O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 1 de 69

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O Circo da Noite

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O circo chega sem aviso.

 

Nenhum anúncio o precede, nenhum cartaz em postes ou outdoor, nenhuma menção ou propaganda nos jornais locais. Simplesmente está lá, quando ontem não estava.

As tendas imponentes são listradas de preto e branco, sem dourados ou carmesins. Não há cor alguma, a não ser a das árvores mais próximas e a da grama nos campos ao redor. Listras pretas e brancas no céu cinzento; incontáveis tendas de vários formatos e tamanhos, e uma elaborada cerca de ferro forjado enclausurando-as em um mundo sem cor. Até o pouco de chão que é possível ver do lado de fora é preto e branco, pintado ou coberto com pó, ou tratado com algum outro truque circense.

Mas não está aberto ao público. Ainda não.

Em poucas horas todos na cidade já ouviram falar dele. À tarde a novidade espalhou-se por diversos lugarejos vizinhos. O boca a boca é um método de divulgação mais eficaz do que palavras impressas e pontos de exclamação em cartazes ou panfletos. O aparecimento súbito de um circo misterioso é uma notícia impressionante e incomum. As pessoas ficam maravilhadas com a surpreendente dimensão das tendas mais altas. Olham curiosas para o relógio atrás dos portões, que ninguém consegue descrever muito bem.

E para o cartaz preto pintado em letras brancas pendurado nos portões, que diz:

 

Abre ao cair da noite

Fecha ao amanhecer

 

“Que espécie de circo é esse que só abre à noite?”, todos se perguntam. Ninguém tem uma resposta adequada, mas, com a aproximação do crepúsculo, uma substancial multidão de espectadores reúne-se do lado de fora dos portões.

Você está entre eles, claro. Foi atraído pela curiosidade, como era de se esperar. Parado sob a luz cada vez mais difusa, o cachecol ao redor do pescoço o protege da brisa fria da noite, e ele aguarda para ver com os próprios olhos que espécie de circo abre apenas quando o sol se põe.

A bilheteria, bem visível atrás dos portões, está fechada e trancada. As tendas estão imóveis, a não ser quando ondulam levemente com o vento. A única movimentação dentro do circo é a do relógio que tiquetaqueia com o passar dos minutos, se é que aquela admirável escultura pode ser chamada de relógio.

O circo parece deserto e abandonado. Mas você acredita sentir um aroma caramelado flutuando na brisa noturna, sob o perfume fresco das folhas de outono. Uma doçura sutil nas fronteiras do frio.

O sol desaparece por completo além do horizonte, e a luminosidade muda do lusco-fusco para o crepúsculo. As pessoas ao seu redor estão ficando inquietas com a espera, um mar de pés se arrastando, murmúrios sobre desistir dessa ideia e sair em busca de algum lugar mais quente para passar a noite. Você mesmo já está pensando em ir embora quando afinal acontece.

Primeiro ouve-se um espocar. Quase imperceptível em meio ao vento e à conversa. Um chiado suave, como água na chaleira prestes a ferver para o chá. Depois vem a iluminação.

Pequenas luzes começam a tremeluzir em todas as tendas, como se o circo todo estivesse coberto por vaga-lumes muito brilhantes. A multidão à espera se cala para observar a dança das luzes. Alguém perto de você tem um sobressalto. Uma criancinha bate palmas de alegria diante daquela visão.

Quando todas as tendas estão iluminadas, cintilando sob o céu noturno, o letreiro aparece.

Estendidas no alto dos portões, escondidas nas curvas do ferro forjado, mais luzes brilhantes como vaga-lumes surgem. Estalando ao se iluminarem, algumas seguidas por chuvas de faíscas brancas brilhantes e um pouco de fumaça. As pessoas mais próximas ao portão recuam.

De início, é apenas um padrão aleatório de luzes. Mas, à medida que outras se acendem, fica claro que estão alinhadas para formar letras. Primeiro distingue-se um C, seguido por outras letras. Um q, inesperado, e diversos es. Quando a última lâmpada estala e se acende, a fumaça e as faíscas se dissipam, tornando legível afinal o elaborado letreiro incandescente. Ao inclinar o corpo para a esquerda para enxergar melhor, você lê o que está escrito:

 

Le Cirque des Rêves

Algumas pessoas na multidão aquiescem sorrindo, outras franzem a testa e olham para os vizinhos com ar interrogativo. Uma criança perto de você puxa a manga da mãe, implorando para saber o que aquilo quer dizer.

“O Circo dos Sonhos” é a resposta. A garotinha sorri, encantada.

Os portões de ferro estremecem e se destrancam, como que por vontade própria. Abrem-se para fora, convidando a multidão a adentrar.

Agora o circo está aberto.

Agora você pode entrar.

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