O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 59 de 69

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O Circo da Noite

Precognição

NO TRAJETO ENTRE BOSTON E NOVA YORK, 31 DE OUTUBRO DE 1902

 

A maioria dos passageiros acomodou-se em seus respectivos vagões e

cabines para ler, dormir ou passar o tempo de alguma forma. Apinhados de gente na hora da partida, os corredores estão agora quase vazios enquanto Poppet e Widget andam de um vagão para outro, silenciosos como gatos.

Etiquetas escritas à mão penduradas nas portas das cabines indicam os nomes dos ocupantes. Os dois param diante de uma que diz “C. Bowen” e Widget ergue a mão para bater de leve no vidro jateado.

— Pode entrar — diz uma voz no interior, e Poppet abre a porta de correr.

— Estamos interrompendo alguma coisa? — pergunta.

— Não — responde Celia. — Podem entrar. — Fecha o livro cheio de símbolos que estava lendo e o põe sobre uma mesa. A cabine toda parece uma biblioteca dinamitada, com pilhas de livros e papéis entre bancos forrados de veludo e mesas envernizadas. A luz dança pelo espaço com o movimento do trem, refletindo nos lustres de cristal.

Widget fecha e tranca a porta depois de entrar.

— Vocês querem um chá? — pergunta Celia.

— Não, obrigada — responde Poppet. Olha com nervosismo para Widget, que só faz um aceno de cabeça.

Celia observa os dois. Poppet morde o lábio e se recusa a encará-la, enquanto Widget se encosta na porta.

— Falem logo — pede.

— Nós... — começa Poppet. — Nós estamos com um problema.

— Que espécie de problema? — pergunta Celia, afastando pilhas de livros para que eles possam se sentar nos bancos violáceos, mas os gêmeos ficam onde estão.

— Acho que algo que deveria ter acontecido não aconteceu — diz Poppet.

— E o que seria isso? — pergunta Celia.

— Nosso amigo Bailey deveria ter vindo conosco.

— Ah, sim, Widget mencionou algo a respeito — relembra Celia. — Imagino que ele não tenha vindo.

— Não — responde Poppet. — Nós ficamos esperando, mas ele não veio, e não sei se foi porque não quis ou porque saímos mais cedo.

— Entendi — reflete Celia. — Para mim parece uma grande decisão, resolver se vai ou não fugir de casa para entrar num circo. Talvez ele não tenha tido tempo suficiente para pensar a respeito.

— Mas ele deveria ter vindo — insiste Poppet. — Eu sei que ele deveria ter vindo.

— Você viu alguma coisa? — indaga Celia.

— Mais ou menos.

— Como alguém vê mais ou menos alguma coisa?

— Não está mais tão nítido quanto antes — explica Poppet. — Não consigo ver nada tão nitidamente quanto costumava. Agora são fragmentos que não fazem sentido. Nada aqui tem feito muito sentido no último ano, você sabe disso.

— Acho que é um exagero, mas entendo que pode ser visto dessa forma — diz Celia.

— Não é um exagero — continua Poppet, elevando a voz.

Os lustres começam a balançar e Celia fecha os olhos, respirando fundo e esperando que voltem à oscilação delicada anterior àquela afirmação.

— Poppet, ninguém aqui ficou mais perturbado que eu com o que aconteceu no último ano. E já disse que não é culpa sua, que nada poderia ter sido feito para evitar isso. Nem por você, nem por mim, nem por qualquer um. Você entende isso?

— Entendo — concorda Poppet. — Mas qual é o sentido de ver o futuro se não posso fazer nada para evitar?

— Você não pode evitar que as coisas aconteçam — diz Celia. — Só pode estar preparada para quando elas acontecerem.

— Você poderia ter evitado — resmunga Poppet, passando os olhos na infinidade de livros. Celia põe um dedo sob o queixo de Poppet e vira a cabeça dela para encará-la.

— Apenas um punhado de pessoas neste trem faz ideia de quanto eu sou vital para a administração deste circo — explica. — Vocês dois estão entre elas, e são muito inteligentes, mas não compreendem a abrangência do que acontece aqui, nem gostariam se compreendessem. Agora, me diga: o que você mais ou menos viu?

Poppet fecha os olhos, tentando se concentrar.

— Não sei — começa. — Era brilhante, tudo estava pegando fogo, e Bailey estava lá.

— Você vai ter que explicar melhor — anuncia Celia.

— Não consigo — replica Poppet. — Eu não consigo ver nada com clareza desde que...

— Provavelmente porque não quis ver mais nada com clareza depois daquilo, e não posso dizer que a culpo por isso. Mas, se quiser que eu faça algo para evitar o que quer que seja, vou precisar de mais do que isso.

Celia tira uma longa corrente de prata do pescoço e verifica a hora no relógio preso a ela antes de colocá-lo diante dos olhos da garota.

— Por favor, Poppet — diz. — Você não precisa de estrelas para ver. Concentre-se. Mesmo que não queira fazer isso agora.

Poppet franze o cenho, depois volta a atenção ao relógio de prata balançando sob a luz cálida.

Os olhos estreitam-se, focados nos reflexos nas curvas do relógio, depois relaxam para enxergar algo além dele, além do trem.

Ela começa a balançar quando os olhos vão de um lado para outro e depois cai para trás. Widget dá um salto para pegá-la antes que chegue ao chão.

Celia ajuda Widget a levar Poppet para um dos bancos de veludo perto da mesa, enquanto em uma prateleira próxima uma xícara serve-se de chá por conta própria, a fervura e a infusão acontecendo instantaneamente na porcelana chinesa florida.

