O Circo da Noite

Erin Morgenstern · Capítulo 41 de 69

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O Circo da Noite

Histórias de ninar

CONCORDO, MASSACHUSETTS, OUTUBRO DE 1902

 

Bailey passa a maior parte do início da noite explorando o Labirinto das

Câmaras com Poppet e Widget. Uma estonteante rede de câmaras, com corredores cujas portas são diferentes entre si. Salas que giram e salas com tabuleiros de xadrez cintilantes. Em uma delas há uma pilha muito alta de malas. Em outra está nevando.

— Como isso é possível? — pergunta Bailey, flocos de neve grudando em seu casaco.

Em resposta, Poppet atira uma bola de neve nele, e Widget ri.

Enquanto eles atravessam o Labirinto, Widget conta a história do Minotauro com tantos detalhes que Bailey começa a achar que vai encontrar o monstro em cada curva.

Chegam a uma sala que parece uma grande gaiola de metal, só a escuridão visível entre as grades. O alçapão por onde eles entraram tranca-se no momento em que bate no chão e não pode mais ser aberto. Parece não haver outra saída.

Widget para de contar sua história enquanto eles examinam as barras prateadas, sem encontrar aberturas escondidas ou dobradiças disfarçadas. Poppet começa a ficar visivelmente preocupada.

Depois de um considerável período de tempo presos na sala, Bailey encontra uma chave escondida no assento do balanço no meio da gaiola. Quando ele a gira, o balanço sobe e o teto da gaiola se abre, permitindo que escalem, saindo em um templo mal iluminado guardado por uma esfinge albina.

Apesar de haver pelo menos uma dezena de portas nas paredes do templo, Poppet encontra de imediato uma que leva de volta ao circo.

Ainda parece um pouco perturbada, mas antes que Bailey consiga perguntar se há algum problema Widget consulta o relógio e percebe que estão atrasados para os espetáculos programados. Os três combinam de se encontrar mais tarde, e os gêmeos desaparecem na multidão.

Bailey assistiu ao espetáculo dos gatinhos tantas vezes nas últimas noites que praticamente já decorou a coreografia, por isso prefere continuar sua exploração sozinho enquanto espera os gêmeos estarem liberados outra vez.

O caminho que escolhe seguir não tem nenhuma porta aparente, é apenas uma passagem entre as tendas, infindáveis listras iluminadas por luzes bruxuleantes.

De repente percebe uma irregularidade na alternância entre o preto e o branco.

Bailey encontra uma brecha ao lado de uma das tendas. Um rasgo no tecido, as bordas pontilhadas de ilhoses prateados, e uma fita preta pendurada bem acima de sua cabeça, como se essa abertura tivesse que ficar fechada para manter o circo no lugar. Fica imaginando se algum integrante do circo se esqueceu de amarrá-la.

Logo depois vê a etiqueta. Do tamanho de um cartão-postal grande, ligada à fita preta da forma como alguém prenderia um cartão a um presente. A etiqueta pende livre a menos de um metro do chão. Bailey a examina. De um lado há uma água-forte em preto e branco de uma criança numa cama coberta por travesseiros fofos e um acolchoado xadrez, não num berçário mas sob um céu noturno salpicado de estrelas. O verso é branco, com uma elegante caligrafia em preto em que se lê:

 

Histórias de Ninar

Rapsódias do Anoitecer

Antologias da Memória

 

Por favor entre com cuidado

E sinta-se à vontade para abrir o que estiver fechado

 

Bailey não sabe dizer se a etiqueta pertence àquela abertura ou se foi tirada de alguma outra tenda. A maioria delas tem tabuletas de madeira pintadas bem visíveis, com as entradas bem demarcadas ou definidas. Essa parece projetada para não ser encontrada. Outros visitantes passam a caminho de outras partes do circo, absorvidos demais na conversa para notar Bailey examinando uma etiqueta do tamanho de um cartão-postal na lateral de uma tenda.

Tateando, ele desata a fita o suficiente para espiar pela fresta e tentar discernir se aquilo é mesmo uma atração em separado do circo e não os fundos da tenda do acrobata ou alguma espécie de depósito. Consegue divisar apenas uma série de luzinhas piscando e formas que poderiam ser um mobiliário. Ainda incerto, abre a fenda e entra com cuidado, seguindo as instruções do cartão-postal, que se mostram valiosas, pois ele dá de cara com uma mesa coberta de jarras e garrafas e tigelas tampadas tilintando umas nas outras. Bailey para, esperando que não tenha derrubado nada.

