Guerra sem fim
Capítulo 19
19
Eu estava amarrando a minha túnica quando o anel de comunicação vibrou e eu o aproximei do ouvido para poder escutar: era Rogers.
– Mandella, vá checar a ala 3. Algo deu errado. Dalton teve de despressurizá-la.
Ala 3 – era o esquadrão de Marygay! Desci correndo pelo corredor, descalço, e cheguei lá assim que abriam a porta pelo lado de dentro da câmara de pressão e começavam a sair.
O primeiro foi Bergman. Segurei seu braço.
– Que diabos está acontecendo, Bergman?
– Ahn? – Ele me fitou, ainda desorientado, como todos ficam quando saem da câmara. – Ah, é você, Mandella. Não sei. Do que está falando?
Olhei pela porta de soslaio, sem soltá-lo.
– Vocês estavam atrasados, cara. Demoraram para despressurizar. O que aconteceu?
Ele balançou a cabeça, tentando organizar os pensamentos.
– Atrasados? Como assim?… Hum… Quanto atrasados?
Olhei para meu relógio pela primeira vez.
– Não muito… – Santo Deus! – Bem, entramos nas cápsulas às 5h20, não foi?
– Sim, acho que foi isso.
Ainda nenhum sinal de Marygay entre as figuras obtusas que buscam sair por entre assentos enfileirados e tubulações misturadas.
– Hum, vocês estavam apenas alguns minutos atrasados… mas deveríamos ter ficado submersos por apenas quatro horas, talvez menos. São 10h50.
– Hum. – Ele balançou a cabeça novamente. Eu o soltei e recuei para deixar Stiller e Demy passarem pela porta.
– Então, todos estão atrasados… – disse Bergman. – Então não estamos em apuros.
– É… – Conclusão errada. – Certo, certo… Ei, Stiller! Você viu…
De repente, lá de dentro:
– Médico! MÉDICO!
Uma pessoa, que não era Marygay, estava saindo. Eu a tirei bruscamente do meu caminho e disparei porta adentro, atropelei alguém no trajeto e fui avançando até chegar a Struve, assistente de Marygay, que estava de pé junto a uma cápsula e falava bem alto e depressa em seu anel de comunicação.
– … e sangue. Sim, pelo amor de Deus, precisamos… – Marygay continuava dentro de seu traje. – Dalton nos disse que… – Cada centímetro de seu corpo estava recoberto por um uniforme brilhante, resplandecente de sangue. – … quando ela não saiu… – Um imenso vergão partia de sua clavícula e seguia por entre os seios, passando pela base do esterno. – … eu vim e tirei o… – E aí se abria em um corte que se aprofundava à medida que descia por sua barriga. – … sim, ela ainda está… – E terminava alguns poucos centímetros acima do púbis, onde uma massa membranosa de intestinos saltava para fora… – Ok! Quadril do lado esquerdo. Mandella…
Ela ainda estava viva, com o coração palpitando, mas a cabeça ensanguentada pendia debilmente, seus olhos estavam virados, bolhas de espuma vermelha surgiam e pipocavam do canto da boca cada vez que ela respirava superficialmente.
– … tatuado no quadril esquerdo. Mandella, acorda! Dê uma olhada embaixo dela e descubra que tipo sang…
– TIPO O RH NEGATIVO, DEUS DO CÉU… Desculpe-me… O negativo… – Eu já não tinha visto aquela tatuagem 10 mil vezes?
Struve passou a informação adiante e, de repente, lembrei-me do kit de primeiros socorros em meu cinto; eu o puxei com tudo e revirei desajeitadamente.
Parar o sangramento… proteger o ferimento… tratamento para choque, era o que o livro dizia. Esqueci algo, esqueci algo… desobstruir vias respiratórias.
