O Circo da Noite
Aleuromancia
CONCORD, MASSACHUSETTS, OUTUBRO DE 1902
Ao sair da tenda da vidente e virar à direita, como ela sugerira, Bailey
encontra quase de imediato um pequeno grupo assistindo a uma apresentação. De início, ele não consegue ver do que se trata, não há nenhuma plataforma elevada. Espiando pelos espaços entre os espectadores, ele consegue distinguir uma argola, maior do que a usada pela contorcionista, flutuando no ar. Quando se aproxima, um gato preto salta por ela, aterrissando em algum lugar fora da visão.
Uma mulher a sua frente com um grande chapéu se vira e ele vê um jovem mais ou menos da sua idade, porém um pouco mais baixo, vestindo um terno preto feito com todos os tipos de tecidos e um chapéu da mesma cor. Sobre os ombros dele estão dois gatinhos de um branco ofuscante. Quando ele ergue sua mão aberta com a luva negra, um dos gatinhos dá um salto, pega impulso na palma da mão e pula através do aro, executando um impressionante salto mortal. Muitos dos integrantes da pequena plateia riem, e uns poucos, inclusive Bailey, aplaudem. A mulher com o chapelão afasta-se, desobstruindo o campo de visão de Bailey. Suas mãos imobilizam-se no meio da salva de palmas quando ele vê a jovem que acabou de pegar o gatinho branco e agora o deposita no ombro onde já há um gatinho preto.
Ela está mais velha, como ele imaginava, e seus cabelos vermelhos estão meio escondidos dentro do gorro branco. Mas seu traje é semelhante ao que ele viu da última vez em que a encontrou: um vestido de retalhos com todos os tecidos imagináveis, todos em tons claros como a neve, uma jaqueta branca com um monte de botões e um par de luvas alvíssimas.
Ela vira a cabeça, os olhos de Bailey se encontram com os dela e ela sorri para ele. Não da maneira como alguém sorri a um integrante qualquer da plateia no meio de uma apresentação de truques circenses com gatinhos muito talentosos, mas da forma como alguém sorri quando reconhece uma pessoa que não vê há muito tempo. Bailey consegue notar a diferença, e o fato de ela se lembrar dele o deixa inexplicavelmente muito contente. Sente as orelhas mais quentes, apesar do frio do ar noturno.
Assiste ao restante do número muito concentrado, prestando bem mais atenção à garota do que aos gatinhos, ainda que estes sejam impressionantes demais para serem ignorados e estejam sempre atraindo sua atenção. Quando o espetáculo termina, a garota e o garoto (e os gatinhos) fazem uma pequena reverência e a audiência aplaude e ovaciona.
Bailey fica pensando no que deveria dizer, se deveria dizer alguma coisa, enquanto as pessoas começam a se dispersar. Um homem fica na sua frente, outra mulher bloqueia seu caminho, e ele perde totalmente a garota de vista. Força a passagem pela multidão, mas, quando consegue afinal se libertar, a garota, o garoto e os gatinhos não estão em parte alguma.
A multidão ao redor logo se reduz a umas poucas pessoas andando de um lado para outro. Não há outras direções a seguir, pelo que pode ver. Apenas as altas paredes listradas das tendas cercam a área e ele vira-se devagar, procurando algum lugar por onde eles possam ter desaparecido, alguma esquina ou porta. Está se repreendendo por ter chegado tão perto e fracassado quando alguém bate em seu ombro.
— Olá, Bailey — diz a garota.
Ela está bem atrás dele. Tirou o chapéu — os cabelos ruivos agora caem em cachos sobre seus ombros — e substituiu a jaqueta branca por um casaco preto pesado e um cachecol tricotado de um violeta vibrante. Somente a barra franzida de seu vestido e as botas brancas indicam ser a garota que estava se apresentando no mesmo local instantes atrás. Fora isso, ela parece um dos frequentadores do circo.
— Olá — responde Bailey. — Eu não sei o seu nome.
— Ah, desculpe — diz ela. — Esqueci que não fomos formalmente apresentados. — Estende a mão com a luva branca, e Bailey percebe que é maior do que a luva que recebeu para provar que completou a tarefa muito tempo atrás. — Eu sou Penelope, mas ninguém me chama assim, e de qualquer forma eu não gosto desse nome, por isso, para todos os efeitos, meu nome é Poppet.
