antigas cápsulas individuais de aceleração), e nos lançaram no campo colapsar de Tet-2, já iniciando as insanas manobras evasivas a 50 gravidades que nos protegeriam dos cruzadores inimigos quando surgíssemos em Aleph-7 um microssegundo mais tarde.
Previsivelmente, a campanha em Aleph-7 foi um fracasso total. Saímos combalidos de lá com apenas duas campanhas concluídas, mas que somavam 54 mortes e 39 mutilados que seguiriam para Paraíso. Apenas doze soldados ainda conseguiam lutar, só que não estavam extremamente empolgados com a ideia.
Foram três saltos colapsares até chegar a Paraíso. Nenhuma nave jamais ia diretamente de uma batalha para lá, mesmo que às vezes o atraso custasse mais algumas vidas. Esse era um dos locais, sem contar a Terra, que os taurianos não podiam encontrar.
Paraíso era um gracioso e intacto planeta, similar à Terra; talvez o que a Terra teria sido, se o homem a tivesse tratado com compaixão em vez de ambição. Florestas virgens, praias brancas, desertos imaculados. As poucas cidades ou harmonizavam-se perfeitamente com o ambiente (uma delas era totalmente subterrânea) ou revelavam de forma gritante a engenhosidade humana: Oceanus, em um recife de corais com seis braças de água sobre seu teto transparente; Boreas, construída no topo de uma montanha aplainada em território polar; e a fabulosa Skye, uma imensa cidade resort que flutuava de um continente a outro, levada pelos ventos alísios.
Pousamos em Limiar, a cidade-floresta, como de costume. Com três quartos ocupados por um hospital, é, de longe, a maior cidade do planeta, mas não dava para constatar isso observando-a de cima, descendo da órbita. O único sinal de civilização era uma pequena pista de pouso e decolagem que aparecia subitamente, um pequeno trecho branco reduzido à insignificância pela estonteante floresta tropical que se estendia desde o leste e um imenso oceano que dominava o outro horizonte.
Sob a cobertura arbórea, a cidade ficava muito mais em evidência. Prédios baixos de pedra e madeira nativas descansavam entre troncos de árvores medindo 10 metros de espessura. Eles eram ligados por discretos caminhos de pedra, com um largo calçadão que levava à praia. A luz do sol era filtrada por entre as folhas, e o ar misturava a doçura da floresta com o cheiro de sal marinho.
Mais tarde, fiquei sabendo que a cidade se estendia por mais de 200 quilômetros quadrados e que era possível pegar metrô para qualquer lugar mais distante. A ecologia de Limiar era cuidadosamente equilibrada e mantida para assemelhar-se à floresta externa, com todos os elementos perigosos e desconfortáveis eliminados. Um poderoso campo de força de repulsão mantinha distantes grandes predadores e insetos que não fossem necessários para a saúde das plantas.
Andamos, mancamos e rodamos em cadeiras de rodas até o edifício mais próximo, onde ficava a recepção do hospital. O resto ficava embaixo, trinta andares subterrâneos. Cada pessoa era examinada e encaminhada para seu quarto. Tentei arranjar um duplo para ficar com Marygay, mas não havia nenhum.
O “ano terráqueo” era 2189. Então eu estava com 215 anos! Nossa, olhe só para este velho rabugento! Alguém me passe o chapéu… Não, não é necessário. O médico que me examinou disse que meu pagamento acumulado seria transferido da Terra para Paraíso. Com juros compostos, eu era quase um bilionário. Ele fez questão de dizer que eu encontraria diversas maneiras de gastar meu bilhão em Paraíso.
Primeiro, eles trataram dos feridos mais graves, por isso demorou vários dias até que eu fosse encaminhado para a cirurgia. Posteriormente, acordei em meu quarto e descobri uma prótese implantada em meu “toco”, uma estrutura articulada de metal brilhante que, para meus olhos desacostumados, parecia exatamente o esqueleto de uma perna e um pé. Era esquisito demais estar ali deitado em um saco transparente com fluido e fios conectando-se a uma máquina que ficava no pé da cama.
Um assistente entrou.
– Como está se sentindo, senhor?
