O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 57 de 69

Páginas do PDF

O Circo da Noite

Impasse

MONTREAL, AGOSTO DE 1902

 

Quando a ilusionista faz sua reverência e desaparece diante dos olhos de

sua arrebatada plateia, todos batem palmas, aplaudindo o espaço vazio. Levantam-se de suas cadeiras e alguns tagarelam com os companheiros, maravilhados com esse ou aquele truque enquanto saem em fila pela porta que reapareceu na lateral da tenda listrada.

Sentado no círculo mais externo de cadeiras, um homem permanece no lugar enquanto todos se levantam. Seus olhos, quase ocultos pela sombra projetada pelo chapéu-coco, estão fixos no espaço central do círculo ocupado pela ilusionista instantes antes.

O restante da plateia retira-se.

O homem continua sentado.

Depois de alguns minutos a porta desaparece da lateral da tenda, tornando-se mais uma vez invisível.

O olhar do homem não vacila. Ele só dá uma espiada na porta que some.

Instantes depois, Celia está sentada numa cadeira no círculo em frente a ele, ainda com o traje que usou durante a apresentação, um vestido preto coberto por uma delicada renda branca.

— Você costuma se sentar atrás — diz.

— Eu queria ter uma visão melhor — explica Marco.

— Você percorreu um longo caminho para chegar até aqui.

— Eu precisava tirar umas férias.

Celia baixa os olhos para as próprias mãos.

— Você não esperava que eu viesse de tão longe, não é? — pergunta Marco.

— Não, não esperava.

— É difícil se esconder quando se viaja com um circo inteiro.

— Eu não estou me escondendo — diz Celia.

— Está, sim — replica Marco. — Tentei falar com você no funeral de Herr Thiessen, mas você foi embora antes que eu a encontrasse, e depois levou o circo para o outro lado do oceano. Você está me evitando.

— Não é intencional — explica Celia. — Eu precisava de um tempo para pensar. Obrigada pelo Poço de Lágrimas — acrescenta.

— Eu queria que tivesse um lugar onde se sentisse segura para chorar se eu não pudesse estar com você.

Ela fecha os olhos e não responde.

— Você roubou o meu livro — diz Marco depois de um momento.

— Desculpe-me — responde Celia.

— Enquanto estiver em lugar seguro, não importa se estiver comigo ou com você. Mas você poderia ter me pedido. Poderia ter se despedido.

Celia balança a cabeça, concordando.

— Eu sei.

Nenhum dos dois fala por um tempo.

— Estou tentando tornar o circo independente — diz Celia. — Desligá-lo do desafio, de nós. De mim. Eu precisava aprender o seu sistema para que funcionasse direito. Não posso deixar um lugar que é tão importante para tanta gente desaparecer. Algo que é ao mesmo tempo uma maravilha, um mistério e um consolo com o qual eles não poderiam mais contar. Se você tivesse isso, não iria querer preservar?

— Eu tenho isso sempre que estou com você — diz Marco. — Deixe-me ajudar.

— Não preciso da sua ajuda.

— Você não vai conseguir fazer isso sozinha.

— Tenho a ajuda de Ethan Barris e Lainie Burgess — diz Celia. — Eles concordaram em responsabilizar-se pela administração da operação básica. Com um pouco mais de treino, Poppet e Widget devem conseguir lidar com os aspectos de manipulação que Ethan e Lainie não podem administrar. Eu... não preciso de você.

Celia não consegue encará-lo.

— Você não confia em mim — diz ele.

— Isobel confiava em você — replica Celia, olhando para o chão. — Chandresh também. Como posso acreditar que está sendo honesto comigo se não foi com eles, quando sou eu que ofereço a maior razão para você me enganar?

— Eu nunca disse a Isobel que a amava — pondera Marco. — Eu era jovem e estava só e desesperado, não deveria ter deixado que ela pensasse que eu sentia mais do que sentia, mas meu sentimento por ela não é nada comparado ao que sinto por você. Não é uma tática para enganar você. Acha mesmo que sou tão cruel?

Celia levanta-se da cadeira.

— Boa noite, Sr. Alisdair — diz.