Bailey aperta a mão dela. É mais quente do que esperava, apesar das duas camadas de luva.
— Poppet — repete Bailey. — A vidente me disse, mas não entendi que era o seu nome.
A garota sorri.
— Você esteve com Isobel? — pergunta. Bailey balança a cabeça afirmativamente. — Ela não é adorável? — Bailey balança a cabeça outra vez, embora não saiba se sua resposta é apropriada. — Ela disse alguma coisa boa sobre o seu futuro? — pergunta Poppet, baixando o tom de voz num sussurro dramático.
— Ela me disse um monte de coisas que não entendi — confessa Bailey.
Poppet balança a cabeça, compreensiva.
— Ela faz isso mesmo — diz. — Mas não é por mal.
— Vocês têm permissão para ficar aqui desse jeito? — pergunta Bailey, apontando para o fluxo constante de visitantes do circo que continuam vagando por lá, ignorando-os completamente.
— Ah, sim — responde Poppet —, desde que fiquemos incógnitos. — Ela aponta o próprio casaco. — Ninguém repara na gente. Não é, Widget? — Vira-se para um jovem em pé ali perto, que Bailey ainda não tinha reconhecido como o parceiro de Poppet na apresentação. Trocara seu paletó preto por um de tweed marrom, e seus cabelos sob o gorro são tão chocantemente vermelhos quanto os de Poppet.
— As pessoas não prestam muita atenção a não ser que você dê um motivo para isso — diz Widget. — Embora os cabelos também ajudem, por passarem a impressão de que você não faz parte de um circo preto e branco.
— Bailey, esse é o meu irmão, Winston — diz Poppet.
— Widget — corrige ele.
— Eu ia chegar lá — observa Poppet, soando meio ressentida. — Widge, esse é o Bailey.
— Prazer em conhecê-lo — diz Bailey, estendendo a mão.
— Igualmente — responde Widget. — Nós vamos dar uma volta, se quiser vir com a gente.
— Venha, por favor — acrescenta Poppet. — Nós quase nunca temos companhia.
— Claro, eu gostaria muito — concorda Bailey. Não consegue encontrar uma única razão para recusar, e fica contente por eles serem tão receptivos. — Vocês ainda precisam fazer mais... hã... coisas circenses?
— Não, ao menos pelas próximas horas — responde Widget enquanto começam a andar por outro caminho do circo. — Os gatinhos precisam dormir. As apresentações os deixam com sono.
— Eles são muito bons. Como vocês conseguem que eles façam todos aqueles truques? Nunca vi um gato dar um salto mortal — comenta Bailey. Ele percebe que os três estão caminhando no mesmo ritmo, formando um grupo com muita facilidade. Ele está mais acostumado a seguir alguns passos atrás.
— A maioria dos gatos faz qualquer coisa se a gente pedir com jeito — diz Poppet. — Mas treinar desde cedo também ajuda.
— E dar muitas recompensas para eles — acrescenta Widget. — Recompensas sempre ajudam.
— Você já viu os grandes felinos? — pergunta Poppet. Bailey nega com um movimento de cabeça. — Ah, você devia ver. Nossos pais trabalham no espetáculo com eles. A tenda é ali. — Aponta numa direção vagamente à direita.
— É como o nosso número, só que com gatos maiores — diz Widget.
— Gatos muito maiores — acrescenta Poppet. — Panteras e lindos leopardos-das-neves pintados. Mas eles na verdade são bonzinhos.
— E se apresentam numa tenda — acrescenta Widget.
— Por que vocês não têm uma tenda? — pergunta Bailey.
— Na verdade nós não precisamos de uma — responde Poppet. — Só podemos fazer alguns espetáculos por noite, e só precisamos dos gatinhos, dos aros e das outras coisas. Aqueles que não têm necessidade de uma tenda se apresentam onde houver espaço.
— Ajuda na ambientação — emenda Widget. — Assim as pessoas podem ver partes do circo só de andar por aí, sem precisar entrar em uma tenda.
— Isso deve ser muito bom para os indecisos — observa Bailey, sorrindo quando Poppet e Widget riem. — É difícil escolher uma tenda, sabe, no meio de tantas.
— É verdade — concorda Poppet.