Quase disse ao rapaz para parar com aquela baboseira de “senhor”; eu não estava mais no exército, e agora isso era definitivo. Mas devia ser legal para ele continuar tendo a sensação de que eu tinha um posto mais elevado.
– Não sei. Dói um pouco.
– Vai doer pra cacete. Espere até os nervos começarem a crescer.
– Nervos?
– Claro. – Ele estava mexendo em alguma coisa na máquina, lendo os indicadores no outro lado. – Como terá uma perna sem nervos? Não serviria pra nada.
– Nervos? Tipo nervos de verdade? Quer dizer que poderei simplesmente pensar “mova-se” e a coisa vai se mover?
– Claro que sim. – Olhou para mim, confuso, e voltou-se, em seguida, para seus ajustes.
Que maravilha!
– As próteses avançaram muito, hein?!
– Pró-o-quê?
– Você sabe, artific…
– Ah, sim, como nos livros. Pernas-de-pau, ganchos e coisas do tipo.
Como diabos ele tinha conseguido emprego?
– Sim, próteses. Como essa coisa na extremidade da minha perna.
– Veja, senhor. – Ele baixou a prancheta em que fazia anotações. – Esteve longe por muito tempo. Isto será uma perna, como a outra, exceto pelo fato de que não quebrará mais.
– Vocês fazem isso com braços também?
– Claro, com qualquer membro. – Ele voltou a escrever. – Fígados, rins, estômagos, todo tipo de coisa. Ainda estamos trabalhando com coração e pulmões; até este momento temos de usar substitutos mecânicos.
– Fantástico! – Marygay ficaria inteira novamente também.
Ele deu de ombros.
– Acho que sim. Esse tipo de coisa é feito desde antes de eu nascer. Quantos anos o senhor tem?
Eu disse, e ele assobiou.
– Caramba! Deve estar nessa desde o início.
Seu sotaque era muito estranho. Todas as palavras estavam certas, mas soavam esquisito.
– Sim. Participei do ataque em Épsilon. Campanha de Aleph.
Eles haviam começado a nomear os colapsares com as letras do alfabeto hebraico, por ordem de descobrimento, mas as malditas coisas começaram a aparecer por toda parte, então tiveram de agregar números às letras. O último que ouvira já era Yod-42.
– Nossa, história antiga. Como era tudo antes?
– Não sei. Menos populoso, mais agradável. Voltei para a Terra um ano atrás… diabos, um século atrás. Depende do ponto de vista. Estava tão ruim que decidi me alistar novamente, sabe? Um bando de zumbis. Sem querer ofender.
Ele sacudiu os ombros mais uma vez.
– Nunca estive lá. As pessoas que vêm de lá parecem sentir saudades. Talvez tenha melhorado.
– O quê? Você nasceu em outro planeta? Paraíso? – Agora dava para explicar o sotaque.
– Nascido, criado e alistado. – Ele pôs a caneta de volta no bolso e dobrou a prancheta até atingir o tamanho de uma carteira. – Sim, senhor. Pertenço à terceira geração de anjos. Este é o melhor planeta de toda a FENU. – Ele disse letra por letra e não como se fosse uma palavra, do modo que sempre ouvi. – Olha só, tenho de correr, tenente. Tenho dois outros monitores para checar ainda. – Dirigiu-se à porta. – Se precisar de algo, há uma campainha ali na mesa.
Terceira geração de anjos. Seus avós tinham vindo da Terra, provavelmente quando eu era um jovem centenário. Quantos outros mundos foram colonizados enquanto eu estava por aí? Perde-se um braço, cresce outro novo?
Seria bom se eu sossegasse e vivesse um ano inteiro por cada ano que se passasse.
O rapaz falara sério quanto à dor. E não era só na perna nova, embora ela doesse como óleo fervente. Para que os novos tecidos “pegassem”, tiveram de subverter minha resistência corpórea a células alienígenas. Tive câncer em seis partes diferentes do corpo, que foram tratadas uma de cada vez, dolorosamente.
Começava a me sentir bem fatigado, mas ainda assim achava fascinante ver minha perna crescendo. Fios brancos transformavam-se em veias e em nervos. Primeiro ficavam um pouco frouxos, depois se moviam para seus lugares à medida que os músculos cresciam ao redor do osso metálico.