É um aposento comprido, do tamanho de uma sala de jantar, ou talvez só pareça uma sala de jantar por causa da mesa, que se estende por toda a tenda, sobrando espaço apenas para uma manobra cuidadosa. Todas as jarras e garrafas são diferentes. Algumas jarras são simples potes de conserva, outras são de cerâmica esmaltada ou vidro jateado decorado. Garrafas para vinho, uísque ou perfume. Há também açucareiros com tampas de prata e recipientes que mais parecem urnas. Parecem dispostos em nenhum padrão ou organização específicos: estão simplesmente espalhados em cima da mesa. Há outros jarros e garrafas na periferia da sala também, alguns no chão e outros em caixas ou em prateleiras altas de madeira.

O único elemento do lugar que tem relação com a imagem da etiqueta é o teto. É preto e coberto por minúsculos pontos de luz reluzentes. O efeito é quase idêntico ao da visão de um céu noturno visto do lado de fora.

Bailey se pergunta como tudo aquilo tem a ver com uma criança na cama, ou com histórias de ninar, enquanto anda ao redor da mesa.

Lembra-se do que a etiqueta dizia sobre abrir coisas, imaginando o que poderia haver dentro de todas aquelas jarras. A maioria dos frascos transparentes parece vazia. Quando chega à outra ponta da mesa, escolhe um ao acaso, um pequeno jarro redondo de cerâmica esmaltado em preto muito brilhante com uma tampa de alça arredondada. Tira a tampa e examina o interior. O recipiente libera um pouco de fumaça, mas está vazio. Ao observar seu interior, Bailey sente um cheiro de fogueira, com um ligeiro perfume de neve e castanhas assadas. Curioso, ele respira mais fundo. O aroma é de vinho quente e doces açucarados, hortelã e fumo de cachimbo. O perfume fresco de pinho de uma figueira. Parafina de velas derretidas. Quase consegue sentir a neve, a alegria e a antecipação, o sabor açucarado de um confeito. É estonteante, maravilhoso e perturbador. Após alguns instantes, põe a tampa no lugar e devolve o jarro à mesa.

Olha para as jarras e as garrafas ao redor, intrigado porém hesitante antes de abrir outra. Apanha uma compoteira de vidro jateado e desatarraxa a tampa de metal prateado. A compoteira não está vazia, contém uma pequena quantidade de areia branca que se mexe no fundo. O aroma que emana é sem dúvida o cheiro do oceano, de um luminoso dia de verão à beira-mar. Ouve o som das ondas quebrando na areia, o pio de uma gaivota. Há também algo de misterioso, fantástico. A bandeira de um navio pirata no horizonte longínquo, a cauda de uma sereia acenando atrás de uma onda. O aroma e a sensação são venturosos e estimulantes, com o matiz salino de uma brisa marítima.

Bailey fecha a compoteira e a sensação e o aroma desaparecem, presos outra vez dentro do vidro com o punhado de areia.

Em seguida escolhe uma garrafa de uma prateleira na parede, imaginando se haveria alguma diferença entre os jarros e as garrafas que estão na mesa e os que estão ao redor, se existiria algum sistema de organização indistinta para esses curiosos recipientes.

A garrafa escolhida é alta e fina, com uma rolha presa por um arame prateado. Tira a rolha com alguma dificuldade, e ela se abre com um ruído. Há alguma coisa no fundo da garrafa, mas Bailey não sabe dizer o que é. O cheiro que emana do gargalo estreito é fresco e floral. Uma roseira cheia de botões orvalhados, o aroma de musgo de terra. Sente como se estivesse caminhando por um jardim. Ouve o zumbido de abelhas e a melodia dos pássaros nas árvores. Inala mais profundamente e sente outras flores além das rosas: lírios, íris e açafrão. As folhas das árvores farfalham no vento cálido e há um som dos passos de alguém não muito longe. A sensação de um gato esfregando-se em suas pernas é tão autêntica que ele olha para baixo esperando ver o animal, mas não há nada no piso da tenda além de jarras e garrafas. Bailey põe a rolha no lugar e devolve a garrafa à prateleira. Depois escolhe outra.

Enfurnada na parte de trás de uma das prateleiras, ele encontra uma pequena garrafa redonda, com o gargalo curto, fechada com uma tampa de vidro combinando. Pega-a com cuidado. É mais pesada do que imaginava. Remove a tampa e sente-se confuso, pois ao primeiro aroma a sensação não muda. Depois vem o cheiro de caramelo, flutuando na brisa fresca de um vento outonal. O cheiro de lã e suor faz com que sinta estar usando um casaco pesado, com a proteção de um cachecol ao redor do pescoço. A impressão de pessoas usando máscaras. O aroma de uma fogueira mistura-se com o caramelo. Então há uma mudança, um movimento à sua frente. Alguma coisa cinzenta. Uma dor aguda no peito. A sensação de estar caindo. O som de um vento uivante, de uma garota gritando.