Agora eles chegaram ao pátio onde fica a fogueira. Está bem cheio, e Bailey continua surpreso pelo fato de ninguém prestar atenção aos dois irmãos, considerando-os como qualquer outro grupo de jovens passando a noite no circo.
— Estou com fome — diz Widget.
— Você está sempre com fome — replica Poppet. — Vamos comer alguma coisa?
— Vamos — responde Widget.
Poppet mostra a língua para ele.
— Eu estava falando com Bailey — comenta. — Vamos comer alguma coisa, Bailey?
— Claro — responde Bailey.
Poppet e Widget parecem ter um relacionamento muito melhor do que o dele e de Caroline, e Bailey supõe que é por terem mais ou menos a mesma idade. Fica pensando se eles são gêmeos: sem dúvida são muito parecidos e podem ser gêmeos, mas acha que poderia ser indelicado perguntar.
— Já experimentou essas coisas de canela? — pergunta Poppet. — São uma novidade. Como se chamam, Widget?
— Aquelas coisas de canela fantásticas e deliciosas? — diz Widget, dando de ombros. — Acho que essas novidades ainda não têm nome.
— Nunca experimentei, mas parece muito bom — diz Bailey.
— É muito bom — observa Widget. — Camadas de massa com canela e açúcar, enroladas e torcidas, cobertas com açúcar de confeiteiro.
— Uau — exclama Bailey.
— Exatamente — concorda Widget. — E a gente devia pedir também chocolate quente e uns camundongos de chocolate.
— Eu tenho camundongos de chocolate — diz Bailey, tirando o saquinho do bolso. — Comprei quando cheguei.
— Ah, você se antecipou. É sempre bom estar preparado — comenta Widget. — Você tinha razão sobre ele, Poppet.
Bailey lança um olhar interrogativo a Poppet, mas ela apenas sorri.
— Bailey e eu vamos pegar os chocolates quentes enquanto você vai atrás das coisas de canela, certo? — diz ela, e Widget concorda.
— Tudo bem. Encontro vocês na fogueira? — propõe.
Poppet concorda com um aceno de cabeça, Widget toca no chapéu numa saudação aos dois e se embrenha na multidão.
Bailey e Poppet continuam a andar pelo pátio da fogueira. Depois de alguns instantes de um silêncio amigável, Bailey cria coragem para perguntar algo que não tem certeza que seria capaz de fazer na presença de Widget.
— Posso perguntar uma coisa?
— É claro — responde Poppet.
Há uma pequena fila para chegar ao chocolate quente, mas o vendedor percebe a presença de Poppet. Ela mostra três dedos a ele, e o vendedor sorri e balança a cabeça.
— Quando... hã... da última vez em que o circo esteve aqui e eu... bem... — Bailey luta para encontrar as palavras, aborrecido pelo fato de a pergunta parecer mais simples em sua cabeça.
— Sim? — diz Poppet.
— Como você sabia o meu nome? — pergunta. — E como sabia que eu estava lá?
— Hummm... — murmura Poppet, como se estivesse tendo dificuldade para encontrar as palavras certas. — Não é fácil explicar — começa. — Eu vejo coisas antes de elas acontecerem. Eu vi você vindo não muito antes de você chegar. Nem sempre vejo bem os detalhes, mas quando vi você eu sabia o seu nome, da mesma forma que sei que o seu cachecol é azul.
Quando eles chegam ao início da fila o vendedor já está com três chocolates quentes em canecas listradas esperando por eles, com camadas extras de chantili na superfície. Poppet entrega um a Bailey e fica com os outros dois, e Bailey percebe que o vendedor se despede sem que nenhum dinheiro tenha trocado de mãos. Supõe que chocolate grátis é um dos benefícios de ser um integrante do circo.
— Então você vê tudo antes de acontecer? — pergunta Bailey. Não sabe ao certo se a resposta de Poppet foi exatamente a que esperava, se é que ele esperava alguma coisa.
Poppet balança a cabeça.
— Não, não tudo. Às vezes, só pedaços de coisas, como palavras e ilustrações de um livro, mas o livro tem muitas páginas faltando e foi jogado numa poça d’água, e algumas partes estão borradas e outras não. Faz sentido? — pergunta.
— Não muito — responde Bailey.
Poppet ri.
— Eu sei que é estranho — comenta.
