Guerra sem fim

Joe Haldeman · Capítulo 20 de 40

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Guerra sem fim

Sargento Mandella, 2007–2024 D.C.

16

 

Eu estava assustado o bastante.

O submajor Stott andava de um lado para o outro atrás da pequena tribuna na sala de reuniões/refeitório/ginásio da nave Aniversário. Acabáramos de fazer nosso último salto colapsar, de Tet-38 a Yod-4. Desacelerávamos a 1,5 gravidade e nossa velocidade relativa àquele colapsar era de consideráveis .90c. Estávamos sendo perseguidos.

– Eu gostaria que vocês relaxassem por um instante e confiassem no computador da nave. Seja como for, a embarcação tauriana só estará dentro do raio de ação daqui a duas semanas. Mandella!

Ele sempre tomava o cuidado de me chamar de “sargento” Mandella na frente da companhia. Mas todos, nesta reunião em particular, eram sargentos ou cabos, líderes de esquadrão.

– Sim, senhor.

– Você é responsável pelo bem-estar físico e psicológico dos homens e das mulheres do seu esquadrão. Partindo do pressuposto de que está ciente de que o moral nesta nave está abalado, o que você fez a respeito?

– Com relação à minha equipe, senhor?

– Naturalmente.

– Conversamos sobre o problema, senhor.

– E chegaram a alguma conclusão convincente?

– Sem querer faltar com o respeito, senhor, acho que o maior problema é óbvio: meu pessoal está confinado nesta nave há catorze…

– Ridículo! Todos nós estamos adequadamente treinados para enfrentar a pressão de viver em alojamentos fechados, e os recrutas têm o privilégio da confraternização.

Era uma maneira delicada de dizer aquilo.

– Já os oficiais devem manter-se celibatários, e nem por isso o moral deles tem sido abalado – prosseguiu.

Se ele achava que seus oficiais eram celibatários, deveria se sentar e ter uma longa conversa com a tenente Harmony. Talvez estivesse se referindo apenas aos oficiais da linha de combate, que eram somente ele e Cortez. Ainda assim, provavelmente, estaria 50% correto. Cortez era extremamente delicado com a cabo Kamehameha.

– Senhor, talvez tenha sido a desintoxicação ao voltar para o Portal Estelar; quem sabe se…

– Não. Os terapeutas trabalharam apenas para apagar o condicionamento de ódio – todos sabiam o que eu pensava a respeito… –, e eles podem estar equivocados, mas são eficientes. Cabo Potter! – Ele sempre fazia questão de chamá-la pela patente para lembrá-la dos motivos por que não havia sido promovida como nós: era branda demais. – Você já “conversou” com seu pessoal também?

– Discutimos o assunto, senhor.

O submajor era capaz de olhar para as pessoas “de modo penetrante e suave”. Foi como olhou para Marygay enquanto ela explicava.

– Não acredito que se trate de um problema de condicionamento. Meu pessoal está impaciente, cansado de fazer as mesmas coisas dia após dia.

– Estão ansiosos por combate, então? – Não havia sarcasmo em sua voz.

– Querem sair da nave, senhor.

– Eles sairão da nave – ele falou, permitindo-se um sorriso quase imperceptível –, e então é provável que fiquem igualmente impacientes para voltar.

Aquela conversa prosseguiu ainda por mais um bom tempo. Ninguém queria dizer que sua equipe estava com medo: medo do cruzador tauriano que se aproximava, medo de aterrissar no planeta portal. O submajor Stott tinha um histórico ruim no que se referia a lidar com pessoas que admitissem ter medo.

Apontei para a tabela de organização que eles nos deram. Era mais ou menos assim:

Eu conhecia a maioria das pessoas da incursão em Aleph, onde se dera o primeiro contato cara a cara entre humanos e taurianos. Os únicos novatos no meu pelotão eram Luthuli e Heyrovsky. Na companhia como um todo (digo, “força de ataque”), tivemos vinte substituições para as dezenove pessoas que perdêramos em Aleph: uma amputação, quatro mortos, catorze psicóticos.

Eu não conseguia admitir o “20 de março de 2007” no final da folha da tabela de organização. Estava no exército havia dez anos, embora parecessem ser menos de dois. Dilação temporal, é claro: mesmo com os saltos colapsares, viajar de uma estrela a outra avançava muito o calendário.

