O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 16 de 69

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O Circo da Noite

Estratagema

LONDRES, ABRIL DE 1886

 

—Ela é boa demais para ficar no meio de todo mundo — diz

Chandresh. — Precisa de uma tenda só para ela. Vamos dispor as cadeiras num círculo ou algo assim, manter a plateia bem no meio da ação.

— Sim, senhor — concorda Marco, folheando seu caderno, percorrendo as páginas que poucos minutos atrás eram asas de um pombo.

— O que está acontecendo com você? — pergunta Chandresh. — Está branco como uma folha de papel. — Os dois estão sozinhos no palco e a voz dele ecoa pelo teatro vazio, uma vez que Mme. Padva levou Srta. Bowen para fora, bombardeando-a com perguntas sobre vestidos e penteados.

— Está tudo bem, senhor — responde Marco.

— Você parece péssimo — comenta Chandresh, baforando o charuto. — Vá para casa.

Marco olha para ele com uma expressão de surpresa.

— Senhor, eu preciso cuidar de toda a papelada — protesta.

— Faça isso amanhã, há muito tempo para essas coisas. Tante Padva e eu vamos levar Srta. Bowen lá em casa para tomarmos um chá. Podemos cuidar dos detalhes e da papelada depois. Descanse um pouco, tome uma bebida ou faça o que costuma fazer. — Chandresh faz um gesto de dispensa distraído, a fumaça do charuto volteando em ondas no ar.

— Se insiste, senhor.

— Sim, insisto! E livre-se desses outros sujeitos no saguão. Não precisamos mais ver um bando de gente de terno e capa quando já encontramos alguém muito mais interessante. E bem atraente também, devo dizer, para aqueles cujo gosto vai nessa direção.

— É verdade, senhor — concorda Marco, com um rubor revelando-se no rosto pálido. — Até amanhã, então. — Inclina a cabeça quase numa reverência antes de girar nos calcanhares com elegância e partir em direção ao saguão.

— Marco, nunca pensei que você fosse do tipo que se assusta com facilidade — observa Chandresh às suas costas, mas ele não contesta.

Marco dispensa educadamente os ilusionistas no saguão, explica que a vaga foi preenchida e agradece por terem vindo. Nenhum deles percebe que suas mãos estão trêmulas, ou que ele está apertando tanto a caneta que as juntas estão esbranquiçadas. Tampouco notam quando ele quebra a caneta e a tinta negra se espalha pelo seu pulso.

Quando os ilusionistas vão embora, Marco junta suas coisas e limpa a mão suja de tinta no casaco escuro. Põe o chapéu-coco antes de sair do teatro.

A cada passo, ele fica visivelmente mais perturbado. As pessoas afastam-se do seu trajeto na calçada movimentada.

Quando chega ao apartamento, Marco joga a sacola no chão, encostando-se na porta com um suspiro profundo.

— O que aconteceu? — pergunta Isobel, sentada numa cadeira ao lado da lareira apagada. Esconde no bolso o chumaço de cabelo que esteve trançando e franze a testa, pois sabe que vai ter que trançar tudo de novo por ter perdido a concentração. São as partes que ainda acha mais difíceis, o foco e a concentração.

Por ora, ela desiste e observa Marco atravessar a sala até a estante que recobre a parede.

— Já sei quem é a minha oponente — diz Marco, derrubando pilhas de livros das prateleiras e espalhando-os ao acaso pelas mesas, deixando vários amontoados no chão. Os que continuam nas prateleiras desabam, alguns volumes caem, mas Marco não parece notar.

— É aquela japonesa que deixou você tão curioso? — pergunta Isobel, enquanto observa o impecável sistema de arquivamento de Marco se desvirtuar num caos. O apartamento é sempre mantido na mais perfeita ordem, e ela se inquieta com aquela súbita reviravolta.

— Não — responde Marco folheando algumas páginas. — É a filha de Próspero.

Isobel pega um vaso de violetas que foi derrubado junto com os livros e o coloca no lugar na estante.

— Próspero? — pergunta. — O mágico? Aquele que você viu em Paris?

Marco confirma com um gesto de cabeça.

— Eu não sabia que ele tinha uma filha — comenta.