— Não, não é — diz Bailey. Poppet vira-se para olhá-lo, o ceticismo ante aquela afirmação evidente em sua expressão. — Bom, sim, é um pouco estranho. Mas só estranho esquisito, não estranho ruim.
— Obrigada, Bailey — diz Poppet.
Eles contornam o pátio, indo em direção à fogueira novamente. Widget está esperando por eles, segurando um saco de papel preto e observando as chamas brancas e vibrantes.
— Por que vocês demoraram tanto? — pergunta.
— Tivemos que esperar na fila — responde Poppet, entregando-lhe o chocolate quente. — Você não?
— Não. Acho que as pessoas ainda não perceberam como essas coisas são boas — diz Widget, sacudindo o saco de papel. — Então estamos prontos?
— Acho que sim — responde Poppet.
— Aonde nós vamos? — pergunta Bailey.
Poppet e Widget trocam um olhar antes de Poppet responder.
— Vamos fazer umas rondas — explica. — Circular pelo circo. Para... ficar de olho nas coisas. Você quer vir com a gente, não quer?
— É claro — responde Bailey, aliviado por sua presença não ser uma imposição.
Os três dão voltas pelo circo, bebericando chocolate quente e mastigando camundongos de chocolate e as coisas açucaradas de canela, que são tão boas quanto o prometido. Poppet e Widget contam histórias sobre o circo, indicando tendas enquanto caminham, e Bailey responde a perguntas sobre a cidade, estranhando que pareçam interessados no que ele considera trivial. Eles conversam como se se conhecessem há anos, e com o entusiasmo de novos amigos com novas histórias.
Se Poppet e Widget estão de olho em alguma coisa além do chocolate e dele próprio, Bailey não consegue perceber.
— O que é o Observatório Estelar? — pergunta ao avistar um cartaz que nunca notara enquanto eles descartam os sacos e as canecas vazios.
— Está a fim de dar uma olhada, Poppet? — pergunta Widget à irmã. Ela faz uma pausa antes de balançar a cabeça, confirmando. — Poppet sabe ler as estrelas — explica ele para Bailey. — É o lugar mais fácil de ver o futuro.
— Não tem sido tão fácil ultimamente — resmunga Poppet em voz baixa. — Mas podemos dar uma olhada. Só abre nas noites mais claras, então não sabemos se ainda vamos ter outra oportunidade enquanto estivermos aqui.
Os três entram e vão para o final de uma fila que sobe uma escada em curva margeando o interior da tenda, do qual é separada por uma pesada cortina preta. As paredes são cobertas de diagramas com linhas e pontos brancos em papel preto, mapas emoldurados de constelações.
— Tem relação com a forma como a vidente lê aquelas cartas com ilustrações? — pergunta Bailey, ainda tentando entender a ideia de ver o futuro.
— Mais ou menos, mas é diferente — responde Poppet. — Eu não sei nada sobre leitura de tarô, mas Widget sabe.
— São apenas histórias no papel — esclarece Widget, dando de ombros. — A gente vê como as histórias de cada carta se juntam, não é tão difícil. Mas aqui temos muitas coisas e possibilidades diferentes, caminhos diferentes a percorrer. Poppet vê coisas que realmente acontecem.
— Mas não são tão claras — explica Poppet. — Não há um contexto, e na maioria das vezes eu só vou saber o que as coisas significam mais tarde. Às vezes só quando já é tarde demais.
— Retratação aceita, Pet — diz Widget, apertando seu ombro. — Então vamos só fazer um passeio.
No alto da escadaria eles chegam a uma plataforma preta onde tudo é infinitamente escuro, com exceção de um funcionário do circo vestido de branco que orienta os visitantes lá dentro. Ele sorri para Poppet e Widget, e lança um olhar de curiosidade para Bailey enquanto os conduz pela escuridão até algo parecido com um trenó ou um vagão.
Eles ocupam um banco estofado de encosto alto, e a porta em um dos lados fecha-se com um clique enquanto Poppet se posiciona entre Bailey e Widget. O carrinho avança um pouco, mas Bailey não consegue ver nada a não ser a escuridão.
Em seguida, alguma coisa bem perto dá um suave estalido e o vagão cai só um pouquinho e inclina-se para trás, de modo que todos ficam olhando para cima.
A tenda não tem teto, Bailey percebe. A parte superior é aberta, com o céu noturno totalmente visível.
