Guerra sem fim
Capítulo 7
7
– Equipe de fogo A! Vai!
Os doze do grupo avançaram em uma linha irregular em direção ao abrigo simulado. Ele estava a cerca de 1 quilômetro de distância, do outro lado de uma pista de obstáculos cuidadosamente preparada. Podíamos nos mover bem rápido, já que todo o gelo havia sido retirado do campo, mas mesmo com um treinamento de dez dias não estávamos prontos para fazer mais do que uma corrida leve.
Levei um lançador carregado com granadas de 10 microtoneladas. Todos mantinham seu laser de dedo ajustado no 0,08, dispersão 1, nada mais do que um sinal luminoso. Esse era um ataque simulado – o abrigo e seu robô de defesa haviam custado demais para serem usados uma só vez e jogados fora.
– Equipe B, na sequência! Líderes de equipe, assumam.
Nós nos aproximamos de um grupo de pedras grandes, perto da marca da metade do caminho, e Potter, a líder da minha equipe, disse:
– Pare e me dê cobertura. – Nós nos entrincheiramos atrás das pedras e esperamos pela equipe B.
Quase invisíveis em seus trajes enegrecidos, os doze homens e mulheres passaram por nós, silenciosos como um sussurro. Assim que se viram desimpedidos, moveram-se para a esquerda, fora de nosso campo visual.
– Fogo!
Círculos vermelhos de luz dançaram a 0,5 quilômetro de distância, onde já dava para ver o abrigo. O limite para essas granadas de treino era 500 metros. Porém, esperando um golpe de sorte, alinhei o lançador na direção do abrigo, mantive-o a um ângulo de 45 graus e lancei três.
Antes mesmo de minhas granadas chegarem ao abrigo, começou a retaliação. Os lasers automáticos não eram mais poderosos do que os que estávamos usando, mas, se fôssemos atingidos diretamente, isso desativaria os conversores de imagem, deixando-nos cegos. Os disparos eram aleatórios, nem chegavam perto das pedras que nos serviam de proteção.
Três clarões de magnésio brilhante piscaram simultaneamente a cerca de 30 metros do abrigo.
– Mandella! Pensei que você fosse bom com essa coisa.
– Que droga, Potter! Só alcança 0,5 quilômetro. Assim que nos aproximarmos, acertarei em cheio, todas as vezes.
– Sei.
Eu não disse nada. Ela não seria líder de equipe para sempre. Além do mais, não tinha se comportado como uma chata antes de o poder subir-lhe à cabeça.
Já que o lançador de granadas é assistente do líder de equipe, eu estava diretamente ligado ao rádio de Potter e podia ouvir a equipe B falar com ela.
– Potter, aqui é o Freeman. Alguma baixa?
– Potter falando. Não, parece que eles estavam concentrando o ataque em vocês.
– Sim, perdemos três. Agora estamos em uma depressão a entre 80 e 100 metros de distância de vocês. Podemos lhes dar cobertura assim que estiverem prontos.
– Ok, comece! – Ouviu-se um estalido suave. – Equipe A, siga-me.
Ela saiu de trás da rocha e ligou a opaca luz rosada sob seu compartimento de energia. Liguei a minha e corri para acompanhá-la. O restante da equipe se espalhou em forma de leque. Ninguém disparou enquanto a equipe A nos dava cobertura.
Tudo que eu podia ouvir era a respiração de Potter e o suave ruído de minhas botas. Não era possível ver muita coisa; então, com a língua, elevei a imagem do conversor a uma intensificação logarítmica de dois. Isso deixou a imagem meio borrada, mas clara o suficiente. Parecia que o abrigo mantinha a equipe B bem ocupada. Eles estavam levando uma sova por lá. Toda a sua resposta de fogo era a laser. Eles deviam ter perdido o lançador de granadas.
– Potter, aqui é o Mandella. Não deveríamos dar uma mãozinha para a equipe B?
– Assim que eu encontrar uma cobertura boa o suficiente para nós. Tudo bem para você, soldado? – Ela havia sido promovida a cabo enquanto durasse o exercício.
Fizemos uma curva para a direita e nos deitamos atrás de uma laje de pedra. A maioria encontrou proteção perto dali, mas muitos tiveram de ficar colados ao chão.
– Freeman, aqui é Potter.
– Potter, aqui é Smithy. Freeman está fora de combate; Samuels também. Só nos restam mais cinco homens. Dê cobertura para que possamos chegar…
– Entendido, Smithy – clique. – Equipe A, abra fogo. A equipe B está em apuros.
Espreitei sobre a borda da pedra. Meu detector de posicionamento informou que o abrigo estava a mais ou menos 350 metros, ou seja, ainda bem distante. Mirei com certa elevação e lancei três granadas, depois baixei um pouco a angulação e lancei mais três. As primeiras ultrapassaram o alvo uns 20 metros; a segunda saraivada caiu bem na frente. Procurei manter aquele ângulo e lancei quinze granadas (as que me restavam), todas na mesma direção.
Eu deveria me agachar atrás da rocha para recarregar, mas queria ver onde as quinze granadas iriam parar, então mantive os olhos no abrigo enquanto pegava mais munição…
Quando o laser acertou meu conversor de imagem, surgiu um brilho vermelho tão intenso que pareceu entrar direto pelos meus olhos e bater na parte de trás da minha cabeça. Deve ter levado apenas alguns milissegundos para o conversor sobrecarregar e apagar, mas a pós-imagem verde brilhante continuou machucando meus olhos por vários minutos.
