O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 45 de 69

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O Circo da Noite

Um entreato

CONCORD, MASSACHUSETTS, 30 DE OUTUBRO DE 1902

 

Os carneiros estão com um humor terrível quando Bailey tenta conduzi-

los de um pasto para outro. Resistiram a cutucões, xingamentos e empurrões, insistindo em que a grama no pasto atual era muito melhor do que a do outro lado do portão no muro de pedra baixo, sem se importar com as tentativas de Bailey de convencê-los do contrário.

Então ele ouve uma voz atrás de si.

— Olá, Bailey.

De alguma forma Poppet parece estranha ali, em pé do outro lado do muro. A luz do dia é brilhante demais, os arredores são muito normais e verdes. As roupas dela, embora sejam seus trajes anônimos e não seu vestido de circo, parecem muito extravagantes. A saia é franzida demais para uso cotidiano; embora gastas, as botas são muito delicadas e impróprias para andar por uma fazenda. Está sem chapéu, com os cabelos ruivos soltos chicoteando ao redor da cabeça ao sabor do vento.

— Olá, Poppet — cumprimenta assim que se recupera da surpresa. — O que está fazendo aqui?

— Eu precisava falar com você sobre uma coisa — responde ela. — Aliás, perguntar algo.

— E não podia esperar até a noite? — pergunta Bailey. Encontrar-se com Poppet e Widget todas as noites no circo tornara-se uma rotina.

Poppet nega com um aceno de cabeça.

— Achei que fosse melhor dar um tempo para você pensar a respeito — diz.

— Pensar a respeito do quê?

— A respeito de vir conosco.

Bailey pisca para ela.

— Como? — consegue afinal perguntar.

— Hoje é a nossa última noite aqui — informa ela. — E eu gostaria que viesse conosco quando partirmos.

— Você está brincando — diz Bailey.

Poppet balança a cabeça negativamente.

— Não estou, juro que não. Eu quis esperar até ter certeza de que é a coisa certa a pedir, a coisa certa a fazer, e agora tenho certeza. É importante.

— O que você quer dizer? Importante como? — pergunta Bailey.

Poppet suspira. Olha para cima, como se procurasse estrelas escondidas atrás do céu azul pontuado por nuvens fofas.

— Eu sei que você deve vir conosco — diz. — Dessa parte eu tenho certeza.

— Mas por quê? Por que eu? O que eu faria? Só acompanharia? Eu não sou como você e Widget, não sei fazer nada especial. Não faço parte do circo.

— Faz, sim! Tenho certeza. Ainda não sei por quê, mas tenho certeza de que você precisa ficar comigo. Quero dizer, conosco. — Um rubor escarlate toma suas bochechas.

— Eu gostaria de ir, gostaria mesmo. Mas... — Bailey olha para as ovelhas, para a casa e para o celeiro na colina cheia de macieiras. Aquilo resolveria a discussão entre Harvard versus fazenda, ou tornaria tudo muito, muito pior. — Eu não posso simplesmente ir embora — fala afinal, embora não acredite muito nisso.

— Eu sei — diz Poppet. — Desculpe. Eu não deveria ter pedido. Mas acho que... Não, não acho, eu sei. Sei que se você não vier com a gente, nós não vamos voltar mais.

— Não vão voltar mais aqui? Por quê?

— Não vamos voltar mais para lugar nenhum — esclarece Poppet. Ergue os olhos para o céu outra vez e faz uma careta antes de voltar-se para Bailey. — Se você não vier conosco, não vai mais ter circo. E não me pergunte por quê, elas não me dizem por quê. — Faz um gesto para o céu, para as estrelas além das nuvens. — Só dizem que, para haver um circo no futuro, você precisa estar lá. Você, Bailey. Você, eu e Widge. Não sei por que é importante que sejamos nós três, mas é. Senão, tudo vai simplesmente desmoronar. Aliás, já está começando.

— Como assim? O circo vai muito bem.

— Não sei bem se é alguma coisa que está visível para quem está de fora. É como... Se uma das suas ovelhas estivesse doente, eu perceberia?

— Provavelmente não — responde Bailey.

— Mas você perceberia, não é? — pergunta Poppet.

Bailey confirma.

— É o mesmo com o circo. Eu sei como deveria ser, e não está assim no momento, e isso já há algum tempo. Posso dizer que algo está errado, eu sinto-o desmontando como um bolo sem glacê que não consegue se manter inteiro, mas não consigo explicar direito. Isso faz algum sentido?