É uma sensação diferente da de observar estrelas num campo aberto, algo que Bailey já fez muitas vezes. Não há árvores aparecendo nas laterais, e o suave balanço do carrinho faz com que se sinta quase sem peso.
E o silêncio é incrível. Enquanto eles se movem no que parece ser um padrão circular, Bailey não ouve nada a não ser um suave estalo e o som de Poppet respirando ao seu lado. É como se o circo inteiro estivesse integrado à escuridão.
Bailey vira-se para Poppet, que está olhando para ele e não para o céu. Ela sorri e olha para o outro lado.
Bailey cogita perguntar se ela está vendo algo nas estrelas.
— Você não precisa, se não quiser — diz Widget, antecipando a pergunta.
Poppet vira-se para fazer uma careta na direção do irmão, mas depois ergue o olhar, observando o céu noturno iluminado. Bailey a observa com atenção. A impressão é de que ela está contemplando uma pintura ou lendo um cartaz distante, fechando um pouco os olhos.
Ela para de repente, levando as mãos ao rosto e pressionando os olhos com dedos enluvados de branco. Widget põe a mão em seu ombro.
— Você está bem? — pergunta Bailey.
Poppet suspira antes de balançar a cabeça afirmativamente, mantendo as mãos no rosto.
— Estou bem — responde com uma voz abafada. — É muito... brilhante. Minha cabeça doeu.
Tira as mãos do rosto e balança a cabeça; o que quer que a tenha perturbado parecia ter passado.
Durante o resto do passeio nenhum dos três olha para o céu salpicado de estrelas.
— Desculpe-me — diz Bailey em voz baixa enquanto eles descem outra escada em curva para saírem.
— Não é culpa sua — diz Poppet. — Eu já devia saber. As estrelas têm feito isso ultimamente: não fazem sentido e me dão dor de cabeça. Eu devia parar de tentar por um tempo.
— Você está precisando de um agrado — diz Widget quando eles voltam à luz difusa do circo. — O Labirinto das Nuvens?
Poppet concorda, e seus ombros relaxam um pouco.
— O que é o Labirinto das Nuvens? — pergunta Bailey.
— Você ainda não conhece nenhuma das melhores tendas, não é? — observa Widget, balançando a cabeça. — Vai precisar vir outra vez, não dá para ver todas elas numa noite só. Talvez seja essa a razão da dor de cabeça de Poppet: ela anteviu a gente arrastando você por todas as tendas que ainda não conhece.
— Widge pode ver o passado — diz Poppet de repente, mudando de assunto. — É uma das razões de as histórias dele serem sempre boas.
— O passado é mais fácil — observa Widget. — Já está lá.
— Nas estrelas? — indaga Bailey.
— Não — diz Widget. — Nas pessoas. O passado fica na gente da mesma forma que açúcar de confeiteiro fica nos dedos. Algumas pessoas conseguem se livrar dele, mas os fatos e as coisas que as empurraram para onde estão agora continuam ali. Eu consigo... bom, ler não é a palavra certa, mas também não é a palavra certa para o que Poppet faz com as estrelas.
— Então você pode ver o meu passado em mim? — pergunta Bailey.
— Eu poderia — responde Widget. — Mas tento não fazer isso sem permissão, a não ser que haja algo que apareça automaticamente. Você se incomoda?
Bailey nega com gesto de cabeça.
— De jeito nenhum.
Widget olha para ele por um tempo, não o suficiente para Bailey ficar desconfortável sob o peso do seu olhar, mas quase.
— Eu vejo uma árvore — começa Widget. — Um grande carvalho que é mais a sua casa do que a sua casa, mas não tanto quanto aqui. — Faz um gesto abrangendo as tendas e as luzes. — Uma sensação de solidão, mesmo estando com outras pessoas. Maçãs. E a sua irmã parece ser uma joia rara — acrescenta com sarcasmo.
— Isso é verdade — concorda Bailey com uma risada.
— O que são as maçãs? — pergunta Poppet.
— Minha família tem uma fazenda com um pomar — explica Bailey.
— Ah, que maravilha! — diz Poppet.
Bailey nunca achou que fileiras de árvores baixas e retorcidas fossem uma maravilha.
— Pronto, chegamos — anuncia Widget quando fazem uma curva.
Apesar de sua limitada experiência no circo, Bailey fica surpreso por não ter visto aquela tenda antes. É alta, quase tão alta quanto a dos acrobatas, porém mais estreita. Detém-se para ler o cartaz acima da porta.
