O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 36 de 69

Páginas do PDF

O Circo da Noite

Em memória da adorável Tara Burgess

GLASGOW, ABRIL DE 1895

 

O funeral é tranquilo, apesar de tantos que vieram prestar homenagens.

Não há soluços nem o abanar de lenços. Alguns pontos coloridos sobressaem em meio ao tradicional mar de preto. Nem mesmo a chuva leve consegue conferir um aspecto de desespero à cerimônia. O lugar apenas guarda uma melancolia reflexiva.

Talvez seja porque, de alguma forma, Tara Burgess não parece ter partido para sempre, pois sua irmã continua viva e saudável. Metade do par continua vibrante, respirando.

Ao mesmo tempo, há algo esquisito aos olhos dos que observam a irmã que sobreviveu. Algo que não conseguem precisar. Algo fora de equilíbrio.

Às vezes uma lágrima escorre pelo rosto de Lainie Burgess, mas ela recebe a todos com um sorriso e agradece por terem comparecido. Faz piadas que Tara poderia ter feito se não estivesse dentro daquele caixão de madeira envernizado. Não há outros familiares presentes, embora alguns conhecidos suponham que a mulher de cabelos brancos e o homem de óculos que raramente saem do lado de Lainie sejam a mãe e o marido dela. Embora estejam equivocados, nem Mme. Padva nem Sr. Barris se importam com esse engano.

As rosas são incontáveis. Rosas vermelhas, rosas brancas, rosas cor-de-rosa. Há até mesmo uma rosa negra entre os botões, embora ninguém saiba sua origem. Chandresh é responsável somente pelos botões brancos, e leva um deles preso à lapela, com o qual brinca distraído ao longo da cerimônia.

Quando Lainie fala sobre a irmã, suas palavras são recebidas com suspiros, risos e sorrisos tristes.

— Não vou chorar a morte de minha irmã, pois ela sempre estará comigo, no meu coração — enuncia. — Estou, no entanto, zangada por minha Tara ter me deixado para sofrer sem ela. Eu não enxergo tão bem sem ela. Não ouço tão bem sem ela. Não sinto tão bem sem ela. Estaria melhor sem uma das mãos ou sem uma perna do que sem minha irmã. Nesse caso ao menos ela estaria aqui para zombar de minha aparência e dizer que é a irmã mais bonita, como sempre. Todos nós perdemos Tara, mas eu perdi também uma parte de mim.

No cemitério tem lugar uma apresentação que mesmo alguns dos presentes que não fazem parte do Le Cirque des Rêves reconhecem, embora a mulher coberta da cabeça aos pés num tom branco como a neve tenha acrescentado um par de asas emplumadas ao seu traje. As asas descem por suas costas e agitam-se suavemente na brisa enquanto ela permanece imóvel como uma pedra. Muitos dos presentes parecem surpresos com aquela figura, mas decidem agir como Lainie, encantada com a visão do anjo vivo sobre o túmulo da irmã.

Afinal, foram as irmãs Burgess que deram origem à tradição daquele tipo de estátua no circo. Artistas imóveis, com trajes elaborados e a pele pintada, sobre plataformas montadas em espaços precários entre as tendas. Se observados durante horas, eles às vezes mudam de posição, mas o movimento será aflitivamente lento, ao ponto de alguns observadores insistirem em que são robôs muito bem-feitos, não pessoas de verdade.

O circo tem vários desses artistas. A Imperatriz da Noite, salpicada de estrelas. O Pirata Negro, preto como carvão. E aquela que agora guarda Tara Burgess costuma ser chamada de Rainha da Neve.

É possível ouvir alguns choros abafados quando o caixão é descido à terra, mas é difícil localizar de onde vêm, ou se é um som coletivo de suspiros mesclados ao vento e pés se arrastando.

A chuva aperta, e guarda-chuvas brotam como cogumelos entre os túmulos. A terra úmida logo se transforma em lama e o enterro é acelerado por causa do clima.