Após essa incursão, eu provavelmente me qualificaria para a aposentadoria, com pagamento integral. Se eu sobrevivesse à incursão e se não mudassem as regras no meio do percurso. Eu, um homem com 20 anos de experiência e apenas 25 anos de idade.

Stott estava finalizando quando se ouviu uma única batida forte na porta.

– Entre! – convidou.

Um oficial que eu conhecia vagamente entrou e estendeu a Stott uma folha de papel, sem falar nada. Ficou ali enquanto Stott a lia, com uma postura indicando o exato grau de sua insolência. Tecnicamente, Stott não era seu subordinado. De qualquer forma, ninguém na marinha gostava dele.

Stott entregou o papel de volta e examinou o oficial.

– Vocês avisarão suas equipes de que as manobras evasivas preliminares começarão às 20h10, dentro de 58 minutos. – Ele não havia consultado o relógio. – Todo o pessoal deverá estar nas cápsulas de aceleração às 20h00. Sen…tido!

Levantamo-nos e, sem entusiasmo, gritamos em coro:

– Foda-se, senhor! – Costume idiota…

Stott saiu a passos largos da sala e o oficial o seguiu, com um sorriso afetado.

Ajustei meu comunicador para falar com meu assistente de equipe e disse-lhe:

– Tate, aqui é Mandella.

Todos na sala estavam fazendo o mesmo. Uma voz metálica respondeu:

– Aqui é Tate. E aí?

– Reúna os homens e diga-lhes que devemos estar nas cápsulas às 20h00. Manobras evasivas.

– Que merda! Disseram que ainda demoraria dias.

– Acho que surgiu algo novo. Ou talvez o comodoro tenha tido uma ideia brilhante.

– Que o comodoro enfie você sabe onde… Você está no saguão?

– Sim.

– Traga-me uma xícara de café quando vier, ok? Com pouco açúcar.

– Entendido. Estarei aí embaixo em meia hora.

– Obrigado. Vou preparar tudo.

Houve uma movimentação geral em direção à máquina de café. Entrei na fila atrás da cabo Potter.

– O que acha, Marygay?

– Talvez o comodoro apenas queira que testemos as cápsulas mais uma vez.

– Antes do combate real.

– Talvez.

Ela pegou uma xícara e encheu. Parecia preocupada, mas completou o pensamento:

– Ou talvez os taurianos já tivessem uma nave aí fora esperando por nós. Fico me perguntando por que eles não fazem algo assim. Nós fazemos, no Portal Estelar.

– O Portal Estelar é outra coisa. São necessários sete cruzadores, movendo-se o tempo todo, para cobrir todas as saídas possíveis. Não temos como fazer isso com mais de um colapsar, e eles tampouco.

Marygay não disse nada enquanto enchia a xícara.

– Talvez tenhamos dado de cara com a versão tauriana de Portal Estelar. Ou então eles tenham mais naves que nós no momento.

Enchi e adocei duas xícaras, tapando uma delas.

– Não dá para saber.

Fomos caminhando até uma mesa, com cuidado por causa das xícaras sob alta gravidade.

– Talvez Singhe saiba de alguma coisa – ela comentou.

– Talvez. Mas eu teria de passar por Rogers e Cortez. Se eu tentasse incomodá-lo agora, Cortez pularia na minha garganta.

– Ah, posso falar diretamente com ele. Nós… – formou-se uma covinha em seu rosto – somos amigos.

Beberiquei um pouco do café escaldante e tentei parecer indiferente.

– Então é para lá que você vai quando some.

– Você desaprova? – ela perguntou inocentemente.

– Bem… caramba, não, claro que não. Mas… mas ele é oficial! Oficial da marinha!

– Ele está ligado a nós, e isto o torna, em parte, do exército.

Ela ajustou o comunicador e disse:

– Diretório. – Virou-se para mim e falou: – E você e a pequena srta. Harmony?

– Não é a mesma coisa. – Ela estava sussurrando um código de diretório em seu comunicador.

– Claro que é. O que você queria era transar com uma oficial. Pervertido. – O comunicador soou duas vezes. Estava ocupado. – O que achou dela?

– Adequada. – Eu estava me recuperando.

– Além do mais, o oficial Singhe é um perfeito cavalheiro. E nem um pouco ciumento.

– Eu também não sou – falei. – Se ele a magoar algum dia, é só dizer que arrebento a cara dele.

Ela me olhou através da xícara.

– Se a tenente Harmony o magoar algum dia, é só dizer que arrebento a cara dela.

– Fechado!

Apertamos as mãos solenemente.