Ela estava respirando, se era isto que queriam dizer. Como se para um sangramento ou se protege uma ferida com uma bandagem de pressão minúscula quando o ferimento tem cerca de 1 metro de extensão? Tratamento para choque… aquilo eu poderia fazer. Peguei a ampola verde, coloquei de encontro a seu braço e apertei o botão. Depois, coloquei o lado esterilizado da bandagem com cuidado sobre o intestino exposto, passei a faixa elástica pelas suas costas, ajustei-a a uma tensão próxima a zero e apertei.
– Há algo mais que você possa fazer? – perguntou Struve.
Eu me afastei e me senti impotente.
– Não sei. Consegue pensar em algo mais?
– Sou médico tanto quanto você. – Olhando para a porta, ele cerrou o punho, tensionando o bíceps. – Onde diabos eles estão? Você tem Morfplex nesse kit?
– Sim, mas alguém me disse para não usar em caso de…
– William?
Seus olhos estavam abertos, e ela tentava erguer a cabeça. Apressei-me em ajudá-la.
– Vai ficar tudo bem, Marygay. O médico está vindo.
– O que… tudo bem? Estou com sede. Água.
– Não, meu bem, você não pode tomar água. Não agora. – Não se ela fosse ser operada.
– Por que tanto sangue? – ela perguntou em voz baixa. Sua cabeça rolou para trás. – Fui uma menina má.
– Deve ter sido o traje – falei rapidamente. – Lembra-se daquelas pregas?
Ela balançou a cabeça.
– Traje? – De repente, ela empalideceu mais e fez um esforço fraco e involuntário para vomitar. – Água… William, por favor.
Uma voz autoritária atrás de mim disse:
– Peguem uma esponja ou um pedaço de pano encharcado em água.
Olhei para trás, e lá estava o dr. Wilson com dois ajudantes.
– Primeiro, meio litro de femoral – instruiu, sem se dirigir a alguém em particular, enquanto dava uma olhada por debaixo da bandagem. – Sigam aquele tubo de escape por alguns metros e desconectem-no. Verifiquem se vazou sangue.
Um dos médicos enfiou uma agulha de 10 centímetros na coxa de Marygay e começou a aplicar nela sangue de uma bolsa plástica.
– Desculpem-me pelo atraso – disse o dr. Wilson com voz cansada –, mas está uma loucura. O que você dizia a respeito do traje?
– Ela teve dois ferimentos menores antes. O traje não está bem ajustado, forma pregas quando está sob pressão.
Ele acenou distraidamente com a cabeça, checando sua pressão sanguínea.
– Você ou alguém deu… – Alguém lhe estendeu uma toalha de papel pingando água. – Hum, deu alguma medicação para ela?
– Uma ampola antichoque.
Ele fez um chumaço fofo com a toalha de papel e pôs nas mãos de Marygay.
– Qual é o nome dela?
Falei para ele.
– Marygay, não podemos lhe dar água, mas você pode sugar daqui. Agora, vou colocar uma luz brilhante diante de seus olhos.
Enquanto ele observava sua pupila com um tubo metálico, falou:
– Temperatura? – Um dos médicos leu um número em um mostrador digital e retirou a sonda. – Perdeu sangue?
– Sim, um pouco.
Ele pousou a mão levemente sobre a bandagem de pressão.
– Marygay, você consegue virar um pouco para o lado direito?
– Sim – ela respondeu vagarosamente, ajeitando o cotovelo para auxiliá-la. – Não – falou e começou a chorar.
– Está tudo bem… – disse o dr. Wilson distraidamente e ergueu-a pelo quadril o suficiente para poder ver suas costas. – Apenas uma ferida, e olha quanto sangue! – murmurou.
O médico apertou a lateral de seu anel de comunicação duas vezes e sacudiu-o perto do ouvido.
– Tem alguém aí em cima?
– Harrison, a menos que tenha ido atender a alguma chamada.
Uma mulher veio caminhando. À primeira vista não a reconheci, pálida e com os cabelos desgrenhados, em uma túnica ensanguentada. Era Estelle Harmony.