Poppet pisca, olhando para os lustres no alto como se os visse pela primeira vez, antes de se virar para Celia e aceitar a xícara de chá.

— Essa doeu — diz Poppet.

— Desculpe-me, querida — diz Celia. — Acho que sua visão está ficando mais forte, o que torna ainda mais complicada sua tentativa de ignorá-la.

Poppet concorda com um gesto de cabeça, esfregando as têmporas.

— Conte tudo o que você viu — pede Celia. — Tudo. Não importa se não fizer sentido. Tente descrever o que viu.

Poppet olha para o seu chá antes de começar.

— Há um incêndio — diz. — Começa pela fogueira, mas... fica maior, é impossível contê-lo. Como se o pátio inteiro estivesse em chamas, há um grande ruído e calor e... — Poppet faz uma pausa, fechando os olhos ao tentar se concentrar na imagem em sua cabeça. Abre os olhos e encara Celia. — Você está lá. Está com outra pessoa e acho que está chovendo, então você não está mais lá, mas ainda está, não sei como explicar. Depois Bailey está lá, não durante o incêndio, mas depois, acho.

— Como são os outros? — questiona Celia.

— Um homem. Alto. De terno, com um chapéu-coco, acho. É difícil dizer.

Celia apoia a cabeça nas mãos por um tempo antes de falar.

— Se for quem eu penso que é, sei que está em Londres no momento, então talvez não seja tão imediato como você supõe.

— Mas é sim, tenho certeza — protesta Poppet.

— Sincronismo nunca foi o seu ponto forte. Você mesma disse que esse seu amigo também está presente nesse incidente, e sua primeira queixa foi de ele não estar aqui. Isso poderá acontecer daqui a semanas, meses ou anos, Pet.

— Mas nós precisamos fazer alguma coisa — diz Poppet, batendo a xícara de chá na mesa. O chá se imobiliza antes de se derramar em um livro aberto, como se um muro invisível o rodeasse. — Para nos prepararmos, como você disse.

— Vou fazer o possível para evitar que o circo acabe em chamas. Vou torná-lo à prova de fogo, custe o que custar. Isso basta para você?

Depois de uns instantes, Poppet concorda.

— Ótimo — diz Celia. — Nós vamos desembarcar daqui a algumas horas, podemos discutir isso mais tarde.

— Espere — intervém Widget. Ele estava sentado em um dos bancos de veludo, preferindo não participar da conversa. Mas agora vira-se para Celia. — Antes de você mandar a gente embora, tenho uma pergunta.

— Qual? — indaga Celia.

— Você disse que nós não compreendemos a abrangência do que acontece aqui — diz ele.

— Provavelmente não foi a melhor escolha de palavras.

— É um jogo, não é? — pergunta Widget.

Celia olha para ele, um sorriso lento e entristecido dançando nos lábios.

— Demorou dezesseis anos para você perceber isso — diz. — Eu esperava mais de você, Widge.

— Eu já tinha adivinhado há algum tempo — explica ele. — Não é fácil ver coisas que você não quer que eu saiba, mas eu andei juntando algumas peças ultimamente. Você não tem se resguardado tão bem quanto antes.

— Um jogo? — pergunta Poppet, o olhar indo do irmão para Celia.

— Como um jogo de xadrez — continua Widget. — O circo é o tabuleiro.

— Não exatamente — corrige Celia. — Não é tão direto quanto xadrez.

— Nós todos estamos jogando? — pergunta Poppet.

— Nós, não — responde Widget. — Ela e alguém mais. Nós somos... peças sobressalentes?

— Não é bem assim — diz Celia.

— Então como é? — insiste Widget.

Como resposta, ela apenas olha para ele sem hesitar, diretamente em seus olhos.

Widget devolve o olhar em silêncio por algum tempo, enquanto Poppet observa os dois com curiosidade. Finalmente, Widget pisca, a surpresa evidente surgindo em seu rosto. Depois olha para os pés.

Celia suspira, e quando fala se dirige aos dois.

— Se eu não fui completamente honesta com vocês, foi só por saber um bocado de coisas que vocês nem querem saber. Peço que confiem em mim quando digo que estou tentando melhorar a situação. É um equilíbrio extremamente precário e há muitos fatores envolvidos. O melhor que podemos fazer no momento é aceitar o que vier e não nos preocuparmos com coisas que aconteceram, ou que vão acontecer. De acordo?

Widget balança a cabeça, confirmando, e Poppet o acompanha com relutância.

— Obrigada — diz Celia. — Agora vão embora e tentem descansar um pouco, por favor.

Poppet abraça Celia antes de sair para o corredor.

Widget fica mais um pouco.

— Desculpe-me — diz.

— Você não tem por que se desculpar — replica Celia.

— Desculpe-me assim mesmo.

Dá um beijo no rosto de Celia antes de sair, sem esperar a resposta dela.

— O que foi aquilo? — pergunta Poppet quando ele aparece no corredor.

— Celia deixou que eu a lesse — responde Widget. — Integralmente, sem esconder nada. Ela nunca fez isso antes. — E se recusa a se explicar melhor enquanto andam em silêncio pelos vagões do trem.

— O que você acha que devemos fazer? — pergunta Poppet quando chegam ao próprio vagão, com um gato laranja aninhado no colo.

— Acho que devemos esperar — responde Widget. — Acho que é só o que podemos fazer no momento.

 

*

 

SOZINHA EM SUA CABINE CHEIA DE LIVROS, Celia começa a rasgar seu lenço de bolso em tiras. Deposita os pedaços de seda um a um numa xícara vazia e ateia fogo a eles. Repete o processo muitas vezes, até que o tecido queime sem virar cinzas, permanecendo branco e brilhante no meio das chamas.

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