A cerimônia mais se esmaece do que termina, com os enlutados abandonando as filas organizadas para se transformarem em uma multidão dispersa de modo quase imperceptível. Muitos ficam um pouco mais, para prestar condolências adicionais a Lainie, enquanto outros se afastam em busca de abrigo da chuva antes que a última pá de terra seja assentada.

Isobel e Tsukiko ficam lado a lado a alguma distância do túmulo de Tara, dividindo um grande guarda-chuva preto que Isobel segura sobre a cabeça com a mão protegida por uma luva negra. Tsukiko insiste em que não se importa com a chuva, mas Isobel a protege assim mesmo, grata pela companhia.

— Como ela morreu? — questiona Tsukiko. É uma pergunta que outros fizeram em sussurros durante toda a tarde, e obtiveram várias respostas, poucas satisfatórias. Aqueles que conhecem os detalhes não se apresentam.

— Disseram que foi um acidente — responde Isobel em voz baixa. — Foi atropelada por um trem.

Tsukiko balança a cabeça, pensativa, tirando do bolso do casaco uma piteira de prata e um isqueiro.

— Como ela morreu na verdade? — pergunta.

— O que você quer dizer com isso? — retruca Isobel, olhando ao redor para ver se há alguém por perto para ouvir a conversa, mas a maioria dos presentes já se dissipou embaixo da chuva. Só restam alguns, entre eles Celia Bowen com Poppet Murray agarrada a seu vestido, que traz uma expressão mais de raiva que de tristeza.

Lainie e Sr. Barris estão ao lado do túmulo de Tara, o anjo pairando acima deles tão perto que poderia tocar suas cabeças.

— Você já viu coisas que abalaram suas convicções, não viu? — pergunta Tsukiko.

Isobel balança a cabeça afirmativamente.

— E não acha que talvez seja mais difícil ainda aceitar essas coisas se você não faz parte do esquema? Talvez a ponto de enlouquecer? A mente é uma coisa sensível.

— Eu não acho que ela pulou na frente do trem de propósito — diz Isobel, tentando manter o tom de voz o mais baixo possível.

— Talvez não — concorda Tsukiko. — Mas eu considero uma possibilidade, no mínimo. — Acende o cigarro, a chama pegando rápido apesar da umidade do ar.

— Pode ter sido um acidente — arrisca Isobel.

— Você sofreu algum acidente recentemente? Algum osso quebrado, queimaduras ou qualquer ferimento? — pergunta Tsukiko.

— Não — responde Isobel.

— Ficou doente? Algum resfriado?

— Não. — Isobel vasculha sua mente tentando recordar a última vez que foi abatida pelo clima, mas só consegue se lembrar de um resfriado que contraiu uma década atrás, no inverno, antes de conhecer Marco.

— Acho que nenhum de nós, desde que o circo estreou — observa Tsukiko. — E ninguém tinha morrido até agora. Também ninguém nasceu, desde os gêmeos Murray. E não foi por falta de tentativas, do jeito que se comportam alguns acrobatas.

— Eu... — começa Isobel, mas não consegue concluir. É demais para a cabeça, ela não tem certeza se quer entender tudo aquilo.

— Nós somos peixes num aquário, querida — diz Tsukiko, a piteira pendendo nos lábios. — Peixes muito bem monitorados. Observados de todos os ângulos. Se um de nós boia e chega à superfície, não é acidental. E, se foi um acidente, me preocupa que os observadores não estejam sendo tão cuidadosos quanto deveriam.

Isobel fica em silêncio. Gostaria que Marco estivesse com Chandresh, embora duvide que ele tenha respostas para aquelas perguntas, se é que falaria com ela. Todas as leituras que fez sobre aquele assunto específico foram complicadas, mas sempre sob a presença de uma forte emoção da parte dele. Ela sabe que ele se preocupa com o circo, nunca teve razão para duvidar disso.