– Algum outro paciente, dra. Harmony? – perguntou o dr. Wilson olhando para cima.
– Não – ela respondeu fatigada. – O rapaz da manutenção teve uma dupla amputação traumática. Sobreviveu só por alguns minutos. Nós o estamos mantendo para transplantes.
– E todos aqueles outros?
– Descompressão explosiva. – Ela fungou. – Há algo que eu possa fazer por aqui?
– Sim, só um momento. – Ele tentou acionar seu anel de comunicação novamente. – Droga, você não sabe onde o Harrison está?
– Não… bem, pode ser que esteja na Cirurgia B, se houve alguma complicação com a manutenção do cadáver. No entanto, acho que deixei tudo arrumadinho.
– Sim, bem, você sabe como…
– Mark! – chamou o médico com a bolsa de sangue.
– Mais meio litro de femoral – pediu o dr. Wilson. – Estelle, você se importa de assumir o lugar de um dos médicos e preparar esta garota para a cirurgia?
– Não, quero me manter ocupada.
– Ótimo! Hopkins, vá lá em cima e traga atadura e 1 litro… ou melhor, 2 litros de fluorcarbono isotônico de espectro primário. Se forem da marca Merck, estará escrito “espectro abdominal”.
Ele encontrou uma parte de sua manga que não estava manchada de sangue e secou a testa.
– Se encontrar Harrison, mande-o para Cirurgia A e diga-lhe que prepare uma sequência anestésica para a região abdominal.
– E a leve para a A?
– Correto! Se não encontrar Harrison, arranje alguém. – Ele apontou um dedo na minha direção. – Este rapaz levará a paciente para a A. Você pode ir e iniciar a sequência.
Ele apanhou a bolsa e deu uma olhada em seu interior.
– Poderíamos iniciar aqui – murmurou –, mas, que diabos, não com parametadona… Marygay, como está se sentindo?
Ela ainda estava chorando.
– Estou… ferida.
– Eu sei – disse ele gentilmente.
Pensou por um segundo e falou para Estelle:
– Não há como dizer realmente quanto sangue ela perdeu. Pode ter se esvaído sob pressão. Além disso, tem sangue acumulado na cavidade abdominal. Como ela continua viva, não acho que tenha sangrado sob pressão por muito tempo. Espero que ainda não tenha ocorrido nenhum dano cerebral.
O dr. Wilson tocou no leitor digital conectado ao braço de Marygay.
– Monitore a pressão sanguínea e, se achar conveniente, dê-lhe 5 mililitros de vasoconstritor. Tenho de me desinfetar. – Fechou a bolsa. – Você tem algum vasoconstritor que não seja aquela ampola pneumática?
Estelle procurou em sua bolsa.
– Não, apenas a ampola pneumática emerg… hum… sim, tenho dosagem controlada de vasodilatador.
– Ok. Se tiver que usar o vasoconstritor e a pressão dela subir muito rápido…
– Administro-lhe 2 mililitros de vasodilatador por vez.
– Exato. Sei que não é a melhor maneira de fazer essas coisas, mas… bem… Se não estiver cansada demais, eu gostaria que me acompanhasse lá em cima.
– Claro!
O dr. Wilson então balançou a cabeça e saiu.
Estelle começou a limpar a barriga de Marygay com esponja e álcool isopropílico. A impressão era de frescor e limpeza.
– Alguém deu antichoque para ela?
– Sim – respondi –, há uns dez minutos.
– Ah… Por isso que o médico estava preocupado… Não, você fez o correto. Mas antichoque é um pouco vasoconstritor. Apenas 5 mililitros a mais podem provocar uma overdose. – Ela continuou silenciosamente com a limpeza, erguendo os olhos regularmente para verificar o monitor de pressão sanguínea.
– William? – Era a primeira vez que ela dava algum sinal de que me reconhecia. – Esta mulh… hum… Marygay, ela é sua amante? Sua amante regular?