Bailey volta a tapar o frasco, perturbado. Sem querer interromper a experiência, devolve a estranha garrafinha à prateleira e resolve pegar mais uma antes de sair para se encontrar com Poppet e Widget.

Desta vez pega uma das caixas sobre a mesa, uma caixa de madeira envernizada com um padrão sinuoso gravado na tampa. O interior é forrado de seda branca. O perfume é de incenso, profundo e temperado, e Bailey consegue sentir a fumaça ao redor da cabeça. É quente, um ar seco desértico, o sol a pino, a areia fofa. Suas bochechas enrubescem com o calor e com algo mais. A deliciosa sensação de seda atinge sua pele em ondas. Há uma música que não consegue distinguir. Talvez uma flauta. E risada, uma risada alta que se mistura de forma harmoniosa com a música. O gosto de alguma coisa doce, porém picante, na língua. A sensação é luxuriante e leve, mas também secreta e sensual. Sente um toque no ombro e tem um sobressalto, fechando a tampa da caixa.

A sensação termina abruptamente. Bailey está sozinho na tenda, sob as estrelas cintilantes.

Agora chega, pensa. Volta até a abertura na tenda, tomando cuidado para não derrubar as jarras e as garrafas ao redor.

Faz uma pausa para ajeitar a etiqueta pendurada na fita, de forma a torná-la mais visível, embora não saiba ao certo por quê. A face com a ilustração da criança dormindo na cama sob as estrelas está virada para fora, mas é difícil dizer se seus sonhos infantis são tranquilos ou inquietos.

Faz o caminho de volta para reencontrar Poppet e Widget, imaginando se eles gostariam de ir até o pátio comer algo.

Mas quando o aroma de caramelo chega até ele durante a caminhada, Bailey percebe que na verdade não está com fome.

Continua andando pelos caminhos sinuosos, os pensamentos em garrafas cheias de mistérios.

Ao virar uma esquina, encontra uma plataforma elevada ocupada por uma estátua humana, mas essa é diferente da mulher coberta de neve que ele viu.

A pele dessa é clara e brilhante, os cabelos, longos e pretos, estão presos por dezenas de fitas prateadas que caem sobre seus ombros. O vestido é branco, coberto com o que parece um bordado negro sinuoso, mas ao se aproximar percebe que as marcas escuras na verdade são palavras escritas no tecido. Quando está perto o suficiente para ler partes do vestido, percebe que são cartas de amor inscritas num texto caligrafado. Palavras de desejo e saudades envolvem a cintura dela, fluindo pelo vestido que escorre sobre a plataforma.

A estátua está imóvel, mas a mão está estendida, e só então Bailey nota a jovem de cachecol vermelho em pé logo à frente, oferecendo uma simples rosa púrpura à estátua-carta de amor.

O movimento é tão sutil que é quase imperceptível, porém lentamente, muito lentamente, a estátua estende a mão para aceitar a rosa. Os dedos se abrem, e a jovem com a rosa espera, paciente, até que a estátua aos poucos feche a mão em torno da haste, soltando-a quando a flor é entregue.

A jovem faz uma reverência para a estátua e se afasta em meio à multidão.

A estátua continua segurando a rosa. A cor parece mais vibrante contra o fundo branco e preto do vestido.

Bailey ainda observa a estátua quando Poppet toca em seu ombro.

— Essa é a minha favorita — comenta, observando a estátua ao seu lado.

— Quem é? — pergunta Bailey.

— Ela tem muitos nomes — responde Poppet —, mas a maioria a chama de Paramour. Fico contente por alguém ter dado uma flor a ela esta noite. Eu faço isso às vezes, quando ela está sem nenhuma. Acho que ela não fica completa sem isso.

A estátua está erguendo a rosa, devagar, até o rosto. Os olhos se fecham lentamente.

— O que você fez nesse período? — pergunta Poppet quando eles se afastam de Paramour em direção ao pátio.

— Encontrei uma tenda com várias garrafas cheias de coisas que não sei bem o que são — diz Bailey. — Foi... estranho.

Para sua surpresa, Poppet ri.