Bailey apenas olha para ela, que suspira antes de continuar.

— Lembra aquela noite em que estávamos no Labirinto das Câmaras? Quando ficamos presos naquela sala que parecia uma gaiola?

Bailey confirma com um gesto de cabeça.

— Até aquele momento eu nunca tinha ficado presa em lugar nenhum do Labirinto. Nunca. Quando não conseguimos encontrar uma saída de um quarto ou de um corredor, eu me concentro e sinto onde estão as portas. Posso dizer o que há atrás delas. Tento não fazer isso porque não é tão divertido quanto parece, mas naquela noite eu fiz quando não conseguimos sair, e não funcionou. Está ficando muito estranho e eu não sei o que fazer a respeito.

— Mas como eu posso ajudar? — pergunta Bailey.

— Foi você quem achou a chave, lembra? — diz Poppet. — Eu fico procurando respostas, a coisa certa a ser feita, e nada tem sido claro a não ser você. Sei que é demais pedir que abandone sua casa e sua família, mas o circo é a minha casa e a minha família, e não posso perder isso. Não se eu puder fazer algo para impedir. Desculpe.

Poppet senta-se na mureta de pedra, de costas para ele. Bailey senta-se ao seu lado, ainda observando o campo e as incorrigíveis ovelhas. Os dois ficam em silêncio por algum tempo. Os animais perambulam em círculos preguiçosos, mordiscando a grama.

— Você gosta daqui, Bailey? — pergunta Poppet, passando os olhos pela fazenda.

— Não particularmente — responde Bailey.

— Alguma vez já quis que aparecesse alguém para levar você embora?

— Foi Widge que contou isso a você? — indaga Bailey, perguntando-se se aquele pensamento é tão forte a ponto de parecer evidente e legível.

— Não — responde Poppet. — Foi um palpite. Mas Widge me pediu para entregar isto a você. — Tira um pequeno frasco de vidro do bolso e o entrega a ele.

Bailey sabe que, embora o frasco pareça vazio, provavelmente não está, e fica curioso demais para não abri-lo de imediato. Puxa a minúscula tampa, aliviado por continuar ligada ao frasco por um arame espiralado.

A sensação dentro do frasco é tão conhecida, tão reconfortante e reconhecível e real que Bailey consegue sentir a aspereza da casca da árvore, o cheiro das bolotas de carvalho, até o chiar dos esquilos.

— Widget quer que você leve a sua árvore com você — explica Poppet. — Se você decidir vir conosco.

Bailey repõe a tampa no frasco. Nenhum dos dois fala por algum tempo. A brisa balança os cabelos de Poppet.

— Quanto tempo eu tenho para pensar a respeito? — pergunta Bailey em voz baixa.

— Nós vamos partir depois do espetáculo desta noite — responde Poppet. — O trem estará pronto antes do amanhecer, mas seria melhor se pudesse chegar mais cedo. A partida pode ser... complicada.

— Vou pensar — diz Bailey. — Mas não posso prometer nada.

— Obrigada, Bailey — diz Poppet. — Mas será que pode me fazer um favor? Se decidir não vir conosco, poderia não ir ao circo esta noite? E que esta seja a nossa despedida? Acho que seria mais fácil.

Bailey olha para ela sem expressão por algum tempo, incapaz de assimilar bem suas palavras. Aquela perspectiva chega a ser até mais horrível do que a escolha de partir. Mas ele concorda, por sentir que é o melhor a fazer.

— Tudo bem — concorda. — Eu só vou se for para ir embora com vocês. Prometo.

— Obrigada, Bailey — diz Poppet. E sorri, embora ele não consiga saber se é ou não um sorriso de felicidade.

E antes que consiga pedir que ela se despeça de Widget se for necessário, Poppet se aproxima e o beija, não no rosto, como já fez inúmeras vezes, mas nos lábios, e Bailey fica sabendo naquele momento que vai segui-la seja aonde for.

Poppet vira-se sem dizer uma palavra e se afasta. Bailey fica observando até não conseguir mais vê-la no horizonte e continua a olhar na mesma direção, apertando o pequeno frasco na mão, ainda incerto sobre o que sentir ou o que fazer e com apenas algumas horas para se decidir.

Atrás dele as ovelhas, deixadas por conta própria, resolvem passar pelo portão aberto e vagar pelo pasto.

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