– Isso mesmo.
– Ela é muito bonita. – Uma observação singular, já que seu corpo estava retorcido e com escaras ensanguentadas e seu rosto havia ficado lambuzado quando tentei enxugar suas lágrimas. Acho que qualquer médico, ou mulher, ou amante consegue enxergar abaixo daquilo tudo e ver beleza.
– Sim. É mesmo. – Marygay havia parado de chorar e seus olhos estavam bem fechados, sorvendo até o último pingo de umidade do chumaço de papel.
– Ela pode tomar mais água?
– Ok, da mesma forma que antes. Não muito.
Fui ao armário buscar outra toalha de papel. Agora que os vapores do fluido pressurizante haviam se dissipado, pude sentir o cheiro do ar. Era um cheiro estranho, de óleo lubrificante e metal queimado; como cheiro de casa de fundição. Fiquei imaginando se teriam sobrecarregado o ar-condicionado. Isto já havia acontecido uma vez, depois de termos utilizado pela primeira vez as câmaras de aceleração.
Marygay tomou a água sem abrir os olhos.
– Vocês planejam ficar juntos quando voltarem para a Terra?
– Provavelmente – respondi. – Se voltarmos para a Terra. Ainda temos mais uma batalha pela frente.
– Não haverá mais batalhas – respondeu ela, sem se alterar. – Quer dizer que você não está sabendo?
– O quê?
– Não sabe que a nave foi atingida?
– Atingida?! E como podemos estar vivos?
– Isso mesmo. – Ela voltou-se novamente para a limpeza. – Quatro alas de brigada. Assim como a ala de armaria. Não há um traje de batalha sequer na nave… e não podemos lutar apenas com as roupas de baixo.
– O quê… Alas de brigada? O que houve com o pessoal?
– Sem sobreviventes.
Trinta pessoas.
– Quem eram?
– Todos do terceiro pelotão. Primeiro esquadrão do segundo pelotão.
Al-Sadat, Busia, Maxwell, Negulesco.
– Meu Deus!
– Trinta mortos, e eles não têm a menor ideia de qual tenha sido a causa. Não sabem, mas isso pode voltar a acontecer a qualquer momento.
– Não era um míssil teleguiado?
– Não, destruímos todos os mísseis e a embarcação inimiga também. Nada apareceu em nenhum dos sensores, apenas bum! E um terço da nave foi pelos ares. Por sorte não foi o setor de direção ou o sistema de suporte vital.
Eu mal a ouvia. Penworth, LaBatt, Smithers, Christine e Frida. Todos mortos. Eu estava estarrecido.
Estelle pegou uma navalha e um tubo de gel de dentro da bolsa.
– Seja cavalheiro e olhe para o outro lado. Aqui – falou, molhando um pedaço de gaze em álcool e o passando para mim. – Seja útil. Limpe o rosto dela.
Comecei a limpeza e, sem abrir os olhos, Marygay disse:
– A sensação é boa. O que você está fazendo?
– Sendo cavalheiro. E útil também…
– Todos, atenção!
Não havia nenhum alto-falante na câmara de pressão, mas eu podia ouvir claramente por meio da porta que dava para o vestiário.
– Todos do escalão 6 e superiores, a menos que alguém esteja diretamente envolvido em emergências médicas ou de manutenção, dirijam-se imediatamente à sala de reunião.
– Preciso ir, Marygay.
Ela não disse nada. Eu não sabia se havia ouvido o comunicado.
– Estelle – dirigi-me a ela de forma direta, sem me preocupar em ser cavalheiro –, você…
– Sim. Aviso assim que tiver alguma notícia.
– Certo.
– Vai ficar tudo bem. – Mas sua expressão era sombria e preocupada. – Agora vá! – falou com suavidade.
Quando cheguei ao corredor, os alto-falantes estavam repetindo a mensagem pela quarta vez. Havia um novo cheiro no ar, que eu não queria identificar.