O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 43 de 69

Páginas do PDF

O Circo da Noite

Três xícaras de chá com Lainie Burgess

LONDRES, BASILEIA E CONSTANTINOPLA, 1900

 

O estúdio de Mme. Ana Padva é um espaço notável situado perto do

Cemitério Highgate, com janelas do teto ao chão que propiciam uma visão panorâmica de Londres. Manequins expondo sofisticados vestidos espalham-se em grupos ou pares, dando a impressão de uma festa com muitas convidadas sem cabeça.

Lainie Burgess circula entre os vários vestidos em preto e branco enquanto espera por Mme. Padva, parando para admirar um de cetim marfim delicadamente recoberto por gregas em veludo preto, como ferro forjado em longos arabescos de linhas e curvas.

— Eu posso fazer um desses colorido, se quiser — oferece Mme. Padva ao entrar na sala, sua bengala a acompanhando numa batida rítmica no chão.

— É grandioso demais para mim, Tante Padva — observa Lainie.

— É difícil encontrar um equilíbrio sem usar cores — diz Mme. Padva, girando o manequim e observando o movimento com olhos atentos. — Se for branco demais, as pessoas pensam logo que é um vestido de noiva; se for preto demais, ele fica pesado e sombrio. Esse aqui talvez precise de um pouco mais de preto, acho. Eu acrescentaria uma manga, mas Celia não suporta mangas.

Mme. Padva mostra a Lainie os seus trabalhos mais recentes, inclusive os esboços afixados nas paredes, antes de as duas se sentarem para o chá a uma mesa perto das janelas.

— Você tem uma nova assistente a cada vez que a visito — observa Lainie depois de a última versão ter trazido uma bandeja com chá e desaparecido rapidamente.

— Elas se cansam de esperar que eu morra, e, no instante em que percebem que vai dar muito trabalho me jogar por uma janela ou esperar que eu role a colina até o mausoléu, vão trabalhar em outras casas. Sou uma mulher de idade com muito dinheiro e nenhum herdeiro. Elas são abutres de touca. Essa não vai durar mais do que um mês.

— Eu sempre achei que você ia deixar tudo para Chandresh — diz Lainie.

— Chandresh não precisa de nada em termos financeiros, e não creio que conseguisse lidar com os negócios da forma como escolhi. Ele não tem sensibilidade para isso. Aliás, não tem sensibilidade para qualquer outra coisa hoje em dia.

— Ele não está bem? — pergunta Lainie, mexendo o chá.

— Ele perdeu alguma coisa de si próprio — responde Mme. Padva. — Eu já o vi preocupado com outros projetos antes, mas nada nesse nível. Ele se transformou num fantasma do que já foi, ainda que no caso de Chandresh um fantasma do que já foi consiga ser mais vibrante do que a maioria das pessoas. Eu faço o que posso. Encontro companhias de balé de vanguarda para se apresentarem em seus teatros. Ofereço apoio a ele na ópera quando na verdade ele deveria fazê-lo por mim. — Dá um gole no chá antes de continuar. — E sem querer tocar num assunto delicado, minha querida, eu o mantenho longe de estações de trem.

— Provavelmente é uma sábia atitude — observa Lainie.

— Conheço Chandresh desde criança, é o mínimo que posso fazer.

Lainie balança a cabeça afirmativamente. Ela tem outras questões, mas resolve reservá-las para outra pessoa que pretende visitar. Pelo restante da tarde as duas só conversam sobre moda e movimentos artísticos. Mme. Padva insiste em fazer para ela uma versão menos formal do vestido marfim e preto, em pêssego e creme, concluindo um esboço em questão de minutos.

— Quando eu me aposentar, tudo isto vai ser seu, querida — diz Mme. Padva antes de Lainie sair. — Eu não confiaria isto a ninguém mais.

 

*

 

O ESCRITÓRIO É GRANDE, MAS PARECE MENOR por causa do volume de seu conteúdo. Embora muitas paredes sejam de vidro jateado, parte da luz é bloqueada por armários e prateleiras. O estirador perto das janelas está quase escondido no caos meticulosamente organizado de papéis, diagramas e plantas. O homem de óculos sentado atrás dele é quase invisível, misturado ao ambiente. O som de seu lápis rabiscando o papel é tão metódico e preciso quanto o tique-taque do relógio no canto da sala.

O local é idêntico ao escritório que ocupava num espaço semelhante em Londres, assim como ao outro em Viena, antes de se mudar para a Basileia.

Sr. Barris descansa o lápis e serve-se de uma xícara de chá. Quase entorna o líquido quando ergue os olhos e vê Lainie Burgess em pé no umbral.

— Parece que seu assistente está fora no momento — diz ela. — Eu não quis assustar você.

— Não há problema — diz Sr. Barris, descansando a xícara de chá antes de se levantar da cadeira. — Eu achei que você fosse chegar mais tarde.

— Tomei o trem mais cedo — explica Lainie. — Queria falar com você.

