O Circo da Noite
Parte III
INTERSEÇÕES
Eu gostaria muito de interpretar as reações, as observações de cada uma e de todas as pessoas que passam pelos portões do Le Cirque des Rêves, para saber o que elas veem e ouvem e sentem. Saber como suas experiências coincidem com as minhas e quanto diferem delas. Tive a sorte de receber cartas com essa informação, de partilhar anotações de rêveurs em diários e pensamentos expostos em pedaços de papel.
Acrescentamos as nossas histórias, cada visitante, cada ida, cada
noite passada no circo. Imagino que nunca faltarão coisas a dizer ou histórias a serem contadas e partilhadas.
— FRIEDRICK THIESSEN, 1895
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De pé na plataforma no meio da multidão, altas o suficiente para que possam ser vistas de todos os ângulos, há duas figuras imóveis como estátuas.
A mulher usa algo parecido com um vestido de noiva elaborado para uma bailarina, branco, em camadas, com laçarotes pretos que flutuam no ar noturno. As pernas estão cobertas por meias três-quartos, os pés calçam botas pretas de abotoar. Os cabelos negros são ondulados e estão adornados com penas brancas.
Seu companheiro é um homem atraente, um pouco mais alto que ela, num impecável terno preto risca de giz feito sob medida. A camisa é de um branco ofuscante, a gravata é preta e o nó é imaculado. Um chapéu-coco preto está assentado sobre a cabeça.
Os dois estão muito próximos, mas não se tocam. As cabeças estão inclinadas na direção uma da outra. Lábios imóveis no momento antes (ou depois) do beijo.
Embora os observe por algum tempo, eles não se movem. Nem as pontas dos dedos nem os cílios. Não há sinal nem de que estejam respirando.
“Eles não podem ser de verdade”, observa alguém nos arredores.
Muitos visitantes apenas lançam um olhar antes de prosseguir, porém, quanto mais se observa, mais se podem perceber alguns movimentos sutis. A mudança na curva de uma das mãos pairando sobre um braço. O ângulo que se altera em uma perna perfeitamente equilibrada. Sempre gravitando um em direção ao outro.
Mas sem se tocar.
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