Acabei me acostumando a ver aquilo crescer, então tal visão nunca me causou repulsa. Porém, quando Marygay veio me visitar, foi um golpe… Ela havia sido liberada do repouso antes que a pele de seu novo braço começasse a crescer. Parecia uma demonstração de anatomia ambulante. Recuperei-me do choque, e sempre passávamos algumas horas por dia nos divertindo com algum jogo, fofocando ou apenas sentados, lendo. Enquanto isso, seu braço crescia lentamente dentro de um molde plástico.
Minha pele já estava crescendo havia uma semana antes de tirarem o molde da nova perna e levarem a máquina embora. Era feia como o diabo, sem pelos, de uma cor branca pálida e rija como uma haste metálica. Mas funcionava até certo ponto. Eu conseguia me levantar e arrastar os pés.
Transferiram-me para a ortopedia, para “reeducação motora” (nome bonito para tortura chinesa). Eles amarram você em uma máquina que flexiona tanto a perna antiga quanto a nova, simultaneamente. A nova resiste.
Marygay estava em uma sessão ali perto, tendo seu braço retorcido metodicamente. Deve ter sido ainda pior para ela, pois parecia abatida e envelhecida todas as tardes quando nos encontrávamos para subir ao andar superior e tomar banho de sol.
À medida que os dias passavam, a terapia parecia menos tortura e mais um exercício extenuante. Nós dois começamos a nadar cerca de uma hora sempre que o dia estava ensolarado, nas calmas e protegidas águas da praia. Eu ainda mancava em terra, mas na água me virava muito bem.
O único momento de real prazer que tínhamos em Paraíso (prazer para nossas sensibilidades embotadas pela guerra) era naquelas águas cuidadosamente protegidas.
Eles tinham de desligar o campo de força de repulsão por uma fração de segundos cada vez que uma nave pousava; do contrário, ela ricochetearia sobre o oceano. De vez em quando, algum animal se esgueirava para dentro do campo, mas os perigosos animais terrestres eram muito lentos para passar a barreira. Os do mar, nem tanto.
O mestre indiscutível dos oceanos de Paraíso é uma criatura horrível ao qual os anjos, em um lapso de originalidade, deram o nome de “tubarão”. Porém, ele poderia comer uma pilha dos tubarões terráqueos no café da manhã.
O que entrou era um tubarão branco de tamanho médio. Ele vinha batendo na barreira do campo de força havia dias, atormentado por toda aquela proteína no lado de dentro. Felizmente, uma sirene de alerta soa dois minutos antes de o campo ser desativado, portanto ninguém estava na água quando ele avançou com rapidez. E na fúria de seu ataque infrutífero, ele quase encalhou na praia.
Ele possuía 12 metros de músculos flexíveis, com uma cauda em forma de lâmina em uma das pontas e uma coleção de presas compridas na outra. Seus olhos, grandes globos amarelos, ficavam em tentáculos a mais de 1 metro da cabeça. Sua boca era tão grande que, aberta, um homem poderia ficar de pé confortavelmente dentro dela. Seria uma foto e tanto para seus descendentes.
Eles não podiam simplesmente desligar o campo de força de repulsão e esperar que o tubarão fosse embora. Então, o Comitê Recreacional organizou um grupo de caça.
Eu não estava muito entusiasmado com a ideia de me oferecer como aperitivo para um peixe gigante, mas Marygay havia pescado muito com lanças quando criança, na Flórida, e estava superempolgada com a possibilidade. Eu me uni ao grupo quando descobri como seria; parecia seguro o suficiente.
Esses “tubarões” supostamente nunca atacam pessoas em barcos. Duas pessoas que acreditavam mais em histórias de pescador do que eu foram até a fronteira do campo de força em um barco a remo, armadas apenas com um pedaço de carne. Jogaram a carne ao mar, e o tubarão apareceu num piscar de olhos.
Essa era a dica para cairmos dentro. Vinte e três de nós esperavam na praia com pé de pato, máscara, respiradores e uma lança cada um. As lanças eram formidáveis: possuíam motores de propulsão e ogivas explosivas.