Labirinto das Nuvens
Uma excursão em dimensão
Uma ascensão ao firmamento
Não existe começo
Não existe fim
Entre por onde preferir
Saia quando quiser
Não tenha medo de cair
Por dentro, a tenda é pintada de tons escuros, com uma imensa estrutura branca iridescente no centro. Bailey não sabe que outro nome dar àquilo. Ocupa quase a totalidade da tenda, com exceção de um caminho elevado ao longo do perímetro, uma trilha sinuosa que começa na entrada e circula pelo espaço. Fora do caminho, o assoalho é coberto de esferas brancas, milhares delas, empilhadas, que parecem bolhas de sabão.
A torre em si é formada por uma série de plataformas que se movimentam em formas estranhas e diáfanas, muito parecidas com nuvens. Estão em camadas, como em um bolo. Até onde Bailey pode ver, o espaço entre as camadas varia de uma altura suficiente para se caminhar até pontos tão estreitos pelos quais mal é possível rastejar. Aqui e ali partes da estrutura praticamente flutuam da torre central, deslizando para o espaço.
Ao redor, há pessoas escalando. Penduradas em beirais, andando por trilhas, subindo ou descendo. Algumas plataformas movem-se com o peso; outras parecem firmes e fortes. A torre como um todo não para de se mexer, como uma respiração.
— Por que isso é chamado de labirinto? — pergunta Bailey.
— Você vai ver — responde Widget.
Eles andam por um caminho que oscila levemente, como uma doca flutuante. Bailey esforça-se para manter o equilíbrio quando olha para cima.
Algumas plataformas são suspensas por cordas ou correntes. Nos níveis mais baixos, grandes colunas atravessam várias plataformas, embora Bailey não saiba dizer se chegam até o topo. Em alguns lugares estendem-se redes; em outros, cordas pendem como fitas.
Os três param na outra extremidade, onde o caminho se inclina o suficiente para que se possa saltar a uma das plataformas inferiores.
Bailey pega uma das esferas brancas. É mais leve do que parece, e macia como um gatinho. Do outro lado da tenda, as pessoas atiram-nas umas nas outras como se fossem bolas de neve, mas em vez de se desmancharem elas ricocheteiam nos alvos, flutuando e caindo suavemente. Bailey larga a bola e segue Poppet e Widget.
Assim que eles dão alguns passos pela estrutura, Bailey percebe por que aquilo é chamado de labirinto. Ele esperava paredes e esquinas e becos sem saída, mas é diferente. Há plataformas em todos os níveis: algumas baixas, na altura dos joelhos ou da cintura, outras bem acima da cabeça, sobrepondo-se em padrões irregulares. É um labirinto que sobe e desce, vai para um lado e para outro.
— Vejo vocês mais tarde — diz Widget, pulando para uma plataforma próxima e escalando para a de cima.
— Widge sempre vai direto para o topo — explica Poppet. — Ele conhece todas as rotas mais rápidas para chegar lá.
Bailey e Poppet fazem um percurso mais tranquilo: escolhem plataformas ao acaso para subir, engatinham em redes brancas e adentram com cuidado passagens estreitas. Bailey não sabe dizer onde estão as extremidades, nem quanto eles subiram, mas fica aliviado ao notar que Poppet parece bem menos perturbada do que estava no Observatório Estelar, pois está rindo e ajudando-o nas travessias mais difíceis.
— Como vamos descer daqui? — pergunta Bailey afinal, preocupado em achar o caminho de volta.
— O jeito mais fácil é pular — responde Poppet, e puxa-o para uma curva escondida que revela a extremidade da plataforma.
Eles estão bem mais alto do que Bailey imaginava, embora ainda não tenham chegado ao topo.
— Tudo bem — tranquiliza Poppet. — É seguro.
— Isso é impossível — espanta-se Bailey, olhando pelo parapeito.
— Nada é impossível — responde Poppet. Sorri para ele e pula, os cabelos vermelhos deixando um rastro enquanto ela cai.
Ela desaparece no mar de esferas brancas abaixo, totalmente envolta antes de reaparecer, o vermelho dos cabelos contrastando com o branco enquanto acena para ele.
