O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 54 de 69

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O Circo da Noite

Tecnicalidades

LONDRES, 1º DE NOVEMBRO DE 1901

 

Celia gostaria de parar o tempo enquanto ouve as batidas do coração de

Marco e o tique-taque do relógio ao fundo. Ficar para sempre naquele momento, aninhada em seus braços, a mão dele acariciando suas costas com suavidade. Não precisar ir embora.

Ela só consegue desacelerar os batimentos cardíacos de Marco o suficiente para que ele adormeça profundamente.

Poderia acordá-lo, mas o céu lá fora já começa a brilhar e ela não suporta a ideia de se despedir.

Por isso, prefere beijá-lo delicadamente nos lábios e se vestir em silêncio enquanto ele dorme. Tira o anel do dedo e o deixa sobre a lareira, entre os dois corações gravados na carta de baralho.

Faz uma pausa enquanto veste o casaco, observando os livros espalhados pela mesa.

Se entendesse melhor os sistemas dele, talvez pudesse usá-los para tornar o circo mais independente. Tirar um pouco do peso de si mesma. Conseguir que os dois ficassem juntos um pouco mais que algumas horas furtivas, sem desafiar as regras do jogo.

É o melhor presente que ela imagina poder dar a ele, se não conseguirem forçar um veredito de seus instrutores.

Pega o volume cheio de nomes. Parece um bom lugar para começar, pois ela entende a base do que deve ser feito.

Leva o livro consigo ao sair.

Celia fecha a porta do apartamento de Marco o mais silenciosamente possível e desliza pelo corredor escuro, o livro com capa de couro debaixo do braço. As fechaduras se trancam atrás dela com uma série de cliques suaves e abafados.

E não percebe a figura escondida nas sombras ali perto até ouvir.

— Sua vagabunda traiçoeira — diz seu pai.

Celia fecha os olhos, tentando se concentrar, mas sempre foi difícil afastá-lo depois de ele já ter conseguido acesso a ela, então não consegue fazer nada.

— Fico surpresa de você me esperar no corredor para dizer isso, papai — replica Celia.

— Este lugar é tão bem protegido que é um completo absurdo — diz Hector, indicando a porta. — Nada poderia entrar ali sem que o garoto permita de forma explícita.

— Ótimo — comenta Celia. — Assim você fica longe dele, e longe de mim.

— O que está fazendo com isso? — pergunta ele, apontando o livro debaixo do braço dela.

— Nada que seja da sua conta — responde Celia.

— Você não pode interferir no trabalho dele — diz Hector.

— Eu sei, parece que interferência é uma das poucas coisas não permitidas pelas regras. Eu não pretendo interferir, só quero aprender os sistemas dele para não ter que administrar tanta coisa no circo.

— Os sistemas dele. Você não tem nada a fazer com os sistemas do Alexander. Você não tem ideia do que está fazendo. Superestimei sua capacidade de enfrentar esse desafio.

— É este o jogo, não é? — pergunta Celia. — É sobre como lidamos com as repercussões da magia quando se manifesta num espaço público, num mundo que não acredita nessas coisas. É um teste de resistência e controle, não de habilidade.

— É um teste de força — diz Hector. — E você é fraca. Mais fraca do que pensei.

— Então deixe que eu perca — retruca. — Eu estou cansada, papai. Não consigo mais fazer isso. Você não vai poder se vangloriar na frente de uma garrafa de uísque quando o vencedor for declarado.

— Ninguém é declarado vencedor — retruca o pai. — O jogo continua a ser jogado, sem parar. Você já deveria ter percebido isso a esta altura. Você costumava ser mais esperta.

Celia olha para ele, repensando as palavras, reunindo as obscuras não respostas sobre as regras que lhe fornecera ao longo dos anos. De repente a forma dos elementos que ele sempre evitou fica mais aparente, esclarecendo fatores-chave desconhecidos.

— O vitorioso é o que continuar em pé quando o outro não conseguir mais resistir — resume Celia, compreendendo afinal o sentido daquele cenário devastador.

— É uma generalização grosseira, mas acho que é uma definição.

Celia volta ao apartamento de Marco e apoia a mão na porta.

— Pare de se comportar como se amasse esse rapaz — diz Hector. — Você está acima dessas coisas mundanas.

— E você está disposto a me sacrificar por isso — fala em voz baixa. — Permitir que eu me destrua só para tentar provar o seu ponto de vista. Você me envolveu neste jogo sabendo quais eram os riscos, e me deixou pensar que não era nada mais que um simples confronto de aptidões.

— Não me olhe dessa maneira — contesta Hector —, como se achasse que sou desumano.

— Eu consigo ver através de você — repreende Celia. — Não exige muito da minha imaginação.

— Não seria diferente se eu ainda fosse como era quando isso começou.

— E o que acontece com o circo depois do jogo? — pergunta Celia.

— O circo era apenas um local — responde ele. — Um estádio. Um coliseu muito festivo. Você poderia continuar com ele depois de vencer, mas sem o jogo o lugar não tem nenhum propósito.

— Suponho então que as demais pessoas envolvidas também não tenham mais nenhum propósito — reflete Celia. — Os destinos de cada um seriam apenas consequências?

— Todas as ações têm repercussões — diz Hector. — Faz parte do desafio.

— Por que está me dizendo agora coisas que nunca chegou a mencionar?

— Porque antes eu nunca pensei que você estivesse na posição de perdedora.

— Você quer dizer que não pensou que seria eu a morrer — diz Celia.

— É uma tecnicalidade — observa o pai. — Um jogo só se completa quando resta apenas um jogador. Não há outra maneira de terminar. Pode esquecer seus sonhos insensatos de continuar bancando a puta para esse ninguém que Alexander colheu numa sarjeta de Londres quando tudo isso acabar.

— E quanto aos que restaram? — pergunta Celia, ignorando os comentários do pai. — Você disse que o aluno de Alexander venceu o último desafio. O que aconteceu com ele?

Uma risada zombeteira tremeluz nas sombras antes de Hector responder.

— Ela está dando nós em si mesma no seu precioso circo.

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A única iluminação na tenda vem do fogo. As labaredas são de um branco radiante e brilhante, como a fogueira no pátio.

 

Você passa por um engolidor de fogo sobre uma plataforma listrada. Ele mantém pequenas linguetas de fogo dançando em longas varetas enquanto se prepara para engolir todas.

Em outra plataforma, uma mulher segura duas longas correntes com uma bola de chamas em cada ponta. Ela as gira em círculos que deixam trilhas cintilantes de luz branca pelo caminho, movendo-se tão rapidamente que parecem mais fios de fogo do que chamas isoladas, presas em correntes.

Nas múltiplas plataformas, artistas fazem malabarismos com tochas lançando-as para o ar. Às vezes atiram-nas uns para os outros em uma chuva de centelhas.

Em toda parte existem argolas de fogo empoleiradas em diferentes níveis, por onde os artistas entram e saem à vontade, como se os aros fossem apenas de metal e não círculos de chamas ardentes.

A artista nessa plataforma segura bolas de fogo nas mãos nuas, e as transforma em serpentes e flores e muitas outras coisas. Voam faíscas de estrelas cadentes, pássaros surgem das chamas e desaparecem como miniaturas de fênix em suas mãos.

Ela sorri na sua direção enquanto você vê as chamas brancas na mão dela se transformarem num barco com um movimento preciso dos dedos. Um livro. Um coração de fogo.

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