Judiciário e economia no Brasil
O impacto do judiciário nas atividades das instituições financeiras
O impacto do judiciário nas atividades
das instituições financeiras
Marcio Aith
6.1. Introdução
Este capítulo tem como objetivo identificar, quantificar e detalhar o
impacto das atividades do Poder Judiciário brasileiro nas operações
de instituições financeiras instaladas no país. Foram entrevistados
seis diretores de bancos, representando instituições com perfil e
porte diferenciados. Todos os executivos ouvidos estão ligados às
atividades do dia-a-dia dos bancos e, ao mesmo tempo, executam
funções de direção. Decidem onde aplicar recursos e para quem
emprestá-los (ou não emprestá-los).
Para a realização deste trabalho, procurou-se evitar entrevistas com
pessoas ligadas diretamente aos departamentos jurídicos dos
bancos, que pudessem ter avaliações viciadas sobre a importância
do judiciário para as atividades do setor. A escolha das instituições
procuradas e das pessoas entrevistadas exige outra explicação. Na
verdade, o termo “instituição financeira” compreende não só bancos
(de varejo, de investimento, etc.), mas também corretoras de valores
mobiliários e distribuidoras de títulos. Trata-se de um universo
amplo, compreendendo instituições com propósitos distintos e
atividades diferenciadas. No Brasil, segundo alguns critérios, até os
consórcios de automóveis são enquadrados como instituições
financeiras, já que estão sujeitos à fiscalização, à intervenção e à
liquidação pelo Banco Central. De comum, todas essas instituições
têm a qualidade de lidar com a chamada poupança popular e/ou
com investimentos de pessoas físicas e jurídicas.
Dada a amplitude desse universo, optou-se por concentrar as
entrevistas e pesquisa num grupo de bancos. Tal escolha deveu-se
ao fato de que, das instituições financeiras, são os bancos os que
mais lidam com a poupança popular e cujo objetivo – o lucro –
depende essencialmente do funcionamento da justiça, como
veremos a seguir. Foi também relevante para a escolha o fato de
que os bancos são basicamente as instituições que concedem
crédito e que, portanto, correm riscos.
Como também veremos adiante, o aspecto da atividade de
intermediação financeira que mais sofre a influência negativa das
deficiências do Poder Judiciário é justamente o risco das operações
de crédito. E os efeitos dessas influências são devastadores. Pelas
respostas dadas pelos entrevistados, o mau funcionamento do
judiciário limita a expansão das atividades no setor e, mais
importante, aumenta consideravelmente os spreads bancários – em
até 30%, dependendo da situação.
Os diretores entrevistados representam seis bancos, incluindo
instituições nacionais e estrangeiras, todas privadas. Dos seis,
apenas três autorizaram a divulgação de seus nomes. Os demais
alegaram, depois da entrevista, receio de que a publicação de suas
avaliações causasse problemas junto à diretoria dos bancos e,
principalmente, uma eventual retaliação dos juízes em processos já
existentes ou futuros envolvendo suas instituições. O diretor de um
dos bancos sugeriu que se fizesse uma solicitação formal de
entrevista à diretoria do banco. Se o pedido fosse autorizado, ele
permitiria a divulgação de seu nome. A resposta do banco foi
negativa: a instituição, segundo a assessoria da direção, não
participa desse tipo de pesquisa. O conteúdo da entrevista, no
entanto, consta deste trabalho.
Apesar de ser negativa para os propósitos do trabalho (já que os
diretores que não quiseram aparecer também não puderam pedir
dados aos departamentos jurídicos de seus bancos), a não
divulgação de seus nomes permitiu que os mesmos fizessem
críticas abertas e aparentemente inéditas (partindo de banqueiros) ao Poder Judiciário, principalmente em relação à suposta