O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 8 de 69

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O Circo da Noite

Falsos pretextos

JUNHO — NOVEMBRO DE 1884

 

Próspero, o Mágico não apresenta nenhuma razão formal para seu

afastamento dos palcos. Suas turnês vinham sendo tão esporádicas nos últimos anos que a ausência de apresentações passa quase despercebida.

Mas Hector Bowen ainda faz turnês, pode-se dizer, ainda que Próspero, o Mágico não as faça.

Ele viaja de cidade em cidade, oferecendo sua filha de 16 anos como médium espiritual.

— Eu odeio isso, papai — Celia protesta com frequência.

— Se você conseguir pensar em algum jeito melhor de passar o tempo até o começo do seu desafio, e não se atreva a me dizer que quer ficar lendo, pode ir em frente, desde que renda tanto dinheiro quanto isso. Além do mais, se apresentar para uma plateia é um bom exercício para você.

— Essas pessoas são insuportáveis — diz Celia, embora não seja bem o que quer dizer. As pessoas a fazem se sentir desconfortável. A maneira como olham para ela, as expressões suplicantes e os rostos marcados por lágrimas. Elas a veem como uma coisa, uma ponte para seus entes queridos perdidos aos quais tanto se apegavam.

Falam dela como se nem estivesse na sala, como se fosse tão sem substância quanto seus espíritos queridos. Precisa se esforçar para não se afastar quando eles inevitavelmente a abraçam, agradecidos, em meio aos soluços.

— Essas pessoas não significam nada — diz o pai. — Nem conseguem imaginar o que acham que veem ou ouvem, e é mais fácil para elas acreditar que estão recebendo transmissões miraculosas do além. Por que não tirar vantagem disso, principalmente quando estão tão desejosas de gastar dinheiro com algo tão simples?

Celia insiste em que nenhum dinheiro vale uma experiência tão excruciante, mas Hector é persistente, e por isso eles continuam viajando, levitando mesas e produzindo fantasmas que batem em todos os tipos de paredes cobertas por papéis de parede.

Ela continua perplexa com a forma como seus clientes anseiam por uma comunicação, uma garantia. Celia jamais pensou em entrar em contato com sua falecida mãe, duvida até que a mãe quisesse falar com ela se pudesse, especialmente por meio de métodos tão complicados.

Tudo isso é mentira, ela quer dizer a eles. Os mortos não estão pairando por aqui, batendo educadamente em xícaras de chá ou tampos de mesa e sussurrando através de cortinas esvoaçantes.

Às vezes ela quebra alguns objetos de valor e joga a culpa nos espíritos que não encontraram descanso.

O pai escolhe diferentes nomes para ela à medida que mudam de lugar, mas costuma usar Miranda, talvez por saber quanto isso a irrita.

Após meses nessa rotina ela está cansada das viagens e da tensão e do fato de seu pai mal permitir que ela coma, alegando que parecer uma criança abandonada a torna mais convincente, mais próxima do outro lado.

Só depois de ela desmaiar de verdade durante uma sessão em vez de executar o perfeitamente coreografado êxtase dramático, ele concede um breve descanso na casa em Nova York.

Durante um chá da tarde, entre olhares para a quantidade de geleia e creme de leite que ela espalhava sobre os bolinhos, ele menciona que acertou um trabalho para ela no fim de semana, atendendo a uma chorosa viúva do outro lado da cidade, que concordou em pagar o dobro do preço normal.

— Eu disse que você poderia descansar — diz o pai quando Celia se recusa, sem sequer olhar para a pilha de papéis que ele espalhou na mesa de jantar. — Você teve três dias, isso deveria ser suficiente. Você está ótima. Um dia vai ser ainda mais bonita que sua mãe.

— Fico surpresa por se lembrar como era minha mãe — comenta Celia.

— Você o quê? — pergunta Hector, encarando-a e sustentando o olhar quando ela apenas franze a testa em resposta. — Posso ter passado só algumas semanas na companhia dela, mas me lembro de sua mãe com mais clareza do que você, que esteve com ela durante cinco anos. Tempo é algo peculiar. Você vai acabar aprendendo isso.

Volta a atenção para os papéis.

— E esse desafio para o qual você está supostamente me treinando? — pergunta Celia. — Ou isso é só outra maneira de ganhar dinheiro?

— Celia, querida — diz Hector —, você tem grandes realizações a sua frente, mas não temos controle sobre quando elas vão começar. Não cabe a nós o primeiro movimento. Simplesmente seremos avisados quando chegar a hora de colocar você no tabuleiro, por assim dizer.

— Então por que importa o que eu vou fazer enquanto isso?

— Você precisa praticar.

Celia inclina a cabeça, olhando para ele enquanto descansa as mãos sobre a mesa. Todos os papéis se dobram em formas elaboradas: pirâmides e hélices, pássaros de papel com asas farfalhantes.

O pai ergue o olhar, irritado. Levanta um peso de papel feito de vidro e bate na mão dela com força bastante para quebrar o seu pulso com um estalido seco.

Os papéis se desdobram e voltam para a superfície da mesa.

— Você precisa praticar — repete. — Ainda não tem controle total.

Celia sai da sala sem dar uma palavra, segurando o pulso e contendo as lágrimas.

— E, pelo amor de Deus, pare de chorar — grita o pai atrás dela.

Celia demora quase uma hora para ajustar e reunir os pedaços de ossos.

 

*

 

ISOBEL SENTA-SE NUMA POLTRONA raramente ocupada no canto do apartamento de Marco com um arco-íris de fitas de seda ao redor dos dedos que tenta em vão que se transforme em uma única trança elaborada.