— Celia, espere — retruca Marco, levantando-se, mas sem se aproximar dela. — Você está partindo o meu coração. Uma vez você me disse que eu fazia você se lembrar do seu pai. Que não queria sofrer como sua mãe sofreu por ele, mas está fazendo exatamente isso comigo. Está sempre me abandonando. Fazendo com que eu sinta sua falta cada vez mais, quando eu daria tudo para você ficar, e isso está me matando.

— Precisa mesmo matar um de nós dois — responde Celia em voz baixa.

— O quê? — pergunta Marco.

— O vitorioso será o que sobreviver — explica. — O vencedor vive, o perdedor morre. É assim que o jogo termina.

— Não... — Marco faz uma pausa, balançando a cabeça. — Esse não pode ser o objetivo do jogo.

— Mas é — insiste Celia. — É um teste de resistência, não de habilidade. Estou tentando tornar o circo autossuficiente antes que...

Não consegue terminar a frase, e ainda não consegue olhar para ele.

— Você vai fazer o que o seu pai fez — diz Marco. — Vai retirar-se do tabuleiro.

— Não exatamente — responde ela. — Acho que sempre fui mais filha da minha mãe.

— Não — contesta Marco. — Você não está falando sério.

— É a única maneira de parar o jogo.

— Então vamos continuar jogando.

— Não posso — contesta Celia. — Não posso mais continuar. A cada noite se torna mais difícil. Eu... preciso deixar você vencer.

— Mas eu não quero vencer — diz Marco. — Eu quero você. Essa é a verdade, Celia, você não entende?

Celia não diz nada, mas lágrimas começam a rolar pelo seu rosto. Ela não as enxuga.

— Como você pode pensar que eu não te amo? — pergunta Marco. — Celia, você é tudo para mim. Não sei quem está tentando convencer você do contrário, mas precisa acreditar em mim, por favor.

Ela olha para ele com os olhos cheios de lágrimas, a primeira vez que mantém o olhar fixo no dele.

— Esse foi o momento em que percebi que amava você — diz Marco.

Os dois estão em lados opostos de um pequeno aposento pintado de azul-claro salpicado de estrelas, à beira de uma piscina cheia de almofadas em matizes de joias coloridas. Um bruxuleante lustre paira acima deles.

— Eu me encantei no momento em que a vi pela primeira vez — continua Marco —, mas foi assim que eu soube.

O aposento ao redor muda outra vez, transformando-se num salão de baile vazio. A luz da lua penetra pelas janelas.

— Foi quando eu soube — diz Celia, a voz é um sussurro ecoando suavemente pelo recinto.

Marco se move para diminuir a distância entre os dois, beijando as lágrimas dela antes de chegar aos seus lábios.

Quando ele a beija, a fogueira fica mais brilhante. Os giros dos acrobatas refletem perfeitamente a luz. O circo todo cintila, ofuscando os visitantes.

Mas quando Celia se afasta, relutante, aquela imaculada coesão deixa de existir.

— Desculpe-me — diz.

— Por favor — insiste Marco, recusando-se a deixá-la ir, os dedos segurando firme a renda de seu vestido. — Por favor, não me deixe.

— É tarde demais — diz Celia. — Já era tarde demais quando cheguei a Londres para transformar o seu caderno de anotações em um pombo. Já havia muita gente envolvida. Qualquer coisa que um de nós faça tem efeito em todos aqui, em cada visitante que já passou por esses portões. Centenas de milhares de pessoas. São como moscas numa teia de aranha tecida quando eu tinha 6 anos, e agora eu mal consigo me mexer por medo de perder todo mundo.

Olha para ele, erguendo a mão para acariciar seu rosto.

— Você pode fazer uma coisa para mim? — pergunta.

— Qualquer coisa — garante Marco.

— Não volte mais — pede Celia, com a voz entrecortada.

E desaparece antes que Marco consiga protestar, da forma simples e elegante como encerra o seu ato, o vestido desaparecendo sob as mãos dele. Só seu perfume paira no espaço ocupado por ela instantes atrás.

Marco fica sozinho na tenda vazia, com nada mais que dois círculos de cadeiras e uma porta aberta, esperando que saia.

Antes de partir, tira uma única carta de baralho do bolso e a põe sobre a cadeira da ilusionista.

OceanofPDF.com