— Todo o tempo passado ao seu lado é sempre um prazer — diz Sr. Barris. — Chá?

Lainie aceita com um aceno de cabeça e desvia do bagunçado escritório até alcançar a cadeira em frente à escrivaninha.

— Quando Tara o visitou em Viena, o que vocês conversaram? — pergunta antes mesmo de se sentar.

— Pensei que você soubesse — responde Sr. Barris sem olhar para ela, concentrando sua atenção no bule com que serve o chá.

— Eu e Tara somos duas pessoas diferentes, Ethan. O fato de você nunca ter conseguido decidir por qual de nós estava apaixonado não significa que somos intercambiáveis.

Sr. Barris descansa o bule e prepara o chá, sabendo como ela prefere sem precisar perguntar.

— Eu pedi você em casamento, mas nunca tive uma resposta — diz enquanto mexe o líquido.

— Você me pediu em casamento depois que ela morreu — observa Lainie. — Como eu podia ter certeza se a escolha foi sua, que foi feita por você?

Ele lhe entrega a xícara, repousando a mão sobre a dela enquanto ela a pega.

— Eu amo você — diz. — Eu a amava também, mas nunca foi a mesma coisa. Vocês duas são tão queridas como uma família para mim. Mais queridas, em alguns assuntos.

Volta a se sentar, tirando os óculos para limpá-los com um lenço.

— Não sei por que eu uso isto — comenta, olhando para os óculos. — Faz anos que não preciso mais deles.

— Você usa óculos porque lhe caem bem — diz Lainie.

— Obrigado — replica enquanto os coloca novamente, observando enquanto ela beberica o chá. — A proposta ainda está valendo.

— Eu sei — diz Lainie. — Ainda estou pensando a respeito.

— Não tenha pressa — diz Sr. Barris. — Parece que tempo é o que não nos falta.

Lainie concorda, depositando a xícara na mesa.

— Tara sempre foi a mais racional, a mais sensata — comenta ela. — Nós equilibrávamos uma a outra, esse era um dos motivos por que nos superávamos em tudo o que fazíamos. Ela dava base para minha imaginação. Eu via os detalhes enquanto ela via o conjunto. É por não conseguir ver o todo que estou aqui e ela não. Eu considerava cada elemento em separado e nunca olhava para ver se não se encaixavam apropriadamente.

O relógio tiquetaqueia, arrastando-se durante a pausa que se segue.

— Eu não quero falar sobre isso — diz Sr. Barris quando o tique-taque se torna insuportável. — Não queria falar sobre isso com ela e não quero falar com você agora.

— Você sabe o que está acontecendo, não sabe? — pergunta Lainie.

Sr. Barris arruma uma pilha de papéis em sua mesa enquanto pensa sobre a resposta.

— Sim — responde depois de um tempo. — Eu sei.

— Você contou para a minha irmã?

— Não.

— Então conte para mim — diz Lainie.

— Não posso. Isso implicaria uma quebra de confiança e eu não quero fazer isso, nem mesmo por você.

— Quantas vezes você mentiu para mim? — pergunta Lainie, levantando-se da cadeira.

— Eu nunca menti — replica Sr. Barris, levantando-se também. — Eu não falo sobre o que não tenho liberdade para revelar. Dei a minha palavra e pretendo mantê-la, mas nunca menti para você. Você nem sequer me perguntou, imaginou que eu não sabia de nada.

— Mas Tara perguntou — observa Lainie.

— Indiretamente — retruca Sr. Barris. — Acho que ela não sabia o que perguntar e eu não teria respondido se perguntasse. Eu estava preocupado com ela e sugeri que falasse com Alexander se quisesse respostas. Imaginei que fosse por isso que ela estava na estação. Não sei se chegou a falar com ele. Não perguntei.

— Alexander também sabe a respeito? — pergunta Lainie.

— Acredito que haja muito pouco, se é que existe algo, que ele ignore.

Lainie suspira e volta para a cadeira. Pega a xícara de chá e a põe de volta no lugar sem beber.

Sr. Barris vai até o outro lado da mesa e pega a mão dela nas suas, certificando-se de que está olhando em seus olhos antes de falar.

— Eu contaria a você se pudesse — diz.

— Eu sei, Ethan — admite ela. — Eu sei.

Aperta levemente a mão dele para tranquilizá-lo.

— Eu não me importo com isso, Lainie — diz Sr. Barris. — Mudo meu escritório de lugar a cada par de anos, contrato outros funcionários. Mantenho meus projetos por correspondência, o que não é muito difícil, considerando o que recebo em troca.

— Eu compreendo — diz ela. — Onde o circo está agora?

— Não sei ao certo. Creio que esteve em Budapeste recentemente, mas não sei que caminho tomou agora. Posso descobrir para você, pois Friedrick deve saber e eu estou devendo um telegrama a ele.

— E como Herr Thiessen sabe para onde o circo está indo?