— Eu também desconhecia esse fato — diz Marco, descartando um dos livros e pegando outro. — Chandresh acabou de contratá-la para ser a ilusionista do circo.

— Sério? — pergunta Isobel. Marco não responde. — Então ela vai fazer o que você diz que ele fazia, mágica de verdade disfarçada de ilusões de palco? Ela fez isso no teste?

— Fez — responde Marco, sem tirar os olhos dos livros.

— Ela deve ser muito boa.

— Boa demais — admite Marco, tirando outra prateleira de livros do lugar e transportando-a para a mesa, e a violeta torna-se mais uma vez uma vítima inocente. — Isso pode ser extremamente problemático — diz quase para si mesmo. Uma pilha de cadernos escorrega da mesa e cai no chão, as páginas agitadas esvoaçando e fazendo um ruído como o bater de asas de pássaros.

Isobel resgata a violeta outra vez, colocando-a do outro lado da sala.

— Ela sabe quem você é? — pergunta.

— Acredito que não.

— Isso quer dizer que o circo é parte do desafio? — indaga Isobel.

Marco para de folhear os livros e olha para ela.

— Deve ser — responde, antes de voltar ao que estava fazendo. — Provavelmente foi essa a razão de eu ter sido encaminhado a Chandresh: para já estar envolvido. O circo é o local.

— E isso é bom? — pergunta Isobel, mas Marco não responde, perdido no fluxo de papel e tinta outra vez.

Com uma das mãos, ele apalpa o tecido da outra manga. A mancha de tinta preta no punho branco.

— Ela mudou o tecido — murmura para si mesmo. — Como ela conseguiu mudar o tecido?

Isobel transfere uma pilha de livros jogada no chão para a escrivaninha em que está o seu baralho de Marselha. Olha para Marco, agora profundamente absorto em um volume específico. Em silêncio, distribui as cartas numa longa fileira na mesa.

Mantendo os olhos em Marco, ela tira uma única carta. Deposita-a na mesa e olha para saber o que ela tem a dizer.

Um homem entre duas mulheres, um querubim com um arco e flecha pairando sobre suas cabeças. L’Amoreux. Os Amantes.

— Ela é bonita? — pergunta Isobel.

Marco não responde.

Isobel vira outra carta da fileira e a põe sobre a primeira. La Maison Dieu.

Franze a testa diante da imagem da torre desabando e do corpo que cai. Devolve as duas cartas para o baralho, organizando-as de novo numa pilha.

— Ela é mais forte que você? — pergunta.

Mais uma vez Marco não responde e continua folheando um caderno.

Durante anos ele se sentiu razoavelmente bem preparado. Praticar com Isobel se mostrou algo vantajoso, possibilitando que aperfeiçoasse aspectos de suas ilusões ao ponto em que, mesmo com toda a intimidade entre os dois, nem sempre ela conseguia discernir o que é real.

Porém, ao conhecer sua oponente, seus sentimentos em relação ao desafio de repente mudaram, substituídos por nervosismo e confusão.

Ele só esperava saber o que fazer quando chegasse o momento.

E nutria certa esperança de que esse momento nunca chegasse, que a promessa do jogo fosse algo para motivar seus estudos e nada mais.

— Então a competição vai começar quando o circo abrir? — pergunta Isobel.

Ele quase tinha esquecido que ela estava lá.

— Suponho que isso seja o lógico — responde Marco. — Só não entendo como vamos competir se o circo vai viajar e eu preciso permanecer em Londres. Vou ter que fazer tudo a distância.

— Eu poderia ir — diz Isobel.

— O quê? — pergunta Marco, olhando para ela outra vez.

— Você disse que o circo ainda está precisando de uma cartomante, não foi? Eu poderia ler cartas. Nunca li para ninguém, a não ser para mim mesma, mas estou cada vez melhor. Poderia escrever a você quando o circo estivesse longe. E teria um lugar para ir, já que você não poderá ficar comigo enquanto estiver jogando.

— Não sei se é uma boa ideia — comenta Marco, embora não conseguisse explicar por quê.