Como eu estava oficialmente “morto”, meu rádio automaticamente foi desligado e eu teria de permanecer onde estava até que aquela batalha fingida terminasse. Sem nenhuma informação sensorial a não ser o tato da minha própria pele (estava dolorida onde o conversor de imagem havia refletido) e o zunido em meus ouvidos, pareceu-me uma eternidade. Finalmente, um capacete tocou no meu.
– Você está bem, Mandella? – Era a voz de Potter.
– Desculpe, morri de tédio vinte minutos atrás.
– Levante-se e segure minha mão.
Fiz como ela mandou e voltamos ao alojamento. Deve ter demorado mais de uma hora. Ela não disse mais nada por todo o caminho de volta (é uma maneira estranha de se comunicar), mas, após termos cruzado a câmara de compressão e nos aquecido, ela me ajudou a tirar o traje. Eu estava preparado para receber uma reprimenda branda, mas, quando o traje se abriu, antes mesmo de meus olhos se acostumarem com a luminosidade, ela me agarrou pelo pescoço e me tascou um beijo molhado nos lábios.
– Boa mira, Mandella.
– Hein?
– Você não viu? Claro que não… A última saraivada antes de você ser atingido: quatro tiros diretos. O abrigo decidiu que havia sido derrotado, e tudo que fizemos foi andar o resto do percurso.
– Maravilha!
Cocei a pele sob os olhos, e saiu um pouco de pele ressecada que havia se formado. Ela deu uma risada marota.
– Você deveria se olhar no espelho. Está parecendo…
– Dirijam-se todos à área de reuniões. – Era a voz do capitão.
Geralmente más notícias.
Ela me passou uma túnica e sandálias.
– Vamos lá.
O refeitório da área de reuniões era logo no fim do corredor. Na porta, havia uma fileira de botões com os registros de todos. Pressionei o que tinha meu nome ao lado. Quatro nomes estavam cobertos por uma fita preta. Isso era bom, apenas quatro. Não havíamos perdido ninguém durante as manobras de hoje.
O capitão estava sentado no pequeno palco, o que significava, ao menos, que não teríamos de passar por aquela baboseira de “sentido!”. O local lotou em menos de um minuto. Um suave sinal tocou, indicando que todos estavam presentes.
O capitão Stott não se levantou.
– Vocês atuaram razoavelmente bem hoje. Ninguém foi morto, e eu esperava que houvesse alguma baixa. Neste aspecto, vocês excederam minhas expectativas, mas em todos os outros aspectos fizeram um trabalho ruim. Fico feliz por estarem se cuidando, afinal cada um de vocês representa um investimento de mais de 1 milhão de dólares e um quarto de uma vida humana. Mas, na batalha simulada contra um estúpido robô inimigo, 37 de vocês acabaram cruzando com o laser e foram mortos na simulação. E, como pessoas mortas não precisam de comida, vocês não receberão comida pelos próximos três dias. Cada um que representou uma baixa na batalha receberá apenas 2 litros de água e uma ração de vitaminas por dia.
Sabíamos que não devíamos reclamar de nada, mas havia uns olhares bem indignados, especialmente daqueles que tinham sobrancelhas chamuscadas e um retângulo rosado de queimadura solar em torno dos olhos.
– Mandella.
– Senhor?
– Você é, de longe, quem sofreu a pior queimadura. Seu conversor de imagem estava ajustado no nível normal?
Ah, merda.
– Não, senhor. Logaritmo 2.
– Entendi. Quem era o líder da sua equipe durante o exercício?
– Cabo interina Potter, senhor.
– Soldado Potter, você ordenou que ele usasse intensificador de imagem?
– Senhor, eu… eu não me lembro.
– Não se lembra. Bem, como exercício de memória, você vai se juntar às pessoas mortas. Satisfatório?
– Sim, senhor.
– Bom. As pessoas mortas têm direito a uma última refeição esta noite e ficarão sem a partir de amanhã. Mais alguma pergunta? – Ele devia estar brincando. – Muito bem. Dispensados.
Escolhi a refeição que parecia ter a maior quantidade de calorias e segui com minha bandeja em direção a Potter, para sentar-me ao seu lado.
– Foi quixotesco pacas de sua parte. Mas obrigado.
– Não foi nada, eu estava querendo mesmo perder uns quilinhos.
Eu não conseguia ver onde estavam esses quilinhos extras.
– Conheço um bom exercício – falei.
Ela sorriu sem tirar os olhos da bandeja.
– Tem alguém com quem dormir hoje à noite?
– Pensei em falar com Jeff…
– Então, é melhor se apressar. Ele está dando em cima da Maejima.
Bem, era verdade. Todos davam em cima dela.
– Não sei. Talvez devêssemos conservar nossas forças. O terceiro dia…
– Ah, vamos. – Arranhei o dorso da mão dela suavemente com a unha. – Não dormimos juntos desde Missouri. Talvez eu tenha aprendido algo novo.
– Talvez… – Ela inclinou a cabeça em minha direção de um jeito malicioso. – Tá legal.
Na verdade, ela é que tinha truques novos. O saca-rolhas francês, foi assim que ela o chamou. Mas não me disse quem foi que ensinou. Eu gostaria de dar um aperto de mão nesse cara… assim que recuperasse minhas forças.