— É a tenda do Widget — explica. — Celia fez para ele: um lugar para que ele colocasse em prática o talento de armazenar histórias. Ele diz que é mais fácil do que escrever. A propósito, Widget disse que queria ler as pessoas, então nós só vamos encontrar com ele mais tarde. Ele faz isso às vezes, para juntar pedaços de histórias. Provavelmente vai estar na Sala de Espelhos ou no Salão de Desenho.

— O que é o Salão de Desenho? — pergunta Bailey, a curiosidade a respeito de uma tenda de que nunca ouviu falar vencendo o pensamento passageiro de perguntar quem é Celia, pois ele não se lembra de Poppet ter mencionado esse nome antes.

— É uma tenda com paredes completamente pretas e baldes cheios de giz, para se desenhar em qualquer lugar. Algumas pessoas só assinam o nome, mas outras fazem desenhos. Às vezes Widge escreve historietas, mas também faz desenhos. Ele é bom nisso.

Enquanto caminham pelo pátio, Poppet insiste em que experimentem um chocolate quente com especiarias que é ao mesmo tempo deliciosamente reconfortante e levemente doloroso. Bailey percebe que seu apetite voltou, por isso os dois dividem uma tigela de pastéis e um pacote de papel comestível, com ilustrações detalhadas combinando com seus respectivos sabores.

Passam por uma tenda toda enevoada, na qual encontram criaturas feitas de papel. Sinuosas serpentes brancas com suas línguas negras faiscantes, pássaros de asas pretas como carvão agitando-se pela névoa espessa.

A sombra escura de uma criatura não identificada roça as botas de Poppet e sai do campo de visão.

Ela garante que existe um dragão que cospe fogo em algum lugar da tenda, mas, mesmo acreditando nela, Bailey acha difícil conciliar em sua mente a ideia de um papel cuspindo fogo.

— Está ficando tarde — comenta Poppet enquanto caminham de tenda em tenda. — Você precisa ir para casa?

— Posso ficar um pouco mais — responde Bailey.

Ele tornara-se perito em voltar para casa sem acordar ninguém, por isso noite após noite ficou no circo cada vez até mais tarde.

Há poucos visitantes perambulando pelo lugar àquela hora, e durante o caminho Bailey percebe que muitos usam lenços vermelhos. Tipos diferentes, que vão de pesados cachecóis de lã a rendas finas, mas todos de um vermelho profundo, escarlate, que parece ainda mais vermelho em meio a todo aquele preto e branco.

Pergunta a Poppet a respeito, uma vez que depois de passar por tantos lenços vermelhos está certo de que não é uma coincidência, lembrando-se também de que a jovem com a rosa também usava um lenço vermelho.

— É uma espécie de uniforme — esclarece ela. — Eles são rêveurs. Gente que segue o circo por toda parte. Sempre ficam até mais tarde que os outros. É pelo vermelho que eles se identificam.

Bailey tenta fazer mais perguntas sobre os rêveurs e seus lenços, mas antes de conseguir formular qualquer coisa Poppet o arrasta para dentro de outra tenda e ele é imediatamente silenciado pela visão que encontra lá dentro.

A sensação o remete à primeira neve do inverno, àquelas primeiras poucas horas em que tudo fica recoberto de branco, liso e suave.

Tudo naquela tenda é branco. Nada preto, nem mesmo as listras são visíveis nas paredes. Um branco reluzente, quase ofuscante. Há árvores e flores e grama em torno de caminhos sinuosos cobertos por seixos, cada folha e pétala perfeitamente branca.

— O que é isso? — pergunta Bailey. Ele não teve chance de ler o cartaz na porta.

— É o Jardim de Gelo — explica Poppet.

Ela o arrasta pelo caminho que leva a um espaço aberto com uma fonte no centro borbulhando espuma branca sobre gelo escavado. Árvores brancas se alinham nas margens da tenda, uma chuva de flocos de neve caindo dos galhos.

Não há ninguém mais na tenda, nada que perturbe o ambiente. Bailey encontra uma rosa ao seu lado: apesar de ser alva, fria e congelada, exala um aroma quando ele chega mais perto. Perfume de rosa e gelo e açúcar. Faz com que se lembre das flores carameladas vendidas nas barracas do pátio.

— Vamos brincar de esconde-esconde — sugere Poppet, e Bailey concorda antes de ela desabotoar o casaco e jogá-lo num banco congelado, seu traje branco tornando-a quase invisível.

— Assim não é justo! — reclama quando ela desaparece atrás dos galhos pendentes de um salgueiro.

Bailey a segue ao redor de árvores, através de rosas e vinhas emaranhadas, guiado por lampejos de seu cabelo vermelho.

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