Ele nunca considerou a possibilidade de envolver Isobel em sua vida fora dos limites daquele apartamento. Ele a tem mantido longe de Chandresh e do circo, tanto para ter algo só seu como por parecer o certo, ainda mais depois do vago conselho de seu instrutor a respeito dela.

— Por favor — insiste Isobel. — É uma forma de eu ajudar você.

Marco hesita e olha para os seus livros. Ele continua preocupado com a imagem da garota do teatro.

— Eu posso ajudar você a estar mais perto do circo — continua Isobel —, e ainda terei algo para fazer enquanto durar o seu desafio. Quando tudo acabar, posso voltar a Londres.

— Eu nem sei como o desafio vai funcionar — diz Marco.

— Mas você tem certeza de que eu não vou poder ficar aqui enquanto isso? — pergunta ela.

Marco suspira. Eles já discutiram isso antes, não em detalhes, mas o suficiente para estabelecer que quando o jogo começasse ela teria que ir embora.

— Eu já estou ocupado trabalhando para Chandresh, e vou precisar me concentrar na competição sem... distrações — ele explica, usando a palavra antes escolhida por seu instrutor, uma ordem disfarçada de sugestão. Não sabe ao certo qual opção o aborrece mais: envolver Isobel no jogo ou renunciar à única relação em sua vida que não lhe foi imposta.

— Dessa forma eu não seria uma distração, estaria ajudando — insiste Isobel. — E, se você não pode ser ajudado, ora, eu só estaria escrevendo umas cartas. O que há de errado nisso? Para mim parece a solução perfeita.

— Eu poderia arranjar um encontro entre você e Chandresh — sugere Marco.

— Você poderia... convencê-lo a me contratar, não poderia? — pergunta Isobel. — Caso ele precise ser convencido.

Marco confirma com um gesto de cabeça, ainda incerto quanto à ideia, mas quase desesperado por algum tipo de estratégia. Uma tática a ser usada para lidar com aquela oponente recém-revelada.

Repassa o nome dela na cabeça, muitas vezes.

— Qual é o nome da filha de Próspero? — pergunta Isobel, como se soubesse no que ele está pensando.

— Bowen — responde Marco. — O nome dela é Celia Bowen.

— É um nome bonito — comenta Isobel. — Há alguma coisa errada com a sua mão?

Marco olha para baixo, surpreende-se ao perceber que segura a mão direita com a esquerda, inconscientemente esfregando o espaço vazio onde no passado um anel foi queimado em sua pele.

— Não — retruca, apanhando um caderno para ocupar as mãos. — Não é nada.

Isobel parece satisfeita com a resposta, ergue uma pilha de livros do chão e a organiza na escrivaninha.

Marco sente-se aliviado por ela não ter a capacidade de extrair a lembrança do anel de sua mente.

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Você entra em um pátio aberto iluminado, cercado por tendas listradas.

Caminhos sinuosos ao longo do perímetro levam para fora do pátio, convertendo-se em mistérios invisíveis pontilhados de luzes cintilantes.

Os vendedores transitam pela multidão ao seu redor, vendendo lanches e curiosidades, criações com sabor de baunilha e mel, chocolate e canela.

Uma contorcionista num traje preto com brilhos se retorce sobre uma plataforma ali perto, dobrando o corpo em posturas impossíveis.

Um malabarista lança bem alto globos pretos, brancos e prateados, que parecem pairar antes de cair nas mãos dele, e os espectadores atentos aplaudem.

Tudo banhado por uma luz incandescente.

A luz emana de uma grande fogueira no centro do pátio.

Quando você se aproxima, pode ver que a fogueira está num grande caldeirão de ferro preto, equilibrado em vários pés em forma de garras. Onde a borda do caldeirão deveria estar, há longas faixas de ferro retorcido, como se tivesse sido derretido e esticado como caramelo. O ferro retorcido continua subindo até fazer uma curva sobre si mesmo, tecendo-se com outras curvas, dando um efeito de gaiola. As chamas são visíveis nos intervalos entre os retorcidos e um pouco acima. São obscurecidas apenas no fundo, de forma que é impossível saber o que estão queimando: madeira, carvão ou algo totalmente diferente.

As chamas não são amarelas ou cor de laranja, são brancas como a neve quando dança.

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