Mergulhamos e nadamos em grupo, sob a água, em direção ao bicho que se alimentava. Quando ele nos viu, não nos atacou. Tentou esconder sua refeição, talvez para evitar que algum de nós a comesse enquanto ele tentava lidar com os demais. Mas toda vez que tentava descer a águas mais profundas, batia no campo de força. Obviamente, estava ficando irritado.
No final, ele simplesmente deixou a carne de lado, deu meia-volta e veio a todo vapor. Grande esporte esse! Ele parecera ser do tamanho de um dedo, lá embaixo na outra extremidade do campo; de repente, ficou tão grande quanto o cara ao meu lado e se aproximava rapidamente.
Cerca de dez lanças o atingiram – a minha não –, retalhando-o. Mas, mesmo depois de um hábil, ou afortunado, tiro no cérebro que arrancou o topo de sua cabeça e um olho, mesmo com metade de sua carne e suas entranhas espalhadas em um caminho de sangue atrás dele, invadiu nossa linha e cravou suas mandíbulas em uma mulher, extirpando-lhe as pernas antes de morrer.
Quase sem vida, nós a carregamos de volta à praia, onde uma ambulância estava esperando. Apressaram-se para fazer uma transfusão de sangue e lhe ministrar remédio antichoque. Levaram-na correndo ao hospital. Ela sobreviveu e, provavelmente, passaria pela agonia de desenvolver novas pernas. Decidi que, a partir de então, deixaria a caçada de peixes para outros peixes.
Muito da nossa estada em Limiar, a partir do dia em que a terapia se tornou suportável, era bastante agradável. Sem disciplina militar, pilhas de coisas para ler e um monte de coisas com que matar o tempo. Só que havia um “porém”: era óbvio que não estávamos fora do exército; éramos apenas peças de equipamento quebrado que estavam sendo consertadas para voltar ao campo de batalha. Marygay e eu tínhamos ainda três anos, cada um, para servir como tenentes.
Porém, ainda tínhamos seis meses de descanso e recreação pela frente, depois que nossos novos membros foram declarados aptos para o trabalho. Marygay foi liberada dois dias antes, mas esperou por mim.
Meu pagamento chegou à cifra de 892.746.012 dólares. Não em forma de fardos de notas, felizmente. Em Paraíso, usavam-se valores de crédito eletrônicos, então eu carregava minha fortuna em uma pequena máquina com leitor digital. Para comprar alguma coisa, era só digitar o número de crédito do vendedor e o montante da compra; a soma era automaticamente transferida de uma conta a outra. A máquina era do tamanho de uma carteira fina e codificada para aceitar a digital do polegar.
A economia em Paraíso era regida pela presença contínua de milhares de soldados ricos que se encontravam ali em descanso ou recreação. Um simples petisco custava cem pratas; um quarto para uma noite, pelo menos dez vezes esse valor. Como a FENU construiu e era a proprietária de Paraíso, essa inflação galopante era claramente uma maneira simples de colocar nosso pagamento acumulado em circulação.
Procuramos nos divertir… uma diversão desesperada. Alugamos um veículo voador e equipamentos de acampamento e ficamos semanas explorando o planeta. Havia rios gelados para nadar e florestas verdejantes onde se embrenhar; prados, montanhas, estepes polares e desertos.
Podíamos estar completamente protegidos do ambiente ajustando nossos campos de força individuais (o que permitia dormir sem roupa em uma nevasca) ou aproveitar a natureza como de fato era. Por sugestão de Marygay, a última coisa que fizemos antes de voltar para a civilização foi escalar um cume no deserto, jejuando vários dias para ampliar nossa sensibilidade (ou confundir nossas percepções, ainda não sei ao certo); e nos sentar um de costas para o outro sob o calor abrasador, contemplando o lânguido fluxo da vida.
Depois, partimos para a luxúria. Conhecemos cada cidade do planeta, e cada uma tinha seu charme em particular, até, finalmente, voltarmos para Skye e lá passarmos o resto do tempo da nossa licença.