— Isso parece tão bobo — comenta, franzindo a testa diante das fitas emaranhadas.

— É um encantamento simples — diz Marco da sua mesa, cercado de livros abertos. — Uma fita para cada elemento, ligada por nós e intentos. É como suas cartas, só que influenciando o objeto em vez de apenas adivinhar seu significado. Mas não funciona se você não acreditar que pode fazer, você sabe disso.

— Talvez eu não esteja no estado de espírito certo para acreditar — diz Isobel, desatando os nós e deixando as fitas de lado, que logo cascateiam pelo braço da poltrona. — Vou tentar de novo amanhã.

— Então me ajude aqui — diz Marco, entre os livros. — Pense em alguma coisa. Um objeto. Um objeto importante que eu não possa de jeito nenhum saber qual é.

Isobel suspira e fecha os olhos, obediente, concentrando-se.

— É um anel — diz Marco depois de uns instantes, capturando a imagem da mente dela com facilidade, como se ela lhe tivesse feito um desenho. — Um anel de ouro com uma safira entre dois diamantes.

Isobel arregala os olhos.

— Como você sabia?

— É um anel de noivado? — pergunta com um sorriso.

Ela leva as mãos à boca antes de confirmar.

— Você vendeu esse anel — continua Marco, captando fragmentos de lembranças relacionadas ao anel. — Em Barcelona. Você fugiu de um casamento arranjado, é por isso que está em Londres. Por que não me contou?

— Não é exatamente um bom tema para uma conversa — explica Isobel. — E você quase nunca me diz nada sobre a sua vida, poderia inclusive também ter fugido de um casamento arranjado.

Os dois se encaram por alguns instantes, enquanto Marco procura uma resposta adequada, mas então Isobel ri.

— Provavelmente ele procurou pelo anel mais tempo do que procurou por mim — diz ela, olhando para a mão vazia. — Era lindo, eu não queria me desfazer dele, mas estava sem dinheiro e não tinha outra coisa para vender.

Marco ia dizer que sabia que ela recebera um bom dinheiro pelo anel quando os dois ouvem batidas na porta do apartamento.

— Será o proprietário? — sussurra Isobel, mas Marco põe um dedo nos lábios e balança a cabeça.

Só uma pessoa bate àquela porta sem ser anunciada.

Marco leva Isobel até o quarto adjacente antes de atender.

O homem de terno cinza não entra no apartamento. Ele nunca entrou naquele espaço desde que orquestrou a transição, jogando seu aluno no mundo exterior.

— Você vai se candidatar a uma vaga para trabalhar com este homem — diz sem nenhuma saudação, tirando um esmaecido cartão de visitas do bolso. — Provavelmente vai precisar de um nome.

— Eu tenho um nome — responde Marco.

O homem de terno cinza não pergunta qual seria esse nome.

— Sua entrevista está marcada para amanhã à tarde — continua. — Já cuidei de muitos negócios do Monsieur Lefèvre nos últimos tempos e recomendei você, mas faça o que for preciso para garantir esse cargo.

— Isso é o começo do desafio? — pergunta Marco.

— É um movimento inicial, para nos colocar em posição vantajosa.

— Então quando começa o desafio? — pergunta Marco, embora já tenha feito essa pergunta dezenas de vezes antes e nunca tenha recebido uma resposta objetiva.

— Isso vai ficar claro com o tempo — responde o homem de terno cinza. — Quando começar, seria sensato concentrar sua atenção na competição — indica com o olhar a porta fechada do quarto —, e evitar distrações.

Vira-se e sai pelo corredor, deixando Marco em pé na porta, lendo e relendo o nome e o endereço no cartão meio apagado.

 

*

 

ÀS VEZES HECTOR BOWEN cede à insistência da filha e permanece em Nova York, mas só faz isso porque também tem seus motivos.

Ainda que faça comentários ocasionais de que Celia deveria praticar mais, Hector a ignora quase todo o tempo, passando os dias sozinho em seu escritório no andar de cima.

Celia está bastante contente com esse arranjo e passa a maior parte do tempo lendo. Sai sem ser notada para ir a livrarias, e fica surpresa que o pai não pergunte de onde vieram aquelas pilhas de livros novos.

Pratica bastante, quebrando várias coisas pela casa para consertá-las depois. Faz livros voarem pelo quarto como pássaros, calculando que distância conseguem percorrer antes de ajustar sua técnica.

Celia se especializa em manipular tecidos, modificando seus vestidos com a mesma perícia de um mestre alfaiate, de modo a acomodar o peso que ganhou, sentindo o corpo como seu outra vez.

Precisa lembrar ao pai de sair para fazer as refeições, mas ultimamente ele recusa com frequência, e quase nunca sai da sala.

Hoje nem respondeu a suas insistentes batidas. Irritada, sabendo que o encantamento das fechaduras só permite que sejam abertas com as chaves certas, Celia chuta a porta e, para sua surpresa, ela se abre.

O pai está próximo à janela, olhando fixamente o próprio braço estendido à frente, a luz do sol se infiltrando pelo vidro jateado e caindo sobre a manga.

A mão dele desaparece completamente e volta a aparecer. Ele estende os dedos e franze a testa ao ouvir o estalido das juntas.

— O que está fazendo, papai? — pergunta Celia, a curiosidade vencendo a irritação. Não é nada que ela já o tenha visto fazer antes, nem no palco nem nas aulas particulares.

— Não é da sua conta — responde o pai, cobrindo a mão com o punho da camisa rendada.

A porta se fecha na cara dela.

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