— Alguma vez você já leu suas cartas para alguém que não conseguia entender com o que estava lidando, embora para você estivesse claro apenas com uma rápida conversa e algumas imagens no papel? — pergunta Tsukiko.

— Já — responde Isobel. Já tinha visto aquilo centenas de vezes, clientes que simplesmente não conseguiam ver as coisas como elas eram. Cegos diante de mágoas e traições, sempre teimosos, não importava quanto ela explicasse.

— É difícil entender uma situação objetivamente quando se está envolvido com ela — explica Tsukiko. — Tudo é muito familiar. Muito confortável.

Tsukiko faz uma pausa. Os anéis de fumaça de seu cigarro desviam das gotas de chuva, circulam ao redor de sua cabeça e sobem pelo ar úmido.

— Talvez a falecida Srta. Burgess estivesse perto demais da borda para conseguir enxergar de outro modo — conclui.

Isobel franze a testa e volta a olhar para o túmulo de Tara. Lainie e Sr. Barris estão se afastando devagar, o braço dele em torno dos ombros dela.

— Você já se apaixonou alguma vez, Kiko? — pergunta Isobel.

Os ombros de Tsukiko retesam-se enquanto ela suspira. Por um momento Isobel pensa que a pergunta ficará no ar, mas ela responde.

— Tive casos que duraram décadas, outros que duraram horas. Amei princesas e camponeses. E acho que eles também me amaram, cada um do seu jeito.

Uma resposta típica de Tsukiko, que na verdade não responde à pergunta. Isobel não insiste.

— Vai desmoronar — diz Tsukiko depois de um tempo. Isobel não precisa perguntar sobre o que ela está falando. — As rachaduras estão começando a aparecer. Cedo ou tarde vai quebrar. — Faz uma pausa para uma última tragada no cigarro. — Você continua contemporizando?

— Continuo — responde Isobel. — Mas acho que não está ajudando.

— É difícil distinguir o efeito dessas coisas. Afinal, a sua perspectiva é de alguém que está dentro. Os menores encantamentos podem ser os mais eficientes.

— Não me parecem muito eficientes.

— Talvez esteja controlando mais o caos interno do que o externo.

Isobel não responde. Tsukiko dá de ombros e não diz mais nada.

Depois de algum tempo as duas saem juntas sem falar mais nisso.

O anjo da neve fica sozinho, pairando sobre o túmulo recém-fechado de Tara Burgess, segurando uma única rosa negra na mão. Ele não se mexe, nem ao menos pisca. O rosto maquiado está congelado numa expressão de pesar.

A chuva cada vez mais forte leva penas desgarradas de suas asas e as deposita na lama abaixo.

OceanofPDF.com

Você anda por um corredor empapelado com cartas de baralho, fileiras e mais fileiras de paus e espadas. Lanternas confeccionadas com outras cartas pendem do teto, oscilando suavemente a sua passagem.

 

Uma porta no final do corredor leva a uma escada de caracol.

A escada vai para baixo e para cima. Você sobe e encontra um alçapão no teto.

O recinto para o qual se abre está cheio de penas que flutuam. Enquanto você anda, elas caem como neve sobre o alçapão agora no chão, ocultando-o.

São seis portas idênticas. Você escolhe uma ao acaso, levando algumas penas junto.

O aroma de pinho é muito forte quando você entra na sala seguinte e se vê em uma floresta repleta de árvores verdejantes. Apenas três dessas árvores não são verdes, mas brancas e brilhantes, luminosas na escuridão que as cerca.

É difícil desviar delas. Assim que você começa a andar, as paredes se perdem nas sombras e nos galhos.

Há um som como o de uma mulher rindo ali perto, ou talvez seja só o farfalhar das árvores enquanto você segue o seu caminho em busca da próxima porta, da próxima sala.

Você sente o calor de uma respiração na sua nuca, mas quando se vira não há ninguém.

OceanofPDF.com