Bailey hesita só um instante, e resiste ao impulso de fechar os olhos ao saltar. Em vez disso, ri ao mergulhar no vazio.
Atingir a piscina de esferas abaixo é realmente como cair numa nuvem, macia, leve e confortável.
Quando Bailey emerge, Poppet e Widget estão esperando em uma das plataformas próximas, Poppet sentada na borda, balançando as pernas.
— Nós devíamos voltar — observa Widget, tirando um relógio do bolso. — Já é quase meia-noite, e temos que preparar os gatinhos para o próximo espetáculo.
— É mesmo? — pergunta Bailey. — Não sabia que já era tão tarde, eu já devia estar em casa a essa hora.
— Podemos acompanhar você até o portão, Bailey, por favor? — pergunta Poppet. — Tem algo que eu quero dar a você.
Eles fazem o caminho de volta pelas trilhas sinuosas, atravessando o pátio em direção aos portões. Poppet pega na mão de Bailey para puxá-lo por um túnel cortinado, percorrendo as curvas escuras sem dificuldade. O campo visível além dos portões a essa hora da noite não está cheio de gente quando eles chegam ao outro lado, ainda que uns poucos frequentadores chegando ou indo embora demorem-se por ali.
— Espere aqui — diz Poppet. — Eu já volto.
Sai correndo em direção à bilheteria enquanto Bailey vê o ponteiro do relógio se aproximando da meia-noite. Poppet volta logo depois, com uma coisa prateada na mão.
— Ah, que ideia brilhante, Pet — diz Widget ao perceber do que se trata.
Bailey olha confuso para os dois. Trata-se de um pedaço de papel prateado, mais ou menos do tamanho de um ingresso. Poppet entrega para ele.
— É um passe especial — explica. — Para convidados ilustres. Assim você não precisa pagar cada vez que vier ao circo. Você mostra isso na bilheteria e pode entrar.
Bailey examina o ingresso, olhos arregalados.
Este cartão concede ao portador admissão ilimitada
está impresso em um dos lados em tinta preta. No verso está escrito
Le Cirque des Rêves
e, em letras menores, logo abaixo:
Chandresh Christophe Lefèvre, Proprietário
Bailey fica embasbacado, olhando para o cartão prateado.
— Eu achei que você poderia gostar — diz Poppet, parecendo nervosa com a falta de uma reação articulada da parte de Bailey. — Isto é, se você quiser voltar enquanto estivermos aqui.
— É maravilhoso! — exclama Bailey, erguendo os olhos do cartão. — Muito, muito obrigado.
— De nada — responde Poppet, sorrindo. — E eu disse para avisarem a mim e ao Widget quando você chegar, assim vamos saber que está aqui e poderemos vir ao seu encontro. Se estiver de acordo.
— Vou adorar — diz Bailey. — Muito obrigado, de verdade.
— Então voltamos a nos ver em breve — diz Widget, estendendo a mão.
— Sem dúvida — responde Bailey ao tomar a mão dele. — Eu posso voltar amanhã à noite.
— Seria perfeito — comemora Poppet.
Quando Bailey solta a mão de Widget, Poppet inclina-se e dá um beijo rápido no rosto de Bailey, que sente seu rosto corar. — Tenha uma boa noite — acrescenta enquanto se afasta.
— V-vocês também — responde Bailey. — Boa noite. — Acena para os dois antes que se esgueirem pelas cortinas pesadas, e, assim que eles desaparecem, Bailey começa a andar na direção de casa.
Parece que se passou uma eternidade desde que caminhou até o circo, no entanto faz apenas algumas horas. E, além disso, a sensação é de que o Bailey que entrou no circo era uma pessoa totalmente diferente da que está saindo agora, com um ingresso prateado no bolso. Fica pensando em qual seria o verdadeiro Bailey, pois com certeza o Bailey que passa horas sozinho nas árvores não é o Bailey que ganhou admissão especial para um circo espetacular e que fez amizade com pessoas tão interessantes sem qualquer esforço.
Quando chega à fazenda, ele tem certeza de que o Bailey que é agora está mais próximo do Bailey que deveria ser do que o Bailey que ele era até o dia anterior. Talvez não saiba o que significa isso, mas por enquanto não parece ter muita importância.
Em seus sonhos, ele é um cavaleiro sobre a montaria, empunhando uma espada de prata, e aquilo não parece tão estranho assim, afinal.
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