Comparado com Skye, o resto do planeta era fichinha. Nas quatro semanas em que nos hospedamos no domo dos prazeres aéreos, Marygay e eu gastamos cerca de meio bilhão de dólares cada um. Apostamos – às vezes perdendo 1 milhão ou mais por noite –, comemos e bebemos do melhor que o planeta tinha a oferecer e experimentamos todos os serviços e produtos que não eram muito bizarros para nossos gostos confessadamente arcaicos. Cada um de nós tinha um assistente particular, cujo salário era maior que o de um general.
Diversão desesperada, conforme já disse. A menos que a guerra mudasse radicalmente, nossas chances de sobreviver aos próximos três anos eram mínimas. Éramos notavelmente vítimas saudáveis de uma doença terminal, tentando nos empanturrar das sensações de uma vida toda em seis meses.
Ainda assim, tínhamos o consolo, não pequeno, de que, por mais que o restante de nossa vida não fosse longo, ao menos estaríamos juntos. Por alguma razão, nunca me ocorreu que até aquilo poderia ser tirado de nós.
• • •
Estávamos saboreando um almoço leve no “primeiro andar” transparente de Skye, observando o oceano passar por baixo de nós, quando um mensageiro chegou alvoroçado e nos entregou dois envelopes: nossas ordens.
Marygay havia sido promovida a capitã, e eu, a major, com base em nossos registros militares e em testes a que nos submeteram em Limiar. Eu era comandante, e ela era subcomandante, mas nossas companhias não eram as mesmas. Ela faria parte de uma nova companhia que seria formada ali mesmo em Paraíso. Eu voltaria para o Portal Estelar para “doutrinação e educação” antes de assumir o comando.
Por um longo período, ficamos mudos.
– Vou protestar – falei, finalmente, de forma débil. – Não podem me transformar em comandante.
Ela continuava entorpecida. Aquilo não era apenas uma separação. Mesmo que a guerra terminasse e voltássemos para a Terra com apenas alguns minutos de diferença, em naves diferentes, a geometria dos saltos colapsares acumularia anos entre nós. Quando o outro chegasse à Terra, seu parceiro estaria, provavelmente, meio século mais velho ou, mais provavelmente, morto.
Ficamos ali sentados por algum tempo, sem tocar na deliciosa comida, ignorando a beleza à nossa volta, conscientes somente um do outro e das duas folhas de papel que nos separavam com um abismo tão imenso e real quanto a morte.
Voltamos para Limiar. Protestei, mas meus argumentos foram ignorados. Tentei fazer com que Marygay fosse designada para minha companhia, como minha subcomandante. Disseram que todo o meu pessoal já havia sido lotado. Ressaltei que a maioria deles ainda nem havia nascido. No entanto, lotados, responderam. Levaria quase um século, argumentei, até eu chegar ao Portal Estelar. Replicaram dizendo que o Comando da Força de Ataque planeja em termos de séculos, não em termos de pessoas.
Tínhamos um dia e uma noite juntos. Quanto menos disséssemos, melhor. Não se tratava apenas de perder uma amante. Marygay e eu éramos, um para o outro, a única ligação com o mundo real, com a Terra dos anos 1980 e 90. Não o mundo grotesco e perverso que estávamos supostamente lutando para preservar. Quando a nave dela foi lançada, foi como se um caixão tivesse sido lançado no interior de uma cova.
Requisitei um computador e descobri os elementos orbitais de sua nave e a hora da partida. Descobri que poderia vê-la partir do “nosso” deserto.
Pousei no cume do monte onde havíamos jejuado juntos e, algumas horas antes de o sol nascer, vi uma nova estrela surgir a oeste no horizonte, observei o brilho ficar mais intenso e diminuir à medida que se afastava, tornando-se apenas mais uma estrela, depois uma estrela quase apagada, então nada. Caminhei até a beirada e olhei para a base da face rochosa e escarpada, as ondulações das dunas obscuras e congeladas estendiam-se por meio quilômetro. Sentei-me com os pés balançando na beirada, sem pensar em nada, até os raios oblíquos do sol iluminarem as dunas em um suave e tentador claro-escuro de baixo relevo. Duas vezes joguei meu peso para a frente, ameaçando pular. Não o fiz não por medo da dor ou da perda: a dor seria breve e a perda seria do exército, e seria a vitória final deles sobre mim… tendo comandado minha vida por tanto tempo, forçá-la a um fim.
Aquilo eu devia ao inimigo.