— Porque Celia Bowen o mantém informado.

Lainie não faz mais perguntas.

Sr. Barris sente-se aliviado quando ela aceita seu convite para jantar, e mais ainda quando concorda em estender sua estada na Suíça antes de alcançar o circo.

 

*

 

LAINIE CONVIDA CELIA para se encontrar com ela no Pera Palace Hotel, em Constantinopla, assim que chega à cidade. Aguarda no salão de chá, duas fumegantes xícaras em forma de tulipa com pires combinando repousadas na mesa ladrilhada à sua frente.

Quando Celia chega, as duas cumprimentam-se calorosamente. Celia pergunta sobre a viagem de Lainie antes de começarem a conversar sobre a cidade e o hotel, incluindo a incrível altura do pé-direito do amplo salão onde se encontram.

— É como estar na tenda dos acrobatas — comenta Lainie, olhando para os domos alinhados no teto, todos pontilhados com círculos de vidro azul-turquesa.

— Faz tempo que você não vai ao circo — diz Celia. — Nós estamos com os seus vestidos, caso queira acompanhar as estátuas hoje à noite.

— Não, obrigada — responde Lainie. — Não estou com disposição para ficar imóvel.

— Você é bem-vinda quando quiser — pontua Celia.

— Eu sei — diz Lainie. — Mas na verdade não estou aqui por causa do circo. Estou aqui para falar com você.

— Sobre o que você quer falar? — pergunta Celia, com uma expressão de preocupação surgindo no rosto.

— Minha irmã morreu na Estação St. Pancras depois de uma visita ao Midland Grand Hotel — diz Lainie. — Você sabe por que ela foi até lá?

Celia aperta com mais força a xícara de chá.

— Eu sei com quem ela foi se encontrar — responde, escolhendo as palavras com cuidado.

— Suponho que Ethan tenha lhe contado — diz Lainie.

Celia balança a cabeça afirmativamente.

— Você sabe por que ela queria falar com ele? — pergunta Lainie.

— Não, não sei.

— Porque ela não estava se sentindo bem — esclarece Lainie. — No fundo, ela sabia que seu mundo tinha mudado sem que nada lhe fosse explicado, sem nada em que se segurar, para poder entender. Acredito que todos nos sentimos dessa forma e estamos lidando com isso de maneiras diferentes. Ethan e Tante Padva têm o trabalho para passar o tempo, manter a cabeça ocupada. Eu não me preocupei com isso por um bom tempo. Amava muito minha irmã e sempre a amarei, mas acho que ela cometeu um erro.

— Eu achei que tinha sido um acidente — comenta Celia em voz baixa, olhando para o padrão dos ladrilhos da mesa.

— Não, antes disso. O erro dela foi fazer as perguntas erradas às pessoas erradas. Não é um erro que eu queira repetir.

— E é por isso que está aqui.

— E é por isso que estou aqui — concorda Lainie. — Há quanto tempo nos conhecemos, Celia?

— Mais de dez anos.

— Com certeza agora você confia em mim a ponto de me contar o que está realmente acontecendo. Duvido que se atreva a me dizer que não é nada, ou a sugerir que eu não me preocupe com essas questões.

Celia deposita a xícara no pires. Explica o melhor que pode. Mantém os detalhes vagos, contando apenas o conceito básico do desafio, de como o circo funciona como um local para realizá-lo. Como algumas pessoas sabem mais do que as outras em todos os níveis, embora prefira não identificar os indivíduos e deixar claro que nem ela tem todas as respostas.

Lainie não diz nada, ouvindo com atenção e de vez em quando bebericando o chá.

— Há quanto tempo Ethan sabe? — pergunta quando Celia termina.

— Há muito tempo — diz ela.

Lainie assente com um aceno de cabeça e leva a xícara aos lábios, mas, em vez de tomar o chá, ela abre a mão.

A xícara cai sobre o pires abaixo.

A xícara se estilhaça, o som ecoando pelo salão. O chá derrama pelos ladrilhos.

Antes que qualquer um se vire por causa do barulho, a xícara está inteira outra vez. Os cacos reorganizam-se ao redor do líquido e a xícara repousa, intacta, os ladrilhos da mesa secos.

Aqueles que olharam para a mesa por causa do barulho supõem que foi imaginação, e voltam a atenção para os próprios chás.

— Por que você não impediu que ela quebrasse? — pergunta Lainie.

— Não sei — responde Celia.

— Se um dia você precisar de alguma coisa de mim, gostaria que me pedisse — diz Lainie enquanto se levanta para ir embora. — Estou cansada de todos guardarem tantos segredos, tão bem a ponto de algumas pessoas serem mortas. Estamos todos envolvidos no seu jogo, e, que eu saiba, não podemos ser reparados tão facilmente quanto uma xícara de chá.

Celia fica sozinha por algum tempo depois que Lainie se retira, o chá das duas xícaras esfriando.

OceanofPDF.com